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LUNETTE ASTRONOMIQUE

Dans le document L'Educateur n°4 - année 1948-1949 (Page 23-26)

Claudiomir: Não. A gente estudou mais o Imperialismo... não lembro de ter estudado

nada ali... sobre negro eu não lembro, talvez tenha estudado, mas não lembro. Eu não tenho nenhuma lembrança.

Margarete: E TU ACHAS QUE DEVERIA TER ESTE CONTEÚDO NA ESCOLA?

Claudiomir: Não só acho que deveria ter o conteúdo... esse conteúdo, como acho que

não sei se existe, porque eu nunca estudei isso, mas eu acho que não existiam só negros “fujões”, “negros escravos”. Eles trabalhavam, eles cultivavam, não foram só os italianos, os alemães, japoneses que fizeram a agricultura do Brasil, entendeu? Eu acho que deveria ser contato mais essa história do negro na agricultura assim. Faz falta sabe. Eu acho que eu teria mais informações e gostaria de ter mais informações da “vida negra”.

Margarete: TU ACHAS QUE ESTE CONTEÚDO IA FAZER DIFERENÇA NA TUA FORMAÇÃO E NA TUA VIDA?

Neste momento entrou um freguês. Margarete: Quer atender???? Claudiomir: Sim. Com licença.

RETOMANDO...

Margarete: TU ACHAS QUE ESTE CONTEÚDO IA FAZER DIFERENÇA NA TUA FORMAÇÃO E NA TUA VIDA?

Claudiomir: Eu não sei te explicar qual a diferença, mas acredito que faria sim. Não só

na minha vida, mas na vida de qualquer um que se declare negro, que tenha a ver com a cultura negra. Que goste da cultura negra.

Margarete: E NA TUA HISTÓRIA DE EDUCAÇÃO NA ESCOLA, TU LEMBRAS DE TER TIDO EM ALGUM MOMENTO, ALGUM CONTEÚDO QUE FIZESSE REFERENCIA A POPULAÇÃO AFRO-DESCENDENTE?

Claudiomir: NÃO. Não. A não ser negros fujões, aquele negocio de quilombo dos

palmares, não conheço nenhuma história... é isso que eu estou te falando, faz falta saber a história de algum negro herói, algum negro que se deu bem antigamente. Hoje... graças a Deus... né?Estamos indo muito bem. Mas antigamente, alguém que se deu bem, alguém que fez alguma coisa importante sem... sem ter morrido por isso. Porque dos que eu conheço, morreram pra depois virarem mito.

Margarete: MAS EXATAMENTE O QUE TU ACHAS INTERESSANTE ESTUDAR? POR EXEMPLO, DENTRO DA CULTURA AFRICANA O QUE TU DESTACARIAS. DENTRO DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA, EU ACHO QUE DEVERIA SER ESTUDADO ISSO.

Claudiomir: Religião. A religião, as crenças né. Eu não tenho religião, mas acho que

seria importante estudar as crenças. Eu conheço o candomblé. Eu conheço... não eu acho que só conheço o candomblé mesmo, que é da cultura negra. Mas existe outras que eu gostaria de conhecer e não conheço. Ta vendo como faz fata??

Claudiomir: Não saber da própria história. Eu não sei da minha própria história...

(PENSANDO)

Margarete: OS POUCOS CONTEÚDOS QUE TU DISESTE QUE VISTE EM ALGUM MOMENTO DA TUA FORMAÇÃO QUE FALAVAM SOBRE OS NEGROS ESCRAVOS E TAL. TU SENTIAS QUE ALI TINHA ALGUM TIPO DE PRECONCEITO?

Claudiomir: Eu acho que... olha professora tem muita coisa aí né?

Margarete: COMO ASSIM??

Claudiomir: Eu não sei se a história foi passada direito, porque o fato de contar só as

“desgraças” dos negros é uma forma de deixar eles “meio no ar”. Negro não entrava nisso, negro não podia aquilo, negro não podia aquilo outro, negro só fazia se era mandado... então...

Neste momento entrou mais um freguês.

Claudiomir: Com licença.

Esse freguês demorou uns 8 minutos na padaria.

Margarete: VOCE ESTAVA FALANDO DA FORMA COMO OS CONTEÚDOS SÃO PASSADOS NA ESCOLA.

Claudiomir? É? Não lembro o que estava falando.

Margarete: FALAVAS DA TUA DÚVIDA SOBRE COMO OS CONTEÚDOS SÃO PASSADOS. QUE EXISTE UMA FORMA ESPECÍFICA DE SE REFERIR AOS AFROS.

Claudiomir: Mas eu não lembro mesmo... (pensando)

Margarete: TUDO BEM. FORA DA ESCOLA TU TENS ALGUMA ATIVIDADE QUE CONSIDERAS QUE PODE FORTALECER A TUA IDENTIDADE ÉTNICA? PORQUE DENTRO DA ESCOLA COMO TU FALASTE NÃO TIVESTE NENHUMA REFERENCIA NESTE SENTIDO NÃO É?

Claudiomir: Sim. Dentro da escola não tivemos nada. Então assim, quando eu posso,

participo de alguns eventos como no Dia da Consciência Negra eu participo de alguns eventos, feijoadas, passeatas e tal. É a única coisa que eu faço. Até mesmo porque eu trabalho e me prendo muito aqui e não dá pra...

Margarete: CERTO. E TU LEMBRA DE TER VIVIDO ALGUMA COMEMORAÇÃO DA CONSCIENCIA NEGRA DENTRO DA ESCOLA ALI NA EJA DO ARAUCÁRIA?

Claudiomir: Não. Com certeza não.

Margarete: COMO QUE TU SE SENTIU ALI NA EJA NO MEIO DE TANTOS CONTEÚDOS QUE SEMPRE FAZIAM REFERENCIA À CULTURA DE OUTROS GRUPOS QUE NÃO OS DA TUA PROPRIA HISTÓRIA, DA HISTÓRIA DO TEU GRUPO, DA TUA ASCENDENCIA, COMO QUE TU TE SENTIAS DENTRO DE SALA DE AULA?

Claudiomir: Tu acabas se acostumando, infelizmente. Tu sabes que tu não vai ouvir

diante dos outros. Este é o sentimento que eu tenho. Tu... uma pedra sozinha não faz um muro, tu acabas se encolhendo, não tem outro jeito. As coisas são mesmo assim. É só ver quando um negro chega num lugar “cabeças de levantam”. É muito complicado ser negro num lugar onde as pessoas não valorizam.

Margarete: COMO ASSIM. PORQUE VOCÊ ESTÁ FALANDO ISSO?

Claudiomir: Na escola não falam nada de bom sobre a nossa história. Como eu falei eu

acho que não existiam só negros “fujões”, “negros escravos”, deve ter outras coisas sem ser só o sofrimento que o negro passou, só as senzalas, só os senhores. Deve ter algum herói negro “das antigas” que não precisou fugir, alguém que se deu bem... ser o seu próprio dono, sem ter que fugir, sem ter que... entendeu?

(O ESTUDANTE VIROU O ROSTO PARA O LADO OPOSTO ONDE EU

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