INCORPORATION D’ELEMENTS D’INTERET
CHAPITRE 8 RENFORCEMENT DES PROPRIETES MECANIQUES
8.1 Mélange de polymères
No decorrer dos anos de 1930 a 1960 os intelectuais e políticos brasileiros tiveram a percepção de que as suas expectativas para a elaboração e realização de projetos de nação imaginada foram ampliadas (Gomes, 2013: 41). De fato, para os fins da presente investigação, essa assertiva se estenderia também até esses primeiros anos da década de 1960 aqui tratados. Ou seja, o projeto da nação brasileira foi forjado durante o Estado Novo e desenvolvido até o golpe de estado de 1964. Como veremos agora, tal projeto estava mergulhado no discurso do nacionalismo e do desenvolvimentismo que influenciaram a evolução das políticas energéticas e de patrimônio no Brasil.
Neste período o país passou por profundas transformações que, esperava-se, levariam ao fim a velha face do Brasil como nação atrasada e colonizada, transformando-a em uma nação industrial, moderna, urbana, enfim, civilizada (Gomes, 2013:42). O processo de industrialização e urbanização inverteu a proporção de moradores das cidades e das zonas rurais, estimulando enormes ondas de migração internas. Intensificaram-se ainda os fluxos migratórios para o oeste, buscando ocupação de enormes áreas desabitadas do interior (Gomes, 2013:58). A entrada de imigração branca antes fomentada pelo Estado como forma de “branquear” o Brasil, como indicativo de avanço civilizatório tinha sido
39 Além das elites econômicas e políticas, também a Igreja Católica e a imprensa eram francamente
39 questionada a partir dos anos 1930. A mestiçagem deixa de ser problema e passa a ser vista como vantagem, o povo mestiço era a “raça brasileira” (Gomes, 2013:51). Portanto, pode- se dizer que nesse período ocorrem enormes mudanças culturais também.
Para melhor entendimento e contextualização dessa mudança, faz-se necessário nesse ponto complementar aprofundando algumas informações sobre os teóricos clássicos, já apresentados de maneira genérica no capítulo anterior, que se debruçaram na explicação da identidade cultural brasileira.
Durante a República Velha (1889-1930) 40, Euclydes da Cunha (1866-1909) introduziu a questão da identidade nacional ao publicar no ano de 1902 o livro Os sertões que ressaltou a existência do Brasil rural da pobreza, analfabetismo, fome e doença nos seus relatos da Guerra dos Canudos41 (Cardoso, 2013: 70). A visão racista sobre a identidade nacional foi refutada somente em 1932, quando Gilberto Freyre (1900-1987) editou o trabalho clássico, Casa-grande & Senzala. Baseado no antropólogo Franz Boas (1858-1942) 42, esse intelectual pernambucano deslocou a explicação do desenvolvimento brasileiro das razões climáticas ou étnico-raciais para a cultura. É de ressaltar que, sob o prisma cultural, os artistas da Semana de Arte Moderna de 1922, no plano da literatura e outras artes, já haviam feito o mesmo que Gilberto Freyre no plano teórico. Contudo, a teoria de Freyre tornou-se referência para a intelectualidade e forneceu uma interpretação de convivência pacifica entre as “raças” que compõem o Brasil, o que era conveniente ao Estado Novo, tornando a miscigenação uma vantagem e uma ilusão de harmonia racial (Cardoso, 2013: 94).
Nos anos de 1970 as ideias formuladas por Freyre sobre a identidade nacional passarão a ser contestadas por intelectuais como Florestan Fernandes (1920-1995), através de uma análise funcionalista43 que contestará a existência de qualquer democracia racial no Brasil (Cardoso, 2013: 94). Mas no ano de 1963, quanto se inaugurou Furnas, no plano
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A República Velha foi um período da história brasileiro compreendido entre a proclamação da República (1889) e o início do Estado Novo (1930). Também é conhecido como Primeira República e República do Café com Leite, por ser dominado pelas oligarquias mineiras e paulistas.
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Guerra de Canudos (1896-1897) foi um conflito armado na Bahia entre o exército e o religioso Antônio Conselheiro e seus seguidores.
42 Antropólogo alemão naturalizado norte-americano, um dos fundadores da escola antropológica do
Difusionismo Norte-americano, com significativa influência até o final da II Guerra Mundial (Marconi e Presotto, 2013: 243-266).
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O funcionalismo é uma corrente teórica antropológica surgido no inicio do século XX que tem como principais representantes B. Malinowski (1884-1942) e A. R. Radcliffe-Brawn (1881-1955), onde qualquer elemento cultural, costume, ideia ou objeto material existente no interior da sociedade tem funções específicas e são relacionados com a manutenção de seu modo de vida total (Marconi e Presotto, 2013, 256).
40 intelectual, a teoria de Freyre era uma das predominantes, juntamente com a dos teóricos que veremos a seguir. O novo Brasil que se desenhava ainda não dispunha de outro tipo de análise, menos conservadora, que não fosse baseada no patriarcalismo rural e na miscigenação. O pensamento de Freyre ainda vigente dificultava qualquer pensamento tido como progressista para os anos 1950 e 60, que queria mais industrialização, ruptura com a “ordem senhorial”, cidadania livre da “cultura de submissão” e a integração do país (Cardoso, 2013: 95).
Escrita por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) e publicada em 1936,
Raízes do Brasil foi outra obra clássica que foi fundamental nessa discussão intelectual.
Explicava a cultura nacional através das influências históricas sofridas pelo passado colonial português do Brasil. Neste livro, Buarque de Holanda afirmava que essa história estaria repercutindo até àqueles anos de 1930, tendo ainda de ser superada no futuro (Cardoso, 2013: 140).
No ano de 1942, também Caio Prado Jr. (1907-1990) escreveu outro clássico:
Formação do Brasil Contemporâneo. Este historiador marxista considera os problemas da
nação contemporânea como o desdobramento da crise do sistema colonial português44 que teria permanecido, perdurando séculos afora (Cardoso, 2013: 144). Nessa obra, os problemas do Brasil resultam da não superação desse processo e da não transformação dessas condições até aquele momento. Apesar de o Estado burocrático português ter sido poderoso, segundo Caio Prado Jr., os senhores latifúndios escravistas dispensariam até mesmo o funcionário real. No final, apesar da abolição e da emancipação do Estado Brasileiro, a sociedade brasileira continuou refém de uma elite senhorial “pedante e rude” que explorava uma enorme massa de “escravos” e não proprietários (Cardoso, 2013: 146).
Estes três teóricos tornar-se-iam parte da linguagem corrente da camada mais letrada dos brasileiros a partir das edições de seus clássicos. Assim, as suas ideias ecoam até aos nossos dias, sendo possível encontrar ainda hoje no sensu comum a crença no racismo cordial de Freyre, no atraso inerente à nossa colonização de Buarque de Holanda e na adaptação da sociedade brasileira tradicional e patriarcal a uma sociedade de classes ao gosto marxista de Prado Jr. Na altura da conclusão da barragem de Furnas, graças a esses intelectuais, a sociedade brasileira já havia se alterado substancialmente. A noção de identidade nacional que havia vigorado nos primórdios do século XX estava obsoleta. O
41 país buscava outros paradigmas culturais se baseando em intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.45 Contudo, tais intelectuais fundavam suas teorias identitárias no Brasil do passado, no Brasil colonial e agrário, entretanto, não saberiam responder à identidade do Brasil urbano e industrial que despontava na segunda metade do século XX.
As estruturas culturais brasileiras e respectivos aparatos estatais de cultura/educação, incluído os do patrimônio, e da comunicação social numa época em que a televisão ainda era incipiente, se adaptaram a esse novo Brasil, inventado e ilustrado por teóricos do primeiro cinquentenário do século XX. Como se analisará em seguida, esta mudança fundamental esteve presente na discussão sobre a repercussão cultural da destruição da comunidade de Guapé. Talvez pela primeira vez, foi noticiada e suscitada uma discussão intelectual sobre os efeitos das grandes barragens no Brasil.