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Trame méthodique repère et conception d’unités didactiques : modélisation cadrante et adaptable en contexte

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4. Trame méthodique repère et conception d’unités didactiques : modélisation cadrante et adaptable en contexte

Poderá agora descrever-se aquela que será a visão oposta face à arquitetura musical, ou seja, a música enquanto projeto arquitetónico.

Segundo a jornalista, do jornal Público, Cristina Fernandes, na “Viagem pela arquitectura da música” um artigo da sua autoria para o jornal Público sobre o ciclo De Bach a Kurtág, decorrido em junho de 2010 no Centro Cultural de Belém, e que contou com um programa em que o objetivo seria a demonstração da forma e da estrutura enquanto meios para a expressão musical. Num evento onde eram apresentadas várias obras musicais, pretendia-se além da audição das mesmas, de diferentes géneros, que houvesse uma linha condutora entre as obras para que pudesse ser entendida a relação entre as mesmas e perceber, através da quebra das suas barreiras, que particularidades musicais transitam entre géneros.

Coube a Massimo Mazzeo 561 a programação do evento, e o mesmo afirma: "Tanto para Bach

como para Dufay a música é um projecto arquitectónico. Às vezes literalmente, pois as proporções rítmicas do motete Nuper rosarum flores de Dufay têm uma equivalência nas proporções da cúpula da catedral de Florença" 562 e, de facto, a correspondência entre as

estruturas arquitetónicas e musicais é mais do que evidente.

A música terá portanto, numa análise mais rigorosa acerca de si mesma, estruturas que a definem tal como é, estruturas essas, que pelas suas formas, serão capazes de criar determinadas sensações, reforça Massimo Mazzeo: “Muitas vezes vamos ouvir um concerto, ficamos emocionados e não conseguimos explicar porquê. Esquecemos que por trás dessas emoções há uma arquitectura da música, uma forma rigorosamente construída, que também tem um objectivo expressivo” 563.

De cariz mais subjetivo que a arquitetura, a música mostra-se por vezes aleada do panorama social e histórico: “A Música anda tão longe, voa tanto acima das vicissitudes que constituem a pequena História do mundo, que temos de a não querer relacionar demasiado com o que há de temporal, de efémero e de fortuito na sucessão dos acontecimentos que enformam as crónicas políticas ou culturais.” 564

Partindo para uma visão mais corpórea do tópico abordado, apresenta-se, com breve análise, uma obra onde a arquitetura surge de forma mais manifesta. Mas se no texto anterior eram

561 Massimo Mazzeo maestro de origem italiana

562 Fernandes, Cristina (2010, junho 17) Uma viagem pela arquitectura da música Público. Disponível em

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-viagem-pela-arquitectura-da-musica-259084

563 Idem, ibidem.

várias as obras a referenciar, não serão tão fáceis de identificar as obras musicais onde referências arquitetónicas estejam claramente patentes.

Através da música “A casa” (ver anexo 9.4) de Vinícius de Moraes 565 (que apesar de não ter

sido nunca arquiteto várias vezes privou com quem o fosse), é possível encontrar-se uma série de significados importantes para a arquitetura. Uma leitura mais cuidada da letra permite observar muitos dos conceitos básicos da arquitetura, introduzidos em música, observe-se o trecho inicial: “Não tinha teto/Não tinha nada” (Fig 45), será à primeira vista uma clara contradição à essência da arquitetura que se prevê como fonte de abrigo, no entanto, o autor assume como engraçada esta condição.

Fig 45 – Contracapa do CD Arca de Noé onde se inclui a faixa “A Casa”

Mais à frente lê-se: “Ninguém podia entrar nela, não/Porque na casa não tinha chão”. Novamente uma contradição, desta vez àquela que é a base de uma habitação, a base de qualquer elemento físico na verdade, o suporte, o chão.

Posterior a esta citação descobre-se que a habitação não tem forma, geralmente determinada pelas paredes que lhe são naturalmente associadas. A mesma frase: “Ninguém podia dormir na rede/Porque na casa não tinha parede” demonstra ainda a utilidade básica, e neste caso impossível de realizar, numa habitação: dormir.

A canção segue com uma série de dilemas face àquelas que seriam as necessidades básicas de uma habitação, neste caso, inexistentes. Através da análise da letra da música é possível perceber-se que é considerada como casa um espaço que não corresponde a nenhuma das bases da arquitetura, e desta forma é possível questionar o seguinte: o que é afinal a arquitetura? As músicas de hoje em dia são geralmente de cariz mais romântico e com uma mensagem mais voltada para a moral ou para os ensinamentos de vida. Em oposição, esta é uma música que apresenta apenas a ideologia e a configuração de uma tradicional casa, na sua clara desformatação. Ainda assim, não deixa de transmitir uma mensagem relativa à realidade das necessidades quotidianas.

Por fim, numa visão assertivamente arquitetónica sobre a música apresenta-se o projeto “Dialogues”. Da autoria do arquiteto britânico David Adjaye 566, em parceria com o irmão mais

novo Peter, este trabalho trata-se de uma colaboração entre irmãos, da qual resultam 10 faixas, que pretendem transmitir a essência de cada uma das obras de David.

O projeto fora produzido pela “The Vinyl Factory and Music for Architecture”, e segue uma linha narrativa absolutamente arquitetónica, sem que o resultado final deixe de ser músico e sensorial (Fig 46).

A fórmula para este resultado parece ser simples: transformar em ritmo os próprios edifícios numa experiência sensorial que transcende a capacidade visual, leia-se, no artigo escrito por Gabrielle Golenda 567 para a página eletrónica Architizer 568, o seguinte: “(...) Adjaye’s brother

turns his buildings into beats, transcending mere visual experience in the form of an audiovisual, multi-sensory soundscape.” 569

566 David Adjaye (1966-...), arquiteto britânico, de origem ganesa. 567 Gabrielle Golenda jornalista de origem americana.

568 Architizer (s.d) Turning Buildings Into Beats: David Adjaye and His Brother Create “Sound

Architecture”. Recuperado em 10 janeiro, 2017 de http://architizer.com/blog/turning-buildings-into- beats/

569 Idem, ibidem.

Tradução livre: (…) o irmão de Adjaye transforma os seus edifícios em batidas, transcendendo a mera experiência visual numa forma audiovisual, de paisagem sonora multissensorial.

Fig 46 - Projeto "Dialogues"

Finda a elaboração projetual, David Adjaye pede ao irmão que reaja face ao seu trababalho. A reação do irmão reflete-se sob forma sonora, e o resultado é um projeto infinitamente interessante, quer para o mundo da arquitetura, quer para o mundo da música. É possível ler- se a opinião de David Adjaye: “What Peter does is ‘sound architecture,’” (…) “I give Peter a project and ask him to react. Architecture is a narrative. This project is like a DNA experiment. There’s a construction.” 570

Sendo cada uma das faixas uma interpretação direta das obras do irmão, Peter acompanha as produções musicais com escritos acerca da obra.

O projeto, elaborado ao longo de 15 anos, compreende obras de variadíssimas localizações, e pretende acima de tudo que cada obra arquitetónica não seja apenas vista, mas sim sentida, com recurso a todos os sentidos possíveis. Desta forma, o álbum acaba por explorar a relação entre a vivência humana de lugares construídos em conjunto com a interpretação musical sobre a mesma.

O projeto acima abordado vem vincar a relação que se pretende evidenciar neste trabalho, entre o mundo da música e o mundo da arquitetura, mostrando o quanto um, pode efetivamente, influenciar o outro.

570 Architizer (s.d) Turning Buildings Into Beats: David Adjaye and His Brother Create “Sound

Architecture”. Recuperado em 10 janeiro, 2017 de http://architizer.com/blog/turning-buildings-into- beats/

Tradução livre: O que o Peter faz é ‘arquitetura sonora’. Eu dou ao Peter um projeto e peço-lhe que reaja. A arquitectura é uma narrativa. Este projeto é como uma experência de ADN. Há uma construção.

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