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2. Milieu d’étude, matériel et méthodes

2.3 Méthodologie

A paisagem citadina contemporânea constantemente é re(i)lustrada, e a grafitagem é uma das linguagens que participam ativamente desse fenômeno. Desnaturalizar a paisagem é foco de grafiteiros – criadores rueiros – que surdinamente atuam e instauram uma vista rearranjada aos passantes. Dentre esses revitalizadores urbanos encontra-se Banksy, que adota o stencil56 como principal

técnica de suas intervenções. Não por acaso, essa técnica é bem acolhida por ele, que em resultado instantâneo assalta a cidade e sua rotina.

Em Banksy57 o conceito de autoria se autofratura, pois, até hoje, sua identidade

é velada. Esse ‘guerrilheiro’ utiliza-se de uma estratégia nitidamente ‘invasora’. Aplica, através de elementos, também, inseridos nas malhas do cômico – a ironia e o humor – uma nova ordem urbana somatória e, ao mesmo tempo, adversativa no tocante ao convívio e revisão dos assuntos morais de nossos estreitos elos civilizatórios.

Nos bastidores, seu trabalho é acusado de absorver nitidamente a postura e abordagem estética de um artista francês – Blek Le Rat58 – tido como um dos primeiros

a aplicar a técnica do stencil na grafitagem. Banksy já reconheceu a ‘contaminação’ da produção de Blek em seu trabalho afirmando: ‘cada vez que eu acho que pintei algo um pouco original, eu descubro que Blek Le Rat fez isso tão bem, só que há 20 anos”59. E eis o desabafo de Blek:

Quando vejo Banksy fazendo um homem com uma criança ou Banksy fazendo ratos, é claro que eu imediatamente vejo de onde ele tira a ideia. Eu fico realmente com raiva. Quando você é um artista você usa suas próprias

      

56 Técnica onde são utilizados moldes vazados para impressão em superfícies diversas (tecido, pedra, madeira). Para a grafitagem tornou-se uma solução ágil de aplicação para os grafiteiros.

57 Banksy é uma espécie de patrimônio vivo de Bristol, sua cidade natal, e tem algumas de suas ações urbanas tombadas pelo próprio governo municipal. Irônico isso, não.

58Pseudônimo de Xavier Prou, 59 anos, nasceu em Boulogne-Billancourt, Paris. Um dos primeiros a utilizar a técnica do estêncil na grafitagem no início da década de 80. Seu nome é um anagrama da palavra arte – art/rat. E elege o rato como marca registrada em suas intervenções gráficas urbanas, por acreditar ser este o único animal livre na cidade, e pulveriza a praga em diversos lugares, assim como a arte se espalha pelas ruas. Le Rat teve sua identidade revelada em 1991. Desde então seu trabalho perde sua intenção invasiva que o notificava como arte de protesto e ação literalmente dita de guerrilha, e que colocava a arte numa posição de mensurar as relações de poder e mando do indivíduo sozinho diante de grandes entidades opressoras como o Estado, por exemplo. Daí em diante, o rato Blek se presta muito mais ao colosso mundo publicitário que a uma posição de ativista mundano. 59 Disponível em:

<http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/40153/000822757.pdf?sequence=1>. Acesso em 12 de junho de 2013.

técnicas. É difícil encontrar uma técnica e estilo em arte então, quando você tem um estilo e vê que alguém o está tomando e reproduzindo, você não gosta disso. Eu não tenho certeza sobre sua integridade. Talvez ele tenha que mostrar a cara agora e mostrar que tipo de cara ele é60.

Ao analisar as ações de Banksy e o fato de alguns insistirem numa analogia com a produção de Le Rat reconheço, sob a coerência do que atiça os mecanismos do cômico, ter nesse binômio Banksy/Le Rat um acontecimento humorístico, já que o humor arrebata o extrato de seu próprio referente. E, nesse sentido, Banksy se apropria da ‘invenção’ de Le Rat para reinventá-la em outros sítios, uma atitude que, sob as regras da construção do texto humorístico e irônico seria, no máximo, acusada de coerente.

Percebo que Banksy ocupa o referente para subvertê-lo, reinventá-lo e reinaugurá-lo, sem apagá-lo, mas lança-lo, parcialmente, às sombras. Um motim de significados reconfigurados assume o lugar alugado com propósito ambivalente, provisoriamente permanente, a cidade define a duração. Aludimos aqui ao conceito de ‘duração’ de Bergson:

[...] não há consciência sem memória, uma vez que não há continuação de um estado sem a adição, ao sentimento presente [...] A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente [...] Sem essa sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas apenas instantaneidade. (BERGSON, 2006, p. 207 e 208)

Sob as ‘novas’ paisagens de Banksy o passado respira e soma-se ao presente para durá-lo. Dois estágios enunciativos convivem: o lugar antes e depois de Banksy. Memorar uma intervenção urbana exige um esforço a mais. Uma paisagem sob códigos regrados é, normalmente, mais assimilável e digerida por sua comunidade. Visto que, o convívio diário com um determinado texto fomenta o convencimento do que se está enunciando. Banksy alia-se e apropria-se do chiste como estrutura e regente textual, construindo narrativas em vestes arquetípicas, possibilitando assim que suas investidas sejam instantaneamente consumíveis.

Em seu repertório, personagens advindos da rotina ingênua infantil e da alegria de mundos fabulosos contracenam com a aridez, o descaso, o abandono e a       

60 Trecho publicado Dailymail, em 13/08/2011, do documentário, onde Blek Le Rat acusa Banksy de roubar seu estilo de arte). Disponível em: <www.dailymail.co.uk/news/article-2025790/Banquesy-The- Frenchman--known-Blek-le-Rat--accusing-Banky-stealing-guerilla-art-style.html>. Acessado em 12 de junho de 2013.

orfandade ética e estética do sítio ‘invadido’. Com perfil similar de proposição artística, mas no sítio da cinematografia, poderíamos associar a esse propósito a poética de Las Von Trier61, que constantemente duela substantivos antagônicos: perversão e

ingenuidade. A estética de Von Trier não acolhe, notoriamente, propósitos humorísticos, mas assertivamente desnorteia o discurso estabelecido e desvirgina valores essencialmente pueris presenteando seus espectadores com um desconforto nauseante que, sutilmente, ladeia o humor, mas efetivamente se instaura no trágico para reavaliar códigos.

A paisagem em Banksy atravessa e transversa sobre afetos originariamente mundanos. Invertendo posturas, o humor e a ironia, em sua produção, se revezam com o clássico, melhor, sugiro aqui um desmoronamento do clássico. A hierarquia em Banksy não contempla a tradição, pelo contrário o que vemos é um nivelamento de classes e ofícios, onde a importância reside numa comunhão polarizada entre a tradição e o agora, melhor dizer, o sendo.

Banksy, série “Outside”62

      

61 “Dogville” (2003) e “Dancer In The Dark” (2000) são boas referências cinematográficas ao duelo: perversão x ingenuidade.

Banksy, série “Outside”63

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