Para compreendermos e expandirmos nosso entendimento sobre os gêneros discursivos, trazemos para nossa discussão questões suscitadas pela ACD, proposta por Fairclough15 (2001), a qual, de acordo com esse autor, preocupa-se em estudar como o social é atuante no linguístico. Para isso, ele propõe a multidisciplinaridade como formar de abordar a análise da linguagem e compreender questões da vida social.
A nosso ver a ACD contribui para o entendimento da concepção de gênero discursivo elaborada pelo círculo soviético, na medida em que propõe três categorias de análises e aponta, dentro delas, quais questões devem ser observadas com mais atenção.
Fairclough (2001:126) propõe que o gênero discursivo seja um
conjunto de convenções relativamente estável que é associado com [...] um tipo de atividade socialmente aprovado, como uma conversa informal, a compra de produtos em uma loja, uma entrevista de emprego, um documentário de televisão, um poema ou um artigo científico [...].
Depreende-se dessa proposta a articulação entre gêneros discursivos, os quais são convenções relativamente estabilizadas, e atividades que precisam ser aprovadas socialmente, isto é, reconhecidas pela sociedade.
Podemos questionar as noções de convenção e aprovação, considerando se de fato essas convenções seriam reconhecidas de maneira consciente pelos enunciadores, quando estão se utilizando da linguagem em determinadas situações. Parece-nos que essas convenções sobre os gêneros do discurso e, consequentemente, seu reconhecimento/sua aprovação pelos enunciadores, ocorre muito mais de maneira
tácita, sem muita conscientização sobre o porquê de empregar a linguagem de tal ou tal modo. A proposição de Fairclough (2001) é interessante, pois objetiva compreender a linguagem por meio da análise de três dimensões, as quais estão interligadas, sendo elas: texto, prática discursiva e prática social.
15 Linguista inglês, pertencente a um grupo de linguistas que na Grã-Bretanha “desenvolveu uma „linguística crítica‟, ao articular as teorias e os métodos de análise textual da „linguística sistêmica‟, de Halliday, com teorias sobre ideologias” (PEDROSA, 2005: s.p.).
De acordo com Meurer (2005: 83), a dimensão textual “privilegia a
descrição de aspectos relevantes do léxico, das opções gramaticais, da coesão ou da estrutura do texto.”Essa seria a base para a interpretação das demais dimensões.
Ainda nessa dimensão, Fairclough (2001: 104) propõe também uma análise multifuncional, pois segundo ele, “toda oração é uma combinação de
significados ideacionais, interpessoais (identitários e relacionais) e textuais”. Dessa
forma, faz-se necessário entender o que são as (multi)funções mencionadas.
A noção de multifunção foi desenvolvida por Halliday com base nos estudos estruturalistas-funcionais (cf. PAVEAU & SARFATI, 2006). Segundo Halliday (1973), seria por meio das metafunções que se partiria do sistema e se chegaria ao texto. Por sistema, compreende-se o conjunto de escolhas do locutor no eixo paradigmático, enquanto, por estrutura, os modelos de combinações em torno do eixo sintagmático, sendo que esta alteraria as escolhas realizadas pelo enunciador no primeiro eixo. A partir da relação entre as estruturas linguísticas e suas funções, Halliday (1973) propõe três (meta)funções: 1. Ideacional, por meio da qual o enunciador exprime sua interioridade e o mundo exterior; 2. Interpessoal, para estabelecer, manter e especificar as relações sócio-humanas; e 3. Textual, que organiza o discurso de acordo com a situação interacional.
Segundo Meurer (2005: 83, grifos do autor.), a dimensão da prática discursiva
(...) busca a interpretação do texto e para isso se preocupa com questões relativas à sua produção, distribuição e consumo [...]. Os principais focos [...] deste nível são: como se estabelece a coerência do texto, qual é a sua força ilocucionária e que aspectos intertextuais e interdiscursivos estão presentes no texto.
Conforme se pode notar, esta dimensão está bastante relacionada à primeira, textual, pois, para se entender questões referentes a produção, consumo e distribuição, é preciso analisar o texto, ou ainda, as marcas textuais.
Nesta dimensão, é interessante observar que, para cada gênero, cria-se um círculo específico: situação social/produção/distribuição/consumo, em que a situação social estaria associada ao momento histórico, ao meio e aos motivos que geraram a produção do discurso. a produção envolveria, em princípio, o(s) produtor de um discurso (enunciador), que por sua vez está inserido nessa situação social e irá representar sua realidade ou a realidade que capta do mundo em seu discurso; a
serão divulgados, p. ex., jornais, revistas, rádios, televisão...; e, por fim, o consumo envolve os leitores (coenunciadores) e seu universo de leitura. Dessa forma, faz-se mais compreensível a noção da ACD (FAIRCLOUGH, 2001: 161) de que “um gênero
implica não somente um tipo particular de texto, mas também processos particulares de produção, distribuição e consumo de textos”.
Por fim, a terceira dimensão da análise proposta pela ACD, apresentada por Meurer (2005: 83), é a prática social, que
busca a explicação para o evento discursivo, focalizando práticas sociais, i. é, o que as pessoas efetivamente fazem, e como as práticas sociais se imbricam com os textos analisados, i. é, como as estruturas sociais moldam e determinam os textos e como os textos atuam sobre as estruturas sociais.
Segundo Fairclough, a prática discursiva é parte da prática social, por isso, por meio do discurso é possível observar questões ideológicas e hegemônicas oriundas do social e, destarte, é possível “investigar as práticas discursivas como
formas materiais de ideologia” (FAIRCLOUGH, 2001: 116). Para ele
(FAIRCLOUGH, 2001: 117),
a ideologia são significações/construções da realidade [...] que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação.
É justamente nas relações de dominação/subordinação existentes na prática social que se encontra a hegemonia, entendendo-a não como algo estável ou estático, mas como o contrário, pois socialmente há uma luta entre classes, culturas, nações, blocos e ideologias, na tentativa de tornar um discurso representativo de toda sociedade.
Nesse sentido, esta dimensão procura justamente observar de que forma essas tensões ideológica e hegemônica do social estão presentes na prática linguístico- discursiva e como estas, mutuamente, se relacionam e configuram.
Considerando justamente a noção de que o gênero é uma atividade linguístico-discursiva socialmente reconhecida e aprovada, nesta pesquisa, buscaremos aplicar a análise das três dimensões à atividade de apresentação de seminários no círculo da atividade acadêmica, procurando compreender como ela pode indiciar a apropriação de tal gênero do discurso pelos estudantes universitários.