O presente estudo parte do princípio metodológico que a realidade da sociedade, nas suas múltiplas dimensões, é fundamentalmente dialética e mantém seu movimento independente ou não de como a interpretamos. Nessa perspectiva os processos históricos (movimento), as contradições e as relações com a base material são centrais para o entendimento do foco de estudo proposto, a transição agroecológica.
Por essa perspectiva se estabelece como elemento central para este processo partir de um marco teórico que considere a interdisciplinariedade dentro da construção do conhecimento e da interação com a realidade. Esta emerge de questionamentos em vista da insuficiência de uma abordagem cartesiana para solucionar problemáticas que envolvem múltiplas dimensões do conhecimento, bem como dos efeitos controversos e/ou devastadores gerados por essas tecnologias. A interdisciplinariedade é compreendida
a partir de uma concepção sistêmica da realidade e seus processos, de modo a integrar as dinâmicas e estruturas estudadas pelos diferentes saberes; contemplar uma abordagem dialética, por causa das contradições na integração dos saberes; permitir a inovação pela seletividade, ao assumir que cada problema obriga a busca de categorias críticas; e finalmente, viabilizar um aperfeiçoamento mútuo entre os saberes por meio da interatividade e da receptividade, considerando que é um processo por aproximação sucessivas, além de aberto (CASTRO, 2011, p.435).
A interdisciplinariedade se constitui em um dos pilares do paradigma que se opõem não apenas metodologicamente mais também política e socialmente a visões reducionistas que mesmo permitindo a produção de significativos resultados geram, por outro lado, inúmeros efeitos negativos. Essa abordagem, que complexifica e integra as diferentes áreas do conhecimento, se propõe como eixo do Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPGADRS) da UFFS Campus Laranjeiras do Sul (PR). Para a desconstrução e o resgate e/ou criação das bases que constituam efetivas
experiências interdisciplinares se requer o estabelecimento de um processo de constante e cada vez mais profundas aproximações entre as áreas do conhecimento e as pessoas (SOUZA, 2012). Dentro do PPGADRS isso acaba em maior ou menor medida se manifestando no trabalho de encerramento de curso.
Tendo em vista os objetivos do estudo se classifica como uma pesquisa exploratória, que visa realizar um contato inicial com algum fenômeno ou caso para que ele possa ser compreendido mais profundamente se utilizando de uma abordagem predominante qualitativa (GIL, 2010). Dentre as diversas ferramentas de pesquisa, se utilizou do estudo de caso por este se tratar de uma investigação empírica que “investiga um fenômeno contemporâneo em profundidade e em contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente definidos” (YIN, 2010, p. 39).
Se utilizou como eixo analítico da pesquisa a perspectiva de análise dos agroecossistemas através da metodologia dos sistemas agrários que pressupõem um esforço para analisar a sustentabilidade dos sistemas agrários partindo de um enfoque sistêmico e da sua complexidade (GARCIA FILHO, 1997). Adotando como principal ferramenta a construção de diagnóstico de acordo com o nível de análise. Tendo como preocupação dois pontos:
(1) manter a perspectiva histórica em todas as etapas do método e (2) realizar uma avaliação econômica dos diferentes sistemas de produção, tanto do ponto de vista do produtor quanto do ponto de vista da sociedade, partindo da construção de um diagnóstico (GARCIA FILHO, 1997, p. 11).
Assim, com relação aos procedimentos de pesquisa em um primeiro momento, se realizou um levantamento de dados secundários através de análise documental, levantamento bibliográfico e entrevistas visando caracterizar a região e as relações em que estão imersos as famílias agricultoras e o Núcleo Luta Camponesa, bem como resgatar sua construção histórica. Em um segundo momento com o objetivo de definir as famílias a serem pesquisadas através da tipologia preliminar (Quadro 5) foram utilizados como ferramentas observação participante em reuniões do núcleo, a entrevista e consulta de informantes chaves, para obtenção das demais informações sobre o processo de transição.
Quadro 5 - Critérios e parâmetros para a definição dos casos para estudo das famílias agricultoras do Núcleo Luta Camponesa – 2016.
Critérios Parâmetros
1.Tempo de transição Menos de 4 anos
Mais de 4 anos 2.Tamanho da unidade Econômico (renda)
= ou < do que 2 salários mínimos (= ou < $1.580) /maior do que 2 salários mínimos (>$1.580) Fundiário
< que dois módulos fiscais > que dois módulos fiscais Ou diferentes tipos de condição do produtor em relação as terras 4.Experiências econômicas mal sucedidas com agricultura convencional Tiveram experiências negativas
Não tiveram experiências negativas
5.Limitações da base de recursos
(Tipo de integração existente entre o agricultor e as suas condições materiais a disposição, atividades
realizadas e integração dentro do sistema) Base muito limitada
Base pouco limitada 6.Condicionantes
socioeconômicos
Disponibilidade de financiamento, distância dos mercados, escolaridade e participação em organizações
associativas/cooperativas. Fonte: Elaboração da autora, 2016.
Essa delimitação teve como objetivo obter percepções de agricultores em diferentes situações e níveis. Partindo do pressuposto metodológico que estes seis critérios são centrais, ao nosso ver, para compreender as interações dos agricultores e suas bases de recursos durante o processo de transição. Propicia que dentro das distintas variações desses itens se articulem estratégias e posicionamentos diferenciados diante dos agroecossistemas em transição.
Para cada nível foram definidos critérios de segmentação das famílias de forma que o nível um de “tempo de transição” se delimitou o critério de quatro anos em decorrência do tempo previsto na legislação para ser considerado orgânico51; o período necessário para
o estabelecimento de uma curva de aprendizagem positiva; e o tempo de existência do Núcleo Luta Camponesa. Com relação ao critério “tamanho da unidade” o parâmetro econômico renda foi definido com base na renda média da população rural e tendo o valor da DAP (Declaração de Aptidão ao PRONAF) até R$ 20.000,00 anuais. Ainda dentro do critério dois o parâmetro tamanho fundiário foi definido considerando os valores que definem estabelecimentos como minifúndios.
O critério três engloba “experiências mal sucedidas com a agricultura convencional” considerando famílias agricultoras que (a) tiveram, e outras (b) não tiveram, experiências econômicas-financeiras negativas em decorrência da lógica produtiva da agricultura convencional, fortemente baseada em aporte externo de recursos dentro do agroecossistema. Referente ao quarto ponto, “limitação na base de recursos” foram definido como parâmetros as unidades terem (a) relativa abundância ou (b) escassez de relações de co-produção (produção de sementes e mudas, formação de matrizes...) e de recursos (disponibilidade de água, declive das áreas...). Por fim, para o critério “condicionantes socioeconômicos” o parâmetro delimitado refere-se a disponibilidade de financiamento, distância dos mercados, escolaridade, participação de organizações associativas/cooperativas e organização do grupo ao qual está ligado dentro do núcleo.
O objetivo desses critérios reside na tentativa de se ter incluídas no trabalho de campo, unidades produtivas com diferentes relações históricas, econômicas e produtivas contemplando os elementos que se considerava central ao processo de transição agroecológica. Como instrumento de coleta de dados foi utilizado questionário com perguntas estruturadas e semi estruturadas, em diversos formatos para a obtenção das informações necessárias (ANEXO I). O processo de análise dos dados foi realizado em planilhas do MS Excel não tendo sido equalizadas correlações entre variáveis identificadas na pesquisa.
O questionário foi organizado em três partes. A parte um teve como foco levantar
aspectos econômicos e produtivos centrando a sistematização das análises em sete pontos
das unidades de produção agropecuárias: 1. Subsistemas; 2. Rendas externas; 3. Situação da produção certificada; 4. Processamento da produção; 4. Situação do trabalho (UTH e sucessão) e comercialização; 5. Renda/despesa; 6. Elementos da paisagem (área, tempo de ocupação, integração produtiva e agroflorestal); 7. Financiamento. Para a obtenção dessas informações utilizou-se com base os questionários dos trabalhos construídos por Wagner
Na segunda parte se centrou na análise da transição, verificando aspectos da: 1.Inclusão na Rede Ecovida; 2.Fatores motivadores para a transição e verificação das motivações (Quadro 5); 3.Estágio de transição (análise da linha do tempo); 4.Dificuldades do processo de transição; e 5.Tipos de auxilio, conselho para quem está iniciando o processo e outras informações sobre a transição. Para as informações referentes a análise do processo de transição e para as questões sobre a inclusão e participação na Rede Ecovida se utilizou o trabalho de Hernández (2005). A respeito do estágio de transição utilizou-se como ferramenta a análise de linha do tempo, na qual a família narra seu processo de transição e são verificados aspectos específicos desse processo (produtivos, econômicos e sociais) com o intuito de reproduzir o quadro geral de transição. Como mecanismo de confrontação das informações fornecidas pelos agricultores sobre seus fatores desencadeadores da transição foram organizadas para cada fator afirmativas respondidas na forma de escala Likert de cinco pontos, sendo (1) para concordo totalmente e (5) para discordo totalmente, tendo como referência o trabalho de Christoffoli (2000). Sendo codificado no questionário as questões referentes a investigação de cada fator. Para as questões fechadas e as organizadas em escala Likert nessa seção foram utilizadas fichas de apoio para melhor compreensão e resposta dos entrevistados (ANEXO II).
Quadro 6 - Esquema de análise dos fatores desencadeadores do processo de transição agroecológica por motivação e variável, utilizados nas entrevistas com as famílias agricultoras do Núcleo Luta Camponesa - 2016.
Fonte: elaboração da autora, 2016.
Na parte três se objetivou ter uma matriz de dependência produtiva das famílias entrevistadas, que está associada a investigação do quarto fator motivador. Para essa análise se utilizou a formatação de variáveis sintéticas referentes a três eixos de dependência produtiva ligada as famílias agricultoras, dependência tecnológica, dependência mercadológica e dependência financeira. Para estas investigações se estabeleceu uma estrutura de questões organizadas em formato de escala Likert de cinto pontos com afirmativas codificadas de acordo com o eixo de dependência. Organizadas de acordo com a escala Likert sendo (1) concordo totalmente e (5) discordo totalmente, com base em Christoffoli (2000). Foram utilizadas fichas auxiliares (ANEXO II) para contribuir com as respostas.
As entrevistas foram agendadas e realizadas de acordo com contatos realizados junto dos informantes chaves e em parceria com outros trabalhos que estavam sendo
desenvolvidos no PPGADRS. O tempo médio de duração das entrevistas foi de duas horas e cinquenta minutos.