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Logiques temporelles

Depois da aliança entre os impéros alemão e austríaco em 1879, Bismarck decidiu sondar a probabilidade de intervenção britânica no caso de uma guerra germano-russa, assumindo a possibilidade de beligerância francesa. Face ao distanciamento garantido pelo Reino Unido no segundo cenário, receoso da represália russa na Índia, Bismarck considerava a realização de uma aliança com a Rússia.

Orientado pelos mesmos receios do Foreign Office quanto à esfera de influência russa na Ásia, o czar mostrava-se aberto negociações. A Dupla Monarquia não observava estas aproximações com bons olhos. Centrada na possibilidade de expansão nos Balcãs, o império Austro-Húngaro via a Rússia como uma adversária. Pressionado por Bismarck e não pretendendo perder o apoio alemão, aceitava o novo dreikaiserbund, assinado em 1881. O tratado garantia neutralidade de duas potências em cenário de guerra com uma terceira (leia-se: no caso de uma guerra franco-alemã, a neutralidade russa estaria garantida); a Áustria e Rússia acordavam em não alterar unilateralmente o statu quo nos Balcãs; permitindo à primeira a anexação da Bósnia e Herzegovina, bem como à segunda a junção dos dois principados búlgaros num só estado675.

No mesmo ano, a presença da França em Tunis ajudava a esfriar as relações com Itália, gradualmente mais disponível para uma aliança com a Alemanha676, ainda que tal proximidade incluísse a Áustria, contrária à recuperação das províncias irredentas. Bismarck preocupava-se em remover esta questão do debate, canalizando as atenções de França na Tunísia, fórmula de compensação da Alsácia e Lorena. Tanto Humberto I como o governo de Depretis eram a favor de uma aproximação à Alemanha, pressuposto consubstanciado em Maio de 1882, com o tratado que instituía a Tríplice Aliança; consequentemente firmava-se o isolamento diplomático de França677.

O sistema de Bismarck debatia-se com um problema central: não solucionava a instabilidade sentida nas chancelarias europeias face aos Balcãs. Em 1881, a Sérvia assinara um tratado com a Áustria-Hungria, deixando a sua política externa nos Balcãs

675 MILZA, Pierre, Ibidem, pp.32-33.

676 CLARK, Martin, Modern Italy, 1871 to the Present, Nova Iorque, Routledge, 1995, p.56-57. 677 MILZA, Pierre, Ibidem, pp.35-36.

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sob a anuência de Viena, contra os interesses da Rússia678. Em 1883, seguia-se um tratado comercial com a Roménia.

Embora a Rússia tenha ajudado a Bulgária a organizar-se militar e administrativamente, Alexandre de Battenberg agia gradualmente de forma inversa aos interesses dos burocratas russos na administração búlgara, dando preferência às posições manifestadas pelos oficiais austríacos. O tema do dissédio residia na construção do caminho de ferro do Oriente, cujo traçado, através da Sérvia e Bulgária, tinha como objectivo Constantinopla. Alexandre de Battenberg, rei da Bulgária anexava a Rumélia Oriental em 1885; seguidamente vencia militarmente a Sérvia. Observando a perda de influência sobre a Bulgária, a Rússia induzia uma sucessão de eventos em 1886, com o objectivo de manter o reino como estado satélite679.

O governo russo gizou um golpe de estado que se saldou pelo êxito em afastar Alexandre de Battenberg; meses depois, o parlamento búlgaro elegia Ferdinando de Saxe- Coburgo como rei, um monarca ainda mais favorável aos interesses austríacos do que aos russos680. A manutenção da crise búlgara e a instabilidade regional conduzia Bismarck à assinatura de um “tratado reassegurado” com a Rússia em 1887. Este garantia a posição alemã favorável aos interesses russos nos Estreitos, enquanto comprometia o império germânico com a Rússia no caso de um conflito com uma potência terceira, com a excepção da Áustria-Hungria.

O novo (e secreto) tratado não encontrava total aceitação nas esferas diplomáticas alemãs681. O carácter dúplice do convénio, por reconhecer os interesses russos nos Balcãs – reconhecimento anteriormente concedido pelo império germânico à Dupla Monarquia – levava à decisão de Guilherme II em abandoná-lo em 1890, desmantelando o sistema cuidadosamente criado pela Realpolitik de Bismarck, em favor da sua predilecta

Weltpolitik.682

Três anos antes, porém, o sistema prosperava não obstante o receio de uma possível guerra com França, criado pelo General Revanche: Georges Boulanger, e pela questão de

678 Idem, Ibidem, p.37.

679 CRAIG, Gordon A., Ibidem, pp.124-125. 680 MILZA, Pierre, Ibidem, p.38.

681 CLARK, Christopher, The Sleepwalkers – How Europe Went to War in 1914, Londres, Allen Lane

(Penguin Books), 2012, pp.126-127.

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Schnaebelé683. Estas ameaças à paz valorizavam o papel de Itália na Tríplice; nessa medida, a renovação da aliança ocorrida em 1887 constituía a ocasião de exigências italianas: a garantia francesa de não ocupar a Tripolitana, como compensação caso a Áustria-Hungria modificasse o statu quo dos Balcãs.

A primeira das duas convenções anexas à renovação da Tríplice ligava Itália à Dupla Monarquia, assente na promessa de consulta e compensação da segunda face à primeira no caso da Áustria-Hungria adquirir territórios nos Balcãs. A segunda convenção associava o império germânico à Itália e estabelecia apoio militar à segunda em situação de beligerância com França resultante da penetração francesa no norte de África684.

O sistema completava-se com o elo entre a Itália e a Grã-Bretanha, através de uma troca de notas reveladora dos interesses de ambos na manutenção do statu quo no Mediterrâneo, contra as possibilidades de expansão de França685. A Áustria-Hungria associava-se igualmente a estes acordos, adicionando-lhes a promessa de integridade do

statu quo nos Balcãs e nos Estreitos, cláusula antagónica com os compromissos firmados

com a Rússia686.

Ainda assim, 1887 representava o momento de mais grave isolamento de França. Os acordos construídos por Bismarck estabeleciam uma proximidade estreita entre a Áustria-Hungria, o império alemão, Itália, Grã-Bretanha e o império russo. O tratado germano-russo foi renovado em 1889; no ano seguinte, a oposição de Guilherme II representava o fim da aliança687. A tentativa russa de contrariar Ferdinando de Saxe Coburgo conduzia Bismarck a pressionar as várias potências ligadas à Tríplice para a reafirmação da promessa de manter o statu quo dos Balcãs e da Bulgária, mas também a proibir o Reichsbank de aceitar títulos de dívida russos como colateral para empréstimos. Esta decisão, com grande repercussão no mercado e economia russos constituía uma manobra calculada, para dificultar a expansão russa nos Balcãs. No entanto, esta decisão conduziu a um maior interesse russo por empréstimos franceses, ajudando à receada aproximação entre os dois países.688

683 CRAIG, Gordon A., Ibidem, pp.129-130. 684 MILZA, Pierre, Ibidem, p.41.

685 CRAIG, Gordon A., Ibidem, p.131. 686 Idem, Ibidem.

687 MILZA, Pierre, Ibidem, pp.42-43. 688 CRAIG, Gordon A., Ibidem, pp.131-132.

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Para Consiglieri Pedroso, em 1889, a Exposição Universal, desse ano, revelava a superioridade da nação latina face a estas maquinações.