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Ao entrevistarmos os indivíduos, observamos que, ao falarmos sobre os sem- -religião, não podemos deixar de considerar uma trajetória que se bifurca em duas clivagens que se interrelacionam exigindo do pesquisador muita parcimônia nas análises estatísticas. Não são os dados quantitativos que apontam para tais clivagens senão as entrevistas em profundidade. Por meio dessas, percebemos que

12; 17% 29; 43% 19; 28% 2; 3% 1; 1% 3; 4% 3; 4% Branca Parda Preta Amarela Indígena Negro Sem Declaração

a primeira clivagem indica um deslocamento da disposição existencial de um tipo de indivíduo que nega seu pertencimento às religiões – enquanto um sistema de dogmas, símbolos e práticas morais e cultuais – porém, ainda se considera na disposição musical para ‗religiosidade‘. Tal realidade é notada nas pesquisas de Jacob, Novaes e Ribeiro em que se referem à categoria: ‗crentes-sem-religião‘ – ―Acredito em Deus, mas não tenho religião‖ (RIBEIRO, 2009, p. 146).

Essa posição corrobora com a narrativa de um dos entrevistados da nossa pesquisa:

―Eu não pertenço a nenhum tipo de religião; não que eu não tenha fé, que eu não acredite em Deus; creio, acredito, rezo; mas eu não acredito na instituição, nas religiões, porque tem a questão burocrática, o governo era a religião, eles mandavam; eles faziam o que queria; o mundo girava em torno da religião e isso consequentemente acabou acarretando tudo que hoje agente tem. Da religião em si, eu não acredito; não critico a fé de ninguém; todo mundo tem sua religião de acreditar em Deus. Então, acho que esse é o meu ponto de vista quanto à religião. É a instituição‖89.

Nosso entrevistado particulariza a sua crença. Não pertence a nenhuma igreja e critica as religiões tanto pelo seu aspecto burocrático quanto por sua trajetória histórica. Uma vez que tudo girava em torno da religião, as consequências estender- se-iam até hoje, ao narrar:

―Eu acho que eles visam mais a questão financeira, a questão capitalista, do que mesmo a fé das pessoas. Eles não levam a sério a fé. Hoje existem muitas religiões, uma contra a outra, sendo que todas se originaram da mesma religião. Então, as maiores guerras foram em prol das religiões, porque queriam ver qual Deus era mais forte do que o outro, e, no entanto, já aconteceram chacinas, genocídios. Então, essa é a imagem da religião hoje, pra mim‖90.

Em contrapartida, a segunda clivagem da bifurcação – e essa é a novidade que pensamos como tese, a qual não se encontra nas pesquisas atuais – relaciona- se diretamente a um tipo de indivíduo que não manifesta elementos nem de

89 Roberson Machado, de 25 anos, pardo, mora com a mãe, estuda em um dos núcleos de pré-

vestibulares para negros e carentes da instituição Educafro. Seus estudos foram feitos em escola pública. Mas seu sonho é fazer faculdade de bioquímica, e diz por que pretende fazer este curso: ―Por questões ambientais e porque eu gosto de genética, de desenvolver pesquisas sobre doenças, curas; uma área que me interessa muito e por isso foi que escolhi‖. A entrevista foi concedida no dia 14 de abril de 2011, na Praça da República, numa Creche onde funciona seu núcleo.

religiosidade nem de religião. A esse denominamos de indivíduo desprovido de potencialidade, aptidão (‗carisma‘, ‗dons especiais‘) para religião. Ele não pauta sua vida por alguma ação no mundo racionalmente motivada por valores religiosos, ou seja, de uma moral religiosa que interfira no cotidiano de sua vida. À medida que esse indivíduo desprende seus ―interesses interiores‖ (WEBER, 2002d, p. 105) da religiosidade e/ou da religião, outros interesses ganham relevância, levando-o a afirmação de sua existência. Assim externou um jovem entrevistado:

―Eu não sou religioso. Embora as religiões tendam ao bem-comum do ser humano, eu acho que uma vez que você tem uma educação básica, tem seus princípios morais, éticos, culturais, aflorados, se você tem consciência do que é certo e errado, eu acho que o cidadão de fato pode ser um excelente cidadão, consciente, independente de ter religião ou não. [...] A religião tem esse papel preponderante sim, porque as pessoas que são religiosas atribuem muito dessas coisas benéficas que a religião faz a elas, porém, eu acredito seriamente que é possível viver plenamente sem religião‖91.

Fazer essa distinção salvaguarda a pesquisa do perigo de deixar-se simplesmente orientar pela empiria e, portanto, comprometer sua probidade.

As clivagens não se encerram em fronteiras fechadas. Consideramos que a realidade religiosa é muito plural e diversificada, não podendo reduzi-la a esquemas simplificados, até pelo fato de os sem-religião fugirem de uma classificação social e religiosa homogênea. Por essa razão, não os consideramos a partir da classificação ‗com-Deus‘ versus „sem-Deus‘. Nossa saída analítica foi identificar indivíduos ‗amusicais‘, isto é, sem sensibilidade para religiosidade e religião. Nesse sentido, as análises nos ajudaram a desnaturalizar possíveis tendências a clivagens dicotômicas.

A hipótese que elucidamos – após a apresentação dos dados acima – parte do pressuposto do processo de racionalização da vida e modernização das sociedades atuais, possibilitando a existência de indivíduos que, publicamente, se dizem sem disposição para religião. Visando à compreensão dessa percepção,

91 Danilo Rosa tem 22 anos, declara-se preto, estudou em escola pública, reside com os pais, e sua

perspectiva é fazer a faculdade de Ciências Sociais. Após trabalhar voluntariamente na Educafro, diz por que irá deixá-la: ―Tenho três anos de Educafro. Nesses três anos, fui aluno, professor de cidadania; hoje é um momento em que me afasto da instituição, no sentido de canalizar minhas energias, a fim do vestibular, da minha formação acadêmica mais específica‖. Essa entrevista foi realizada no dia 30 de abril de 2011, na sede da Educafro, São Paulo-SP.

buscamos construir, após um passeio pelos teóricos, uma conceituação sobre a categoria ‗sem religião‘ a partir de uma análise sócio-filosófico-antropológica. Com isso, almejamos favorecer uma contribuição tanto para as Ciências Sociais quanto para as Ciências da Religião. Mesmo o IBGE ainda não traduz, com objetividade, a categoria ―sem religião‖ (aspas do IBGE). Falta-lhe uma conceituação explicita sobre o que significam esses novos indivíduos para o campo religioso brasileiro.

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