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Imagem nº. 11 Estereótipo da bruxa Imagem nº. 12 Inverno celta

Quem sou? De onde vim?

O que faço aqui?

Fonte: Ver nota99. Fonte: Ver nota100.

Tal como o arqueólogo que investiga, nos ossos fossilizados, vestígios ancestrais, tentamos perceber o que estará em alguns espaços brancos, que ao longo de milénios foram deixados emboligados101 e que nos últimos anos têm sido investigados com mais profundidade e imparcialidade. Referimo-nos, certamente, às bruxas e fadas que marcam presença no imaginário colectivo.

Pierre Lévêque (1985:15) refere-se a essa incerteza ancestral e universal ao concluir que todos nós gostaríamos de saber a “que época remontam as manifestações do sobrenatural na evolução que conduziu ao homo sapiens, que somos, desde o Egiptopiteco, esse primeiro primata de seis quilos”.

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Imagem obtida em www.ferrus.blogs.sapo.pt/arquivo/bruxas%202.j pg (20-5-06).

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Froud, 1988.

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Parafita (2000:75) esclarece que esta expressão é “usada em algumas zonas de Trás-os-Montes e que tanto é sinónim o de

As figuras patentes, nas imagens número onze (11) e doze (12) respectivamente, estereótipo da bruxa criado e divulgado nas sociedades ocidentais e uma personagem da cultura feérica celta, pretendem reforçar a ideia do paralelismo icónico que encontramos em muitas culturas. As suas características físicas indiciam influências culturais divulgadas, principalmente, pela pintura, literatura e presentes na literatura de tradição oral102.

Mas quem são essas mulheres a quem chamamos bruxas, feiticeiras, videntes, curandeiras, rezadeiras? Qual o seu aspecto?

Quando evocamos o seu nome, a imagem que se materializa instantaneamente é semelhante à da imagem número onze (11). Uma mulher velha, muito feia, com um grande nariz adunco… Unhas enormes, sujas e afiadas. Cabelo escuro/grisalho, todo emaranhado, ora caindo em grandes farripas pelas costas abaixo, ora clandestino entre o chapéu e o farrapo que lhe oculta o corpo. Veste-se de preto. O rosto refugia- se à sombra do chapéu pontiagudo e de grandes abas. M anifesta-se, frequentemente, acompanhada do seu gato preto. Às vezes, um corvo, da cor da noite, observa do cimo do seu ombro.

Encontramo-la no seu ‘laboratório’103 onde pululam livros de magias e esconjuros, ervas mágicas colhidas na lua cheia, ossos, cabelos, terra de cemitério, cogumelos alucinógenos, taças com pós coloridos, frascos para destilar, almofariz para pisar as ervas… É aí junto ao caldeirão negro e mágico que ela mexe e remexe a sua mistela, aperfeiçoa os seus venenos à velha maneira alquimista. Lagartixas, patas de aranhas, olhos de morcego, rabo de ratazanas entram lentamente em estado de ebulição para depois serem ingeridos como poções mágicas por aqueles que as procuram.

Há também um forno onde crepita um fogo vivo e voraz.

São todas, horrivelmente más104, viajam de vassoura para se juntarem, nas clareiras das florestas ou junto de água, às outras discípulas. Ah! E vivem sozinhas.

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Os contos que fazem parte do nosso corpus apresentam a personagem bruxa sem características físicas, apenas a apelidam de bruxa. No entanto, as crianças quando se referem a uma bruxa ou a desenham , ela assum e as características físicas presentes nas duas im agens.

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Pensam os que estas m ulheres m isteriosas que conheciam tão bem as ervas, os m inerais, o corpo hum ano e tinham o poder de transform ar coisas, de curar e de matar terão sido as continuadoras da obra alquím ica que (cf. Melville, 2002:6) “foi sem pre um a arte m isteriosa, m esm o obscura” estando as suas origens “envolvidas em m istério e emersas em m itos e lendas”. Alquim istas e, m ais tarde, feiticeiras e feiticeiros ocuparam postos de relevo j unto de reis, rainhas e outros mem bros da nobreza. A sua sabedoria e prem onições eram escutadas e seguidas com convicção. Foram os percursores da medicina que hoj e conhecem os.

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Nos últim os anos verificam os que algumas escritoras de literatura infantil (são essencialmente m ulheres) tendem a apresentar a bruxa com características m ais hum anas, com com portamentos sociais identificados com características da m ulher actual.

Adoram e trabalham em conjunto com o diabo. Têm um grande poder no olhar por isso não se devem olhar directamente nos olhos. Juntam-se à sexta-feira e ao sábado, no seu Sabat105, onde copulam com Íncubos.106

Este é o modelo feminino que a Igreja Católica criou na Idade M édia107e levou até ao povo, através do púlpito, na voz inflamada de clérigos.

M ulher que vivesse sozinha, fosse solteira ou viúva e que quisesse aprender a ler e a escrever, ou intervir na vida social, já era considerada uma bruxa.

A esse direito negado, de querer ser instruída, alude o teólogo M artinho Lutero (1483-1546) responsável pela Reforma Protestante, ”não há manto nem saia que pior assente à mulher ou donzela que o querer ser sábia” (Bello, 2001).

M as quanto ao seu aspecto físico, origem de muitos dos medos que foram passando de geração em geração, há várias opiniões.

Os documentos antigos, principalmente os registos de processos de Inquisição, traduzem na sua maioria uma imagem semelhante, qualquer que seja o país da Europa, da América, etc., onde a bruxa estava a ser interrogada. O povo, na sua tradição oral, guardou essa imagem, às vezes com aspecto horrível, outras vezes com aspecto belo.

Consultámos o M anual dos Inquisidores, O Martelo das feiticeiras108, livro de cabeceira presente em todos os interrogatórios da Inquisição, pedagogicamente diabólico e de uma precisão e certeza cirúrgicas que, no século X V, conheceu um sucesso sem precedentes. Verificámos que ele nos fornece algumas respostas, não quanto às características físicas, mas acerca do poder das bruxas.

Kramer e Sprenger afirmam, com convicção religiosa, tendo por base as descrições de S. Isidoro e S. A gostinho e S. Lucas, que

as bruxas s ão assim ch amadas p ela neg rura de su a culpa, quer dizer, seus atos são mais malignos qu e os de quaisquer outros m al feitores [… ] el as incitam e con fundem os el ementos com a ajuda do d emónio, causando terríveis temporais de g ranizo e outras tempestad es. Mais: en feitiçam a m ente dos homens, levando-os à loucu ra, ao ódio insano e à las cívia d esreg rada. E, […]

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O Sabat no j udaísm o era o nom e dado às sinagogas. É possível que, quando os j udeus foram proscritos para o cristianismo, esse local tivesse assum ido o significado de reunião maléfica.

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Íncubos são diabos que sob a forma de “Sátiros e Faunos aparecem a m ulheres devassas e com elas m antêm coito” (cf. Kram er e Sprenger, 2005:83).

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“Pour les religions m onothéistes occidentales (principalement le j udaïsm e, le christianisme et l'islam), la sorcellerie fut souvent condam née et considérée com me une hérésie. La notion de sorcellerie prit une grande im portance pour les catholiques et les protestants à la fin du Moy en Âge. À cette époque la sorcellerie a progressivem ent été assim ilée à une form e de culte du Diable. Des accusations de sorcellerie ont alors été fréquemm ent com binées à d'autres charges d'hérésie contre des groupes tels que les Cathares et les Vaudois.Certains groupes anciens ou m odernes se sont parfois plus ou m oins ouvertement réclamé d'un culte "sataniste" dédié au mal .Texto recuperado em http://fr.wikipedia.org/wiki/Sorcellerie#.C3.89tym ologie (20-4-07).

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Este livro conheceu dezanove edições sucessivas durante quatro séculos e era o manual oficial da Inquisição. Através das suas orientações precisas(19) para caçar bruxas, adivinhas, curandeiras, parteira… terá m andado para a prisão, tortura e fogueira m ais de cem m il m ulheres. A acusação mais com um era que estas m ulheres “copulavam com o dem ónio”.

pela fo rça terrível de suas p alavras mágicas, como por um gol e de veneno, conseguem destruir a vida. […] Hav endo convocado demónios em seu auxílio, na realidad e se at revem a recobrir a humanid ade de d esgraças e mal es, chegando a d estruir s eus inimigos atrav és de fórmulas m ágicas. E é certo que em operaçõ es dessa n atureza a b ruxa trabalha em íntima coop eração com o demônio. (2005: 67-68)

Entende-se, a partir destas considerações que é necessário ser detentor de força física e sobrenatural para fazer parte desse outro mundo onde vivem bruxas, feiticeiras, diabos cornudos, gatos pretos, serpentes, ervas que fazem voar.

Tal violência aterroriza! Devia ser esse o propósito de quem proclamava existirem mulheres com tal poder. O texto acima citado fala-nos dos seus poderes mas não caracteriza a bruxa fisicamente. A imaginação posta ao serviço do povo, na sua vertente oral e depois literária, vai suprimir essas falhas. Parece-nos pois que a maior parte dos eruditos lhes atribuiu poderes e o povo foi-lhes pincelando o rosto.

Umberto Eco ( apud Gerolamo Cardano, 2007) deixa-nos algumas notas físicas e psicológicas sobre a bruxa que circulavam durante o século XV. Se as primeiras parecem ficcionadas, já as que dizem respeito ao comportamento indiciam determinação e fé nas suas crenças. Gerolano refere-se às bruxas com desdém e descrédito, referindo que são

como mulherzinhas de miserável condi ção que v egetam nos vales comendo castanhas e ervas. Se não tomassem um pouco de leite nem conseguiriam viver. Por isso, são macilentas, disformes, de cor t érrea, com os olhos fora d a cabeça e com o olhar mostram qu e têm um temperamento m eren córico e bilioso. […] São tão firmes na sua opinião que, a crer unicamente nos seus discursos, julgar- se-ia qu e são verdadei ras as coisas que contam com tal convicção, coisas que nunca aconteceram nem nunca acont ecerão. (pág.209)

Alexandre Parafita (2000:25) salienta algumas características físicas da bruxa. Define-a como tendo o “rosto feio, enrugado, um olho enorme e outro semicerrado, nariz longo e pontiagudo, dentes podres (menos um que sobressai para fora da boca) queixo saliente e aguçado”.

Mas há estudos que separam a bruxa da feiticeira.

Que linha imaginária se traça entre uma e outra? A que critérios obedece?

A fim de estabelecer a separação/aproximação das duas entidades é importante observar o que dizem aqueles que as conheciam melhor. O Martelo das Feiticeiras não separa feiticeiras de bruxas mas, no capítulo II refere que consta

existirem

três tipos de feiticeiras: as que injuriam mas não curam; as que curam mas, através de algum estranho pacto com o diabo, não injuriam; e as que injuriam e não curam. Entre as primeiras, há uma classe particularmente pro eminente: a das que são cap azes de fazer tod a a sorte de bruxarias e d e en cant amentos, abrang endo tudo o que todas as dem ais só são cap az d e fazer individualmente. (2005:214)

Para Consiglieri Pedroso (1988:95-108), as “bruxas começam por ser feiticeiras e, depois de terem comunicado com o Diabo, este as induz com falsas promessas a serem bruxas, exigindo em troca votos e juramentos”. M as, com base em recolhas orais, separa a bruxaria da feitiçaria. Para o povo “são duas expressões que não se devem confundir, logo bruxa e feiticeira são expressões também diferentes”.

A feiticeira é “uma mulher, de ordinário velha e hedionda, que tem comunicação e pacto com o Diabo, sem perder contudo a forma humana, e sem possuir poderes ilimitados ou extra - humanos. […] Adivinha o futuro e casos omissos das pessoas; resolve situações que afectam pessoas e animais fruto de mau- olhado.

Entre outros trabalhos poderiam recorrer a elas […] - a moça que não encontra marido;

- a esposa a quem o marido engana, - a porca que “não vai à pia”;

- a mulher a quem não medram os filhos”.

Alexandre Parafita (2000:80) cita um dito popular que separa as feiticeiras das bruxas, “a bruxa nasce, a feiticeira faz-se” mas entrega à bruxa uma peneira. Este objecto está ligado às feiticeiras. Como refere o autor num outro livro109, “segundo a tradição popular, a peneira é o objecto mágico das feiticeiras, tal como a vassoura é o objecto mágico das bruxas e a varinha de condão é o das fadas”.

M oisés Espírito Santo (1990:160-166) na mesma linha, alega que feiticeira é a mulher que enlaça e enfeitiça e não é menos religiosa que a curandeira que desliga, desenfeitiça ou exorciza. Distingue “as mulheres feiticeiras que actuam às claras e a feiticeira nocturna […] as palavras de uma e de outra são palavras poderosas que se

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reportam à visão misteriosa da mulher e da mãe. O poder delas vem de potências obscuras e são essas potências que lhes conferem o «destino» maléfico a uma e o antídoto a outra”.

Nas recolhas tradicionais orais, há uma certa confusão entre feiticeira e bruxa. Se, por um lado, se separam entre diurnas e nocturnas, entre benéficas e maléficas, por outro, acabam sempre por executar os mesmos trabalhos e serem atiradas para um mundo marginal. Kramer e Sprenger, no século XV, defendiam a existência de três tipos de feiticeiras. Esta imagem tríplice (simbolicamente importante) é, em nossa opinião, o resultado das suas acções como prestadora de serviços. Pode também remeter para as deusas tríplices: virgem, mãe e velha.

De acordo com Shahrukh Husain as feiticeiras estão fortemente ligadas à deusa, em especial na fase da velhice sendo

frequ ente terem a mesma idade, perman ecerem envolvidas na mesma escu ridão e no mesmo mistério e possuírem a mesma relação coma mort e. As que matam e devo ram crian ças, como a feiticeira de Hans el e de Gretel, cujas origens remontam a deus as como Likele e Kalwadi, da Melanésia, são criações populares – person agens p érfid as unidimensionais, cuja crueld ade é d estituída de raciocínio. (2001:134)

Há alguma contradição ou falta de clareza em muitos estudos, o que talvez esteja associado à contaminação cultural do mito. Será bruxa, quando as coisas correm mal, para ela ou para os outros, feiticeira/curandeira quando usa os seus conhecimentos e eles surtem efeito e deusa, nas suas raízes ancestrais.

Pires Cabral (1993:140) caracteriza a bruxa como andando “enrodilhada no xaile, vestida de negro da cabeça aos pés, com um lenço pela cabeça que quase lhe cobre a cara toda”.

Como e onde se movimentam as bruxas com tais atributos de fealdade?

M ovimentam-se, sobretudo nos locais afastados, isolados e plúmbeos. Efectuam as suas celebrações, junto à água, nas clareiras, nas casas assombradas, nas adegas, nos sótãos. M as as florestas e as matas actuam como referências. São locais impregnados de mistério, silêncios canoros, odores inebriantes e onde a magia se manifesta. Funcionam como verdadeiras escolas.

Será talvez neste sentido, de aprendizagem natural, que na linguagem celta árvore significa escola. Vamos encontrar “as escolas dos druidas […] em bosques ou matas”. Deste modo, “uma grande parte dos mistérios dos druidas estava relacionado

com ramos de diversas espécies” (Bancroft, 1990:88).

Diz-se também que as bruxas não gostam da luz do dia. A lua é sua companheira. Aparecem nas encruzilhadas e cemitérios, lá pela meia-noite que é um tempo limiar, entre um dia e o outro. Este seu tempo dura até ao cantar do galo que, nas zonas rurais, anuncia o nascimento de um novo dia e apela à oração.

Segundo ainda a tradição oral, a bruxa é (Pedroso, 1988:100) “um génio malfazejo, e o mal que faz vai recair sobre os mais inofensivos entes, como acontece com as crianças de mama, às quais chupa o sangue”. Este sangue, diziam, era para elas produzirem o unguento que lhes conferia a capacidade de voar. Tal associação da bruxa à antropofagia e ao sangue das crianças poderá compreender-se se unirmos a simbologia, lua – sangue - mulher. O sangue é vida, é calor, é fogo. Segundo alguns mitos, ele faz crescer as plantas e os metais. A lua também exerce a sua influência sobre o mar, as plantas, os animais e, especialmente, sobre a mulher, no tempo de gestação e nos ciclos menstruais. A cada lua há uma morte e um renascimento porque o seu desaparecimento na obscuridade nunca é definitivo (tal como as bruxas). A lua, escreve Eliade (1997)

nunca foi adorada em si mesma, mas no que ela revel ava d e s agrado, qu er dizer, na força que está con centrada nel a, na realidad e e na vid a inesgotável que ela mani festa. A sacralidad e lunar era conhecida, quer de uma manei ra imediata na hi ero fania sel énica, quer nas formas « criad as» por essa hi ero fania durante milénios, quer dizer, nas representações a qu e deu origem: personi ficações, símbolos ou mitos. (pág. 210)

As bruxas estavam ligadas ao nascimento e à morte simbólicas e reais.

Eram as parteiras disponíveis numa época em que se morria de todas as doenças conhecidas e desconhecidas. Esse medo, pelas coisas desconhecidas, está bem presente nas páginas bíblicas. As advertências/ordens dirigiam-se apenas aos que adoravam um deus único. Os outros, os diferentes110não precisavam seguir essas leis. Vejamos o que diz a Bíblia Sagrada (1993:201) no Deuteronómio: ”não comereis nenhum animal que morreu por si. Podereis dá-lo ao estrangeiro que está dentro da cidade, para que o coma, ou vendê-lo ao estranho, porquanto sois povo santo ao Senhor, vosso Deus”.

O embate cristianismo / paganismo terá também sido marcado pela resistência da mulher às pressões exercidas pelo poder patriarcal eclesiástico, sobre a sua

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Os diferentes podiam ser as bruxas, os leprosos, negros, m ulatos, ciganos ou qualquer um /a que aparentasse dúvidas a respeito da religião cristã.

intervenção nas práticas religiosas e sobre o seu corpo. Foram assim obrigadas a praticar, em segredo, os seus rituais religiosos.

Por detrás da proibição cresce a trans gressão. Acontece na realidade e na ficção.

É o que encontramos nos irreverentes contos populares que, ao fundir realidade e ficção, abandonam as regras impostas, alteram o estatuto feminino de passividade e obediência e apresentam homens que não se assemelham ao dito sexo forte.

Quando algum elemento masculino vai perturbar os rituais das bruxas, é convidado a obedecer-lhes e, se o não fizer, o castigo recai sobre ele. Abusado pelas mulheres que espia e vigia, ele pode acabar ‘feito em farrapos’111.

M as havia outra forma de as bruxas controlarem o corpo dos homens, como revelam as palavras do historiador Caro Baroja.

Assim para além dos seus conhecimentos dos segredos da magia, além das suas manhas de alcoviteira, a b ruxa possui um s aber empírico que faz dela uma envenen adora e uma p erfumista, actividades, de resto, intimamente ligadas até ao Renas cimento e até posteriorment e. Com efeito, as erv as e as plantas medicinais desempenh am um papel importante na composição desses produtos e, ocasionalmente, podem ter sobre a brux a ou sobre as suas vítimas, efeitos oníricos particulares. (1978:60)

Estes conhecimentos sobre as propriedades das plantas, nas mãos das mulheres eram heresia não tolerada. O saber/conhecimento sempre se interliga com alguma espécie de poder. E o saber, a instrução estava por lei, vedado à mulher.

Ao conhecer e transformar as ervas, estas mulheres tornavam-se poderosas nas questões ligadas à saúde. Eram as médicas possíveis numa época em que a mortalidade infantil era catastrófica e a esperança de vida não ia além dos quarenta anos. Eram também elas que dominavam e vida e a morte pois assistiam aos partos, numa época em que os homens não podiam tocar o corpo da mulher. Através do conhecimento ancestral das ervas, ajudavam muitas mulheres a controlar as gravidezes indesejadas, a curar a infertilidade, a atenuar as dores de parto (contrariando o que diz a Bíblia, que manda a mulher parir na dor), além de dominarem os segredos afrodisíacos e a magia culinária. A pílula anticoncepcional estava nas suas mãos numa altura em que a sua sexualidade era rigidamente controlada pelos homens. A virgindade e os filhos que “Deus der” eram norma que

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as mulheres levavam para o casamento.

Qualquer rotura a essa lei podia significar a morte. O adultério era impensável. Casar com o homem desejado, um sonho. A mulher passava das mãos do pai para o marido. A partir daí, reduzida ao âmbito doméstico ficava silenciada nas suas ambições e limitada nos seus conhecimentos. M as na doença, em casos de mau-olhado, invejas ou outros trabalhos similares, a presença da bruxa era solicitada nas casas ricas ou pobres. Ora, dentro de casa ela podia usar as suas artes mágicas para o bem e para o mal. Sendo ela também acusada de provocar a impotência/infertilidade nos homens, podemos imaginar o temor e o respeito que inspirava ao sexo oposto.

Kramer e Sprenger (2005:248-254), os atentos inquisidores, explicam ao mundo masculino, em forma de advertência e com contornos de lascívia, a forma como as bruxas, essas mulheres que têm pacto com o demónio, eram capazes de remover o órgão masculino através de encantamentos. Relatam a história de um jovem que após uma zanga com uma menina ficou sem o seu membro viril. Volta a procurar a jovem, agora transformada em bruxa, para se curar. Ela insiste na sua inocência mas ele usa de violência tal que a fará morrer nas suas mãos se ela se