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COMPLEMENTAR JERÔNIMO COELHO

No estudo dos programas de matemática que foram implantados nas escolas complementares, procuramos compreender o ensino de aritmética neles ministrados identificando as relações entre as orientações propostas nas reuniões pedagógicas e os tópicos previstos nos programas oficiais do governo catarinense.

Nesta construção, recorremos aos programas implementados pelo governo de Santa Catarina nos anos de 1911, 1919, 1928, 1935 e 1939, estes dois últimos são de interesse principal deste trabalho, visto que as orientações normativas estão relacionadas com os registros do Livro Ata do ano de 1942 a 1947, a fim de compreender as influências destas discussões e modificações na formação do professor primário.

De acordo com Fiori (1991), no período chamado Estado Novo, ocorreu em nível nacional, o que Anísio Teixeira considerou um excesso de centralização e de publicações de dispositivos legais, com o intuito de valorizar a unidade nacional. Assim, a educação foi transformada em uma atividade estritamente controlada por leis e regulamentos, através da fiscalização de órgãos como o Ministério da Educação e Secretarias de Educação. Em consonância com esse contexto, em Santa Catarina, ocorreu um período de grandes formalizações legais em matéria de ensino que incluía a forte capacidade de respeitar leis e de cumprir ordens com o conceito de eficiente Professor, Diretor e Inspetor Escolar. Como podemos verificar ao olharmos a 8ª Ata do ano de 1943:

De início foi nos lida a circular n. 56, em que é comunicado o parecer do Sr. Inspetor Adriano Mosimann que recomenda sejam feitas observações pessoais nos envelopes dos boletins de cada aluno, foi lembrado também a circular n. 44, que se refere a ortografia oficial e as respectivas declarações de família para o Montepio do Estado devem ser feitas até o dia 30 do corrente mês. A seguir, foi feito um balanço geral das instituições e as professoras encarregadas declaram ter os seus balancetes, apontamentos, livros de registros, etc., em ordem, de acordo com os respectivos estatutos. Foi observado que todas as instituições estão em franco desenvolvimento. Os programas também, até a presente data, estão sendo ministrados de acordo com a distribuição feito no início do ano letivo, a exceção do programa de ciências em ambos os 4º anos (LIVRO ATA 01, 1943, p. 16).

No período em questão, ocorria uma grande valorização do contato, mediante relatórios e circulares, entre os dirigentes da educação e o magistério em geral. Segundo Fiori (1991), a coletânea de circulares do Departamento de Educação referente aos anos de 1942, 1943 e 1944 chegou a ser publicada em volumes. Tais documentos expressavam uma linha de ação pedagógica e organizacional dos estabelecimentos de ensino, com a expectativa de que se tornasse uma fonte de ensinamento.

Os relatórios elaborados pelas autoridades escolares, e, principalmente pelos Inspetores Escolares obedeciam rígidos modelos preestabelecidos. Tais documentos integravam o sistema de controle e

permitiam aos órgãos públicos superiores, verificar o nível de desempenho do pessoal envolvido no processo de ensino:

Esses relatórios costumavam ser lidos, avaliados e respondidos pelos órgãos competentes, estabelecendo-se, assim, canais de comunicação entre os níveis hierárquicos superiores e inferiores, e vice-versa. As análises de relatórios incluíam considerações particularizadas, referentes aos mais diversos aspectos da vida escolar de cada estabelecimento de ensino: reuniões pedagógicas, desenvolvimento do programa de ensino, prédio escolar, condições gerais das fossas, conservação dos mobiliários, orientação sobre o uso de tinteiros de modo a não ser afetada a boa conservação das carteiras, etc. (FIORI, 1991, p. 128).

Neste trabalho analisamos as circulares que trazem informações a respeito das reuniões pedagógicas, bem como aos programas de ensino. Vale ressaltar que Elpídio Barbosa buscava contato pessoal e direto com as autoridades do ensino, “quando os Diretores dos Grupos e Inspetores vinham entregar seus relatórios periódicos, esse educador costumava entrevistá-los na Biblioteca do Departamento de Educação e lá, calma e isoladamente, ouvia-os sobre os problemas e situações de suas escolas” (FIORI, 1991, p. 128).

Ao verificarmos a 1ª Ata da reunião pedagógica, realizada no dia 01 de fevereiro de 1943, presidida pelo Diretor Snr. Arno Hüble, percebemos o cuidado em repassar as Circulares expedidas pelo Departamento de Educação. “Para melhor compreensão e fiel interpretação foi feita em voz alta a leitura das referidas circulares. Sérias considerações, mereceu a circular 127 sobre a divisão do programa” (LIVRO ATA 01, SC, pg. 12). O diretor relata que é necessária uma segura distribuição dos pontos evitando que os primeiros sejam explicados minuciosamente e, os últimos, só depressa repassados.

Outro fator que podemos observar é referente a preocupação no cumprimento do programa. A 8ª Ata da reunião do ano de 1946 relata no item f que “O programa deve ser esgotado até o dia 15 de outubro e nessa data começar a recapitulação. Deve ser apresentada ao Diretor a relação dos pontos explicados durante o ano” (LIVRO ATA, 1946, p. 41). Orientação esta conforme o item 5 – letra a – da Circular n. 55, de 8 de setembro de 1944.

Dentre os programas disciplinares, a aritmética está presente nos três anos de curso complementar, ganhando inclusive uma posição de destaque, em conjunto com português, logo nas primeiras matérias listadas. Ao analisarmos os programas das escolas complementares, observamos que a preocupação em garantir um número de aulas de aritmética que até então, era de escolha do professor (conforme a necessidade da turma) vem reforçar o que diz estudos realizados por Silveira (2013), ou seja, o valor da ciência que se deu a Matemática desde o período da reforma Orestes Guimarães.

Podemos ponderar, também, o avanço no que diz respeito ao detalhamento da matéria, sendo que enquanto nos programas de 1911 e 1919, constava apenas o nome “aritmética”. Já no programa de 1928 e, explicitamente no de 1935, ocorre um detalhamento maior dos conteúdos a serem trabalhos em Matemática no curso complementar.

Tais modificações são importantes e são influenciadas conforme determinações governamentais de cada período. Em 1935, na busca de uma perspectiva mais científica passam a ser ensinadas noções de psicologia e pedagogia, pois, “uma das principais preocupações no período era subsidiar cientificamente a formação de professores a fim de que estes pudessem conhecer seus alunos na sua complexidade (SILVA, 2005, p, 27). Assim como em 1939, o oferecimento das matérias de Aritmética, Álgebra e Geometria, compondo o currículo como peça central, tendo ao lado saberes que indicavam uma formação geral.

O programa de 1939, publicado através do Decreto n. 715 de 03 de março que expede o Regulamento para os Cursos Complementares catarinenses serve como orientação para o Curso C. Jerônimo Coelho no período de análise das reuniões pedagógicas realizadas. Dentre os conteúdos descritos no programa de ensino, conseguimos estabelecer relação com o cumprimento do mesmo no referido curso, como verificamos na 14ª Ata da reunião do dia 12 de setembro de 1942, no qual um dos assuntos tratados foi:

Crítica do plano de aula n. 9 da reunião anterior, apresentado pela prof. Esmeralda P. T. Ferreira do 2º ano x, versando sobre aritmética: Metro, múltiplos e submúltiplos. Deixou o corpo docente de apresentar crítica no referido plano por acha-lo bem explanado e ao alcance de todos os alunos (LIVRO ATA, 1942, p. 8).

Outro ponto que podemos considerar referente ao ensino de Aritmética, é citado no art. 2º do programa publicado, em que cita como um dos conteúdos a serem ensinados: Prática das operações

fundamentais. Cálculo abreviado. Exercício de cálculo mental.

Podemos notar a preocupação no cumprimento dos mesmos, na 6ª Ata do ano de 1943, em que registram: “Apresentação do plano de aula sobre as operações fundamentais, pela professora Esmeralda Pinho Teixeira Ferreira” (LIVRO ATA, 1943, p. 15).

Portanto, ao concordar com Silva, Daniel e Daros (2005), temos que dependendo das épocas, das ideologias políticas e pedagógicas dominantes e dos alunos a quem se destinam, vão variar os critérios de seleção cultural escolar. Portanto, os conteúdos curriculares que são resultados desta seleção tornam-se instrumentos de concretização das políticas educacionais, que faz parte de diretrizes de implementação de determinados interesses políticos e sociais.

5.3 AS FINALIDADES PARA O ENSINO DE ARITMÉTICA NA