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Mécanisme de co-condensation et interactions « malonamide/TTAB »

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1.5. Mécanisme de co-condensation et interactions « malonamide/TTAB »

Sob a denominação de “cultura do narcisismo”, Lasch (1983) refere-se à forma assumida pelas culturas capitalistas modernas, caracterizada pela preocupação acentuada com a realização individual privada (Severiano, 1999). O autor descreve um modo de vida que prioriza a cultura do individualismo competitivo, o qual, em sua decadência, levou à busca da felicidade pautada na preocupação narcísica com o eu.

Lasch (1983) ressalta que novas formas sociais requerem novas formas de personalidade, novos modos de socialização e novos modos de se organizar a experiência. O conceito de narcisismo proporciona, então, não um determinismo psicológico feito sob medida, mas um meio de compreender o impacto psicológico das mudanças sociais, admitindo-se que se tenha em mente não apenas suas origens clínicas, mas também a série contínua entre a patologia e a normalidade. As condições sociais predominantes convergem para o afloramento dos traços narcisistas presentes, em vários graus, em todos os indivíduos, resultando na tendência de as pessoas serem narcisistas. Tais condições também transformam a família, que, por sua vez, modela a estrutura subjacente da personalidade. O narcisismo seria uma defesa contra as tensões e as ansiedades da vida moderna.

Lasch (1983) destaca, adicionalmente, que em uma sociedade narcisista, considerada aquela que dá crescente proeminência e encorajamento a traços narcisistas, a decisão de viver para o momento e para si tornou-se a paixão predominante. Perdeu-se o sentido de continuidade histórica, assim como o senso de pertencimento a uma sucessão de gerações que se originaram no passado e que se prolongarão no futuro, enfraquecendo o sentido de tempo histórico e, consequentemente, ocasionando a erosão de qualquer preocupação maior com a posteridade. A sobrevivência se transformou em um lema e o “narcisismo coletivo” tornou-se a disposição predominante.

O autor supracitado acrescenta que a desvalorização cultural do passado reflete, além da pobreza das ideologias predominantes, a pobreza da vida interior do narcisista. Para Lasch

(1983), essa desvalorização do passado tornou-se um dos sintomas mais importantes da crise cultural, tendo em vista que, superficialmente progressista e otimista, denota, em uma análise mais criteriosa, o desespero de uma sociedade que não consegue enfrentar o futuro.

Uma sociedade que teme não ter futuro, muito provavelmente, dará pouca importância às necessidades da geração seguinte. Daí, o sempre presente sentido de descontinuidade histórica cai, com resultado particularmente devastador, sobre a família. O enfraquecimento dos vínculos sociais reflete, simultaneamente, uma defesa narcisista contra a dependência. Embora o narcisista concorde com as normas sociais, por medo de represália externa, ele pensa, com frequência, sobre si mesmo como um fora da lei. Os sistemas de valores das personalidades narcisistas são geralmente corruptíveis, em contraste com a rígida moralidade da personalidade obsessiva (Lasch, 1983).

O narcisismo representa a dimensão psicológica de uma dependência constante do indivíduo em relação ao Estado e a outras burocracias, uma vez que a atrofia das tradições mais antigas minou sua competência cotidiana. Quando se trata especificamente do narcisista, este pode ser descrito, de acordo com Lasch (1983), como um indivíduo perseguido não pela culpa, mas pela ansiedade. Ele procura atribuir suas próprias incertezas aos outros e, libertado das superstições do passado, duvida até mesmo da realidade de sua própria existência. Superficialmente tranquilo e tolerante, vê pouca utilidade nos dogmas de pureza racial e ética, porém, ao mesmo tempo, vê-se privado da segurança de lealdade do grupo e considera os outros como rivais em relação aos favores conferidos por um Estado paternalista. Ferozmente competitivo em seu desejo constante de aprovação e reconhecimento, desconfia da competição, pelo fato de associá-la inconscientemente a uma incontrolável necessidade de destruir. Exalta a cooperação e o trabalho em equipe, enquanto abriga intensos impulsos antissociais. Exalta, também, o respeito a regras e regulamentos, na crença secreta de que estes não se aplicam a ele (Lasch, 1983).

Ganancioso, no sentido de que seus desejos não têm limites, o novo narcisista não acumula bens e provisões para o futuro, mas exige imediata gratificação e vive em estado de desejo, desassossegado e incessantemente insatisfeito. Ele não se interessa pelo futuro, porque, em parte, tem muito pouco interesse pelo passado. Cronicamente entediado, incansável na procura de instantânea intimidade – de excitação emocional sem envolvimento e sem dependência –, é promíscuo e cronicamente inseguro quanto à sua saúde. Este último aspecto

proporciona-lhe uma afinidade especial com terapias, grupos e movimentos terapêuticos. Como paciente psiquiátrico, o narcisista é, por fim, um candidato consistente a uma análise interminável (Lasch, 1983).

Não obstante suas ocasionais ilusões de onipotência, o indivíduo narcisista pode ser caracterizado como alguém que depende de outros para validar sua autoestima. Ele não consegue viver sem uma audiência que o admire, de modo que sua aparente liberdade, seu desapego a laços familiares e constrangimentos institucionais não o impedem de ficar só consigo mesmo. Pelo contrário, contribuem de forma significativa para sua insegurança, a qual ele apenas consegue superar quando vê seu “eu grandioso” refletido nas atenções de outras pessoas ou quando mantém ligação com indivíduos que irradiam celebridade, poder e carisma (Lasch, 1983).

Severiano (1999), a partir dos estudos de Lasch (1983), esclarece que, apesar de as motivações da personalidade narcisista estarem fundamentalmente centradas num “eu” percebido como “grandioso”, esse individualismo extremo representa mais uma estratégia de sobrevivência diante das extremas adversidades e das previsões catastróficas anunciadas desde o final do século, vivenciadas pelos indivíduos como um sentido de um fim, do que um real enaltecimento e fortalecimento do eu. Ocorre um retorno à própria pessoa do amor retirado do mundo – ou seja, uma autoabsorção no eu, um desejo de retorno à onipotência narcísica primária, mediado pelo “ego ideal”. Desse modo, os ideais culturais, as utopias e as relações amorosas satisfatórias (relações objetais) parecem, também, próximas a um “fim”, sendo que a eleição de si mesmo como objeto de amor não passa de uma estratégia de sobrevivência (Severiano, 1999).

O narcisismo não deve ser confundido com egoísmo ou egocentrismo, uma vez que decorre de transformações sociais e culturais contemporâneas. Lasch (1986) pontua a importância das contrações defensivas do “eu”, uma mentalidade de sobrevivência, complementando as concepções apenas hedonistas e egoístas que foram interpretadas na obra A Cultura do Narcisismo (1983). Em O mínimo Eu (1986, p. 12), Lasch explica: “o eu mínimo ou narcisista é, antes de tudo, um eu inseguro de seus próprios limites, que ora almeja reconstruir o mundo a sua própria imagem, ora anseia fundir-se em seu ambiente numa extasiada união”.

O narcisismo é, portanto, uma característica das sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Inebriados pelas imagens reproduzidas na telerrealidade, no espelho, esses indivíduos ora experimentam uma fascinação e identificação com o mundo perfeito das celebridades, da publicidade, ora assistem a notícias brutais e violentas que os telejornais reproduzem de forma desenfreada (Baduy & Carvalho, 2014). Lasch (1986) chama a atenção não só para o hedonismo presente na cultura do narcisismo, como também para uma mentalidade de sobrevivência. Assim, o autor caracteriza a cultura narcísica da sociedade contemporânea como uma tentativa de sobrevivência do eu, como uma produção em massa de um “eu mínimo”, representado por um “self” inseguro de seus próprios limites e natureza, que em um momento anseia reconstruir o mundo à sua própria imagem e em outro almeja fundir-se em seu ambiente (Lasch, 1986).

A categoria “narcisismo” é, portanto, de extrema relevância para a compreensão do perfil psicológico do homem contemporâneo, na medida em que proporciona um meio de compreender o impacto psicológico das recentes mudanças sociais (Lasch, 1983). Lasch (1983) trata, também, de uma mudança significativa nos padrões de neurose, evidenciada nas últimas décadas pela psicanálise. As neuroses sintomáticas (histeria, neuroses obsessivas) deram lugar a “desordens do caráter” do tipo narcisista, cujos distúrbios de personalidade estão frequentemente associados a sentimentos de vazio e de falta de sentido, à incapacidade de relacionamento com o outro de maneira profunda e significativa, à hipocondria, às fronteiras difusas do ego e à falta de um sentimento coeso do eu.

Lasch (1983) defende certa cautela ao se referir ao termo narcisismo, que, muitas vezes, é utilizado tão livremente que conserva pouco de seu conteúdo psicológico. Para o autor, a precisão teórica sobre o narcisismo é importante porque a prática de relacionar o termo com tudo que é egoísta e desagradável se contrapõe à sua especificidade histórica. Os seres humanos sempre foram egoístas e os grupos sempre foram etnocêntricos. Não há, portanto, benefício algum em se atribuir a essas qualidades um rótulo e cunho psiquiátrico.

A emergência das desordens do caráter como as mais proeminentes formas de patologia psiquiátrica e a mudança na estrutura da personalidade que este desenvolvimento reflete são derivadas de modificações bem específicas na sociedade e na cultura, a exemplo da proliferação de imagens, de ideologias terapêuticas, do culto ao consumismo e das mudanças na vida familiar. Tudo isso desaparecerá se o narcisismo tornar-se simplesmente a “metáfora

da condição humana” (Lasch, 1983), sendo utilizado, de forma indiscriminada e sem qualquer precisão teórica, para contextualizar a condição humana e os dramas psíquicos da sociedade atual.

A decisão de muitos críticos de não discutir a etiologia do narcisismo e a recusa destes em dar atenção ao crescente volume de escritos clínicos sobre o assunto têm origem no receio de que a ênfase nos aspectos clínicos da síndrome narcisista prejudique a utilidade do conceito para a análise social. Porém, Lasch (1983) reforça que tal decisão tem provado ser um erro, na medida em que, ao ignorarem a dimensão psicológica, tais autores também se distanciam da social. Os traços de caráter associados ao narcisismo psicológico, sob formas mais amenas, são aqueles que aparecem com bastante frequência no narcisismo sob a conotação social: dependência de admiração proveniente de outros indivíduos, combinada a medo da dependência, sensação de vazio interior, ódio reprimido sem limites e desejos insatisfeitos. Estes autores tampouco discutem as denominadas “características secundárias do narcisismo”: pseudoautopercepção, sedução calculada e humor nervoso e autodepreciativo. Privam-se, portanto, de qualquer base sobre a qual efetuar ligações entre o tipo de personalidade narcisista e certos padrões característicos da cultura contemporânea, a exemplo do temor da velhice e da morte, do senso de tempo alterado, do fascínio pela celebridade e das relações deterioradas entre homens e mulheres (Lasch, 1983).

Neste estudo, admite-se a observação de Lasch (1983) de que existe uma linha tênue entre o que se considera narcisismo clínico e aquilo que é tratado como narcisismo não patológico. Consequentemente, ao se ponderar que os traços de caráter associados ao narcisismo sob uma conotação social são aqueles que aparecem com frequência no narcisismo sob a égide clínica – porém, de forma mais amena –, considera-se imprescindível tratar de ambas as dimensões, mesmo que se reforce, ao longo desta pesquisa, que o foco se concentra no narcisismo não patológico.

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