Aberto em 1936 sob a modalidade de internato e externato, este colégio teve como Fundador uma figura que, além de notável pedagogo, se destacou na vida política do seu tempo pela adesão aos ideais republicanos de 1910 e, mais tarde, pelo combate à ditadura salazarista, durante a qual conheceu o exílio e a prisão. Concebido como um estabelecimento de ensino livre e pedagogicamente avançado, acolhe no seu corpo docente personalidades de elevada craveira afastadas do ensino público por razões ideológicas, depressa se afirmando no atávico panorama educativo português como um pequeno reduto de liberdade de expressão e dos valores da cultura por onde passarão, como alunos, algumas figuras relevantes da vida político-cultural.
Mantido, desde então, sob a Direção da mesma família, o colégio preserva o legado do seu Fundador, como é visível no atual Projeto Educativo. Instrumento planificador e orientador, a longo prazo, da vida escolar, ele constitui, enquanto expressão de identidade e de autonomia, um documento onde a escola se autodefine, isto é, onde “(…) afirma as opções da escola- comunidade educativa quanto ao ideal de educação a seguir, as metas e finalidades a perseguir, as políticas a desenvolver” (Carvalho e Diogo, 1994, p.47). Perfilhando a definição de Escola enquanto “organização dinâmica” (Projeto Educativo, p.1), o colégio laico assume- se como uma instituição educativa aberta ao meio e em contínuo ajustamento a uma realidade que, em função das variáveis espácio-temporais, se encontra em constante mutação. Neste quadro de mudança, exige-se dos educadores que não se limitem à aplicação mecânica de “modos de fazer ou pensar” (p.1) do passado e que encontrem, enquanto agentes de um
conciliar a ajustabilidade – às mudanças e exigências do meio envolvente e da sociedade em geral – e a preservação do que constitui a identidade e individualidade da instituição. O Projeto Educativo desta escola dá corpo a essa “ideia de futuro” que se pretende partilhada por toda a comunidade educativa. Mas enquanto expressão identitária de uma instituição fundada na base dos princípios humanistas e da educação para os valores, reafirma a defesa dos princípios intemporais instituídos pelo seu Fundador: “(…) aqueles que admitem a singularidade por aceitarem a pluralidade e que defendem o respeito pelo indivíduo, na sua diferença e naquilo que o une aos outros: a dignidade e liberdade do espírito humano”, consideradas como “única condição absoluta e a razão de ser do trabalho educativo” (p.1).
O colégio assume como traço identitário os “grandes valores humanistas” que presidiram à sua fundação e que continuam hoje a nortear a sua ação educativa, acreditando que “(…) a educação não se restringe ao ensino, mas engloba uma educação para os valores (…)” (Projeto Educativo, p.4), como o do respeito pela alteridade e pela diferença, o da tolerância e o da solidariedade. A laicidade e a abertura à diversidade de credos e religiões constituem, assim, eixos estruturantes da identidade deste colégio que se afirma, numa linha de continuidade com a matriz fundadora, como “(…) um espaço de liberdade e de diálogo permanentes entre as várias correntes de pensamento” (p.5). Preconizando a formação global do indivíduo, o colégio promove não apenas a educação para a cidadania e para a solidariedade a nível quer nacional, quer internacional, mas também, na linha da tradição cultural da instituição, a educação para a Cultura, aqui entendida numa “(…) dimensão plural da realização criativa e da inovação (…)” (p.6) que abarca as artes, nas suas múltiplas expressões, o desporto e a ciência e tecnologia.
Tendo por enquadramento os objetivos gerais definidos pelo Ministério da Educação, o Projeto Educativo do colégio laico desenvolve-se, neste âmbito, em torno de três eixos estruturantes de ação educativa: a dimensão global do indivíduo; o aluno – sujeito e objeto do processo de ensino-aprendizagem; a educação para os valores/educação para a cidadania. O colégio tem como meta o desenvolvimento global dos seus alunos e o crescimento harmonioso da personalidade de cada educando. Nesse sentido, aposta na otimização, nos vários estádios de desenvolvimento infantojuvenis, das possibilidades de evolução das capacidades discentes. Defendendo que “(…) a concretização das capacidades cognitivas e das aptidões específicas dos alunos constrói-se na relação com o outro, na comunicação e expressão dos afetos – a base da socialização” (p.8), o colégio promove a articulação entre a
vertente cognitiva e relacional, desenvolvida a par da estimulação do “espírito crítico, independente e participativo na sociedade” (p.8), da “criatividade, inovação e sensibilidade artística” (p.8) – através do contacto com as artes nas suas múltiplas expressões – e também do “desenvolvimento físico e psicológico” (p.8), através do incremento da prática desportiva. No âmbito das finalidades educativas, o colégio assume que a sua prática “(…) assenta na conceção global do desenvolvimento humano e complementaridade da formação pessoal e social do indivíduo” (p.12). No plano da dimensão humana, o colégio visa estimular nos alunos o autoconhecimento, reforçar a sua autoestima e autoconfiança, desenvolver as suas capacidades críticas e analíticas, promover a sua abertura de espírito e incentivar “(…) a criatividade, a iniciativa e a realização autónoma” (p.13). Potencializa-se, desse modo, não apenas a afirmação e o desenvolvimento das capacidades individuais – sempre balizadas pelo “respeito pela diversidade” e pelos “valores da justiça e solidariedade” (p.13) –, mas também o desenvolvimento de “uma atitude de abertura à novidade e de vontade transformadora” (p.13). A valorização do trabalho em grupo, da cooperação e entre-ajuda, da autodisciplina, da organização e da perseverança são instrumentos ao serviço da mesma meta.
Ao nível da dimensão académica, o colégio dá lugar de relevo ao património linguístico e literário, sublinhando a importância da “compreensão da estrutura e funcionamento da Língua Portuguesa” (p.14) e do incentivo ao gosto pela leitura e pela escrita. Destaca, igualmente, a importância da aprendizagem de línguas estrangeiras, da estimulação da curiosidade pela descoberta e pela investigação nas diferentes áreas do conhecimento e da aplicação dos saberes novos numa perspetiva de transdisciplinaridade. Baseado na “aquisição de conhecimentos úteis e significativos (…)” (p.15), o processo de ensino aprendizagem deverá levar os alunos a “aprender a aprender” – organizando, selecionando e integrando a informação – e a desenvolver “as capacidades de compreensão, expressão, interpretação, raciocínio lógico e hipotético, aplicação e solução de problemas, iniciativa, sentido crítico e gosto pela investigação” (p.14). A aproximação ao universo laboral, mediante recurso a visitas de estudo, conferências e debates; a promoção da “(…) orientação escolar e profissional, integrada na realidade social e cultural da comunidade, em colaboração com as famílias” (p.16); a disponibilização de formação técnica requerida para prosseguir estudos ou integrar o mundo do trabalho; as atividades de educação musical e expressão plástica e a prática desportiva integram, igualmente, a ação educativa do colégio, no âmbito académico.
No âmbito da prática pedagógica, o Projeto Educativo do colégio defende que o aluno seja colocado no “centro das aprendizagens” (p.9), que deverão caracterizar-se pela diversificação e adaptabilidade aos ritmos e necessidades individuais. Pretende-se que o discente seja estimulado a refletir sobre o processo de aprendizagem – o “aprender a aprender”, meta identificada como prioritária para o auto e heteroconhecimento – e a envolver-se, através do recurso a “metodologias ativas e inovadoras” (p.9), na construção e avaliação das suas aprendizagens, numa dinâmica promotora de autonomização e de reflexão crítica. A par do trabalho grupal, considerado essencial na promoção do espírito de entre-ajuda, de solidariedade e de sã competitividade, estimula-se o manuseamento das novas tecnologias, ambos referenciados como instrumentos ao serviço da “(…) preparação de um cidadão trabalhador e responsável” (p.10). Preconiza-se, igualmente, a valorização e o incentivo do trabalho, da tenacidade e do esforço discente, vias para a consolidação da “(…) confiança e da autoestima, fundamentais à plena expressão das capacidades individuais na realização escolar” (p.9). Nesta conformidade, conclui o colégio que: “A avaliação privilegia, para além dos produtos da aprendizagem, os processos subjacentes e o esforço do aluno numa perspetiva essencialmente qualitativa” (p.10).
Quanto à dimensão da cidadania, o colégio assume como objetivo “Implementar atitudes e hábitos positivos que favoreçam a maturidade sócio-afetiva, e que auxiliem a compreensão dos mecanismos de organização e funcionamento dos diferentes grupos sociais” (p.16). Neste domínio, a instituição educativa assume como missão “Alertar o aluno para as grandes causas, como o combate à violência e às desigualdades económicas e sociais, a injustiça, a desumanização das sociedades competitivas e consumistas, a destruição do património, a defesa do meio ambiente, e envolvê-lo em projetos de solidariedade nacional e internacional” (p.10). Através do estímulo ao trabalho grupal e individual, o colégio propõe-se levar os alunos a refletir sobre questões de interesse social e cívico e outros “problemas de interesse geral” (p.16), a debatê-los e a envolver-se na sua prevenção ou resolução. Nesse sentido, promove a educação para a saúde e sexualidade, para a preservação do Meio Ambiente e para uma integração esclarecida e responsável na sociedade de consumo, pontenciando um intercâmbio com a comunidade envolvente que sirva de plataforma de compromisso dos alunos com a alteridade e com a própria realidade social. Procura, igualmente, “(…) fomentar nas relações entre os alunos e os restantes elementos da Escola, a prática de valores de convivência cívica, de respeito pelo outro e pela diferença, de tolerância e diálogo” (p.11) e
levar os alunos a cumprir e interiorizar as “regras da Escola” – intervenções assumidas pelo colégio como complementares da “(…) educação cívica iniciada na família” (p.11). Finalmente, o colégio propõe-se formar cidadãos capazes de defender os valores da cultura portuguesa e da sociedade e assegurar aos discentes “(…) o acesso à informação que permita a compreensão adequada dos significados e implicações das relações com outros espaços e culturas, nomeadamente a comunidade europeia, os países de língua oficial portuguesa e outros organismos e instituições internacionais” (p.17).
No que diz respeito à equipa docente, o colégio laico reconhece como essencial para o seu bom funcionamento a existência de “(…) um corpo docente estável, profissionalizado, com dedicação exclusiva e que se identifica com o seu Projeto Educativo (…)” (p.18). Os dados estatísticos relativos ao corpo docente confirmam, neste âmbito, a coerência entre a teoria e a praxis desta instituição educativa. Com efeito, verifica-se a integração no quadro do colégio da quase totalidade dos 127 elementos do corpo docente26, 87,4% dos quais são efetivos do colégio, onde exercem funções, também maioritariamente (93,7%), em regime de exclusividade. Por seu lado, a convergência de número de anos de lecionação (média de 14,79) e de permanência no colégio (média de 14,35) aponta no sentido de uma trajetória de “fidelidade” profissional à instituição que admitimos constituir, a par da efetivação e da exclusividade, um “(…) cenário propício à manutenção das regularidades culturais, ao nível das práticas, dos rituais, dos hábitos e dos costumes sedimentados ao longo dos anos (…), de um grande envolvimento e empenhamento destes atores nas atividades escolares, face ao sentido de pertença e de identidade ao longo da sua carreira profissional” (Torres, 2004, p.328). Dotado, na quase totalidade, de qualificações de grau superior (89,7%) e com uma média de idade de 43,86 anos, o corpo docente deste colégio parece reunir condições para responder quer à procura de estabilidade, competência científico-pedagógica e maturidade procurada pelos pais, quer ao perfil docente delineado pela instituição. Com efeito, dos professores o colégio espera que sejam também figuras de referência e de identificação para os alunos, a quem devem disponibilizar “(…) um acompanhamento personalizado de tipo tutorial” (p.19). Valoriza-se o espírito dialógico e de colaboração grupal dos docentes e a capacidade de “(…) partilha de linguagens entre Pais, Professores e Direção da Escola, no sentido de uma prática pedagógica coerente, estável e securizante” (p.18), apenas possível se
os professores, através da formação contínua e do trabalho multidisciplinar, se atualizarem constantemente. Para tal, o colégio incentiva nos docentes “(…) a participação em ações de formação, a frequência em seminários e cursos de cariz científico e pedagógico que permitam ao Professor valorizar-se profissionalmente e melhorar o seu desempenho” (p.19).
Os Pais e os Encarregados de Educação não são parte esquecida no Projeto Educativo do colégio. Defendendo a importância da participação na vida escolar dos filhos, o colégio delega na Direção, nos Coordenadores de Ano e nos responsáveis pelas diferentes secções a missão de promover o diálogo permanente entre a Escola e a Família, estimulado também pela realização de eventos – de âmbito diverso – que, ao longo do ano letivo, abrem a escola à presença do núcleo familiar. Acredita o colégio que só através desta conjugação de esforços entre Escola e Família se poderá alcançar a meta da formação global dos indivíduos.
Numa aceção de escola dinâmica e aberta, o colégio promove, periodicamente, a revisão e atualização do seu Projeto Educativo que, sempre na fidelidade aos princípios humanistas e de educação para os valores, se admite passível de ajustamento “(…) às transformações e exigências da realidade envolvente e da sociedade em geral (…)” (p.22).
2. Quando os herdeiros de classe se juntam em “classes” de herdeiros: caracterização