Os anti-helmínticos atualmente disponíveis para equinos mostraram ser eficazes para asininos (Crane et al. 2011; Matthews & Burden, 2013), no entanto, alguns medicamentos disponíveis no mercado não estão licenciados para uso em asininos. Por outro lado, a dose da substância ativa, de alguns medicamentos tendo sido formulada para equinos poderá não estar otimizada para utilização em asininos (Matthews & Burden, 2013)
A extrapolação das doses em asininos a partir das doses otimizadas em equinos está relacionada com o facto de serem equídeos, no entanto existem diferenças fisiológicas relevantes que devem ser consideradas (Kreecek, 2014). Os asininos adaptaram-se a viver em zonas áridas e a prosperar com forragem de baixa qualidade, adaptações associadas a diferenças fisiológicas entre asininos, cavalos e póneis (Grosenbaugh et al., 2011). Estas diferenças interespecíficas, entre os asininos e equinos, podem interferir nos mecanismos farmacodinâmicos e na farmacocinética, alterando a distribuição, metabolização e excreção dos xenobióticos (Giorgi et al., 2015), pelo que o asinino não deve ser tratado como um “pequeno equino” (Krecek, 2014).
A escolha do anti-helmíntico e dos protocolos de desparasitação são decisões, cada vez mais importantes, que visam evitar tratamentos desnecessários ou ineficazes (Matthews, 2014), pelo que a escolha do anti-helmíntico deve ser baseada em evidência clínica de doença, assim como no diagnóstico etiológico, níveis de infeção e eficácia do anti-helmíntico (Matthews et al., 2014).
Em alguns países europeus como a Dinamarca, Suécia, Holanda e Finlândia houve restrição do uso de anti-helmínticos, sendo necessária receita médica e diagnóstico para cada tratamento pelo que, desta forma, o médico veterinário passa a ser o único responsável pela escolha do anti-helmíntico e estratégia de controlo utilizada (Nielsen, 2012).
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Em Portugal, Lopes (2014), verificou os equídeos são desparasitados com ivermectina (90,0%), moxidectina (3,0%), pamoato de pirantel (3,0%) e febendazol (1,5%). Vários autores referem que a ivermectina, isolada ou em associação com praziquantel, tem sido a substância ativa mais utilizada no controlo parasitário de equídeos no nosso país (Madeira de Carvalho, 2001; Gersão, 2005; Martins & Madeira de Carvalho, 2007; Frouco, 2012).
Os anti-helmínticos disponíveis para uso em asininos no Reino Unido foram revistos por Matthews & Burden (2013) e encontram-se referidos no Quadro 4.
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Quadro 4 - Anti-helmínticos utilizados no tratamento de helmintoses em asininos (adaptado de Matthews & Burden, 2013).
Grupo de anti-helmíntico
Composto Indicação Dose
Via oral
Modo de ação Efeitos no parasita
Lactonas Macrocíclicas
Ivermectina
Nematodes gastrointestinais
Dictyocaulus arnfieldi 0,2 mg/kg
Competidor dos recetores GABA Interfere na transmissão nervosa
(Canais de Glutamato e Cloro)
Paralisia flácida Inibição da ingestão e deglutição Moxidectina* Nematodes gastrointestinais Dictyocaulus arnfieldi Larvas de ciatostomíneos 0,4 mg/kg Idem Idem Benzimidazóis
Febendazol † Nematodes gastrointestinais
7,5 mg/kg ou 7,5 mg/kg**
durante 5 dias
Inibe o metabolismo energético com redução de ATP
(inibição da fumarase redutase e do transporte de glucose)
Bloqueador da polimerização da tubulina
Morte do parasita por exaustão Agente ovicida Triclabendazol* Dictyocaulus arnfieldi Fasciola hepatica imaturo e adulto 18 mg/kg Idem Idem
Tetrahidropirimidinas Pamoato de pirantel Nematodes gastrointestinais Anoplocephala perfoliata
19 mg/kg 38 mg/kg
Efeito colinérgico nos gânglios nervosos Paralisia espástica Pirazinoisoquinolonas Praziquantel* Anoplocephala perfoliata
Outros cestodes
2,5 mg/kg Alteração da permeabilidade da membrana (Canais de Cálcio)
Paralisia espástica
Salicilanilidas Closantel*
Fasciola hepatica
adulto 20 mg/kg
Desacoplamento da fosforilação oxidativa Interferência na transmissão de eletrões e
síntese de ATP (mitocôndria)
Morte por exaustão e paralisia
* Não licenciado para uso em asininos. Prescrito por CASCATA: http://www.vmd.defra.gov.uk/pdf/vmgn/VMGNote15.pdf ** Tratamento para ciatostominose.
† Existem elevados níveis de resistência de cistostomíneos a este anti-helmíntico, reportado em todo o mundo.
60 6.3.1. Resistências aos anti-helmínticos
O controlo parasitário baseado em protocolos com tratamentos periódicos e sem recurso a diagnóstico de infeção ou evidência clínica, amplamente utilizado em equídeos, terá permitido selecionar alelos de resistência nas populações de nematodes (Kaplan & Nielsen, 2010). Shalaby (2013), observa que a utilização frequente do mesmo grupo de anti-helmínticos, assim como o uso frequente e contínuo de um único anti-helmíntico, o uso de doses sub- ótimas e o tratamento profilático de animais domésticos em massa, são fatores que têm contribuído para o desenvolvimento generalizado de resistências a anti-helmínticos em helmintes.
A ocorrência da resistência de ciatostomíneos aos benzimidazóis e às tetrahidropirimidinas, tem sido documentada um pouco por todo o mundo (Kaplan, 2004; Boulkaboul et al., 2006; Traversa et al., 2007), sendo atualmente uma observação comum, em estudos de campo, a resistência simultânea a ambas as classes de anti-helmínticos (Kaplan et al., 2004; Traversa et al., 2009, 2012). Fenómeno também observado em nematodes não estrongilídeos, nomeadamente Parascaris spp. e Oxyuris equi (Reinemeyer, 2012).
A resistência de ciatostomíneos ao febendazol é frequentemente observada em muitas regiões, onde deixou de ser possível utilizá-lo (Traversa et al., 2012; Lester et al., 2013; Relf et al., 2014; Stratford et al., 2014).
Casos de resistência de nematodes dos equídeos ao pirantel foram documentados em vários países, incluindo Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Brasil, Suécia, Finlândia (Kaplan, 2002, 2004; Brazik et al., 2006; Comer et al., 2006; Osterman et al., 2007; Traversa et al., 2007b; Lindgren et al., 2008; Näreaho et al., 2011; Canever et al., 2013; Lester et al., 2013; Nielsen et al., 2013b).
Em Portugal não existem muitos estudos sobre a eficácia dos anti-helmínticos em equídeos, no entanto foram observadas resistências in vivo ao pamoato de pirantel e in vitro aos benzimidazóis desde a primeira década do novo milénio (Madeira de Carvalho, 2001; Madeira de Carvalho et al., 2003).
Durante os últimos 30 anos, tem-se registado uma verdadeira dependência de ivermectina e moxidectina, no controlo de nematodes em equídeos e, surpreendentemente a resistência é pouco frequente. Contudo vários estudos têm observado uma redução da eficácia das lactonas macrocíclicas (Boersema et al., 2002; Cobb, 2007; Slocombe et al., 2007; Lyons et al., 2009, 2011; Reinemeyer, 2012; Trawford & Burden, 2012; Lyons & Tolliver, 2013), com a redução do período de reaparecimento de ovos após o tratamento com ivermectina e moxidectina (Von Samson-Himmelstjerna et al., 2009, 2007; Molento et al., 2008; Lyons et
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al., 2008, 2009, 2011; Rossano et al., 2010; Canever et al., 2013; Lyons & Tolliver, 2013; Geurden et al., 2014; Relf et al., 2014).
Desde 1983, ano em que foi comercializada a ivermectina, não foram disponibilizados novos anti-helmínticos sintéticos (Nielsen, 2012), e segundo Nielsen et al. (2014b), não existem novas classes de anti-helmínticos a serem desenvolvidas no futuro próximo.
62 7. MATERIAL E MÉTODOS GERAIS