2. Activités de recherche et d’encadrement
2.3. Conception de méthodes de protection des cultures
2.3.2. Lutte intégrée : exemple du Puceron du cotonnier
Antes de introduzirmos os dois últimos pilares da estrutura conceptual, é relevante recordar o trabalho de Wrigley & Lowe (2002) sobre as transições espaciais (spatial switchings) do retalho alimentar em contexto urbano nas últimas décadas. Os autores, analisando os padrões de localização recentes do retalho, argumentam que estes acabam por compor uma cartografia que descreve uma geografia inconstante, permitindo traçar diferentes transições espaciais do capital retalhista, a que se associam diferentes estratégias locativas e diferentes formatos comerciais. Estas transições espaciais e mudanças no capital retalhista tendem a ser progressivamente mais rápidas desde a penetração das grandes cadeias de distribuição alimentar no mercado, que tendem a mobilizar os atributos dos territórios de forma ativa, explorando e penetrando em espaços específicos em dimensões multiescalares e construindo e destruindo sucessivas configurações herdadas através do processo de mudança espacial do capital.
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A par da progressiva concentração do capital e da internacionalização da distribuição alimentar, desde os anos 1980, Wrigley & Lowe (2002) distinguem três escalas distintas das transições espaciais. Em primeiro lugar, ao nível intraurbano, em que as áreas centrais das cidades tendem a perder a sua hegemonia comercial para localizações pericentrais. Seguidamente, ao nível regional, onde se evidencia a estruturação e consolidação de novas áreas de expansão dos estabelecimentos das grandes cadeias de distribuição alimentar para o exterior das áreas centrais, coincidindo com a progressiva suburbanização da população residente e das atividades económicas (Kellerman, 1985; O’Brien & Harris, 1991). Finalmente, ao nível internacional, com a receção e envio de fluxos de capital e com a expansão de diversas insígnias para o mercado internacional.
Apesar desta distinção, a investigação que empreenderemos atribuirá maior relevo às transições espaciais que se evidenciaram ao nível intraurbano e ao nível regional, o que permitirá compreender as dinâmicas urbanas da distribuição alimentar na AML. Por exemplo, Cachinho (2005, 2011) e Teixeira (2002) ajudam-nos a compreender essas transições espaciais, advogando que a relação entre o retalho alimentar e a cidade já não se caracteriza pelos mesmos atributos espaciais. Se, em tempos pretéritos, o casamento secular entre a cidade e o comércio era caracterizado por atributos de centralidade e proximidade, é igualmente correto equacionar que esses atributos foram substituídos pela acessibilidade, circulação e estacionamento, tendo-se assistido a uma progressiva descentralização da atividade comercial e a um progressivo divórcio entre a cidade-centro e o retalho alimentar. Mais recentemente, outros autores têm descrito uma nova transição espacial que se caracteriza pelo desgaste dos antigos formatos comerciais ancorados nas grandes superfícies, o que tem permitido o regresso a uma fase de proximidade em estreita resposta às transformações recentes da sociedade contemporânea (Birkin et al., 2002; Dawson, 1995, 2002; Lemoine & Duchemin, 2010; Herbert et al., 2018; Meneely et al., 2009).
Ao longo desta investigação, as transições espaciais, que enformam uma geografia inconstante, serão analisadas a partir da natureza da destruição criativa das transições do capital retalhista. Nesta perspetiva, o que torna uma paisagem singular ou banal são os motivos de lucro, pelo que o capital circula nessa mesma paisagem, permanentemente construindo e reconstruindo o ambiente construído (Harvey, 1981, 2006, 2012).
Deste modo, a partir do conceito de destruição criativa de Schumpeter (1950 [1942]), será possível verificar se o capital do retalho alimentar tende a introduzir alterações no espaço metropolitano para se adaptar às novas realidades do mercado. Por isso, segundo os argumentos de Rousseau (2008), as cadeias de distribuição e os seus respetivos formatos comerciais não se caracterizam pela passividade no tempo e no espaço, sendo desenvolvidos processos dinâmicos que envolvem mudanças e renovações permanentes. As principais teorias da distribuição tendem a realçar
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a dinâmica transformista das novas fórmulas comerciais e das suas características, inspirando-se na teoria da destruição criativa de Schumpeter, definida como um:
“… process of industrial mutation – if I may use that biological term – that incessantly revolutionizes the economic structure from within, incessantly destroying the old one, incessantly creating a new one. This process of Creative Destruction is the essential fact about capitalism.” (Schumpeter, 1950 [1942]: 83)
Por isso, a destruição criativa deve ser entendida como uma estratégia adaptativa das cadeias de distribuição às novas realidades do mercado, sendo vital que os distribuidores identifiquem as transformações que podem ocorrer nos seus negócios, para que possam, antecipadamente, identificar as potencialidades das novas fórmulas a implementar (Ozuduru et al., 2013). A procura de estratégias adaptativas visa, por um lado, providenciar novas configurações e trajetórias de crescimento da cadeia de distribuição e, por outro, reverter sintomas de morbilidade nos sistemas da sociedade líquida, caracterizada por choques, transformações e crises, com repercussões nos modelos de abastecimento das famílias (Erkip et al., 2014; Wrigley & Dolega, 2011). Bauman et al. (2015) designam de interregno o período em que um sistema entra em decadência e que outro pode, ou não, nascer. De acordo com esta perspetiva, pode afirmar-se que as empresas inovam devido à constante necessidade de defenderem a sua posição competitiva e de responderem a situações de incerteza, tal como é argumentado por Schumpeter:
“As a matter of fact, capitalist economy is not and cannot be stationary. Nor is it merely expanding in a steady manner. It is incessantly being revolutionized from within by new enterprise, i.e. by the intrusion of new commodities or new methods of production or new commercial opportunities (…). Any existing structures and all the conditions of doing business are always in a process of change.” (Schumpeter, 1950 [1942]: 31)
Assim, a destruição criativa, tal como descrita por Schumpeter (1950 [1942]), enforma uma estratégia adaptativa enquanto processo contínuo de destruturação e reestruturação das atividades em estreita articulação com o caráter não estacionário do processo capitalista através de ondas de inovação, que pode incorporar novos produtos, métodos de produção e de transporte ou novos modos de organização, desenvolvidos pelo empresário. Para Tester (2009), estas transformações e dinâmicas turbulentas envolvem sintomas de morbilidade decorrentes do colapso de uma realidade e da necessidade de desenvolver novos formatos adaptativos.
Segundo Schumpeter (1950 [1942]), este comportamento adaptativo, que envolve uma transformação da estrutura económica interna da empresa, é contínuo no tempo e constitui um
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processo orgânico e perene, não podendo ser entendido de outro modo. Não surpreende, portanto, que vários estudos (Davidson et al., 1976; Guimarães, 2018a; Lowry, 2002; Nicoleta & Cristian, 2009) argumentem que os diferentes formatos comerciais descrevam um ciclo de vida, uma vez que o desaparecimento de uns envolve o aparecimento de outros e é em função da leitura desse ciclo que as cadeias de distribuição desenvolvem estratégias adaptativas para potenciar as oportunidades e minimizar as ameaças, ajustando-se, desse modo, às mudanças constantes do mercado (McGreal & Kupke, 2014). Este argumento, segundo Gregory et al. (2000 [1981]), é relevante na análise geográfica, uma vez que assume que o processo de destruição criativa depende dos ritmos da economia capitalista em que períodos de construção são seguidos por períodos de destruição dramática ou incipiente, quer à escala local quer à escala global (Daio, 2017).
Este pilar conceptual permite, assim, compreender as transições espaciais do retalho alimentar que identificamos anteriormente31, uma vez que reflete uma tendência de criação de novos
espaços de comércio com o objetivo de se adequarem ao mercado sem a manutenção das estruturas anteriores, deixadas ao abandono ou sem investimento. Wrigley & Lowe (2002) e Pacione (2005) discutem este processo que permite descrever a transição espacial dos espaços de comércio das áreas centrais para a periferia, associado ao processo de suburbanização das áreas metropolitanas. Mais recentemente, tem-se assistido a uma reestruturação dos espaços de comércio que, decorrente das políticas de regeneração das áreas centrais, tem potenciado o regresso às áreas centrais através do investimento em novos conceitos comerciais (Birkin et al., 2002; Dawson, 1988; 2002). Este argumento afigura-se relevante, pois permite-nos compreender que as regiões metropolitanas, o seu ambiente construído e o seu sistema comercial, além de espacialmente fragmentados, são, também, temporalmente inconstantes.