As mudanças nos modos de organização da vida social trouxeram uma reestruturação às práticas de sociabilidade. Como defendem Fontes e Martins (2006, p. 22),18 são essas mudanças que vêm colocando novos desafios às Ciências Sociais, “[...] esses desafios constitutivos estão presentes desde os localizados em esferas institucionais, como por exemplo, os casos do mercado e do Estado, até os não menos complexos, entre eles o capital social, inscritos no cotidiano.”
Em linhas gerais, o conceito de capital social contém uma analogia, face à posição de uma pessoa em uma determinada comunidade e encerra uma dimensão de reciprocidade, uma conexão entre indivíduos. Nesse conceito, estão implícitos: educação, saúde, direitos sociais, informação, como conquistas capazes de enriquecer o tecido social.
Sobre o assunto, Coleman (1988) define-o como os recursos produzidos pela interação social entre indivíduos ou grupos, que resultam em confiança e credibilidade. Diferentemente de outras formas de recursos, o capital social situa-se na composição das relações entre as pessoas de uma comunidade. Também Putnam (1996), em estudo realizado sobre comunidade e democracia na Itália moderna, ressalta a forte relação entre capital social e cultura cívica, considerando-a a única forma de capital social.
Mas é Baquero (2003, p.29), quem melhor contextualiza o assunto, na perspectiva deste estudo, atribuindo que o interesse sobre capital social vem se manifestando nas últimas
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FONTES, B; MARTINS, P.H. Redes, práticas associativas e gestão pública. Recife: Editora da UFPE, 2006. Os autores são os organizadores de uma coletânea, na qual são discutidos os novos desafios teóricos presentes na agenda da pesquisa em Ciências Sociais, identificando novos autores que vêm trabalhando com a temática. Para Fontes e Martins, o conjunto dos trabalhos permite detectar a dominância de um enfoque centrado nas práticas associativas, nos novos modelos de participação nos negócios públicos e sobretudo, no surgimento de arranjos de sociabilidade, baseados em modelos mais flexíveis, multifocalizados e ancorados territorialmente. A reconstrução dessas práticas de sociabilidade traz uma inovação, uma perspectiva teórico-metodológica, a de redes sociais.
décadas, como um dos resultados da crise de contradições acumuladas, com o desempenho governamental na área social. Para o autor, ”[...] o capital social, surge como um bem público capaz de um equilíbrio entre a dimensão formal e a dimensão mais subjetiva das relações sociais.” O assunto é polissêmico e encontra vários desafios; entre eles, talvez o maior seja o de pensar formas operacionais de construir capital social, para enfrentar os problemas cotidianos de forma multidisciplinar, conclui Baquero.
No entanto, ainda registramos uma base teórica consensual reduzida. Inclusive Stein (2003), já havia constatado ”a escassa discussão sobre a importância, em si, do conceito de capital social,” o que ocorre efetivamente, quando buscamos uma definição mais específica. Evidentemente, no conceito de capital social, pode estar contida uma revisão crítica às teorias econômicas convencionais, quando considera o ser humano como ator social. Mas essa revisão critica, precisa ultrapassar o enfoque nos recursos disponíveis e ser associada às relações entre as pessoas, ao grau de confiança entre os diferentes atores sociais; assim como, ao grau de associativismo e ao acatamento das normas de comportamento cívico, conforme defende Putnam (1996).
Nessa perspectiva, nos atuais debates sobre o desenvolvimento sempre constam a valorização do capital social e do capital humano, pois apontam para uma concepção de desenvolvimento ampla, estendida como um todo e para todos. Sob essa ótica encontram-se, também, os trabalhos de Abramovay (2006) e Bourdieu (1998), a quem alguns autores atribuem o uso precursor do tema, quando o definiu “como um conjunto de recursos e de poderes efetivamente utilizáveis.” Em síntese, capital social pode contribuir para o crescimento do capital humano, ao tornar mais eficiente o processo educacional e social, valorizando-se os agentes de uma rede de conexões.
Quanto às redes, nosso trabalho considera a tendência e os processos dominantes, cada vez mais organizados em torno de redes. Na morfologia social das sociedades, a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados de alguns processos produtivos, de poder e cultura. Castells (1999) esclarece que, essa lógica de redes gera uma determinação social em nível mais alto do que os de interesses sociais específicos, expressos por meio das redes: a importância dos fluxos de comunicação e informação como elementos essenciais no processo de fortalecimento.
Assim, na noção de rede, também, estão contidas relações entre diversidades que se integram nos fluxos de elementos que circulam e nos laços que potencializam a sinergia coletiva. Para Mance (2003) implícito no conceito de redes de colaboração, estão reflexões sobre práticas dos atores envolvidos, em cujas ações, por sua vez, encontram-se aspectos políticos, econômicos e culturais de cada realidade.
Já Fontes (2006, p.87) define redes de colaboração, como redes sócio-humanas, as quais, articulando um plano pré-político são compostas de indivíduos próximos, através de famílias, vizinhanças e amizades. Para o autor:
O objetivo de tais redes que pré-existem ao aparelho estatal, é permitir que os indivíduos possam se socializar e adquirir um lugar no interior do grupo de pertencimento. Esse tipo de rede é estruturante da vida social e sem ele não existe a categoria abstrata chamada indivíduo.
Essa colocação de Fontes é ilustrativa, quando se considera que, mesmo com a popularidade do termo rede e sua divulgação, luta-se com o sentido vago que ele toma no interior das Ciências Sociais. A expressão é usada há muito na teoria das organizações, não só no estudo de sua dinâmica interna, mas para explicar, principalmente, o ambiente em que se desenvolve. Nesse sentido, a rede é um instrumento analítico para a compreensão de certas formas de organização coletiva, conforme Abromovay (2000). Também Castells (1999) defende que “a organização em rede é o traço mais marcante das estruturas sociais contemporâneas.” Na área da Ciência da Informação, a expressão é largamente utilizada e aplicada, pois se refere aos sistemas tecnológicos de transmissão de dados e informações; porém, neste trabalho, foge ao nosso objetivo de estudo.
Em comum, mesmo com diferentes aplicabilidades, encontra-se, nas redes, o fenômeno da proximidade, capaz de valorizar o conjunto do ambiente em que atua e torna-se mais importante que os atributos apenas naturais de localização. Essa proximidade supõe relações diretas entre os integrantes, favorecendo a montagem das redes e a conquista de bens públicos. O que, por sua vez, possibilita o enriquecimento do tecido social e a ocorrência de novos atores sociais, através da formação de redes econômicas e comunicativas. Pelo exposto, fica evidenciado que a expressão rede, neste estudo, refere-se à RDSA como um campo de estudo analítico e nesta perspectiva discutimos o assunto no próximo item.