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CHAPITRE 4 OBTENTION ET TRAITEMENT DES IMAGES

4.2 Méthode d’obtention des images

Um ponto que pode amarrar e separar o que pertence ao religioso e o que pertence e singulariza médico é a questão do dom e da gratuidade. Essa questão é extremamente importante porque envolve a relutância do pagamento, a circulação monetária e o cuidado com o pagamento. Obviamente que a reza está circunscrita numa lógica do dom. No momento que se paga os serviços de reza89 com dinheiro se rompe a circulação, a relação, estabelecendo-se apenas um contrato. A questão do dom e da gratuidade é fundamental, pois talvez esteja nela o que vai diferenciar o trabalho realizado pelas rezadeiras dos profissionais de saúde (aqueles que cobram, que são pagos).

Gostaria de notar que o serviço público de saúde é também gratuito e a princípio o atendimento não é pago. Creio que a distinção envolve o tipo de burocratização e especialização do trabalho como um profissional de saúde. Além do ideário de dicotomização corpo e mente que a biomedicina afirma. Não é apenas o tema da gratuidade.

O sentido de gratuidade e da solidariedade é compartilhado e entendido pelos membros da comunidade. O ato de doar é a mola propulsora que mantém a interação entre a rezadeira e o cliente. No instante que ela quebra o pacto da gratuidade, seu dom de curar também perece, porque na hora que se paga, não existe mais um vínculo estreito de afinidade.

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É interessante perceber que embora as rezadeiras aceitem “os agrados e os presentes”, como costuma se referir, se esforçam para que fique claro a não obrigação de um pagamento. Deixam a critério dos clientes decidirem se elas necessitam ser recompensadas pelos feitos. Se a pessoa achar que deve me dar alguma coisa eu recebo, pois não sou tão mal agradecida assim, disse doma Chiquinha.

Estamos lidando com relações recíprocas de doação e solidariedade. Percebe-se claramente na opinião de dona Santa esta preocupação.

Muitas rezadeiras se a pessoa não levar uma coisa [presentes]... faz sacrifício para rezar. Eu não quero receber uma caixa de fósforos, porque a minha oração não é de receber nada. Mesmo quando eu não era aposentada eu nunca no mundo quis nada por reza. Aí vou querer agora? Isso não pode, porque qualquer pessoa pode inventar um meio de vida usando a reza. Eu quero que tenha quem diga que a velha Santa reza pra ganhar (Informação verbal,junho/2006 ).

Sobre esta questão que envolve o dom da gratuidade Quintana (1999, p. 89) vai dizer o seguinte:

Uma cobrança por parte da benzedeira viria a manchar, a sujar tanto o trabalho realizado como a imagem de quem o realiza. Ao colocar um preço e vender os seus serviços, ela estaria deixando de ter as qualidades de bondade e pureza, as quais lhe possibilitam sustentar um lugar especial em manter o dom.

Na verdade, o dom remete diretamente a um assunto que foi brilhantemente discutido por Marcel Mauss (2003), o seu ensaio sobre a Dádiva. Antes de prosseguir a discussão, necessário se fez definir o que é a dádiva. De acordo com este autor, as dádivas são trocas simbólicas, por onde quem recebe também sente-se na obrigação de retribuir. É uma relação de mútua troca, seja de bens materiais ou simbólicos. Isso fez-me pensar a relação de reciprocidade entre a rezadeira e o cliente, ou seja, enquanto a rezadeira realiza seus serviços de cura sem estabelecer um preço, a pessoa que obteve a cura sente-se na obrigação de retribuir o que recebeu (o restabelecimento da saúde). Assim, “as dádivas circulam tendo com garantia a virtude da coisa dada” (MAUSS, 2003, p. 236).

Alguns clientes se sentem na obrigação de agradar as rezadeiras porque percebem o esforço e o desgaste realizados por essas mulheres, ou seja, além de cuidarem da casa, dos filhos, elas ainda cuidam das pessoas que buscam por rezas. Em muitos casos, quando os clientes chegam à casa de uma rezadeira, ela está cuidando dos afazeres domésticos. E, nesse momento, interrompe os seus afazeres para atendê-los. Então, de acordo com os clientes, os

presentes são para recompensá-las pelo desgaste e, ao mesmo tempo, em agradecimento pela

boa vontade de rezar.

Outro fator interessante que verifiquei enquanto estava realizando esta pesquisa foi a dedicação e a tenacidade com que estas mulheres realizam suas rezas. Esta situação fica mais evidente quando perguntadas se elas pensam em deixar de rezar.

Olhe, o dom de curar foi uma bênção que Deus me deu. Isso eu digo a todo mundo, porque passei muitos casos assim.... sofrendo, sabe. Mas nunca fui de chamar nome [blasfemar], nunca fui de chegar nas casa dos vizinhos contando a minha situação. Aí, quando foi um dia Deus viu que eu sofria calada , sem chamar nome. Graças a Deus sou muito feliz com a reza que eu rezo (Informação verbal, rezadeira Barica, fevereiro/2006. Grifo do pesquisador).

Na fala das rezadeiras, o aprendizado das rezas foi um presente obtido através de Deus e que, implicitamente, ela terá que retribuir, realizando curas nas pessoas que procurarem por seus serviços. Pois, não se tem o “direito de recusar uma dádiva” (MAUSS, 2003, p. 247). O não ter direito de recusar no contexto da benzeção, significa poder rezar em qualquer criatura, seja homem, animal ou vegetal. “Não meu filho, eu não cobro. Deus me livre, eu não vou vender as palavras de Deus. Rezo e não quero um tostão furado” (Informação verbal, dona Maria de Júlio Ubilino, abril/2006). Quando o recebimento do dom envolvia um problema de saúde, como foi o caso de Barica e de dona Rita de Ramim, esta responsabilidade de rezar sem olhar (e diferenciar) a quem lhe procura e até quando (o tempo que) Deus permitir é seguida à risca, pois, de acordo com dona Rita de Ramim, parar de rezar significa ter de volta tudo de ruim que passou antes de ser “doutrinada”:

Eu era médium de nascença. Aí foi meu pai me levou a um mestre da Bahia que me doutrinou. E ele foi me doutrinando, e foi descobrindo guias. Disse que só de encosto em cima de mim tinha sete caboclos ruins do mato. Então, logo que eu cheguei, comecei a trabalhar e o mestre me ensinou que eu botasse um cacho de rosa branca na mesa e um galho de mato verde. Eu sempre mantenho um copo com água na mesa (Informação verbal, maio/2006).

De acordo com este depoimento, percebe-se claramente a consciência que a rezadeira tem em cumprir os ensinamentos que o dom lhe impôs, caso contrário teme voltar a conviver com os “guias mal feitores” que lhe faziam desmaiar e correr mata adentro. Enfim, “em caso de renúncia ou abandono das dádivas os indivíduos sofrerão as penas cabíveis” (MAUSS, 2003. p. 247).

A obrigação de dar e retribuir, elementos cruciais da dádiva estão nitidamente presentes no processo da benzeção, tanto por parte da rezadeira quanto da clientela. No caso da rezadeira ela não pode provar que possui o dom da reza a não ser realizando gratuitamente suas curas (doar). De acordo com Mauss (2003, p. 243), “um chefe só conserva sua autoridade sobre sua tribo e sua aldeia se provar que é visitado com freqüência e favorecido pelos espíritos, e ele não pode provar esse dom a não ser distribuindo”.

“Já a obrigação de retribuir dignamente é imperativa. Perde-se a face para sempre se não houver retribuição” (MAUSS, 2003, p. 250). Embora, no campo da benzeção não se

chegue a tal extremo, a pessoa que usa os serviços se sente na obrigação de presentear a rezadeira, porque da próxima vez que retornar sabe que será bem recebido por ela.

Embora esse retribuir não esteja explicitamente concretizado num pagamento, os clientes sentem-se na obrigação de agradar as rezadeiras em troca da reza. Observei que os clientes ao chegarem às casas das rezadeiras sempre conduziam alguma coisa numa sacola de supermercado. Na verdade, era uma forma encontrada de retribuir pelos serviços oferecidos por elas. Evans-Pritchard (2005, p. 97) observou situação comum entre os Azande quando estes buscavam ajuda dos adivinhos:

Aqueles que desejam consultar os adivinhos trazem pequenos presentes, que colocam diante do homem de cujos poderes oraculares desejam usufruir. Estes presentes podem ser pequenas facas, anéis, piastras, mas consistem mais freqüentemente em pequenas medidas eleusina, feixes de espigas de milho e pratos de batata-doce.

Em se tratando das rezadeiras, os presentes mais comuns eram de gêneros alimentícios, como um quilo de açúcar, um pacote de fubá, um pacote de macarrão, etc. Algumas vezes, presenciei o pagamento sendo feito com dinheiro. Quando a pessoa dava o dinheiro fazia questão de dizer: “Tá aqui dona fulana para você comprar um quilo de carne ou uma fruta que você gosta”. Talvez fazendo esta associação com as necessidades básicas, o caráter do pagamento ficasse em segundo plano, pois, como bem frisou Araújo (2004, p. 245), “os clientes agradam as rezadeiras talvez por causa da saúde restabelecida, em sinal de agradecimento”. Pude observar também que nem sempre as pessoas traziam algum presente no primeiro dia de tratamento. Como a rezadeira sempre orienta a seus clientes a retornar mais de uma vez, de preferência três rezas, da segunda ou última vez estes traziam presente para ela. Como supõe o autor acima, talvez como forma de agradecimento de poder gozar de saúde.

O dom, como bem coloca Rabelo e Mota (2006, p. 16), em seu trabalho sobre as mulheres evangélicas, “também lança a mulher em um novo e ampliado circuito de relações”. Embora as autoras estejam retratando uma realidade de crença religiosa diferente do contexto das rezadeiras, a questão do dom é algo incomum. Neste sentido, observei que através do dom da cura, as rezadeiras conseguem ampliar suas redes de relações na própria comunidade e até fora. No caso de Barica isso fica evidente quando ela diz que hoje se sente feliz quando as pessoas falam com ela na rua, quando chega alguém de posse em sua casa, quando é chamada para ir rezar nas casas das pessoas, ou até em outra cidade.

1,00 1,49 1,49 1,99 2,99 3,98 84,33 0 20 40 60 80 100 Percentual (%) Santa Cruz Jardim do Serido Outros Estados Caicó Natal Acari Cruzêta

Procedência: Principais Cidades

Figura 15 – Gráfico apresentando a Procedência da clientela da rezadeira (dados do pesquisador).

A figura acima permite observar um pouco da procedência da clientela da rezadeira Barica durante o mês de fevereiro de 2006. Veja que em sua maioria, 84,33% das pessoas atendidas são de Cruzeta, em seguida, 3,98% são provenientes de Acari, 2,99% de Natal, 1,99% advindas de Caicó, de outros estados representam 1,49%. Ainda que a clientela esteja maciçamente concentrada em Cruzeta, como era de se esperar, há pessoas de outras localidades que também buscam seus serviços de cura.

Da mesma forma que a atividade da reza desenvolvida por algumas rezadeiras não limita-se apenas em realizar curas em casa. Elas estão dispostas ir aonde o mal esteja desarmonizando, seja na cidade ou no campo. Era comum chegar um moto taxista na casa de Barica, a mando de algum cliente para ela ir rezar.

2.4 INICIANDO O RITUAL: “COM DOIS TE BOTARAM, COM TRÊS JESUS