3. Pouvoir thérapeutique des odeurs
3.3. Méthodes de diffusion
Em percurso realizado entre a Praça Roosevelt e o Largo Padre Péricles pela parte inferior do Minhocão (a ordem das fotos segue esse trajeto), foram veriicadas diversas pinturas de graite que uilizavam como suporte os pilares do Minhocão, uma sequência de pilares que parecem retomar a sequência de grandes telas de um museu. Atualmente, algumas intervenções não são as mesmas, uma vez que a efemeridade é uma de suas principais caracterísicas.
De acordo com Certeau (2011), a cidade é um recinto próprio para as experimentações, um laboratório onde é possível ao usuário extrair fragmentos do percurso e atualizá-los em segredo. Foi nesta aura de experimentação que as pinturas foram percebidas. Durante o percurso pela parte inferior do Minhocão, apreendeu-se o espaço e as apropriações através da arte urbana, procurando estabelecer uma signiicação18. A cidade, enquanto texto não verbal, é uma fonte informacional rica
em esímulos criados por uma forma industrial de vida e de percepção.
Na passagem sob a Praça Franklin Roosevelt, foi encontrada a imagem da menina, como mostra a Figura 149. É evidente o horror estampado em seu rosto, mascarado pelo chapéu de Minnie, uma visão hollywoodiana da vida. A vida é terrível em espaços sujos e degradados, a expressão se apresenta como uma visão da sociedade do espetáculo que transforma o homem em ser passivo. O espetáculo, nascido das condições modernas de produção, automaizou-se do homem.
“O mundo presente e ausente que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois, seu movimento é idênico ao afastamento dos homens entre si e em relação à tudo que produzem.” (DEBORD, 1997, p. 20).
Nessa parte do percurso, que se localiza sob a Praça Roosvelt, chama a atenção a iluminação azul, uilizada como mecanismo para afastar os moradores de rua daquele espaço. Trata-se de um lugar em que alguns pernoitam, protegidos do sereno, entre os espaços dos pilares e as paredes do túnel. A imagem do rato na Figura 150 remete às profundezas da cidade. Os ratos são fortes, assim como as pessoas que vivem na parte inferior do Minhocão, os moradores de rua. Possuindo resistência
imunológica e resistência a um lugar hosil, desenvolvem os anicorpos daqueles que são vistos como arautos do pavor da cidade.
Na Figura 151, pode-se ver a imagem do palhaço, arquéipo social, representação da falibilidade humana, do fracasso, da inadequação, do ridículo que existe em cada um e que é presente na sociedade. A Arte Pública aproxima a arte da vida, criando formas de interação entre um pensamento emocional e um pensamento representacional, evidenciando as relações coidianas no contexto urbano. Sua manifestação no espaço possibilita o culivo de um olhar relexivo, quesionador e racional.
São Paulo é uma grande sobreposição de muilações. Na Figura 152, veriica-se a imagem de um corpo muilado. O Minhocão é o objeto que mais representa isso: uma grande cicatriz, que é residência de gente muilada, excluída, abandonada.
A temáica da alienação está claramente estampada na Figura 153. Hoje, tal temáica se manifesra não mais pela televisão, mas pelos smartphones, ícones contemporâneos do mundo globalizado. A imagem assim representa cabeças formatadas, todas iguais. Ao lado, carros passam despercebidos. Motoristas conectados, protegidos pela película solar dos vidros, se mostram indiferentes à cidade. A mostra das máscaras africanas fez parte do Projeto Omô Lodjô, vista na Figura 154. A mostra comemorou o mês da Consciência Negra. No total foram 20 pilares do Minhocão que receberam as pinturas assinadas pelo arista Renato da Silveira, pesquisador e escritor baiano, doutor em antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais). Encontram-se ainda algumas máscaras que receberam intervenções de picho e graite, ao longo do percurso.
As intervenções insitucionalizadas convivem com as outras não autorizadas, por vezes transformando- se e se fundendinda, como que concebidas unicamente.
Segundo material divulgado pela Prefeitura de São Paulo19, “embora sejam misturadas e mulicoloridas,
as obras transmitem um ar de doçura. A agressividade ica de fora na representação das expressões faciais, pois para Silveira estamos ferozes demais, precisando de máscaras mais tranquilas’”.
Figura 150: “Rato” – Início Minhocão – R. Amaral Gurgel FONTE: < htp://www.ideaixa.com/minhocao-e-guerrilha- semioica >. Acesso em 20.11.2015.
Figura 151: Empena de Prédio na R. Amaral Gurgel. FONTE: Foto da autora (Data: 21.4.2015).
19 Disponível em :< htp://noicias.uol.com.br/
album/2014/11/28/sp-ganha-mostra-a-ceu-aberto- de-mascaras-afro-brasileiras-nos-pilares-do-minhocao. htm#fotoNav=6 >. Acesso em: 12.12.2015.
Figura 152: Corpo Muilado sob o Minhocão. FONTE: Foto da autora (Data: 21.04. 2015)
Figura 153: Televisão.
Na Figura 155, há o marginal empunhando arma, como muitos que frequentam a região.
Na Figura 156, veriica-se o picho como instrumento de contestação, de luta, e sinônimo de voz para aqueles que não são vistos e ouvidos pela sociedade. A pichação sobre a foto, na cor rosa, representa o processo de esteização em que o indivíduo airma a quem de fato pertence à rua. As fotos izeram parte de um projeto chamado Giganto20 , promovido pelo SESC. A fotógrafa Raquel Brust estampou
18 fotos de moradores da região.
O morador de rua é o grande ani-sujeito da cidade, visto na Figura 157. O poder público faz ações sistemáicas no senido de esconder o que considera desagradável, como os moradores de rua. Para essas pessoas resta seguir para áreas onde possam ser incluídos na paisagem: lugares sujos, degradados.
A parte inferior do Elevado, mesmo sendo parte do todo, é marginalizada e negligenciada. Nela se esboça o esgoto, a degradação. Segundo Peixoto (2003, p. 400): “Os viadutos, autopistas, estacionamentos, canteiros de obras, tubulações expostas e conjuntos residenciais populares são os monumentos das grandes extensões urbanas devastadas contemporâneas”.
Esses sujeitos são idos fora do padrão. A colagem mostra a diversidade das tribos urbanas, caracterísica da cidade de São Paulo, como pode-se visualizar na Figura 158.
A herança negra é forte, e a Figura 159 reforça o pertencimento do negro na sociedade.
Na Figura 160, pode-se ver um graite sobre a foto da tribo indígena, uma sobreposição de camadas que se fundem e se tornam uma só. A auréola remete ao ser celesial, acima do bem e do mal. Na Figura 161, a mulher muçulmana é retratada através do graite, símbolo do individuo que permanece excluído, privado dos mesmos direitos dos homens. É um caso semelhante ao daqueles que vivem o subterrâneo do Minhocão, excluídos dos mesmos direitos que aqueles que passam logo acima dirigindo seus automóveis.
Figura 155: Lambe-Lambe: Marginal controlando arma. Fonte: Foto da autora. (Data: 21.03.2015).
Figura 156: Retratos e Picho
FONTE: < htp://www.ideaixa.com/minhocao-e-guerrilha- semioica >. Acesso em 20.11.2015
20 Disponível em : < htp://projetogiganto.com.br/ >.
Figura 157: Máscara Africana.
FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015)
Figura 158: Colagem feita em pilar sob o Minhocão. FONTE: < htp://www.ideaixa.com/minhocao-e-guerrilha- semioica >. Acesso em 20/11/2015
Figura 159: Projeto Retratos – SESC. FONTE: Foto da autora (Data: 21.04. 2015).
Na Figura 162, a imagem do líder Mandela, aparece sobre a imagem de um homem negro, desconhecido e negligenciado dormindo no chão. A associação dos negros à vulnerabilidade social está manifestada nesse graite.
Figura 160: Sobreposição de Intervenções. FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015)
Figura 161: Meninos andando de skate sob o Elevado. FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015)
Figura 163: Lambe-lambe.
FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015) Figura 164: Graite.
FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015) Figura 165: Imagem Noturna.
FONTE: Foto da autora. (Data: 21.04.2015) Figura 162: Graite sob o Minhocão.
FONTE: < htp://www.ideaixa.com/minhocao-e-guerrilha-semioica >. Acesso em 20.11.2014.
À noite nos baixios, conforme mostra a Figura 165, as sombras se muliplicam e os signos parecem tomar corpo, como protagonistas de um ilme de suspense. A cidade fala através de suas imagens. Acredita-se que a virtuosidade cívica pode ser desenvolvida interagindo com a intervenção criada. A airmação (DEBORD, 1992) sobre a alienação e os efeitos divisórios do capitalismo n’A Sociedade do Espetáculo ainge o centro da razão pela qual a paricipação é importante (arte paricipaiva): ela reumaniza a sociedade atávica e fragmentada pela instrumentalização repressiva da produção capitalista.
A arte do fraco, segundo Certeau (2011), manifesta o espaço público como legíimo da contemporaneidade na Metrópole. As manifestações arísicas nas pilastras do Minhocão são desprovidas de poder, mas apontam legiimidade, reconhecimento, moralidade.
A “arte paricipaiva”, em seu senido mais restrito, acaba com a ideia de espectador e sugere um novo entendimento de arte sem audiência, uma arte da qual, todos são produtores.
Figura 166: Graii
RESULTADOS
As manifestações de caráter arísico encontradas na superície inferior do Minhocão, os baixios, têm caráter temporário e tomam a estrutura, principalmente os pilares, como suporte. De acordo com Fontes (2013), as intervenções podem ser caracterizadas como Arte urbana.
Essas intervenções de arte urbana têm caráter transitório, uma vez que não permanecem por muito tempo no local, passando por diferentes intervenções e sobreposições de novas pinturas que a transformam em outra arte, em um processo de constante mutação. Têm caráter pequeno, pontual e relacional, se instalando nos pilares, que têm caracterísicas ísicas e dimensões semelhantes às grandes telas de pintura e se relacionam com aqueles que passam usuários da região. São paricipaivas, pois acontecem com a paricipação espontânea daqueles sujeitos que procuram intervir e deixar sua marca na cidade, através da arte. Essa qualidade leva as intervenções a aivarem os locais em que estão inseridas, onde possuem caracterísicas subversivas e pariculares. Os baixios do Minhocão apresentam os seguintes conceitos (FONTES, 2013), revelados através das intervenções de arte urbana e dos usos espontâneos: dinamismo, uma vez que revelam uma nova aitude em relação ao espaço; lexibilidade, já que revelam a abertura para diversas apropriações; e conexão de pessoas, de usos e de espaços públicos.
Em função dos conceitos revelados, pode-se airmar que o espaço é transformado pela apropriação de usos que se manifestam nos baixios. Apropriações espontâneas, manifestas nos deslocamentos dos pedestres, dos ciclistas e do uso dos skaistas, e também por meio das pinturas, apropriações de arte urbana dos pilares, que são impregnadas de caráter transgressor, ípico das pinturas de graite e de caráter políico. Os baixios do Minhocão são uma obra:
“sem expressão ou arquitetura que ressurge como suporte do posicionamento políico das intervenções de arte do graite e que compõem juntamente com os sem-teto, a geograia do lugar. Por seu caráter efêmero e sua forte intromissão visual, o graite contribui para que os espaços residuais e sem expressão voltem a paricipar dos luxos da cidade – que resgatem seu aspecto simbólico – estabelecendo diálogocom os passantes e também leitura de parte da cidade”. (TELLES, 2011, p. 254)
Mapa 08: Graites ao longo do Minhocão. FONTE: Execução da autora.
O Mapeamento dos graites foi elaborado (igura 157), com inserção dos graites mais atuais, no percurso de coleta de dados fotográicos feito ao inal de março de 2016. O objeivo desse mapeamento, além de localizar as imagens de maior relevância, é marcar uma diferenciação nas caracterísicas dos graites nos baixios do Minhocão, além de jusiicar de acordo com as interpretações feitas nos outros mapas (leituras do urbano).
Podemos airmar que a manifestações mais signiicaivas acontecem na Avenida Amaral Gurgel, seguidas pela região da Praça Marechal Dodoro, próximo à Avenida Angelica e os pontos de ônibus. Entre a estação Santa Cecília e a Praça Marechal Deodoro e a estação Santa Cecília e Terminal Amaral Gurgel, há uma região com muita pichação e lambe-lambe, assim como a região da Avenida General Olímpio da Silveira seguindo para o término do Minhocão. Essas regiões coincidem com regiões de maior luxo de moradores de rua e onde não há muito luxo de pedestres, em função de poucos pontos de ônibus. Na Avenida Amaral Gurgel há poucos pontos de ônibus, mas muita concentração de trânsito de veículos, usuários que parecem ser objeto de atenção dos graiteiros da região. Pode-se concluir que as intervenções de arte urbana, nos baixios do Minhocão, têm comunicação com seu entorno e com os usuários do local. Os automóveis, ciclistas, pedestres, moradores de rua e comerciantes têm relação direta com a linguagem que as pinturas expressam. É fato que cada usuário, por meio do modo como interage com a intervenção, terá percepções diferentes.
Nesse senido, os aristas desenvolvem sua comunicação de diferentes maneiras ao longo do percurso, manifestando diferenças signiicaivas, principalmente no que diz respeito ao foco do expectador, mas também levando em consideração as caracterísicas ísicas urbanas. Os graites próximos à Praça Marechal Deodoro têm outra questão de perspeciva, em função da abertura que o local permite, bem como os diferentes modos de visualização.
O percurso que foi realizado ao ver a cidade leva a confrontar o espaço, o urbano, a cidade e o lugar. Os elementos que compõem o espaço interferem na forma deste, quando é veriicado que a paisagem é sugerida como complemento para captar a forma luida e irregular desses horizontes. Segundo Ferrara (1997), a cidade é o resultado da atuação de um conjunto de elementos dinâmicos
denominados de contexto urbano. Esse contexto é composto por ruas, muros, escadarias, fachadas, ediícios, mulidões em locomoção, ruídos, luzes, cor e volume.
A cidade é tratada como comunicação porque o contexto urbano se consitui de um conjunto de elementos signiicaivos da relexão sobre a própria cidade. Qualquer alteração nesse contexto implica mudança em seu signiicado: “a cidade constrói uma relação comunicaiva onde a imagem é mediação do seu ideal de plano urbano, de valores e hierarquias. ” (FERRARA, 2004, p.140).
O Minhocão é símbolo de resistência, de luta, de manifestação daqueles que não são vistos pela sociedade como iguras excluídas do contexto social, e as intervenções por meio do graite, nos baixios, são acompanhadas dessa aura contestadora que o próprio suporte já incorpora em relação à cidade: a resistência daqueles que vivem naquele local, a despeito dos problemas que o artefato criou ao longo de sua história.
O espaço habitado é uma manifestação exemplar de uma linguagem carregada de signos, e esse texto não verbal se espalha pela cidade e incorpora toda a sua micro linguagem: a paisagem, a urbanização, a arquitetura, o desenho industrial ambiental, a comunicação visual, a publicidade, bem como a sinalização viária.
“A experiência dos lugares consitui-se entre a mobilidade e a permanência. Se a cidade é reconhecida pela sua face ixa, construída, é, no entanto, a mobilidade que a anima. Na sua gênese, a cidade é um lugar de troca e encontro”. (BOGEA, 2009, p. 158).