Ao estabelecermos uma comparação entre a frequência dos resultados obtidos no IANDM e no IANDC, verificamos que as crianças de 10 anos apresentaram Níveis Gerais de Desenvolvimento Moral (NGDM) e cognitivo (NGDC) superiores aos daquelas de 7 anos (Figura 24).
Assim, constatamos que a maior parte (sete) das crianças de 7 anos se encontra nos Níveis IA e IB, enquanto a maioria (nove) das crianças de 10 anos alcançou os Níveis IIA e IIB no IANDM. Com relação ao IANDC, a maior parte (seis) das crianças de 7 anos mostrou novamente características dos Níveis IA e IB, ao passo que as crianças de 10 anos se encontram em maior número atingindo os Níveis IIIA e IIIB.
Figura 24. Frequência dos Níveis Gerais de Desenvolvimento Moral e Cognitivo
segundo as idades dos participantes
0 1 2 3 4 5 6 7
7 anos 10 anos 7 anos 10 anos
IANDM IANDC P ar ti ci p an te s IA IB IIA IIB IIIA IIIB
Realizamos outra comparação entre os resultados obtidos no IANDM e no IANDC, conforme pode ser observado na Figura 25, por meio da qual verificamos que a maior parte (oito) das crianças de 10 anos possui NGDC superior ao NGDM, enquanto a maioria (oito) dos participantes de 7 anos se divide igualmente entre um grupo de crianças em que houve superioridade do NGDC, e um grupo com superioridade do NGDM. Além disso, dois participantes de 10 anos apresentaram NGDM superior e dois participantes de 7 anos apresentaram níveis gerais de desenvolvimento equivalentes nos dois instrumentos.
Figura 25. Relação entre os Níveis Gerais de Desenvolvimento alcançados pelos
participantes no IANDM e IANDC
Podemos ainda observar que, enquanto o número de participantes que apresentaram uma superioridade do NGDC tendeu a aumentar, o daqueles que expressaram uma superioridade do NGDM ou uma equivalência entre os dois níveis tendeu a diminuir (Figura 25).
0 1 2 3 4 5 6 7 8 7 anos 10 anos P ar ti ci p an te s Idade NGDC > NGDM NGDC = NGDM NGDM > NGDC
Biaggio (1999) e Koller (1994) concordam que tanto Piaget quanto Kohlberg supõem uma universalidade na direção dos estágios morais, em que o sujeito constrói o conhecimento, podendo vir a atingir níveis mais altos do juízo moral. Além disso, Piaget (1932/1994) enunciou que há um paralelismo entre os desenvolvimentos moral e intelectual, afirmando que muitos autores congregam desse mesmo ponto de vista (Freitas, 2002). Posteriormente, Piaget e Inhelder (1966/1998) assinalam tal correspondência em relação às operações cognitivas e estruturação de valores morais, destacando-o como paralelismo notável de equivalência “no terreno afetivo, às normas de coerência no terreno das operações cognitivas” (p. 109)
Conforme assinalam La Taille et al. (1992) em uma perspectiva piagetiana, a organização e o desenvolvimento de capacidades de raciocínio lógico estão exatamente em paralelo à organização do desenvolvimento moral. No entanto, ressaltam que a “capacidade e o ‘sentimento’” de que os produtos das deduções lógicas são necessários não são dados a priori, mas fruto de uma construção psicológica. “As raízes desta construção encontram-se em disposições já presentes na criança bem pequena” (La Taille et al., 1992, p. 67). Desse modo, Piaget (1932/1994) considera essa construção em uma perspectiva evolutiva, pela qual os sujeitos tendem à prática moral apoiada em relações sociais recíprocas, com base na justiça, e ao equilíbrio das estruturas cognitivas que visam à coerência e organização.
Para as 12 crianças que apresentaram NGDC superior ao NGDM tal resultado nos leva a inferir que, mesmo com a indissociabilidade entre as atividades moral e intelectual, a estruturação cognitiva encontra-se mais evoluída
do que a organização do juízo moral. Além disso, a inter-relação entre os aspectos afetivos e cognitivos não está sendo colocada em paralelo, etapa por etapa, ao longo da adaptação do sujeito ao meio (Lind, 2013; Tognetta & Assis, 2006). Sobre esse aspecto, a hipótese de Kuhnetal (1977, citado por Lind, 2013) é que, por mais que sejam indissociáveis os desenvolvimentos moral e cognitivo, a estruturação cognitiva precede a moral.
Para os dois participantes de 7 anos que apresentaram níveis evolutivos idênticos nos dois instrumentos verificou-se que os elementos cognitivos estão sendo desenvolvidos paralelamente aos de ordem afeto-moral. Assim como as crianças com nível cognitivo mais alto do que o moral, esses últimos participantes seriam, segundo Lind (2013), capazes de optar por orientações morais mais adequadas, ao passo que também têm maior capacidade de rejeitar orientações morais que consideram inadequadas, demonstrando melhores condições para realizar julgamentos morais.
No entanto, para os seis participantes que revelaram NGDM superior ao NGDC, denotando obviamente nível moral mais alto do que o cognitivo, com base nesse resultado, questiona-se: como compreender resultados que, num primeiro momento, parecem divergir dos da psicogênese piagetiana, ao revelarem nível evolutivo mais alto no juízo moral do que no desenvolvimento cognitivo? Apoiando-nos em dados registrados nos Apêndices digitalizados G e I e novamente no próprio Piaget (1932/1994), inferimos que as trocas e relações sociais não estão sendo satisfatórias ou não estão promovendo desequilíbrios a ponto de canalizar “sentimentos” e “afetos” capazes de regularizar os aspectos do desenvolvimento moral.
Sobre isso, La Taille et al. (1992) observam que o conceito de abstração reflexiva não fora utilizado por Piaget (1932/1994), ao investigar a psicogênese do juízo moral, porém expressa a ideia de que um equilíbrio possa ser atingido paulatinamente evidenciando o processo de tomada de consciência entre os aspectos moral e cognitivo. Apesar disso, Lind (2013) alerta sobre o fato de que podemos encontrar dados empíricos que falseiam a competência dos sujeitos, caso os participantes não possuam motivação para fazer uso de seu nível real de desenvolvimento cognitivo. Consideramos que esses participantes carecem de motivação suficiente em nível familiar e escolar para pôr em ação todas as suas possibilidades cognitivas. Somando-se a isto, não podemos deixar de considerar que a organização funcional e estrutural do desenvolvimento cognitivo esteja menos evoluída do que o desenvolvimento moral, por sofrer maior influência do egocentrismo intelectual que fora observado nas respostas dos participantes, seja no IANDC (pela dificuldade de descentração de seu ponto de vista), seja no IANDM (reforçado pela coação e respeito unilateral que puderam ser constatados nas declarações dos sujeitos).