É bem possível vincular à tradição uma passagem de Kant ou uma seção da Crítica da Razão Pura reconhecendo, simplesmente, a que pensamento o filósofo fez referência implícita ou explícita, a que doutrinas ou pretensões filosófica ele se opôs. Mas, se quisermos compreender o vínculo de Kant com a tradição do qual nos fala Heidegger, precisamos ir além deste modo historiográfico de compreender os momentos do pensamento humano. A História na qual Heidegger insere Kant e sua tese sobre o Ser enunciada no interior de sua crítica à prova ontológica não é a história da mera continuidade da Filosofia através da constante renovação de doutrinas e argumentos, ou do surgimento de críticas e aperfeiçoamentos cada vez mais precisos e fecundos. Não é a história de um pensamento contra outro, de um filósofo contra os anteriores. Estes podem ser os aspectos superficiais da História que Heidegger quer nos contar, mas, jamais, seus elementos essenciais. Nesta seção, nós iniciaremos mais um vez com os carácteres superficiais desta História para, aos poucos, com algum esforço, começar a descobrir, por trás deles, algo do que Heidegger entende como o movimento histórico-essencial no qual a tese de Kant insere-se.
É bem sabido que Kant, na seção Da Impossibilidade de uma Prova Ontológica da Existência de Deus, está menos preocupado (ou não está nada preocupado) em demonstrar que Deus não existe do que em abalar uma pretensão de conhecimento daquela espécie de Metafísica que é anterior a uma Crítica da Razão, a chamada Metafísica racional. A teologia é uma disciplina suprema desta Metafísica. E a teologia, para além da Metafísica racional, sempre pensou seu objeto (Deus) ora como o coroamento de todo conhecimento humano, ora como garantia das verdades absolutas que à alma humana é dado constatar, ora como causa primordial do bem moral e, em todas as vezes, como causa primeira do ser do todo ente. Ela não apenas supunha esse objeto, mas acreditava que, a despeito de que ele não possa ser apresentado aos sentidos, pode ser conhecido através do simples recurso à Razão humana. A prova ontológica, a prova a priori da existência de Deus, é um dos exemplos desta pretensão: Kant entendia que, para a
Metafísica tradicional37, a proposição Deus existe é um juízo sintético a
priori verdadeiro, ou seja, um juízo que acrescentava algo ao conceito de um objeto supra-sensível e que pertencia ao objeto mesmo, a saber, sua existência efetiva. Segundo a Crítica, juízos sintéticos a priori apenas podem fazer referência a fenômenos (na verdade, mediante uma referência às condições sensíveis de possibilidade dos fenômenos, ou seja, às formas da intuição), ao que pode ser dado na intuição sensível, jamais a objetos que escapassem aos sentidos. Logo, cabia à Crítica mostrar o que leva a metafísica tradicional e sua teologia ao engano.
Mas, para Kant, a Metafísica não nasce de um mero equívoco dos pensadores, de um erro que pudesse ser facilmente eliminado. Os objetos da Metafísica não são produtos de mentes obtusas, nem delírios da imaginação humana, eles são, para Kant, ilusões necessárias. E as pretensões da Metafísica e das disciplinas em seu interior estão fundadas em um interesse da Razão, aquele de procurar para todo condicionado, o incondicionado.
O conhecimento deve à intuição um material ainda indeterminado; o entendimento confere ao material a unidade determinada mediante os conceitos e os princípios; a razão, enfim, tenta levar o conhecimento conceitual à unidade suprema. Mas esta unidade suprema é alcançada por uma condição que não está mais por sua vez condicionada; é o incondicionado. (Höffe, 2005, pp. 141-2).
Na medida em que se fundam nos próprios interesses da Razão que não são elimináveis, tais pretensões são legítimas, não podendo, porém, resultar em conhecimentos. Os objetos da Metafísica tradicional, tais como Deus, são produtos necessários da Razão, mas não podem por ela ser conhecidos. A ideia de Deus, representando-o como o ente supremo e incondicionado, deve operar como um horizonte esperado que unificará a totalidade do nosso conhecimento empírico. Contudo, este horizonte é inalcançável, e deve ser assim a fim de que a Razão, na sua constante procura pela concretização deste horizonte, possa avançar 37. Como vimos, a prova da existência de Deus não é uma questão apenas para a escola de Leibniz e Wolff. Por isso, aqui falamos de Metafísica tradicional, incorporando, obviamente, a Metafísica racional.
em conhecimentos possíveis.
Christian Wollf dividiu a Metafísica racional especial em três disciplinas cujos objetos são, na visão kantiana, a cada vez, uma ideia transcendental da Razão: a psicologia racional cujo objeto é “o incondicionado enquanto unidade absoluta do sujeito pensante” (alma); a cosmologia racional cujo objeto é o incondicionado enquanto “a totalidade das coisas e das condições no espaço e no tempo” (mundo); e a teologia natural ou racional que tem por objeto o incondicionado como “a unidade absoluta de condição de todos os objetos do pensar em geral, um ser absolutamente supremo, Deus38” (Höffe, 2005, p. 143). Como
dissemos, o erro da Metafísica que a Crítica pretende corrigir é a suposição de que Deus, mundo e alma são mais do que ideias reguladoras para o conhecimento humano possível, a suposição de que seriam objetos de conhecimento. Mas esta correção por Kant oferecida não prova que Deus não existe, prova apenas que sobre ele nada se pode afirmar em termos de conhecimento objetivo.
Contudo, desde a perspectiva heideggeriana, desde o ponto de vista da História do Ser, os conteúdos da Metafísica tradicional não se originariam dos interesses da Razão humana universal. Vimos, no início de nossa dissertação (seção 1.1), que Heidegger entende a Metafísica como um dos modos em que o Ser-aí pode estar em relação com o ente. Para que a Metafísica ocorra, o ente em totalidade deve poder ser desvelado de modo a permitir a pergunta pelo seu ser e fundamento: a totalidade ôntica precisa, de início, mostrar-se suspensa e infundada, e à tal suspensão o Ser-aí corresponde com a pergunta: por que há afinal ente e não antes nada (HEIDEGGER, 1983, p. 44)?
Mas, a História da Metafísica sustenta-se sobre o encobrimento desta experiência originária, de modo que ela já sempre não mais acolhe a totalidade do ente em seu caráter de ser infundado. Desde o início, como vimos (em nossas seções 1.1 e 1.3), a Metafísica, pensando a relação recíproca entre coisa e enunciado (logos), tomou os modos da proposição como fio condutor para a determinação universal do ser do ente (HEIDEGGER, 1992, p. 110). O Ser, portanto, é para a Metafísica 38. Nota-se aqui o quanto o texto pré-crítico de Kant em que procura demonstrar a existência de Deus parece inspirado por essa definição de Deus como condição necessária de todo o pensável. A diferença, porém, é que no texto pré-crítico é possível afirmar a existência desta condição, ao invés de assumi-la como uma ideia reguladora.
algo que se pode predicar. E a Metafísica é em toda parte lógica, lógica que pensa o ser do ente, mas não o Ser nele mesmo, o qual permanece para ela sempre encoberto. A Metafísica é, portanto, sempre ontologia.
Na medida em que a metafísica pensa o ente enquanto tal, no todo, ela representa o ente a partir do olhar voltado para o diferente da diferença, sem levar em consideração a diferença enquanto diferença. O diferente mostra-se como o ser do ente em geral e como o ser do ente supremo. (HEIDEGGER, 1983, p. 200).
Na sua pergunta pelo que é o ente em geral, a Metafísica busca uma espécie de fundamento, ou seja, aquelas determinações mais gerais do ser do ente sobre a qual se sustentará toda posterior consideração das coisas. Além disso, porém, ao perguntar “que é o ente?” ela, inevitavelmente, questiona também a causa última do ser do ente, perguntando-se qual e como é o ente supremo capaz de originar no ser a totalidade das coisas. A pergunta pelo ente supremo é do âmbito da teologia. Mesmo antes da representação cristã de Deus como criador, já com Platão e Aristóteles, enquanto pergunta pela causa primeira, a Metafísica era onto-teo-logia. Pois, seguindo o pensamento de Heidegger, podemos dizer que a Metafísica sempre toma o Ser como fundamento nestes dois sentidos: a) como a totalidade das determinações universais de todo e qualquer ente, e que pode ser encontrada mediante o recurso aos modos da enunciação (ontologia); b) como ente supremo, causa do ser da totalidade do ente (teologia).
Com o predomínio do Cristianismo no ocidente, a configuração onto-teo-lógica da Metafísica não se perde, apenas a totalidade do ente sofre uma determinada estruturação e hierarquização (HEIDEGGER, 1992, p. 111). O ente supremo, origem criadora de todo ente, é Deus. O mundo, o cosmo, o restante da totalidade das coisas é então pensado como ente criado. De dentro do conjunto das criaturas, um ente recebe especial destaque: o homem, criado à imagem e semelhança do criador, e cuja salvação eterna da alma está em questão. Na perspectiva heideggeriana, foi o traço teológico da Metafísica desde os gregos que permitiu que o Deus da religião cristã fosse admitido no interior do pensamento Metafísico como o ente supremo doador de Ser.
da Metafísica em psicologia, cosmologia e teologia, ele pensa ainda a divisão da totalidade ôntica segundo o modo da visão cristã: alma, mundo e Deus são as três regiões ônticas possíveis desde então. Mas, Wolff ainda guarda espaço para uma Metafísica geral, não especial, ou seja, não voltada para as regiões dos entes, mas para o ser do ente em geral. Acontece que agora, na medida em que a escola de Leibniz e Wolff sofre os efeitos do modo de pensar cartesiano, o ponto de partida para toda consideração do ser do ente é o enunciado pensado agora matematicamente, ou seja, valendo como o conjunto daqueles “princípios que se encontram na essência do pensar e da proposição enquanto tal” (HEIDEGGER, 1992, p. 110). Em outros termos, o que deve guiar a Metafísica geral e a Metafísica especial são princípios resultantes da simples Razão humana, sem relação alguma com o que é dado aos sentidos. Portanto, a partir da fé absoluta na validade dos princípios meramente racionais, a Metafísica imediatamente anterior a Kant confiava na possibilidade de discorrer acerca de Deus, da alma e do mundo mediante apenas o recurso à Razão. Não por outro motivo, fala-se de psicologia racional, cosmologia racional, teologia racional.
Claro que o que aqui dissemos é apenas um recorte bastante sucinto da maneira como Heidegger pensa a História de nossa correspondência ao Ser, a História da Metafísica. Mas nosso propósito era apenas começar a mostrar as razões essenciais pelas quais, segundo Heidegger, o pensamento de Kant sobre o Ser aparecer no interior da demonstração Da Impossibilidade de uma Prova Ontológica da Existência de Deus. A questão de Deus não é um mero acréscimo do cristianismo à Metafísica. Enquanto sempre compreendeu o Ser como fundamento em um duplo sentido, a questão sobre Deus surge do seio mesmo da Metafísica. A questão de Deus é, de certo modo, indissociável da pergunta Metafísica por excelência, a pergunta pelo que é o ente em sua totalidade e pela fonte que lhe concede ser. O que Kant chama de ideia da Razão, Deus enquanto ilusão necessária, é, segundo Heidegger, resultado de um traço da Metafísica em sua totalidade: a procura pelo fundamento. Devemos, então, perguntarmo-nos: será que pelo fato de Kant demonstrar a impossibilidade da prova da existência de Deus, e pelo fato de ele tomar Deus apenas como ideia reguladora e jamais como objeto de conhecimento possível, estaria ele deixando de pensar o Ser como fundamento? Será que, do ponto de vista desta História que nos conta Heidegger, o pensamento de Kant encontrar-se-ia fora da
Metafísica?
2.3 ANÁLISE DA INTERPRETAÇÃO HEIDEGGERIANA DA TESE