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Les méthodes d’évaluation et les indicateurs du service de pollinisation en verger

Le service de pollinisation

1.1.5 Les méthodes d’évaluation et les indicateurs du service de pollinisation en verger

Muito do que j ´a foi dito aqui pode levar a conclus ˜ao que o historicismo ´e um m ´etodo fatalista e que prega inatividade. Os historicistas, todavia, n ˜ao pensam desse modo. O historicismo “n ˜ao ensina que algo n ˜ao pode ser produzido: ele apenas prev ˆe que nem nossos sonhos, tampouco o que nossa raz ˜ao idealiza, ser ˜ao produzidos de acordo com um

plano” (PH, p. 44, grifos do autor). As leis hist ´oricas nos s ˜ao dadas, resta a n ´os descobri-las

e adaptar nossos planos de acordo com a trajet ´oria da hist ´oria.

Essa ˆansia em interpretar a hist ´oria para prever o futuro oferece ao historicista o ˆanimo necess ´ario para planejar algo que se enquadre na direc¸ ˜ao que ela tomar ´a. O histori- cismo “nega `a raz ˜ao humana o poder de trazer um mundo mais razo ´avel” (PH, p. 45, grifos do autor). Embora grande parte dos autores historicistas12 anuncie um “reino de liberdade”

no futuro, todos sustentam o mesmo ponto: toda atividade s ´o ser ´a produtiva se seguir o curso pr ´e-determinado da hist ´oria. “O historicista pode apenas interpretar o desenvolvimento social e auxili ´a-lo de diversas maneiras; seu ponto, todavia, ´e que ningu ´em pode modific ´a-lo” (PH, p. 46, grifo do autor).

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Historicismo: um m ´etodo pobre?

J. S. Mill, famoso historicista, j ´a apontava a exist ˆencia de dois m ´etodos nas ci ˆencias sociais: um gradual (o que Popper chama de tecnologia social gradual), e o que faria uso de um “m ´etodo hist ´orico”, afirmando a superioridade do segundo. Expomos, ainda que de forma resumida – seria imposs´ıvel trabalhar todos os detalhes, de Plat ˜ao a Neurath, passando por Comte, Marx e Hegel, dos adeptos dessa doutrina –, esse m ´etodo hist ´orico, o historicismo. Sem d ´uvida ´e um m ´etodo sedutor, do contr ´ario n ˜ao teria tantos seguidores. Mas quais s ˜ao suas falhas? O grande objetivo deste cap´ıtulo ´e mostrar que, a despeito do autor ou de sua posic¸ ˜ao a respeito do m ´etodo das ci ˆencias naturais (acreditar ou n ˜ao que ele pode ser usado nas ci ˆencias sociais ou, o que ´e mais comum, fazer uma combinac¸ ˜ao de aspectos seleciona- dos de ambos), o historicismo n ˜ao entende como opera a ci ˆencia natural.

4.1

Historicismo e Utopianismo

A definic¸ ˜ao exposta no cap´ıtulo anterior parece nos apontar que o m ´etodo histori- cista seria contr ´ario ao ativismo. Mas pelo contr ´ario, de modo algum o ´e. Marx1 j ´a diz que tal m ´etodo hist ´orico pode criar “atalhos” para o aparecimento de novos per´ıodos hist ´oricos. An- tes de conformar-se e esperar pelo que vir ´a, o historicismo clama pela ac¸ ˜ao, esperando que n ´os busquemos esse novo per´ıodo que est ´a por vir; evidentemente, o ´unico curso hist ´orico poss´ıvel ´e aquele que o historicista afirma como poss´ıvel. O ativismo, que poderia ser tra- tado como mat ´eria exclusiva de m ´etodo graduais, n ˜ao ´e um dos pontos que caracterizam o historicismo, apesar de frequentemente ser visto como seu aliado. Assim como a tecnologia social gradual, o historicismo tamb ´em ´e um m ´etodo tecnol ´ogico, embora seja definido por seu car ´ater holista. Popper (PH, pp. 66-7) afirma que esse holismo permite que o historicismo se alie com m ´etodos sociais ut ´opicos: “encontramos o historicismo frequentemente aliado justamente `aquelas ideias t´ıpicas da engenharia social holista ou Ut ´opica, como as ideias de um “esboc¸o para uma nova ordem”, ou “planejamento centralizado”. Por outro lado, os histo- ricistas, aqueles caracterizados por Popper como ut ´opicos, o chamam desse mesmo modo. Quem deveria ser verdadeiramente caracterizado como ut ´opico?

Dois dos historicistas mais famosos, Plat ˜ao e Marx, nos iluminam quanto ao fun- cionamento desse m ´etodo holista e ut ´opico. Plat ˜ao era um pessimista e afirmava toda mudan- c¸a ser decad ˆencia; seu plano consistia em impedir qualquer mudanc¸a. J ´a Marx, otimista, acreditava numa nova era, onde todos os homens seriam livres de qualquer coerc¸ ˜ao do estado ou de outros homens. Hoje ambos, Plat ˜ao e Marx, buscariam sociedades chama- das, respectivamente, “est ´aticas” e “din ˆamicas”. O historicista faz um uso err ˆoneo de ambos os termos, tomados emprestados da astronomia. O tipo de sociedade por ele chamado de “est ´atica” ´e exatamente o que um f´ısico chamaria de “din ˆamica“, embora estacion ´aria2. Por essa descric¸ ˜ao dos dois ´e poss´ıvel visualizar o aspecto comum a ambos – historicismo e utopianismo –, seu car ´ater holista. Ambos n ˜ao procuram o desenvolvimento de aspectos sin- gulares do ambiente social, mas da sociedade como um todo. Pode-se notar, tanto em Plat ˜ao como em Marx, uma ˆansia em operar desse modo; Plat ˜ao buscando impedir e controlar a mudanc¸a completamente, Marx tentando racionaliz ´a-la e prever seu curso.

O termo “totalidade”, tal qual usado pelos historicistas, leva a interpretac¸ ˜oes d ´ubias. Dois s ˜ao os significados que ele pode adquirir: a) o conjunto de todas as propriedades (ou aspectos) de algo, bem como as relac¸ ˜oes entre suas partes; e b) certas propriedades de algo, aquelas que em conjunto formam uma estrutura determinada. “Totalidades” no sentido ‘b)’ s ˜ao frequentemente objeto de estudo da ci ˆencia (especialmente ap ´os criac¸ ˜ao da teoria psicol ´ogica Gestalt, que os colocou em evid ˆencia). Essas totalidades ‘b’ s ˜ao mais que meros agregados, “mais que a mera soma de suas partes” (PH, p. 70). Popper (PH, pp. 70-1) nos d ´a um exemplo clarificador. Notas colocadas em sequ ˆencia formam uma determinada melodia; essa melodia ´e um aspecto relacional que uma dessas notas isoladamente n ˜ao teria. Con- tudo, uma melodia est ´a longe de significar todos os aspectos que aquele conjunto de sons pode ter. Do mesmo modo que escolhemos a melodia, poder´ıamos ter escolhido o tom dessa sequ ˆencia, e ambos s ˜ao aspectos igualmente significativos daquele conjunto. Queremos ape- nas atentar para o fato que “totalidades” no sentido ‘b)’ podem ser estudadas cientificamente (podemos estudar uma melodia), enquanto “totalidades” no sentido ‘a)’ n ˜ao (n ˜ao ter´ıamos um estudo, apenas uma lista descritiva infinita). Um estudo cient´ıfico ´e necessariamente seletivo3.

Os historicistas parecem n ˜ao atentar para tal fato. Segundo eles, “totalidades” no sentido ‘a)’ podem ser estudadas cientificamente. J ´a “totalidades” no sentido ‘b)’, de acordo com os mesmos, “podem ser apreendidas por percepc¸ ˜ao direta e intuitiva” (PH, p. 72), o que n ˜ao aconteceria com “totalidades” no sentido ‘a)’, apreendidas apenas ap ´os um longo processo de reflex ˜ao. O que parece ser ignorado ´e que “todo conhecimento, seja intuitivo ou

2Num sistema estacion ´ario existe movimento, embora repetitivo, por isso ele ´e estacion ´ario. Um bom exemplo ´e o sistema solar: ele n ˜ao se modifica, n ˜ao muda suas caracter´ısticas principais (exceto se houver uma influ ˆencia externa). Cf. PH, pp. 103-4.

3Mesmo uma ´ınfima pec¸a do mundo pode ser descrita de infinitas maneiras. A cadeira na qual estou sentado agora pode ser descrita como “uma cadeira”, “uma pec¸a de mobili ´ario”, e assim sucessivamente. Essa lista n ˜ao ´e exaustiva; poder´ıamos passar o resto de nossas vidas listando modos de classificar essa ´unica cadeira. Uma “totalidade” classificada desse modo jamais poderia ser objeto de estudo cient´ıfico.

4.1 Historicismo e Utopianismo 52

discursivo, precisa ser de aspectos abstratos4, pois nunca podemos apreender a “realidade

social concreta nela mesma” (PH, p. 72). N ˜ao ´e poss´ıvel partir de determinados aspectos, estes facilmente descobertos, e determinar o “processo” que os levou a serem formados. Mesmo os historicistas n ˜ao d ˜ao um ´unico exemplo de como esse programa sairia da teoria para a pr ´atica, pois ele ´e imposs´ıvel. Um exemplo anterior5pode nos ser ´util novamente: clas- sificar uma cadeira como uma pec¸a de mobili ´ario seria ´util para um estudo arquitet ˆonico, mas dispens ´avel para um estudo qu´ımico acerca das propriedades do ´atomos que formam a ma- deira (ou de qualquer outro material que possa compor a cadeira). E mesmo numa lista que desse diversas definic¸ ˜oes de “cadeira” sempre poder´ıamos apontar aspectos que foram negli- genciados (e que poderiam ser importantes ou n ˜ao para determinados estudos). Mais grave que apenas propor uma definic¸ ˜ao dessas “totalidades” pretensamente cient´ıficas, os histori- cistas afirmam que a ci ˆencia deve estud ´a-las, control ´a-las e modific ´a-las6. A impossibilidade

de tal modificac¸ ˜ao, por ´em, ´e uma impossibilidade l ´ogica: cada objeto (suas infinitas propri- edades e relac¸ ˜oes), ao ser modificado, criaria uma nova gama de propriedades e relac¸ ˜oes, que por sua vez deveriam ser tamb ´em modificadas para que o objetivo inicial fosse alcanc¸ado, num processo que se estenderia ad infinitum. A impossibilidade ´e vista mesmo num estudo de toda a sociedade, estudo que, por sua vez, deveria tamb ´em ser inclu´ıdo. Isso ´e negligen- ciado pelos historicistas, em sua ˆansia de encontrar e controlar “totalidades” no sentido ‘a)’. O m ´etodo hist ´orico (ou o que deveria ser entendido como tal) est ´a longe de operar com ob- jetos concretos, como acredita o historicista. Uma investigac¸ ˜ao acerca de um aspecto ´ınfimo da sociedade (digamos, a hist ´oria de uma fam´ılia), lida com aspectos determinados dessa hist ´oria: a hist ´oria financeira da fam´ılia, a matrimonial, etc.. E mesmo um estudo desses as- pectos ainda seria deveras incompleto; quem dir ´a estudar algo infinitamente maior, digamos a hist ´oria econ ˆomica da humanidade.

A busca por “estados da sociedade” ou de um todo que englobe todas as proprie- dades de um determinado momento ´e uma busca v ˜a. A hist ´oria n ˜ao deve ser entendida como um desenvolvimento cont´ınuo; antes ´e uma sucess ˜ao de eventos aleat ´orios que adquire um significado quando entendido sob determinado contexto. Uma doutrina como a historicista, ao contr ´ario do que os pr ´oprios pensam, ´e uma doutrina t´ıpica de um per´ıodo pr ´e-cient´ıfico7.

O holismo ´e particularmente nocivo para o pensamento historicista por trazer impl´ıcita a ideia que “experimentos sociais, para serem realistas, precisam caracterizar-se como tentativas ut ´opicas de remodelac¸ ˜ao da sociedade como um todo” (PH, p. 77). Se lem-

4No momento, ainda n ˜ao ser ´a explanado o porqu ˆe serem abstratos os entes sociais; Cf. § 4.3. 5Cf. n. 3, p. 51.

6Alguns, como Popper cita (PH, p. 73), profetizam o ponto em que essa “totalidade” seria modificada a um ponto em que a sociedade se identificaria com o estado. Sua cr´ıtica `a moral historicista se encontra detalhada nos dois volumes de The Open Society and Its Enemies. Contudo, tal assunto n ˜ao ´e o objetivo desse trabalho.

7Embora Popper tente criticar o historicismo apenas no terreno metodol ´ogico, percebemos diversas afirmac¸ ˜oes (como a anterior) ideol ´ogicas.

bramos8 que esses experimentos sociais – ao contr ´ario dos experimentos da f´ısica, onde

procuramos, em primeiro lugar, aumentar nosso conhecimento – s ˜ao conduzidos visando o sucesso pol´ıtico, temos uma noc¸ ˜ao de como um experimento desse tipo pode causar males `a sociedade.

Devemos levar em considerac¸ ˜ao que n ˜ao possu´ımos o conhecimento necess ´ario para um experimento dessa escala. O historicista poderia argumentar que um engenheiro pode construir uma m ´aquina de grande porte, logo ele poderia trac¸ar um plano de grandes proporc¸ ˜oes. Mas o historicista n ˜ao leva em considerac¸ ˜ao todos os pequenos experimentos conduzidos at ´e ent ˜ao que permitem a m ´aquina, nos moldes de ent ˜ao, poder ser constru´ıda hoje. Uma comparac¸ ˜ao desse tipo, portanto, n ˜ao poderia ser feita. Um historicista poderia ad- mitir seu erro, e at ´e mesmo admitir que precisamos da pr ´atica e da experimentac¸ ˜ao. Contudo, ele insistiria que sem conduzir um experimento holista n ˜ao poder´ıamos tentar corrigir essas pequenas falhas. O nosso conhecimento, grande ou pequeno, deve ser usado e transformado num plano de grandes proporc¸ ˜oes. Segundo o historicista, seria n ˜ao mais que o m ´etodo ex- perimental aplicado `a sociedade. Uma experi ˆencia simulando a economia socialista numa pequena vila ´e in ´util; esse experimento s ´o ter ´a algum valor se for aplicado imediatamente `a sociedade inteira. Para os historicistas (e ut ´opicos em geral), “um experimento social (se h ´a)

poderia ser de valor apenas se conduzido num escala holista” (PH, p. 78, grifo do autor)

Popper apresenta duas objec¸ ˜oes a essa constatac¸ ˜ao. Em primeiro lugar, ela negli- gencia o papel dos experimentos graduais, important´ıssimos para qualquer pretensa postura cient´ıfica (e at ´e mesmo pr ´e-cient´ıfica). ´E imposs´ıvel negar que fazemos pequenos experi- mentos todos os dias. Mesmo nossas ac¸ ˜oes mais triviais s ˜ao, de certo modo, experimentos. Do mesmo modo um construtor de barcos s ´o consegue faz ˆe-lo hoje por conta dos diversos experimentos que foram conduzidos no passado e que o ensinaram como lidar com diversas dificuldades na tarefa de construir barcos. Vemos que n ˜ao existe uma barreira demarcando uma atitude cient´ıfica de uma pr ´e-cient´ıfica9. O que muda ´e a nossa atitude cr´ıtica, em cons- cientemente conhecer nossos erros e buscar aprender com eles. Sa´ımos de um est ´agio pr ´e-cient´ıfico `a medida em que assumimos uma postura cr´ıtica, isto ´e, conscientemente pro- curamos nossos erros e tentamos corrigi-los. Nas ci ˆencias sociais nossa atitude deve ser a mesma. Toda ac¸ ˜ao pol´ıtica (e lembremos que Popper considera as ci ˆencias sociais uma ci ˆencia para o pol´ıtico) tem efeitos indesej ´aveis10; a diferenc¸a entre um pol´ıtico iniciante e um

experiente ´e que o segundo procura seus erros e tenta consert ´a-los pouco a pouco.

Em segundo lugar, Popper duvida que experimentos holistas possam contribuir

8Cf. § 1.1.2.

9Novamente vemos uma afirmac¸ ˜ao ideol ´ogica. Propor uma barreira deste modo s ´o ´e poss´ıvel se definirmos primeiro o que ´e uma atitude cient´ıfica. Cf. nota 7, p. 52.

10Qualquer experimento (natural ou social) produz efeitos indesej ´aveis; apenas consideramos como bem su- cedidos aqueles em que esses efeitos podem ser desprezados. Nas ci ˆencias sociais, pela impossibilidade do controle do fator humano e o descontentamento que qualquer medida pol´ıtica pode causar a uma determinada parcela da sociedade, esses efeitos geralmente s ˜ao mais percept´ıveis.

4.1 Historicismo e Utopianismo 54

para nosso aumento de conhecimento. At ´e mesmo considera que experimentos holistas ape- nas podem ser chamados de “experimentos” por serem “uma ac¸ ˜ao cuja conclus ˜ao ´e incerta”, mas nunca como “um meio de adquirir conhecimento” (PH, p. 78, grifo do autor). As raz ˜oes s ˜ao simples. Em pequenos experimentos, podemos examinar cuidadosamente onde erra- mos e que resultado corresponde a qual vari ´avel. Num experimento holista isso ´e imposs´ıvel. Muito ´e feito ao mesmo tempo, e torna-se invi ´avel descobrir que vari ´avel foi respons ´avel pelo fracasso (ou sucesso) do plano. Quais vari ´aveis s ˜ao importantes para cada experimento ´e algo que s ´o pode ser descoberto por meio de experimentos graduais. Uma das raz ˜oes da impossibilidade da realizac¸ ˜ao de experimentos holistas pode ser considerada exclusiva das ci ˆencias sociais. Planos muito grandes tendem a modificar (ou causar algum tipo de inco- veniente) a um grande n ´umero de pessoas. Quanto maior o n ´umero de pessoas atingidas, menor a possibilidade de que todas concordem com o plano em quest ˜ao, o que tende a gerar uma resist ˆencia de certos setores da sociedade que discordam do plano. De certo modo, um experimento holista na sociedade ´e fadado ao fracasso desde o in´ıcio. S ˜ao necess ´arias me- didas autorit ´arias e de supress ˜ao da cr´ıtica11para garantir que o plano acontec¸a sem maiores percalc¸os.

Mardiros (1948) discorda das cr´ıticas de Popper. Ele afirma que “a natureza dos problemas sociais requer soluc¸ ˜oes complexas de largo escopo preferivelmente a reformas graduais individuais [...] tecnologia gradual ou planejamento gradual tornam-se inteligentes apenas quando param de ser graduais” (1948, p. 342), e para corroborar sua tese cita o fen ˆomeno da abolic¸ ˜ao da escravid ˜ao no s ´eculo XIX. Nenhum experimento foi necess ´ario para saber que n ˜ao apenas os escravos deveriam ser libertados, mas que os rec ´em libertos pre- cisariam ser inclu´ıdos na sociedade e isso s ´o aconteceria ap ´os reformas que garantissem a educac¸ ˜ao e o estabelecimento de direitos iguais, por exemplo. Segundo ele, o pr ´oprio Pop- per teria concordado ao escrever que “a diferenc¸a entre as engenharias ut ´opica e graduais torna-se na pr ´atica uma diferenc¸a n ˜ao tanto de escala e escopo” (PH, p. 63); um experimento gradual, ent ˜ao, por poder atingir proporc¸ ˜oes similares ao holista, seria n ˜ao mais que uma variac¸ ˜ao deste.

J ´a o segundo ponto seria n ˜ao mais que uma vit ´oria vocabular, diz-nos Mardiros. “Se por definic¸ ˜ao o planejamento holista ´e estabelecido como o planejamento de tudo, sem d ´uvida ´e imposs´ıvel”; contudo “pode-se asseverar a necessidade do planejamento de largo escopo e sua superioridade sobre planos graduais sem alegar que tudo precisa ser plane- jado” (1948, p. 343). Al ´em disso, o argumento de Popper tamb ´em falharia ao sustentar que experimentos holistas seriam obrigados a organizar a sociedade para que o plano pudesse funcionar, mas, ao fazer isso, seria imposs´ıvel analisar se o plano fora bem sucedido. Ora, isso tamb ´em acontece num experimento gradual. Se queremos eliminar a deliqu ˆencia deve-

11O historicista ignora que ´e poss´ıvel centralizar o poder, mas imposs´ıvel centralizar o conhecimento. Cf. PH, pp.78-9.

mos eliminar os fatores que a produzem, como a falta de educac¸ ˜ao, o desemprego, etc.. Isso modifica as pessoas. Logo, a mesma cr´ıtica poderia ser feita ao m ´etodo popperiano.

Argumento a favor de Popper afirmando que a cr´ıtica de Mardiros n ˜ao se sustenta. Sim, um experimento gradual pode atingir proporc¸ ˜oes similares ao holista. Todavia, Mardiros negligencia que um experimento inicialmente gradual s ´o atinge grandes proporc¸ ˜oes ap ´os um longo processo de deliberac¸ ˜ao e correc¸ ˜ao de falhas. N ˜ao devemos entender que h ´a (como Mardiros parece querer apontar) uma contraposic¸ ˜ao entre tipos de experimentos; h ´a antes um diss´ıdio entre doutrinas. Mardiros e os holistas j ´a assumem a priori que experimentos de grandes proporc¸ ˜oes s ˜ao poss´ıveis, ignorando (e denegrindo) o papel do pequeno trabalho cauteloso e detalhista. Popper, ao contr ´ario, prop ˜oe que busquemos primeiro tratar peque- nas falhas, para s ´o ent ˜ao almejar passos maiores. H ´a “uma diferenc¸a n ˜ao tanto de escala e escopo, mas no cuidado e prontid ˜ao para inevit ´aveis surpresas” (PH, p. 63). Voltemos ao exemplo da escravid ˜ao. Mardiros diz que n ˜ao foram necess ´arios experimentos para saber que os negros libertos deveriam ser inclu´ıdos na sociedade e como isso deveria ser feito; como ne- nhum experimento similar havia sido feito antes, um completamente novo era necess ´ario. Um experimento nos moldes daquele proposto por Mardiros seria conduzido dessa forma, bus- cando trac¸ar um plano de inserc¸ ˜ao completamente novo. J ´a Popper partiria de outro ponto: aquelas experi ˆencias anteriores efetuadas com populac¸ ˜oes desamparadas, por exemplo, po- deriam servir de base para o novo experimento. No caso daquele experimento proposto por Mardiros somos confrontados com um problema: como seriam poss´ıveis correc¸ ˜oes de efeitos indesej ´aveis num plano completamente novo? A resposta ´e simples: seria imposs´ıvel. Muito foi feito ao mesmo tempo, tornando imposs´ıvel detectar onde a falha ocorreu. O holista seria ent ˜ao obrigado a fazer uso de constantes improvisac¸ ˜oes, criando um fato curioso, um tipo de “planejamento n ˜ao planejado”. Essa correc¸ ˜ao seria poss´ıvel caso esse experimento houvesse sido planejado de acordo com a doutrina de Popper: um experimento que, mesmo atingindo grandes proporc¸ ˜oes, respeitou as diversas pequenas etapas que eram exigidas para a sua confecc¸ ˜ao e correc¸ ˜ao.