Uma análise das taxas de crescimento das lavouras de sequeiro no semiárido
brasileiro nas últimas décadas aponta uma tendência de queda nos indicadores agrícolas
(Tabela 2). Destarte, as dificuldades de acesso a novas tecnologias, assistência técnica e
crédito, considerando ainda o avanço da degradação ambiental nas áreas rurais da região,
acredita-se que o crescimento negativo observado também pode ser explicado pelas alterações
pluviométricas que determinam os anos secos e produzem impactos que são sentidos no
decorrer do tempo, mesmo nos anos “de inverno”
1.
Tabela 2. Taxa de crescimento médio anual das variáveis agrícolas de feijão, mandioca e milho no período de 1996 a 2014.
Área colhida
Rendimento
Produção per capita
Valor da produção
Feijão
-2,8
-0,7
-4,41
-4,59
Mandioca
-2,4
-0,2
-3,49
-3,13
Milho
-1,8
-14,15
0,60
-0,34
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE.
De fato, em anos de seca, são observados resultados modestos na sua
produtividade e demais indicadores agrícolas, em detrimento da baixa precipitação. De fato,
uma visão geral mostra que uma oscilação bastante expressiva desses indicadores ao longo de
toda a série para lavouras de feijão, mandioca e milho. Esta variação pode ser explicada,
1
Segundo Correia et al. (2011), embora existam regiões no semiárido onde há maiores totais pluviométricos que
outras, inclusive com locais nos quais estes totais estejam dentro dos valores médios de anos normais, quando há ocorrência de seca, esta é verificada na maior parte dos postos de monitoramento da região.principalmente, pelas secas que castigaram a região. Observa-se que as quedas mais
expressivas na área colhida, rendimento, produção per capita de alimentos e valor da
produção das três culturas ocorreram nos anos de 1998, 2001 e 2012, os quais coincidem com
os anos de seca elencados por Marengo et al. (2011) e pela FUNCEME.
A queda nos indicadores agrícolas nos anos de 1997/1998 foi ocasionada pelas
anomalias climáticas, como o forte El Niño, que acarretou uma prolongada estiagem e
temperaturas muito elevadas no semiárido nordestino, o que resultou em uma baixa
produtividade na agricultura nesses anos (ALENCAR; BARBOSA; SOUSA, 2007). Da
mesma forma, o ano de 2001 também foi responsável pela instabilidade das variáveis
agrícolas. Isso se deve à seca de 2001 que, para Khan
et al. (2005), diminuiu
consideravelmente a oferta dos alimentos agrícolas nesse ano.
O ano de 2012 foi o que apresentou as mais baixas áreas colhidas, rendimentos,
valores da produção e produções per capita de alimentos ao longo das séries agrícolas para as
três culturas. Isso se deve à seca de 2012 que, de acordo com a Companhia Nacional de
Abastecimento (CONAB, 2012), causou perdas significantes na agricultura e pecuária no
semiárido nordestino. Segundo a estatal:
As culturas de feijão e de milho apresentam perdas superiores a 80,0%. No estado da Paraíba, estima-se perdas de 93,5% na produção de feijão e de 95,7% no milho. No Rio Grande do Norte, perda de 89,6% na produção de feijão e de 90,1% no milho, e no Ceará as perdas são de 87,3% no feijão e 92,2%, na cultura do milho (CONAB, 2012, p. 8).
Nas subseções a seguir serão apresentados os resultados que fundamentam a
relação entre as mudanças climáticas (secas) e as oscilações nos indicadores agrícolas do
feijão, mandioca e milho. Tais resultados não são surpreendentes e podem parecer óbvios. No
entanto, são importantes no contexto da pesquisa, pois corroboram a vulnerabilidade dessas
três lavouras às secas, chamando a atenção para a necessidade de elaboração de estratégias
que desenvolvam capacidade adaptativa em complemento às históricas intervenções para a
geração de renda entre os agricultores familiares.
4.1.1 Lavoura F eijão
A linha de tendência da área colhida para a lavoura de feijão mostrou um declínio
expressivo desse indicador (Gráfico 1). Nota-se que, no ano de 1996, a área colhida de feijão
superava um pouco mais dos 2 milhões de hectares. Ao final da série (ano de 2014), essa
variável atingia por volta dos 1,2 milhões há. Isso mostra que a lavoura apresentou uma taxa
de crescimento negativa, sendo que o comportamento de feijão foi o mesmo para os demais
indicadores com uma linha de tendência também decrescente.
O rendimento médio de feijão para o SAB no período analisado (1996 a 2014) foi
de 380 kg/ ha. Santos et al. (2002) atestam que, no SAB, o feião-caupi é cultivado em regime
de sequeiro e, sob esse regime, pode atingir uma produtividade média em torno de 300 kg ha
-1de grãos. Já em sistemas irrigados, podem alcançar 1.520 kg ha
-1de grãos. Com isso, pode-se
dizer que a produtividade de feijão em condições de sequeiro está longe de atingir
produtividades condizentes com culturas cultivadas em regime de irrigação. Para Silva e
Neves (2011), o feijão ainda apresenta rendimentos baixos, frente a sua adaptabilidade às
condições climáticas do SAB em relação às demais leguminosas.
Figura 2. Comportamento da lavoura de feijão no Semiárido para os indicadores agrícolas no período de 1996 a 2014.
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE.
4.1.2 Lavoura de Mandioca
O comportamento da cultura de mandioca para o período analisado foi
decrescente para os quatro indicadores (Gráfico 2). A produção per capita de mandioca foi o
indicador que apresentou a maior taxa de crescimento negativa. No ano de 1996 era 183,7
kg/pessoa/ano e, em 2014, chegava aos 93,5 kg/pessoa/ano, ou seja, em dezenove anos o
indicador reduziu praticamente pela metade no SAB.
O rendimento de mandioca, quando comparado aos demais indicadores,
apresentou a linha de tendência com menor inclinação e a maior taxa de crescimento (ainda
que negativa). No entanto, nota-se que houve uma estagnação da produtividade de mandioca
que, para Barros (2004), é decorrente da não utilização de tecnologias. Ademais, no Nordeste,
a produtividade da cultura mostra-se ainda muito baixa, apesar da vasta área plantada de
mandioca (OUX, 2008).
Figura 3. Comportamento da lavoura de mandioca no Semiárido para os indicadores agrícolas no período de 1996 a 2014.
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE.
4.1.3 Lavoura de Milho
É notória a grande variabilidade da cultura do milho nos indicadores produção per
capita e valor da produção (gráfico 3). No entanto, a linha de tendência se mostrou crescente
para ambas as variáveis. A taxa de crescimento apresentou um discreto crescimento positivo
para a produção per capita: em 1996 era de 70 kg/pessoa/ano e, em 2014, atingiu 78
kg/pessoa/ano. Já em relação ao valor da produção, a taxa de crescimento foi negativa. O
milho apresentou quedas de rendimentos em anos de secas. Em 1996, o rendimento de milho
era em torno de 6 mil kg/ha e, em 2001, despencou para 29 kg/há. Desde então permaneceu
praticamente estacionário até 2009, sendo que, em 2010, voltou a atingir 6,5 mil kg/há.
Com a seca de 2012 caiu para apenas 68 kg/ha. A taxa de crescimento de rendimento foi
negativa e a maior em relação aos outros indicadores e lavouras. A redução da produtividade
de milho em anos de seca revela sua sensibilidade ao fenômeno.
Figura 4. Comportamento da lavoura de milho no Semiárido para os indicadores agrícolas no período de 1996 a 2014.
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE.