Développement des modèles musculosquelettiques
4. Calcul des efforts musculaires : généralités
4.2. Les différentes approches de la modélisation musculaire
4.2.3. Méthodes de calcul
Presente em qualquer forma de conhecimento e observação, a relação entre pesquisador e ator social, segundo Costanzo Ranci, é inevitável e traz uma consequência para a reflexão metodológica: “os atores que por diferentes títulos estão implicados na seleção e na transmissão das informações utilizadas na pesquisa social são capazes de exercitar uma influência significativa na definição do objeto da pesquisa, e também sobre os resultados aos quais ela chegará.” (RANCI, 2005, p. 44). Assim, o autor nega a ideia de neutralidade do ator social e argumenta que ele desenvolve um papel ativo, condicionante mesmo do processo de conhecimento. De acordo com Ranci, o ator social assume um papel duplo no desenvolvimento de uma pesquisa empírica:
de um lado é parte do objeto de estudo do pesquisador, e de outro, enquanto sujeito discursivo, age também como medium entre o pesquisador e a realidade social mais ampla que ele está investigando. Se é dos discursos e das ações dos atores que o pesquisador traz grande parte das informações que lhe são necessárias, o ator social produz, todavia, e transmite seletivamente um tipo de conhecimento e uma interpretação da realidade examinada (RANCI, 2005, p. 44).
No entanto, vale ressaltar que a influência do ator social na reflexão e prática metodológica tradicionais é vista como um elemento perturbador e problemático, que “impede a aplicação rigorosa dos procedimentos típicos dos métodos científicos” (RANCI, 2005, p. 44). E mesmo quando se reconhece que a relação entre pesquisador e ator social é inevitável, tal perspectiva prevê sua submissão a uma série de procedimentos de controle, que evitem distorções dos dados. “A relação com o ator é, portanto, um inconveniente do qual não se pode livrar, mas que pode e deve ser controlada de modo a salvaguardar a validade do conhecimento obtido” (RANCI, 2005, p. 44).
Mas o desenvolvimento das sociologias qualitativas tem “contribuído para a emergência de uma visão que vê na relação com o ator social não tanto um elemento de perturbação quanto uma parte integrante do processo cognoscitivo desenvolvido graças à atividade de pesquisa” (RANCI, 2005, p. 44). Nessa perspectiva, a pesquisa social surge como um jogo relacional, que envolve tanto o pesquisador, como o ator social. Para Ranci, “o conjunto dos processos relacionais que se desenvolve entre estes sujeitos sustenta a construção do objeto e a produção das explicações e dos significados associados a tal objeto” (RANCI, 2005, p. 44).
O percurso argumentativo de Ranci é elucidativo para o debate, porque ajuda a justificar como a relação entre pesquisador e ator social pode ser uma oportunidade para se
revelar e problematizar aspectos pouco evidentes do fenômeno estudado, e não necessariamente uma fonte de problemas metodológicos, como postula a prática da investigação social mais consolidada. Segundo o autor, o que permite ao pesquisador utilizar o material fornecido pelos atores sociais, como recurso para a sua investigação, é o compartilhamento de um conhecimento subentendido entre eles. “Na pesquisa social, são (...) utilizadas formulações de senso comum, que são assumidas como verdadeiras, estáveis, coerentes com aquelas científicas” (RANCI, 2005, p. 46).
Numa discussão crítica sobre os mecanismos de controle da relação com o ator social, Ranci mostra como a tradição da prática da pesquisa social é marcada por uma visão dualística, “segundo a qual somente a clara separação entre a figura do pesquisador e aquela do ator social garante a validade do processo cognoscitivo” (RANCI, 2005, p. 46). Nesse sentido, as indicações metodológicas direcionadas aos pesquisadores, de modo geral, são claras ao defender a distância e a separação entre o pesquisador e o ator social. Enquanto o primeiro assume a função de observador, ao último é atribuído o papel de observado. Para Ranci, o estabelecimento dessa distância, ainda que tente preservar a objetividade da informação obtida, acaba por impedir o intercâmbio de papeis entre os agentes envolvidos na pesquisa – pesquisador e ator social.
E na tentativa de garantir a estabilidade e confiabilidade dos atores sociais na condição de “colaboradores” e informadores dos pesquisadores, Ranci chama a atenção para o fato de os critérios de seleção não emergirem da experiência com e no campo, mas corresponderem a categorias lógicas ou conceituais determinadas pelo próprio pesquisador.
Como resume Ranci:
As prescrições metodológicas em que este procedimento [que fixa os termos da relação entre pesquisador e ator social] é articulado constituem, no seu conjunto, uma forma de controle do ator social (e da sua relação com o pesquisador), com a finalidade de torná-lo confiável e estável, bem como neutralizar a possibilidade que ele influa no processo da investigação. Este controle constitui, além disso, a garantia de que a pesquisa venha a ser desenvolvida sobre a base de critérios científicos, isto é, independentemente dos vínculos e das confusões que dominam nos contextos práticos da vida cotidiana (RANCI, 2005, p. 48).
A fim de estruturar a relação entre pesquisador e ator social, de modo que o objetivo cognoscitivo da pesquisa seja possível de ser realizado, Ranci destaca a importância do reconhecimento da alteridade entre os pontos de vista de ambas as partes. “Se a pesquisa social ignora, ou, ao contrário, desconsidera totalmente tal alteridade19, ela é condenada a
19
Aqui, Ranci se refere à “alteridade fundamental entre linguagem sociológica e linguagem comum, que não pode, de qualquer maneira, ser totalmente superada.” (RANCI, 2005, p. 51).
fechar-se em uma cilada, reduzindo-se, nos casos mais graves, a uma atividade totalmente autorreferente, incapaz de explorar mundos sociais e realidades inéditas” (RANCI, 2005, p. 51). Nesse sentido, na tentativa de superar os obstáculos e as dificuldades que surgem no processo de uma pesquisa empírica, o sociólogo italiano defende, antes, que é preciso “reconhecer que a relação com o ator social modifica inevitavelmente o campo da pesquisa, e que os eventuais obstáculos nos quais se embate o processo de pesquisa não são mais que sinais de um desvio entre as definições do pesquisador e aquelas do ator social” (RANCI, 2005, p. 52).
E se o problema central está em diminuir a distância entre esses dois agentes, então, é necessário “desenvolver uma metodologia específica para o papel intencional de reduzir os desvios e as distorções determinadas pelas dificuldades de compreensão entre pesquisadores e atores sociais” (RANCI, 2005, p. 52).
Nesse sentido, a literatura metodológica indica duas perspectivas: a) aproximação do ator social ao mundo do pesquisador, através de técnicas de prevenção; b) aproximação do pesquisador ao mundo do ator social, através de metodologias que propõem a observação participante e daquelas que lidam com o valor da empatia.
Diante desse horizonte de possibilidades, assumir o lugar do qual está se partindo, na parte metodológica, é uma postura não apenas esclarecedora de quem pesquisa, mas ética. Afinal, é a partir da perspectiva adotada, que se atribui sentido aos dados coletados, validando o processo de produção do conhecimento, que não é neutro. Assim, com base nesses princípios, nossa discussão se deterá na segunda perspectiva, uma vez que é a partir dela que a pesquisadora move sua prática e reflexão metodológicas.