Acima TUI, A ALEGRIA, LAGO. Abaixo SUN, A SUAVIDADE, VENTO.
Este hexagrama consiste de quatro linhas fortes no interior e duas linhas fracas no exterior. Quando os fortes estão no exterior e os fracos no interior, tudo vai bem, pois não há sobrecarga, nem ocorre nada de extraordinário. Aqui, entretanto, acontece o contrário. O hexagrama representa uma viga grossa e pesada ao centro, porém demasiado fraca nas extremidades. Essa é uma condição que não pode perdurar; deve ser modificada, deve passar, pois de outro modo o infortúnio ameaçará.
JULGAMENTO
PREPONDERÂNCIA DO GRANDE. A viga-mestra cede a ponto de quebrar.
É favorável ter onde ir. Sucesso.
O peso do grande é demasiado. A carga é excessiva para a força dos apoios. A viga-mestra, sobre a qual todo o telhado se apóia, cede, porque as extremidades que visam à sustentação são muito fracas para suportar o peso. Medidas extraordinárias são necessárias, uma vez que esta é uma época e uma situação também excepcionais. Deve-se procurar o mais rapidamente possível uma saída e então agir. Isso promete sucesso. Pois apesar do forte pesar demais, está no meio, isto é, no centro de gravidade, de modo que não há motivo para se temer uma revolução. Nada se poderá conseguir com medidas violentas. O problema deve ser resolvido procurando-se chegar ao significado da situação de modo suave (como é sugerido pelo atributo do trigrama interno Sun, suave penetrar). Assim a transição a outras condições terá sucesso. Isso exige uma real superioridade, por isso a época da PREPONDERÂNCIA DO GRANDE é uma época excepcional.
IMAGEM O lago sobrepassa às árvores:
a imagem da PREPONDERÂNCIA DO GRANDE. Assim o homem superior não se aflige quando está só e não se deixa abater quando deve renunciar ao mundo.
Épocas extraordinárias de preponderância do grande assemelham-se a uma inundação, quando o lago cobre as árvores. Porém, tais condições são passageiras. A atitude correta em tais épocas excepcionais é indicada pelos trigramas: a imagem de
Sun é a árvore, que permanece firme mesmo quando está só, e o atributo de Tui é a alegria, que permanece inabalável mesmo quando deve renunciar ao mundo.
LINHAS
Seis na primeira posição significa: Forrar com uma esteira de junco branco. Nenhuma culpa.
Quando se quer dar início a um empreendimento em meio a uma época excepcional, uma extraordinária cautela torna-se necessária, assim como, ao colocar algo pesado no chão, forra-se com junco embaixo para que nada se quebre. Essa precaução pode parecer excessiva, mas não é um erro. Os empreendimentos excepcionais só podem ter sucesso caso se observe a máxima cautela nos primórdios e nas bases.
○Nove na segunda posição significa: Num álamo seco surge um broto na raiz.
Um homem mais velho toma uma jovem como esposa. Tudo é favorável.
A madeira está junto à água, por isso a imagem de um velho álamo brotando na raiz. Isto significa um extraordinário redespertar do processo de crescimento. Uma situação igualmente excepcional ocorre quando um homem mais velho casa-se com uma jovem que lhe é apropriada. Apesar de ser uma situação pouco comum, tudo corre bem.
Do ponto de vista político, o sentido do texto é de que em épocas extraordinárias é aconselhável reunir-se aos inferiores, pois há entre eles a possibilidade de uma renovação.
Nove na terceira posição significa:
A viga-mestra cede a ponto de se partir. Infortúnio.
Isso indica uma personalidade que em tempos de preponderância do grande insiste em avançar com violência. Não aceita os conselhos dos outros e, como conseqüência, estes, por sua vez, também não se mostram dispostos a apoiá-lo. Por este motivo a carga aumenta e a estrutura cede ou se parte. Em épocas de perigo, uma atitude obstinada procurando avançar apenas acelera a catástrofe.
○Nove na quarta posição significa:
A viga-mestra é sustentada. Boa fortuna. Se há segundas intenções isso é humilhante.
Um homem responsável consegue dominar a situação graças a relações amigáveis com seus inferiores. Mas, se ao invés de procurar a salvação do todo ele fizesse mau uso de suas amizades, procurando obter poder e sucesso, isso levaria à humilhação.
Nove na quinta posição significa: Um álamo seco floresce.
Uma mulher idosa encontra um marido. Nenhuma culpa. Nenhum elogio.
Um álamo seco que floresce esgota assim suas forças e apenas apressa o seu fim. Uma mulher idosa casa-se novamente, porém a renovação não ocorre. Tudo permanece estéril. Ainda que todas as formalidades sejam observadas, ao final resta apenas uma condição anômala.
Politicamente isso sugere que quando em tempos de insegurança se abandonam os vínculos com os subalternos, e se mantém apenas aliança com as altas hierarquias, cria-se uma situação instável.
Seis na sexta posição significa: É preciso atravessar a água.
Esta chega a cobrir a cabeça. Infortúnio. Nenhuma culpa.
Descreve-se aqui uma situação em que as condições excepcionais chegaram ao máximo. A pessoa é corajosa e quer cumprir seu dever apesar de tudo. Isso a conduz ao perigo. A água cobre-lhe a cabeça. Esse é o infortúnio. Porém, não há culpa quando se oferece a vida para que prevaleça o bem. Há coisas que são mais importantes que a própria vida.
29. K'AN / O ABISMAL (ÁGUA)
Este hexagrama consiste na repetição do trigrama K'an, sendo, portanto, um dos oito hexagramas em que um mesmo trigrama se repete acima e abaixo. K'an significa precipitar-se. Uma linha Yang precipitou-se entre duas linhas Yin e é aprisionada por elas, assim como a água num desfiladeiro. K'an é também o filho do meio. O Receptivo recebeu a linha média do Criativo e assim se formou K'an. Enquanto imagem é a água, a água que vem do alto e que se movimenta na terra em rios e correntezas, dando origem a toda a vida.
Aplicado ao homem, representa o coração, a alma aprisionada no corpo, o princípio de luz contido na escuridão, ou seja, a razão. O nome do hexagrama possui ainda o significado adiciona] de "repetição do perigo", em virtude da duplicação do trigrama K'an.
Assim o hexagrama procura indicar uma situação objetiva à qual é preciso acostumar-se, e não uma atitude subjetiva. Pois o perigo devido a uma atitude subjetiva significa temeridade ou astúcia. Assim sendo, o perigo será simbolizado pelo desfiladeiro, isto é, uma condição na qual o homem se encontrará como a água num desfiladeiro e do qual poderá sair se, assim como a água, mantiver a conduta correta.
JULGAMENTO O ABISMAL repetido.
Se você é sincero, terá o sucesso em seu coração e tudo o que fizer terá êxito.
Acima K’AN, O ABISMAL, ÁGUA. Abaixo KAN, O ABISMAL, ÁGUA.
A medida que um perigo se repete, o homem tende a se acostumai a ele. A água dá o exemplo da conduta correta nessas condições. Prossegue fluindo e vai preenchendo todas as depressões que encontra. Não vacila ante nenhuma passagem perigosa, não retrocede ante nenhuma queda, e nada a faz perder sua natureza essencial. Ela permanece fiel a si mesma em todas as circunstâncias. Assim também, se uma pessoa for sincera quando confrontada com dificuldades, seu coração chegará ao significado da situação. E quando se consegue dominar interiormente um problema, o sucesso acompanhará de maneira natural as ações. Diante do perigo é preciso ser meticuloso, fazendo tudo o que for necessário, para então seguir adiante de modo a não perecer por demorar-se no perigo.
Usado corretamente, o perigo pode ter um importante significado como medida de precaução. Assim, o céu tem sua altura perigosa, protegendo-o de qualquer tentativa de ataque. Da mesma forma a terra tem montanhas e águas, separando os países através do perigo. Os governantes também utilizam o perigo para se defenderem de ataques externos e de tumultos internos.
IMAGEM
A água flui ininterruptamente, e chega à sua meta: a imagem do AB1SMAL repetido.
Assim, o homem superior caminha em constante virtude e exerce o magistério.
A água alcança sua meta fluindo ininterruptamente. Ela preenche todas as depressões antes de fluir adiante. O homem superior segue esse exemplo e procura fazer com que o bem se torne um atributo consolidado em seu caráter, e não apenas uma ocorrência ocasional e isolada. Do mesmo modo, o ensino também requer constância, pois só a repetição da matéria permite que o aluno a assimile.
LINHAS Seis na primeira posição significa: A repetição do abismai.
No abismo, se cai num fosso. Infortúnio.
Acostumando-se ao perigo, o homem pode com facilidade torná-lo parte de si mesmo. O perigo lhe é familiar e assim ele se acostuma ao mal. Perde, deste modo, o caminho correto e o infortúnio é a conseqüência natural.
○Nove na segunda posição significa: O abismo é perigoso. Deve-se procurar alcançar apenas pequenas coisas.
Quando o homem está em perigo, não deve tentar escapar de qualquer maneira. Ao início deve se contentar com que o perigo não o vença. Deve considerar com serenidade as circunstâncias do momento, contentando-se com pequenas vitórias, já que por enquanto não é possível alcançar um grande sucesso. Uma fonte começa a fluir aos poucos, e demora algum tempo até abrir um caminho livre.
Seis na terceira posição significa: Para adiante e para trás.
Abismo sobre abismo.
Num perigo como esse, detenha-se ao início e espere. Senão você cairá num fosso no abismo.
Aqui qualquer passo para diante ou para trás conduz ao perigo. Escapar é impossível. Assim sendo, deve-se evitar a ação, pois isso mergulharia ainda mais no perigo. Ainda que seja desagradável permanecer em tal situação, deve-se esperar até que surja uma saída.
Seis na quarta posição significa:
Uma jarra de vinho, uma tigela de arroz,36
louça de barro, simplesmente entregues pela janela. Isso por certo não implica em culpa.
Em épocas de perigo as formalidades convencionais são abandonadas. O principal é a sinceridade. Em condições normais, o funcionário que aspirava a um cargo devia trazer certas oferendas e recomendações antes de ser nomeado. Tudo aqui está simplificado ao máximo. As oferendas são modestas, não há ninguém para recomendá-lo e ele tem de fazer sua própria apresentação. No entanto, não deve se envergonhar por isso, se existir apenas a sincera intenção de prestar uma ajuda mútua no perigo.
Outra idéia ainda é sugerida: é através da janela que a luz entra num aposento. Se, em épocas difíceis, se quer esclarecer alguém, deve-se começar pelo que é mais evidente e claro, para então se prosseguir a partir daí.
○Nove na quinta posição significa:
O abismo não está cheio a ponto de transbordar, está cheio apenas até a borda.
Nenhuma culpa.
O perigo surge de um desejo de ascensão desmedida. Para sair do desfiladeiro, a água não se acumula em seu interior senão até alcançar o ponto mais baixo da borda, por onde então flui. Do mesmo modo quando em perigo, o homem deve procurar a linha de menor resistência para assim poder alcançar sua meta. Em tais épocas grandes realizações são inexeqüíveis. Sair do perigo já é o suficiente.
Seis na sexta posição significa: Amarrado com cordas e cabos,
aprisionado entre as muralhas de uma prisão, cercado de arbustos espinhosos.
Durante três anos não se consegue encontrar o caminho. Infortúnio.
Um homem que, em meio a um extremo perigo, perde o caminho correto e que está irremediavelmente envolvido num emaranhado de erros, não tem nenhuma perspectiva de saída desta situação perigosa. Assemelha-se a um criminoso amarrado atrás das muralhas de uma prisão cercada de arbustos espinhosos.
36 A tradução habitual, "duas tigelas de arroz", foi corrigida com base nos comentários chineses.
30. LI / ADERIR (FOGO)
Acima LI, O ADERIR, FOGO. Abaixo LI, O ADERIR, FOGO.
Este é mais um dos hexagramas formados pela repetição de um mesmo trigrama. O trigrama Lá significa "aderir a algo", "ser condicionado", "depender de algo" e "claridade". Uma linha obscura liga-se a uma linha luminosa acima e a outra abaixo. Assim surge a imagem de um espaço vazio entre duas linhas fortes, o que as torna luminosas. Li é a filha do meio. O Criativo incorporou a linha central do Receptivo e desse modo se forma Li. Como imagem é o fogo. O fogo não tem uma forma definida, porém liga-se aos corpos que queimam, tornando-se luminoso. Assim como a água desce do céu, o fogo arde elevando-se da terra. Enquanto K'an significa a alma aprisionada no corpo, Li significa a natureza em seu esplendor.
JULGAMENTO ADERIR. A perseverança é favorável. Ela traz o sucesso.
Cuidar da vaca traz boa fortuna.
O obscuro liga-se ao que é luminoso, promovendo assim a claridade deste último. Um corpo luminoso, ao irradiar luz, deve ter em seu interior algo que Persevere pois, de outro modo, com o tempo se extinguiria. Tudo o que é luminoso no mundo depende de um elemento ao qual se liga, a fim de poder continuar a brilhar.
Assim, o sol e a lua ligam-se ao céu, enquanto os grãos, a grama e as árvores ligam-se à terra. Do mesmo modo a redobrada clareza do homem fiel a seu destino adere ao bem, e pode assim dar forma ao mundo. A vida humana no mundo é condicionada e dependente. Quando o homem reconhece essa limitação e se submete às forças harmoniosas e benéficas do cosmos, ele alcança o sucesso. A vaca é o símbolo da extrema docilidade. Cultivando em si essa docilidade e voluntária dependência, o homem conquista uma clareza suave e encontra seu lugar no mundo.
IMAGEM
A clareza eleva-se duas vezes: a imagem do FOGO. Assim, o homem superior, perpetuando essa clareza, ilumina as quatro regiões do mundo.
Cada um dos dois trigramas representa o sol no ciclo de um dia. Os dois juntos representam a repetição do movimento do sol, a função da luz gerando o tempo. O homem superior dá continuidade à obra da natureza no mundo dos homens. Graças à clareza de seu ser, ele faz com que a luz se espraie, penetrando cada vez mais na natureza do homem.
LINHAS Nove na primeira posição significa: As pegadas se entrecruzam.
Se o homem se mantém sério, nenhuma culpa.
Amanhece, e o trabalho se inicia. Após ter estado isolado do mundo exterior no sono, a alma começa a restabelecer suas relações com o mundo. As marcas das impressões se entrecruzam. Atividade e pressa imperam. Nesse momento, o importante é preservar o recolhimento interior e não se deixar levar pela agitação da vida. Se permanecer sério e concentrado, o homem alcançará a clareza necessária para a análise das numerosas impressões que lhe chegam. E precisamente no começo que esta séria concentração é importante, pois no início está a semente de tudo que se seguirá.
○Seis na segunda posição significa: Luz amarela. Suprema boa fortuna.
É meio dia. O sol brilha com luz amarela. O amarelo é a cor do meio e da medida.37 A luz amarela é, portanto, o símbolo da civilização e da arte em seu apogeu, cuja harmonia está no perfeito equilíbrio.
Nove na terceira posição significa: Sob a luz do sol poente
os homens ou batem no caldeirão e cantam, ou suspiram em voz alta à aproximação da velhice. Infortúnio.
Finda o dia. A luz do sol poente lembra o aspecto condicionado e transitório da vida. Nesta falta de liberdade exterior os homens com freqüência perdem também sua liberdade interior. A transitoriedade da existência ou os impele a uma euforia desenfreada, a fim de gozar a vida enquanto ela dura, ou se deixam levar pela tristeza e desperdiçam um tempo precioso lamentando a aproximação da velhice. Ambas as atitudes são erradas. Para o homem superior é indiferente que a morte esteja próxima ou distante. Ele aprimora-se, aguarda sua sorte e assim consolida seu destino.
37
Na China Antiga consideravam-se cinco cores básicas, sendo o amarelo a central. (Nota da
Nove na quarta posição significa: Sua chegada é repentina;
inflama-se, extingue-se, é jogado fora.
A clareza do intelecto tem para com a vida uma relação semelhante à que o fogo tem com a madeira. O fogo adere à madeira, mas ao mesmo tempo a consome. A clareza do intelecto tem suas raízes na vida, mas também pode consumi-la. Tudo depende de como essa clareza funciona. É usada aqui a imagem de um meteoro ou de um fogo de palha. Um homem de caráter excitável e inquieto tem uma rápida ascensão, porém sem deixar efeitos duradouros. É um erro desgastar-se demasiado rápido e se consumir como um meteoro.
○Seis na quinta posição significa:
Em prantos, suspirando e lamentando. Boa fortuna!
A vida aqui atinge um apogeu. Nesta posição, se não houvesse uma advertência, o homem se consumiria como uma chama. Mas se chora e suspira, preocupado em conservar sua clareza, renunciando a toda esperança e temor por reconhecer a vacuidade de todas as coisas, essa sua tristeza trará boa fortuna. Aqui ocorre uma verdadeira e definitiva mudança de atitude, e não apenas uma mudança temporária, como no caso do nove na terceira posição.
Nove na sexta posição significa:
O rei o utiliza para marchar adiante e castigar. O melhor será então matar os líderes
e aprisionar seus seguidores. Nenhuma culpa.
O propósito da punição é impor disciplina, e não castigar cegamente. O mal deve ser cortado pela raiz. Na vida política, para fazê-lo, devem-se eliminar os líderes, porém poupar seus seguidores. No auto-aperfeiçoamento devem-se extirpar os maus hábitos e tolerar aqueles que são inofensivos. Pois o ascetismo muito rigoroso, assim como as punições excessivamente severas, não conduzem a bons resultados.
SEGUNDA PARTE