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LVIII

Dans le document Propos de littérature (Page 123-131)

No prólogo dos Quatro Livros de História, verifica-se a concepção de um possível método pensado para a composição de relatos históricos. No excerto que se segue, Richer de Reims demonstra quais são suas inspirações para a escrita da história:

154 MACEDO, José Rivair. “Tempo, Providência e apocalipse na Historia Francorum, de Gregório de Tours”. Anos 90: Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS. Porto Alegre, RS, v. 12, p. 59-77, 1999.

Mas se for acusado de ignorância a propósito de uma antiguidade desconhecida, não nego haver tomado algumas coisas de um certo livro de Flodoardo, padre de Reims, mas em verdade esta obra demonstra de modo bem evidente que eu tomei não as mesmas palavras, mas usei outras, em um esquema de discurso muito diferente.155

Percebe-se no texto de Richer que este historiador admite a influência de autores clássicos, sendo que, segundo Jason Glenn, estilisticamente Richer tem sua base na composição da produção histórica romana.156 Nesse trecho encontramos algumas considerações de grande importância para a análise que pretende-se com esta pesquisa. Em um primeiro momento, Richer aponta a impossibilidade de se descrever um passado mais distante, ao qual ele dá o nome de “Antiguidade”/ “antiquitatis”, principalmente pela escassez de material para consulta. Logo, o autor percebe a dificuldade de obter material de onde se pode tirar a informação, o que também auxilia na noção de seu próprio desenvolvimento metodológico. Outro ponto bastante interessante é que quando ele denomina a Antiguidade, esta significa tão somente os séculos que antecedem ao seu relato, e não remete diretamente aos gregos e romanos, pois não havia nenhum tipo de nomenclatura para referir-se aos povos daquele período anterior na obra de Richer. É devido a essa percepção de impossibilidade de verificação dos acontecimentos assumida pelo historiador, que ele procura recuperar alguns acontecimentos que estão mais próximos à sua temporalidade. A contemporaneidade dos eventos, em Richer de Reims, é fundamental para a compreensão da construção narrativa que ele se empenha em realizar.

Para conseguir informações suficientes para o seu relato, passa a utilizar-se dos Anais de Flodoardo, cuja narrativa expõe os eventos que ocorreram entre os anos de 919-966.157 Não se pode deixar de notar que Richer anuncia em seu prólogo que os dados retirados dessa obra aparentemente são escassos, entretanto, conforme já salientamos em linhas anteriores, não se pode abdicar da noção de que Richer de Reims faz uma releitura e reescrita destes Anais, principalmente nos dois primeiros livros de sua obra. Escrever a história, para Richer de Reims, é, portanto, realizar a escrita de uma história que se pode denominar como sendo contemporânea, não apenas a ele, mas a grande parte dos autores deste período.

155 RICHER, HIST, Prol. Sed si ignotae antiquitatis ignorantiae arguar, ex quodam Flodoardi presbiteri Remensis

libelo me aliqua sumpsisse non abnuo, at non verba quidem eadem, sed alia pro aliis longe diverso orationis scemate disposuisse res ipsa evidentissime demonstrat.

156 GLENN, 2004, Politics and history in the tenth century. The work and world of Richer of Reims, p. 55. 157 FLODOARD DE REIMS. Annali (919-966). Editado por Paolo Rossi. Fonti tradotte per la storia dell’Alto Medioevo. Pisa: Pisa University Press, 2007.

Partindo da observação de que ele faz uma seleção, reestruturação das informações e uma possível reescrita da história, concordamos com o enunciado por Jason Glenn, quando afirma que os possíveis erros de cronologia, ou até mesmo de formulação da escrita, as alterações, têm caráter político no texto do autor medieval, demonstrando seu posicionamento político na hora da defesa de alguma das partes.158 Essa ação está totalmente relacionada com o uso da retórica para a construção de um argumento de defesa sobre alguém que ele objetivava com seu texto.

Buscando modelos clássicos para composição histórica, Richer se aproxima da monarquia e se mostra favorável tanto aos carolíngios quanto aos capetíngios. Esse posicionamento de Richer em seu relato pode ser analisado como uma forma de sua participação política: o uso da composição do relato como legitimação de poder para a dinastia que está ascendendo ao trono. Glenn conclui ser a narrativa richeriana uma partícipe da “cultura política” no reino dos Francos.159 Portanto, a tese de Glenn, pela qual também advogamos neste trabalho, é a de que os historiadores, com seu ofício, são partícipes diretos na comunidade política a partir da escrita dos seus relatos.160 Assim, da mesma forma que também defende a já citada Gabrielle Spiegel, servindo-se não apenas da sacralidade, mas também de uma legitimidade advinda da própria história, o rei reforça sua legitimação perante a sociedade política.161 Dessa forma, erros muitas vezes estão ligados à ideia teológica, retórica, moral, demonstrando até mesmo uma suposta função pedagógica que parte do relato histórico com sua intenção de afirmação da legitimidade real perante a estrutura política composta pela nobreza162. Ainda nos parece claro que a utilização de livros de história por parte dos membros da realeza seja uma seara obscura; no caso de Richer, somente as suposições são possíveis, no intuito de averiguar um público para a sua obra e a utilização real do seu texto.

Richer de Reims também afirma estar disposto a relatar os “costumes dos habitantes da Gália”. Para esse fim, em sua escrita exercita uma descrição da população do Reino dos Francos, com a exposição de suas virtudes e a formulação de críticas a algumas características:

Portanto, todos os habitantes da Gália se destacam por uma audácia inata, sendo intolerantes a críticas. Se excitados, exaltam-se nos massacres e, furiosos, vão ao assalto sem piedade. Mas, uma vez persuadidos e 158 GLENN, 2004, p. 5. 159 Ibidem, p. 9. 160 Ibidem, p. 14. 161 SPIEGEL, 1997. p. 83. 162 Ibidem.

convencidos com argumentos, dificilmente têm o hábito de desmentir-se. Por isso, como disse Jerônimo: A Gália sozinha não produz monstros, mas sempre brilhou por homens prudentes e eloquentíssimos163.

Nesse excerto encontramos juízos de valor expostos pelo historiador acerca da sociedade sobre a qual está escrevendo. Ele julga que, ainda que essa região seja repleta de homens que agem de maneira instintiva, muitas vezes dentro da sociedade ainda reinam virtudes, tais como a prudência e a eloquência. Portanto, os habitantes dessa região são dotados de características que devem ser expostas porque são importantes, de acordo com sua própria concepção, sendo estas características tanto boas quanto más. Assim, dentro do espaço específico, justifica-se o relato sobre determinados personagens. Acreditamos também que seja importante ressaltar que essas informações que constam no início do seu livro, na parte prologal, são as únicas que dentro deste Livro I não se remetem as narrativas de Flodoardo.164 Se podemos considerar como um princípio da escrita da história nesse período a preservação da verdade nos relatos – talvez um dos princípios mais importantes para o período –, independentemente de quais grupos ou personagens estão sendo descritos no momento da escrita, também temos que apontar que este objetivo não se verifica em uma análise que coteje as mais variadas documentações sobre o período. O intuito da escrita objetiva, sem o interesse partidário,165 não se concretiza a partir da busca no texto, nas palavras, ainda que constantemente seja uma defesa ferrenha dos autores dos livros de história nessa época. Há, pois, a tomada de posição religiosa e política, o que acaba por ruir com a concepção de imparcialidade que os autores medievais apontam como objetivo em seus textos.

Em seu Prólogo, o historiador Richer de Reims também assume e explica, de maneira clara, possíveis falhas, dada a brevidade de alguns tópicos em relação a outros, que podem ser encontradas em seu relato. O excerto que se segue apresenta esta afirmação: “E considero que o leitor deve ficar satisfeito se expus alguma coisa de modo plausível, mas também claro e breve. Com efeito, recusando adentrar-me no discurso, exporei muito coisa de maneira sucinta”.166

163 RICHER, HIST., I, 3. Ominium ergo Galliarum Populi innata audatia plurimum efferuntur, calumniarum

impatientes. Si incitantur, cedibus exultant, efferatique inclementius adoriuntur. Semel persuasum ac rationibus approbatum vix refellere consuerunt. Unde et Hieronimus ‘Sola’, inquit, ‘Gallia monstra non habuit, sed viris prudentibus et eloquentissimis semper claruit’.

164 Vide nota 116.

165 Partidário aqui compreendido como tomada de posição, posicionamento.

166 RICHER, HIST., Prol. Satisque lectori fieri arbitror, si probabiliter atque dilucide breviterque omnia

Interpretamos que, para os historiadores medievais, quando se assume a escrita de um livro de história, deve-se fazer escolhas, e elas não podem ser abdicadas, haja vista a conclusão do texto referente a um pedido. Há um limite para a entrega do material, certamente, pois, se pensamos a partir das pesquisas de Manuel Cerda, citado acima, quando um rei contrata alguém para a composição do relato, ele deseja ver o resultado desse pedido. No caso de Richer, mesmo que não haja possibilidade de encontrar alguma evidência que coloque alguma limitação imposta por Gerberto de Aurillac, creio que havia em Richer a necessidade de conclusão do texto, mesmo que esta fosse apenas uma imposição pessoal dele próprio.

Algumas das escolhas deste monge para a composição do seu relato, portanto, dizem respeito ao privilégio de alguns pontos em detrimento de outros. Desta forma, para Richer, alguns acontecimentos serão expostos, narrados, de forma sucinta, visando apenas dar algumas explicações necessárias, não sendo feita, a partir disso, uma exposição longa e profunda sobre acontecimentos que não estejam relacionados com a estrutura do texto que o historiador está compondo. Portanto, há aqui a aceitação, por parte do próprio autor do texto histórico, de que em alguns pontos haverá lacunas, as quais poderão advir das próprias fontes de informações escassas, o que pode acabar impedindo ao historiador relatar acontecimentos com a devida precisão. Isto nos parece, mais uma vez, um demonstrativo aceitável de que o trabalho é feito de maneira consciente, de que o próprio autor medieval aceita suas limitações e coloca a escrita da história como um trabalho de seleção de material. Além da própria noção sobre a necessidade de uma clareza narrativa durante a composição do texto histórico. Essa clareza, para Richer, pode apresentar-se relacionada com a concisão da escrita sobre alguns eventos. Afinal, creio, nenhum historiador do período estaria disposto a aceitar publicamente que seu trabalho fora feito de maneira lacunar deliberadamente, mas, sim, apontar impossibilidades de desenvolvimento sobre determinados assuntos, com justificativas como as expostas pelo excerto anterior.

Entretanto, da mesma maneira que alguns relatos são escritos de maneira bastante concisa, é preciso compreender, como o fizemos no capítulo anterior, que Richer de Reims discorre durante várias páginas sobre a forma como se dava o processo educacional de Reims com Gerberto, chegando a descrever a forma como se construiu um ábaco. Isso nos leva a afirmar que é muito mais uma justificativa inconsistente que, em realidade, denota um trabalho de seleção e legitimação; escreve-se mais sobre o que se deseja escrever, e não com o intuito de relatar os eventos todos.

A historiografia, parece-nos, concorda que muitos autores na Idade Média se baseiam em pressupostos que já estão presentes na produção histórica que os antecede. Algumas destas tradições são mais próximas, vindas do interior de seus próprios espaços, outras remetem-se aos autores longínquos, gregos e romanos.167 Buscam uma possível tradição para a composição de seus pressupostos básicos, com o intuito de afirmar a validade de seu próprio trabalho. O caso de Richer de Reims, entretanto, é mais notável pela busca de informações a partir dos escritos de Flodoardo, mas com uma negação ao estilo do antecessor, afastando-se da escrita dos Anais e passando a um texto de História.

Todas as ações são afirmativas para a autolegitimação do o ato da escrita da narrativa histórica. Possuem um público e, portanto, têm uma intenção específica ao escrever sua obra. Esse público é político, mas, principalmente, religioso, no caso de Richer de Reims, haja vista a impossibilidade que temos que averiguar o alcance que teve a obra, pois, por exemplo, se formos destacar em números, apenas um códice restou do texto. Mesmo assim, é inegável que quando escrevem sabem qual será o público e, portanto, já têm uma percepção de como poderia ser – ou deveria ser, na concepção deles – a reação e recepção do texto e das ideias contidas nele.

Para legitimar a sua obra, a sua escrita, a sua função, apontam a necessidade do relato histórico como sendo a garantia da manutenção da memória, que é falha, falsa e enganadora, conforme expos Patrick Gearyem em seu Phantoms of Remembrance.168 O relato do tipo histórico pode ajudar as pessoas para que elas não esqueçam quem são os grandes homens e quais grandes feitos ocorreram na sociedade a qual pertencem. Têm, portanto, estes historiadores medievais, a consciência de uma função real na vida em sociedade para a escrita da história, a importância da narrativa histórica. A ação, deste modo, não pode ser compreendida como restrita a um meio onde ninguém deveria ter acesso. A história é viva e age socialmente, não fosse assim, não haveria necessidade de todo comprometimento para o ofício.

Na obra de Richer de Reims, a sociedade é dividida, e há uma predominância do espaço físico do Reino dos Francos, portanto, é para esta região e para esta população que ele escreve. A Gália – como ele mesmo a denomina – aparece como o cenário principal das personagens, e é nesse território que ele baseia toda a sua análise e toda a centralidade de sua escrita. Mesmo

167 ALMEIDA, 2014, Os “pais da história” e o discurso do método, p. 15-38.

168 GEARY, Patrick J. Phantoms of Remembrance. Memory and Oblivion at the End os the First Millenium. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1994. p. 11.

afirmando-se como uma escrita que divide toda a terra, apontando suas partes e sua geografia, o que se nota é a tentativa de universalidade, mas remetendo-se sempre a um espaço regional para a composição do relato, como apontamos acima169.

Além destes aspectos, acreditamos que há uma função maior na escrita da história, para Richer de Reims (e não excluímos que para os outros historiadores seja diferente). A escrita trabalha com a organização política do período, com seus mais variados personagens agindo dentro do jogo político descrito. Não à toa, Stuart Arlie afirma que Richer de Reims pode ser compreendido como um autor de relatos que servem para a legitimação da dinastia dos Capetíngios.170 Portanto, mais do que apenas uma função religiosa dentro do mosteiro, estes relatos também são demonstrativos (e devem ser analisados) como direcionadores de elementos políticos no interior de sua sociedade. Torna-se, portanto, um argumento de justificativa para as análises sobre essas obras históricas e, mais especificamente, no caso deste estudo sobre os

Quatro Livros de História de Richer de Reims. A história – e sua escrita, por consequência –

também tem uma função na Idade Média, que é a de explicar/entender a política e os seus mais diversos personagens, sejam estes membros da nobreza ou da Igreja, onde impera uma nebulosidade e a não definição do que é o corpo eclesiástico e o que é o corpo nobiliárquico, conforme vêm discutindo recentemente muitos pesquisadores, como aponta o texto de Patrick Boucheron.171

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