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1.4 Mise en évidence de biais de composition

2.1.3 La méthode InteroPorc

Campo e cidade são categorias nas quais as narrativas literárias se ambientam para fornecer informações sobre localidades e paisagens. Porém, mais do que um pano de fundo cenográfico, essas duas instâncias comportam cargas simbólicas diferenciadas, fazendo alusões e juízos aos usos sociais do espaço. As representações do campo e da cidade carregam uma série de imagens, positivas ou negativas. Raymond Willians, pesquisando as representações do campo e da cidade na literatura inglesa, apresentou uma generalização dessas alusões (WILLIANS, 1989):

 Campo (+): lugar de virtude, paz e inocência;  Campo (-): atraso, ignorância, limitação;

 Cidade (+): local de realizações, comunicações, vida cultural, etc.;  Cidade (-): barulho, ambição, vício, etc32.

É frequente que essas representações apareçam em pares opostos, campo (+) & cidade (-) ou campo (-) & cidade (+); trata-se de uma disputa acerca de qualificativos atribuídos aos espaços socialmente ocupados. A contraposição campo X cidade pode aparecer sob outros termos, tais como sertão X litoral, selva X costa, capital X província, metrópole X pequena cidade etc. Busca-se sempre a diferenciação e a demarcação de fronteiras com a produção de cartografias capazes de naturalizar e legitimar as relações de poder. De tal modo que os escritores seriam alguns dos “cartógrafos” desses imaginários. No entanto, essa operação de distinção entre campo e cidade, visível na literatura e em outras formas de arte, corresponde a uma estratégia discursiva que, em muitos casos, oblitera as complementaridades entre os dois polos.

Em muitos casos, as representações do campo e da cidade estão articuladas em

torno da relação centro-periferia. As regiões consideradas privilegiadas exploram e subordinam, simbólica e politicamente, as zonas periféricas. Conforme exemplifica Raymond Williams (1989, p.375), as mansões senhoriais inglesas foram viabilizadas pelos lucros do comércio mercantil e da exploração colonial. Aliás, a literatura brasileira não escapou dessa polarização, possuindo seu próprio conjunto de representações positivas e negativas acerca do interior e da capital. De todo modo, em termos de imaginário, o grande ethos da intelectualidade brasileira foi Paris, a cidade-luz. Em muitos casos, a visão eurocêntrica implicou em uma leitura negativa do Brasil, generalizado como uma região silvícola e atrasada33.

Alguns escritores, no entanto, problematizaram os imaginários sobre Paris. O escritor português Eça de Queirós (1845-1900), por exemplo, elaborou uma visão crítica sobre Lisboa que destacava tanto o suposto provincianismo da cidade quanto a valorização da cultura parisiense. O romance O primo Basílio (1997 [1878]) narra o adultério Luísa com o primo recém-chegado de uma longa viagem ao Brasil e à Europa. Os qualificativos atribuídos por Basílio – um aventureiro no sentido simmeliano – a Lisboa não eram nada lisonjeiros. A insistência de Basílio em desqualificar Portugal atinge a comicidade, tudo no país era pior: moda, restaurantes, teatro, touradas. Lisboa, representada como uma “aldeola”, não teria atrativos suficientes para despertar o interesse de um cosmopolita. Eça de Queirós estava questionando a tendência dos lisboetas em desvalorizar a própria terra.

Nessa narrativa, há uma imagem que emerge do Brasil, a de um território quase selvagem. De fato, há poucas menções ao Brasil neste romance, porém não são

33 Nesse sentido, o esforço de representar o Brasil é, sem dúvida, uma descrição da ocupação dos espaços:

“O escritor-sociográfo pensa sua obra como revelação o Brasil ignoto, ainda não conhecido pelos patriotas, seus leitores.” (SOUZA, 1997, p.36). Desse modo, as representações literárias do campo e da cidade buscavam qualificar as diferentes partes do Brasil em um discurso de construção da nação. Porém, nem sempre a tônica foi a da valorização da experiência urbana, Euclides da Cunha, por exemplo, fazia contrapunha Rua do Ouvidor a Caatinga, tomando o próprio interior como mais autêntico que o litoral (LIMA,1998).

lisonjeiras. Basílio recupera a riqueza de forma um tanto escusa, envolvendo-se com o tráfico de escravos34. Como se vê, as representações do campo e da cidade são fluidas e

relativistas; Basílio generaliza o Brasil como um sertão. Já Paris é o contraponto, ápice da civilização e cultura. Lima Barreto, por sua vez, problematiza a relação colônia- metrópole, indicando como o africano foi suporte para as regiões rurais e urbanas. Em sua construção narrativa, a organização do espaço fluminense seguia tal lógica, já que as mulheres negras, moradoras dos subúrbios, despertavam o desejo sexual, mas não eram matrimoniáveis.

Segundo Raymond Willians, o par campo-cidade discorre acerca da inteligibilidade do real: “O contraste entre campo e cidade é, de modo claro, uma das principais maneiras de adquirirmos consciência de uma parte central de nossa experiência e das crises de nossa sociedade”. (WILLIANS, 1989, p.387). Em muitos casos, os países pós-coloniais mantiveram imaginários eurocêntricos, gerando embaraços para a identificação das elites intelectuais com a população. Por isso, as propostas de reformas urbanas foram tomadas como válidas para aproximar as antigas colônias dos países colonizadores.

É o caso do Brasil, no qual o processo social referente à modernização da cidade do Rio de Janeiro foi objeto da literatura na transição dos séculos XIX-XX. Conforme já sugerido ao longo deste capítulo, as representações da cidade são metáforas e metonímias da modernidade brasileira, informando sobre as sensibilidades e as sociabilidades. Essas representações dispõem de um conhecimento complementar à própria teoria social, pois abordam temáticas da vida moderna. Por exemplo, a inserção

34 A passagem abaixo destaca o aspecto exótico do Brasil: “Ela [Lúcia] sorriu, perguntou:/ - E no Brasil?/

Um horror! Até fizera a corte a uma mulata./ - E por que te não casaste?.../ Estava a mangar! Uma mulata! (QUEIRÓS, 1997, p.37)”. O Brasil é representado como um território bárbaro, onde o português pode até desposar mulatas. Esse aspecto merece ser mencionado porque Lima Barreto vai tomar as relações entre as negras e os portugueses como uma dimensão das relações entre os mundos europeu e africano. O conto “Um especialista”, originalmente publicado na primeira edição de TFPQ (1915) discorre sobre um português obcecado por mulatas que descobre em uma de suas amantes a própria filha que jamais conhecera.

do indivíduo no mundo urbano-industrial; tratando-se, mais uma vez, da representação da multidão:

É impossível ler as primeiras descrições de movimentadas ruas de metrópoles – as pessoas vistas como átomos isolados, fluindo nesta ou naquela direção; uma corrente comum de identidades e direções separadas – sem ver, ao lado delas, este modo de relação representado pelo automóvel: privado, fechado, um veículo individual num fluxo comum que o pressiona e é apenas um aglomerado de indivíduos; certas convenções subjacentes de controle externo, mas dentro delas uma rápida sucessão de sinais de alerta, proibição, concessão, irritação, enquanto seguimos, cada um o seu caminho individual, porém num modo comum. (WILLIANS, 1989, p.396-397)

O excerto acima revela algumas das mais persistentes representações da cidade, não só na literatura, mas nas artes em geral: trata-se da atomização social provocada pela industrialização e urbanização. Nos romances de Dickens, nas graphics novels sobre Nova York, de Will Eisner ou no filme Metrópolis, de Fritz Lang, as menções às multidões, às maquinarias e aos meios de deslocamento compartilham um mesmo ethos acerca da vida moderna. Portanto, contrapontos como norte/sul, campo/cidade, metrópole/colônia, capital/província, grande cidade/pequena cidade são representações do espaço que hierarquizam os campesinos e os urbanoides. A sociologia também buscou estes contrapontos, como, por exemplo, a tensão entre a grande e a pequena cidade.

De fato, Georg Simmel comparou cidade e vila, identificando diferentes formas de sociabilidade. Para Jean Remy (2012, p.21-24), o pensador alemão entendeu a urbe como uma rede social composta por seres humanos com interesses divergentes. A grande cidade seria, portanto, lugar da abstração e da intelectualidade, em contraposição ao interior que cultivaria a vicinalidade e a sensibilidade. Nesse sentido, a importância do elemento quantitativo no dimensionamento da vida metropolitana, capaz de alterar a “natureza” dos laços sociais. A multidão e a metrópole são, compreensivelmente, representações marcantes da modernidade. Nessa mesma medida, a capital aparece

como a representação do poder em sua manifestação espacial. Ou seja, a cidade moderna não é só a metrópole, mas também a capital.

O fundo de conhecimento para a categoria de “capital” é a História Moderna da Europa, sobretudo o século XVII. A construção das monarquias nacionais demandou centralização política e econômica. O Estado moderno foi praticante do colonialismo nas Américas e assim estruturou uma relação do tipo centro-periferia. O fortalecimento dos monarcas perante os feudos e a Igreja implicou na transformação de algumas cidades em capitais, isto é, moradas reais e sedes do absolutismo. Tais cidades concentraram atribuições administrativas, dispondo de aparato burocrático e militar permanente, inclusive com exibições públicas de força – desfiles das tropas e exercícios de campo. Em suma, a cidade capital passou a representar a imagem do soberano. Argan explica o processo:

Como esquema de organização do espaço, a cidade-capital difere profundamente da cidade medieval com a sua vida de bairro. Ela prevê um rápido aumento da população urbana, um tráfego que se estende por toda a área da cidade, núcleos destinados à atividade política e administrativa, quando não a permanência de fortes contingentes de tropas. O tráfego crescente de veículos demanda ruas largas e retas, que convergem para praças amplas: o traçado variado passa a ser a grande determinante urbanística. O espaço urbano se torna uma rede de ruas e nós de comunicação; os edifícios que representam a autoridade política e religiosa constituem os centros da vida pública. Também se transforma a relação tradicional entre cidade e campo: a antítese clássica entre civilização e natureza é superada pela distinção de classe entre citadinos e interioranos. A capital funda o seu prestígio sobre o passado histórico, mas com uma perspectiva aberta para o futuro. A expansão da cidade se dá por meio de planos, com a intervenção do soberano e do governo. (ARGAN, 2004, p.72)

Além disso, a pujança econômica e a supremacia cultural forneceram às capitais uma hegemonia para com as províncias. Surge a admiração dos interioranos pelas cidades-sedes, um consenso construído acerca da proeminência e do vanguardismo das capitais. Conforme mostra Argan, Paris seria o exemplo típico, até pelas características do absolutismo francês; inspirada em Roma, a cidade se adorna de fachadas contíguas

ao longo das ruas, exibindo um tecido urbano uniforme com monumentos para contrastar essa continuidade (ARGAN, 2004, p.74). De qualquer forma, a circulação se manteve como função primordial da cidade capital e, desse modo, um desafio para as massas foi permanecer nesses canais de locomoção.

A noção de capitalidade sugere uma cidade ciente de sua grandeza. Portanto, as representações literárias da capital mencionam o prestígio político e o poderio econômico. Um esquema do tipo campo-cidade continua operante: atribuições positivas ao urbano e desvalorização ao rural/interiorano. A dita valorização do urbano impõe a adaptação a um modo de vida, sob o risco da desqualificação social. Desse modo a sensação de estranhamento é quase uma auto-expiação, isto é, uma confissão da impossibilidade de adequação plena a um determinado cotidiano. Nesse sentido, as próprias distinções entre “estrangeiro” e nativo ficam atenuadas. Além disso, a capital é cosmopolita, nela convivem distintos segmentos sociais; porém, os regimes de cidadania e as formas de usufruto são, evidentemente, diferenciados.

Nesse sentido, as representações da cidade do Rio de Janeiro na literatura de Machado de Assis pronunciam as sociabilidades existentes na polis brasileira. Os personagens que almejavam a vida política dirigiam-se para a corte, sempre em acordo com as lideranças provinciais. Mesmo a república não alterou esse modus operandi; em Esaú e Jacó (1953 [1904]), por exemplo, as tensões entre os irmãos Pedro e Paulo metaforizam diferenças circunstâncias, tais como o conflito entre monarquistas e republicanos ou mesmo entre cariocas e paulistas. Mas o Rio de Janeiro, invariavelmente, ocupa o primeiro plano da narrativa. Na verdade, nas aventuras amorosas pela conquista de Flora, Pedro levava ligeira vantagem tática, já que estava no Rio de Janeiro cursando medicina, ao contrário do irmão, acadêmico de direito do Largo de São Francisco.

A respeitabilidade política sugerida nas representações literárias da obra de Machado de Assis é colocada à prova pela crítica barretiana. Não que Machado se isentasse da crítica, pelo contrário, mas os seus personagens frequentam o universo dos “medalhões”. Já Lima Barreto busca distanciamento da elite política do Rio de Janeiro, tematizando não só a corrupção como também a indiferença dos ricos quanto ao subúrbio. Nesse sentido, a literatura de Lima Barreto faz uma incursão pelas margens e arredores da capital, porém sem a negação da condição política da cidade. O major Quaresma, por exemplo abandona o sítio para ir ao encontro do Marechal Floriano a fim de se antepor aos revoltosos que invadiam a capital. Em suma, para ambos, as questões da cidade moderna e da cidade capital estão colocadas.

Com efeito, há muitas representações da cidade-capital na literatura de Machado de Assis. O Rio de Janeiro é espaço convergente, para onde afluem as tramas individuais – a cidade aprece como local de apostas, riscos e aventuras. O contexto histórico é a transição do Império para a República. Lima Barreto, por sua vez, abordou atributos modernos da cidade, suas alusões à influência da imprensa e às reformas urbanas o aproximam da tradição literária naturalista. A modernização da cidade, já no regime republicano, era um mecanismo de estranhamento. Isto é, as representações literárias de seus textos abordam uma crise da cultura, ao sugerir a influência francesa em detrimento das tradições locais.

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Como vimos, este capítulo introduziu a categoria de representação literária na análise sociológica, fundamentando-se nos aportes de Pierre Bourdieu (1989; 1996) e Roger Chartier (2002). Em seguida, este instrumental de análise foi aplicado nas elaborações literárias acerca da modernidade e da cidade moderna. Por fim, foram identificados os conteúdos precisos que interessam à pesquisa, como os sentimentos de

indeterminação, aventura e estranhamento que atravessam a experiência da vida moderna, bem como a própria relação campo-cidade e capital-província. O capítulo seguinte aborda a representação da cidade do Rio de Janeiro a partir das perspectivas oriundas da historiografia literária, tentando identificar em que medida as reflexões de Lima Barreto e Machado de Assis se articulam com a capitalidade da cidade fluminense.

Capítulo 2 |A capital e os seus estranhos: cidade e literatura