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2. Contexte de rédaction

2.3 Méthodologie

A fala de Hagrid no texto original trouxe algumas contrariedades à norma padrão. Quando menciono contrariedade, quero me opor aqui à noção de erro, já que como nos diz Spolsky (1998, p.33, tradução nossa, grifo do autor)

Deveria-se notar que esse reconhecimento de níveis estilísticos como apropriados a situações sociais específicas é uma oposição ao normativismo, a abordagem adotada pelos puristas que reivindicam que há uma versão ‘correta’ e que todas as variações são incorretas e ruins. Quando o Dicionário Webster introduziu na sua quarta edição rótulos estilísticos e listou usos informais como ‘ain’t’, surgiram muitas

críticas quanto à admissão de barbarismos nos portões do inglês puro.100

Isso quer dizer que os exemplos abaixo não são incorretos, mas são variações que compõem parte das características do dialeto Somerset utilizado pelo personagem.

Eles [as pessoas intolerantes] parecem acreditar que, na verdade, o Inglês Padrão é a Língua Inglesa, e que todos os outros dialetos são, de alguma forma,

desvios ou corrupções da Língua Inglesa.

Historicamente, é claro, isso não é verdade. O Inglês Padrão tem suas origens nos Dialetos Tradicionais mais antigos do sudoeste da Inglaterra, e ganharam proeminência porque essa era a área onde estão situadas Londres, Oxford e Cambridge e que contém a corte real e o governo. [...] O fato é que todos os dialetos, tanto Tradicionais como Modernos, são igualmente gramaticais e corretos.101 (TRUDGILL, 1999, p.13, tradução minha, grifo do autor)

As contrariedades à norma padrão gramatical encontradas no corpus estão listadas na tabela abaixo:

Variante padrão Variante usada por Hagrid

Pronome pessoal my como pronome adjetivo possessivo. Ex: Scared of the students, scared of his own subject – now, where's my umbrella?

Pronome objeto me usado no lugar do pronome adjetivo possessivo my.

Ex: Scared of the students, scared of his own subject – now, where's me (troca de my por me) umbrella?' (Hagrid)

100 It should be noted that this recognition of stylistic levels as being appropriate to specific social situations is in opposition to normativism, the approach taken by purists who claim that there is ‘one’ correct version and all variation is incorrect and bad. When Webster’s Dictionary in its fourth edition introduced stylistic labeling and listed such informal usages as ‘ain’t’, there were many who criticized its admitting the barbarians into the gates of pure English. 101 They seem to believe, in fact, that Standard English is the English language, and that all other dialects are in some way deviations from or corruptions of Standard English. Historically, of course, this is not true. Standard English has its origins in the older Traditional Dialects of the southeast of England, and rose to prominence because this was the area in which London, Oxford and Cambridge were situated, and which contained the royal court and the government. […] The fact is that all dialects, both Traditional and Modern, are equally grammatical and correct.

1ª/3ª pessoa do verbo to be + 1ª/3ª pessoa do discurso.

Ex: The last time I saw you, you

were only a baby. You look a lot

like your dad, but you've got yer mum's eyes.

1ª/3ª pessoa do verbo to be + 2ª pessoa do discurso.

Ex: Las' (apócope) time I saw you, you was (contrariedade à

norma padrão) only a baby,'

said the giant. 'Yeh (troca de you por yeh) look a lot like yer (troca de your por yer) dad, but yeh've (troca de you por yeh) got yer (troca de your por yer) mum's eyes.' (Hagrid)

Concordância entre o verbo to be e o sujeito na expressão There + to be.

Ex: They say there are dragons guarding the high-security vaults.

Verbo to be no singular e o sujeito no plural na expressão There + to be.

Ex: 'They say there's

(contrariedade à norma grammatical padrão) dragons guardin' (apócope) the high- security vaults.

Uso da forma comparativa do adjetivo em uma sentença comparativa.

Ex: Come on, back in this infernal cart, and don't talk to me on the way back, it's better if I keep my mouth shut,'

Uso da forma superlativa do adjetivo em uma sentença comparativa.

Ex: 'Come on, back in this infernal cart, and don't talk to me on the way back, it's best

(contrariedade à norma

padrão) if I keep me (troca de

my por me) mouth shut,' (Hagrid)

Uso do artigo indefinido an antes de vogal.

Ex: It's not easy to catch an

unicorn, they're powerful magic

creatures.

Uso do artigo indefinido a antes de vogal.

Ex: 'It's not easy to catch a

unicorn, they're powerful magic

creatures. Uso de artigo definido antes de

substantivo.

Ex: No, sir - the house was almost destroyed but I got him out all right before the Muggles

Omissão de artigo definido antes de substantivo.

Ex: 'No, sir house (contrariedade à norma gramatical padrão) was almost

started swarming around. destroyed but I got him out all right before the Muggles started swarmin' (apócope ) around.

Tabela 9: Variações encontradas na fala de Hagrid que vão de encontro à norma padrão gramatical do inglês britânico.

Numericamente esses fenômenos se dividem da seguinte forma: são 21 ocorrências, das quais 6 são ocorrências de you was, 5 são falta do auxiliar do/did ou have em have got, 4 são trocas do pronome adjetivo possessivo my pelo pronome objeto me, 3 são usos de there is com sujeito no plural, e 1 de omissão de artigo, 1 uso do artigo a antes de substantativo iniciado por vogal e 1 uso de adjetivo superlativo em lugar de comparativo.

Estatisticamente esse fenômeno é o menos representativo (5%). Ele não chega a ser uma “intervenção única”, mas também não é “padrões preferenciais recorrente” como os outros. Nessa proposta Baker, pode-se dizer sim que ele é um padrão preferencial que se encontra entre a intervenção única e os padrões recorrentes, estando mais próximo daquele. Embora esses conceitos tenham sido usados por Baker (2000) para falar de tradutores, também pode ser aplicado ao autor neste caso.