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Méthode : Estimations, prédictions, mobilité et causalité

Lula aparece no escritório-cenário. Neste momento, Lula, faz uma avaliação da situação, chegando à conclusão de que não é comida o que falta, mas dinheiro para as pessoas comprarem sua alimentação – emprego, enfim. Luiz Inácio faz uma avaliação das autoridades, dizendo que elas ignoram a miséria, principalmente o Presidente da República: para Lula, o homem que exerce esta função deve enfrentar este problema, fazendo com que os mais pobres possam ter pelo menos o que comer. Ele fala em tom sério, de denúncia. A crítica ríspida que faz às autoridades e ao Presidente é movida por um sentimento de indignação. O que ocorre aqui é um julgamento, não em termos isentos como se quer às vezes conseguir nos tribunais, mas com envolvimento (neste momento, Lula atua como porta-voz das pessoas que vivem em situação semelhante à mostrada no documentário), com interesse. Pode-se dizer que o discurso de Lula é movido pela paixão, pelo desejo:

Há paixões que julgam e avaliam pela afirmação, pela recusa, pelo acatamento e pela dúvida (dependendo de elas se fixarem nas posições epistemológicas da certeza, da exclusão, da probabilidade ou da incerteza). Esse juízo-paixão que avalia e atua é ao mesmo tempo fundamentalmente erotético: ela é o desejo em seu querer, seu saber, seu ser-capaz e seu dever. Se a paixão tem suas razões – e as razões para avaliações são valores – é porque o desejo, esse não “estar à vontade” (uneasiness), de que fala Locke, é o que há de mais razoável. O universo do pathos, pensava Locke, contra os cartesianos, é atravessado por inteiro pelo desejo, e é isso que torna o pathos fundamentalmente razoável. (Parret, 1997, p. 123-4)

Como avaliação de uma postura do Presidente e de outras autoridades (que é posta como sendo errada) e como chamamento à ação (voto) para que a injustiça seja desfeita, o pronunciamento do candidato nasce de uma atitude de não-aceitação das desigualdades sociais, do sofrimento das pessoas que estão à margem da riqueza e do progresso. Neste sentido, ele aparece como uma pessoa capaz de falar em nome de uma coletividade de miseráveis – o que aparece como sendo “[...] simultaneamente seu privilégio e seu dever, a sua função própria, numa palavra, a sua competência (no sentido jurídico do termo)” (Bourdieu, 1998c, p. 114).

Em seguida, um videoclipe com fragmentos de uma música cantada pela dupla Zezé di Camargo e Luciano, e imagens de pessoas em situação de miséria, reforça a sensação de abandono e de esquecimento no que diz respeito à relação dos governantes com pessoas pobres como aquelas.

Em seu retorno à tela, Lula descreve o triste caminho que percorreriam muitos dos jovens que realizam o êxodo, buscando uma vida melhor nas grandes cidades, mas que encontrariam lá somente o contraponto triste do progresso: as drogas, a violência e a falta de moradia, de emprego e de alimento. De acordo com o candidato, eles se juntariam, então, a um grupo de pessoas sofridas, que, das coisas boas que uma cidade grande pode oferecer, só teriam praticamente a necessidade, restando a elas o estigma, a falta de esperança e o esquecimento de um poder público que, quando “não pode”, não quer ajudar. Fariam parte de

um grupo de rejeitados que, na visão de Lula, sofreriam com o que “talvez” seja “a fome mais injusta e mais cruel”, porque sofrida não em lugares distantes e áridos (como o sertão nordestino), mas, contraditoriamente, próximo ao “progresso” e à “riqueza”.

No infográfico que apresenta as propostas de Lula para combater a fome, a miséria, a violência e “os principais problemas do povo”, é destacada a necessidade de “emprego digno e salário justo”. Algumas das propostas surgem como tentativas de dar às pessoas pobres a oportunidade de “caminhar com as próprias pernas”; outras se mostram como respostas emergenciais a situações urgentes, tentando combater a miséria através do que alguns chamariam de “esmola”, mas que, em um primeiro momento, poderia ser eficaz até que os outros programas de geração de emprego e renda pudessem alcançar os mais necessitados.

Lula retorna ao vídeo para mostrar claramente sua postura no que diz respeito à miséria, que, ele volta a enfatizar, é a de não conformismo, realçando a sua intenção, sintetizada na palavra “esperança”, de proporcionar fartura e oportunidade para todos caso seja eleito. Sua expressão facial chega a mudar: quando fala que não se conforma com a pobreza, seu rosto está contraído, expressando a idéia de miséria com uma conotação de algo nojento; quando fala de “esperança”, sorri confiantemente enquanto fala – há inclusive um esboço de movimento de piscadela, quando ele inclina um pouco sua cabeça, buscando empatia com o espectador, no final de sua fala.

O apresentador surge, diante de uma imagem de uma casa pobre, falando quase por sussurros. Ele destaca a dupla orientação que um eventual governo de Lula teria: para o desenvolvimento da nação e para o solucionamento dos problemas dos mais pobres, que, como enfatiza, são muitos. No momento em que diz “mas não esquece também de olhar pra baixo, pros pequenos, pros famintos”, refere-se, implicitamente, aos governantes,

principalmente presidentes; assim como afirma que Lula teria as qualidades ideais para governar o país.

A vinheta de encerramento é um videoclipe com o jingle da campanha, Agora é

Lula. A origem do slogan “Agora é Lula” tem algo interessante a dizer sobre a relação de

Lula com os que ocuparam a Presidência nos últimos mandatos. Em seu livro, Duda Mendonça relembra uma experiência do início de sua carreira, a composição de um slogan para uma amiga,

[...] candidata a prefeita da cidade de Araci, no interior da Bahia. Ele [sic] é conhecida na cidadezinha como Nenca. O slogan, muito simples, dizia: “Agora é Nenca”. É que ela havia disputado o pleito anterior. Tudo apontava para a sua vitória. Mas ela perdeu. Na reta final, seu adversário, com um razoável poder financeiro, acabou conquistando certos segmentos da cidade, e levou a melhor. Mas não foi um bom prefeito. Quase chegou a ser deposto, por corrupção. Então, quando veio a nova eleição, Nenca voltou a se candidatar. Novamente contra ele, que queria se reeleger. E as pessoas da cidade, insatisfeitas com a administração que acabava, diziam para ela: ‘Agora é a sua vez, Nenca’. O que fiz foi transformar a frase num slogan. Aproveitei aquela coisa espontânea. Não bolei nada de ‘criativo’. E Nenca venceu. (Mendonça, 2001, p. 87)

A história guarda semelhança com as eleições de 1989, quando, dizem os petistas, Lula foi derrotado “por um golpe sujo”. Em seguida, envolvido em denúncias de corrupção, Collor teve de renunciar para não ser deposto. Pesquisas sucessivas realizadas em 1992 apontaram que Lula teria sido eleito se as eleições tivessem sido realizadas naquele momento (Paraná, 2002, p. 30). As duas derrotas seguintes para Fernando Henrique Cardoso, que no fim de seu último mandato tinha péssimos índices de popularidade, dão força maior ao slogan, que reforça a idéia de que a população se cansou “deles” e que, desta vez, é Lula quem merece ser eleito. Analisando os dados obtidos em pesquisas qualitativas realizadas no ano de 2001, tendo em vista conseguir material para fazer campanhas para o PT e para Lula, Duda Mendonça destaca que “a frase ‘o PT merece uma chance, uma oportunidade’ era cada vez mais ouvida” (Mendonça, 2001, p. 262), o que condizia com um sentimento de

desapontamento partilhado pela população. Assim, o slogan de Lula tem um duplo aspecto, já que é ao mesmo tempo conjuntivo e disjuntivo, de união e de enfrentamento. No jingle, o

slogan é posto de uma maneira eufórica, convidando o eleitor a aderir à candidatura de Lula.

2.3.2 O duplo aspecto do programa

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