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Méthodologies d'extrapolation sur grains mis en forme

1 ÉTAT DE L'ART SUR LE TEST DE CATALYSEUR MIS EN FORME EN LIT FIXE

1.2 Méthodologies d'extrapolation sur grains mis en forme

Muitas das obras literárias, artísticas e científicas que advogam a transgressão como método inspiraram-se em Bataille e Foucault e no seu significado “ir além de”. Ou seja para uma ontologia crítica que permite ultrapassar e desvendar os fundamentos epistemológicos em que se baseiam as “construções” e as “desconstruções” da subjetividade. No domínio literário e artístico, o método da transgressão tem duas vertentes. Uma que aborda a transgressão como “ação criativa”, como um ato de superação e de rutura com o mundo. Neste âmbito, a inovação é enfatizada em várias correntes literárias e artísticas (por ex. o Surrealismo) como mecanismo para ultrapassar o cânone e as suas determinações. A agência é definida pelo distanciamento das delimitações estéticas e estilísticas de um movimento artístico ou literário (Jenks 2003). Na segunda vertente, a transgressão implica uma análise daquilo que “escapa” às matrizes imagéticas e canónicas da estética e da estilística (Hillman e Ruberry-Blanc 2014). Centram-se

inúmeras perspetivas, métodos e disciplinas (genealogia, fenomenologia, existencialismo, teoria crítica, desconstrução, hermenêutica, pós-estruturalismo, psicanálise, etc.). A sua visão como “escola de pensamento” é definida pelas convergências. Aquilo que partilham em comum é uma suspeição das “grandes narrativas” e uma abordagem de carácter histórico e contextual que questiona o conhecimento como absoluto e verdadeiro e enfatiza a relação co-constitutiva do poder e a sua localização sociopolítica (Sullivan 2015).

na “inversão simbólica” que ocorre quando uma alternativa à norma é explicitada (Kittredge 2003; Jervis 1999).

A obra de Peter Stallybrass e Allon White (1986) The Politics and Poetics of Transgression tem assumido uma grande centralidade para este vasto conjunto de estudos. Partindo do materialismo de Bakhtin os autores mostram como o Carnaval é um mecanismo de perpetuação da ordem (Jenks 2003). A política carnavalesca suspende momentaneamente as convenções – dentro de limites conhecidos – e com isso exorciza a transgressão (um “caos autorizado”, ibid.) e inverte simbolicamente as hierarquias de poder dominantes (misturando os significados estruturantes). Stallybrass e White (1986, 201) mostram através de vários exemplos – vistos por Charles Tilly (1988) como aleatórios e dissociados – como a lógica carnavalesca continua a transmutar-se e a perpetuar as forças sociais que contribuem para o sucesso da “luta burguesa hegemónica”.

Este trabalho continua a influenciar os estudos culturais e literários porque aprofundou a teoria de Bakhtin e forneceu um instrumento de revelação das estruturas que fundamentam as relações entre o grotesco e o classicismo. A definição de transgressão em que se baseiam enfatiza tanto a dimensão criativa como a subversiva. Para os autores, a transgressão carnavalesca representa a hibridização (contra a vontade burguesa) daquilo que antes estava dividido. Por ser provisória e “autorizada”, não passaria de uma contenção da “desordem vulgar” em nome de uma “moralidade rígida” – como zonas de controlo da liberdade autorizada. Esta tolerância legitimada pode ser encontrada em diversas atividades sociais, nomeadamente nos eventos futebolísticos. Podemos inclusive equiparar a centralidade (crescente) dos campeonatos de futebol às lutas de escravos do Império Romano ou outros eventos de libertação coletiva de tensões conflituosas. Mas como nos relembra Tilly (1988), os exemplos de alteração ou expansão dos limites precisam de ser situados no tempo, no espaço e na lógica de classes que os fundamenta10.

Qualquer análise da transgressão implica uma explicitação e contextualização que articule bem os níveis e interseções materiais, simbólicas e performativas em que se desenrola. As transgressões são múltiplas mas também são um produto histórico. São específicas de um contexto e variam no espaço e no tempo. Uma interrupção fundamental, um momento de “becoming” que emerge das possibilidades dialógicas de formação cultural do conhecimento,

10 A interpretação de Stallybrass e Whyte (1986) levou-os ironicamente a subsumir a vertente dialógica da relação limite/transgressão à vertente dialética, resultando numa tese “frouxa” dos processos pelos quais se estabelecem as fronteiras do inteligível.

quando a transição é irreversível (Wolfreys 2008, 22). É na análise literária que Wolfreys (2008, 4) propõem uma decomposição da transgressão segundo três princípios constitutivos: i) forma ou identidade; ii) movimento, passagem, temporalidade e iii) localização ou posição espacial e relacional. Posiciona as abordagens da crítica literária e artística sobretudo nas duas primeiras componentes. Neste âmbito o método transgressivo demonstra a contingência e a (des)legitimação dos limites.

Mas a transgressão como método também permite analisar os processos de demarcação. A componente espacial e relacional da transgressão está patente na obra de Tim Cresswell (1996) “In place/Out of place”. O termo tem sido usado na geografia como “fronteira” – o marcador físico geográfico que delimita o que está “dentro” e o que está “fora”. No seu estudo crítico sobre a relação entre o espaço e a construção de crenças, Cresswell (1996, 27) descreve geograficamente as expectativas de ordem, “normalidade” e propriedade. Designa de “spatial Garfinkeling” a análise que faz de uma seleção de eventos “fora do lugar” (out of place).11 Ou

seja, uma análise etnometodológica dos momentos em que o funcionamento das expectativas quotidianas sobre um determinado espaço são postos a descoberto. A sua premissa é que a transgressão espacial tem de se tornar explícita para que se ganhe consciência da fronteira. O interesse deste estudo geográfico é na divisória. Um imaginário das configurações sobre o que distingue e fundamenta as linhas que dividem um espaço. Para Cresswell, a transgressão revela a existência de uma separação. Se nos detivermos nos “momentos de crise” compreenderemos melhor as fundações de uma determinada ordenação.

O que têm em comum, então, o estudo de Stallybrass e White e o de Cresswell? O facto de tomarem a transgressão como um método de aprofundamento dos limites. Uma ferramenta presente em Bataille (para desafiar o “Progresso”: Libertar a subjetividade da “razão” e da “modernidade”) e em Foucault (para conhecer: é a partir do excesso literário, da “descoberta da literatura” que chegamos à inteligibilidade alternativa). Inspirado pelo género estético (literário/artístico) e pela filosofia (ontologia crítica) o fundamento científico do método transgressivo é desconstruir e mostrar os caminhos do poder-saber. A transgressão como método é uma análise da revelação dos esquemas de representação e das práticas normativas (e normalizadas) que têm vindo a governar os modos de ser e de os tornar inteligíveis (limitados).

11 O graffiti em Nova Iorque; o campo de paz das mulheres de Greenham Common; e a escolta policial de hippies para Stonehenge.