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Chapitre 1 : Revue de littérature La construction de l’activité collective en

3.2 Des contradictions professionnelles

3.2.3 Logique individuelle versus logique collective de travail en classe

Pesquisar é antes de tudo descobrir algo novo, trilhar caminhos distintos dos convencionais, perturbar as certezas e convicções, embaralhar razão e paixão (Sérgio Adorno).

Quando pensávamos na forma adequada para obter os dados para a nossa pesquisa, imediatamente, a observação sistemática dos locais, dos tempos, das práticas e dos atores envolvidos surgiu à mente. Se pretendíamos mostrar possíveis variações em relação às práticas educacionais levadas a cabo em duas instituições prisionais semelhantes, pareceu-nos ser esse o método mais apropriado e o que traria resultados mais fidedignos.

Acreditávamos como a pesquisadora que:

O trabalho de campo constitui, assim, um dileto e sempre refeito rito de passagem disciplinar, um ir-e-vir constante que, associando experiência subjetiva à reflexão teórica e expressando-se no modo etnográfico de narrar, está no âmago do ofício (Cavalcanti, 2003, p. 118).

Assim, a observação atenta da utilização dos espaços físicos, somada à verificação dos seus espaços de ocupação internos; da distribuição dos diversos locais para as atividades do cotidiano e, entre eles, da própria escola e dos atores envolvidos, foram aqui, estratégias de pesquisa, no sentido que nos dá Graça (1999, p. 63), citando Velho:

São possíveis, ou mesmo inevitáveis, a coexistência e o entrecruzamento social de discursos simbólicos e universos de sentido diferenciado. Num certo espaço social, não só a cultura não exclui as diferenças, como, em certa medida, se alimenta delas, estabelecendo pontes, suscitando comunicação.

O que se tem em mente aqui é que os espaços de prática de leitura e escrita quando dispostos e planejados para garantir um nível satisfatório de aprendizado adequado para aqueles que o buscam ou não, podem apresentar singularidades, ou mesmo, regularidades que merecem uma análise particular28. Compartilhamos aqui da visão do cientista que diz que:

(...) em todas estas ocasiões colhe-se comentários valiosos para a compreensão de vários aspectos da vida prisional, registra-se expressões espontâneas, observa-se comportamentos naturais de uma posição privilegiada (Coelho, 1987, p. 173).

Também pretendíamos escapar a “duas dificuldades metodológicas sérias ao estudar uma organização tal como a prisão” (Sykes, 1999, p. 135):

(...) Primeiro, o observador está constantemente em perigo de ser iludido por prisioneiros altamente articulados e fluentes que buscam vantagens pessoais. (...) Segundo, na sociedade polarizada da prisão é extremamente difícil não se tornar partidário, consciente ou inconscientemente (Sykes, 1999, p. 135-136).

Mesmo considerando as advertências acima, sentíamos a necessidade de investigar também o conjunto de opiniões de todos os sujeitos que, de uma forma mais ou menos explícita, mantinham com a escola uma certa interação, e os alunos prisioneiros eram um desses grupos. Também a equipe dirigente, o pessoal responsável pela segurança e disciplina das instituições prisionais e os professores, a respeito da escolarização dos prisioneiros. É necessário considerar o que pensam as pessoas que detém uma grande parcela do poder de decidir quem chega e quem não chega à escola, e

28 Fizemos duas visitas à ambas as instituições prisionais, num espaço de, aproximadamente, sete meses da primeira para a segunda. Resultou, das duas visitas realizadas, um grande conjunto de informações, depois sistematizadas, que serão apresentadas como apêndice ao final deste trabalho.

com isso, verificar sua ação sobre a possibilidade de crescimento pessoal do prisioneiro quando expressa vontade de estar em sala de aula. Para essa investigação, recorremos a entrevistas semi-estruturadas, que nos possibilitaram um certo “manejo” a partir das indicações que nos deram os entrevistados.

Seguimos também um referencial de entrevistas proposto por Bourdieu (2003, p. 693) para quem:

(...) muitas dezenas de anos de prática da pesquisa sob todas as suas formas, da etnologia à sociologia, do questionário dito fechado à entrevista mais aberta, convenceram-me que esta prática não encontra sua expressão adequada nem nas prescrições de uma metodologia freqüentemente mais cientista que cientifica, nem nas precauções anticientificas das místicas de fusão afetiva.

Tendo claro as duas propriedades inerentes à relação de entrevista, proposta por esse autor, quais sejam: a) “é o entrevistador que inicia o jogo e estabelece a regra do jogo” e b) “o mercado dos bens lingüísticos e simbólicos que se institui por ocasião da entrevista varia em sua estrutura segundo a relação objetiva entre o pesquisador e o pesquisado”, coletamos dados que foram confrontados com o que observamos nas práticas cotidianas do universo escolar no interior das instituições prisionais. Isso nos levou a concordar com Selltiz, Wrightsman e Cook (1987, p. 15), que afirmam que “na pesquisa social, é muitas vezes difícil, ou até impossível, coletar dados sobre as pessoas através da observação pura e simples (Itálicos meus)”.

Os autores acima ponderam sobre a aplicabilidade de um e de outro instrumento de coleta de dados. Chegam à conclusão de que é mais adequado para algumas análises de cunho sociológico combinar a aplicação da entrevista face a face com o uso do questionário, procedimento usualmente denominado de questionário auto- aplicado. Embora os autores avaliem que essa estratégia, freqüentemente, é bem sucedida na obtenção de altas taxas de respostas, ao mesmo tempo em que “permite ao informante privacidade no preenchimento do questionário por ele mesmo” (Selltiz, Wrightsman e Cook, 1987, p. 21) optamos, inicialmente, em não utilizar questionários, dada a amplitude e a relativa escassez de tempo para a análise de todo esse material.

As entrevistas que realizamos vieram acompanhadas de um levantamento prévio de informações pessoais relativas aos sujeitos entrevistados, especialmente dos diretores Gerais, de Segurança e Disciplina, Reabilitação e Educação. Um outro

levantamento bastante específico foi obtido junto aos funcionários que tratam da segurança interna do presídio, neste caso, os Agentes de Segurança Penitenciária. Outro grupo eleito para ser entrevistado foi o dos monitores, fossem presos ou de “fora” da prisão, já que este grupo compõe, juntamente com os diretores das instituições prisionais, com os funcionários voltados à segurança e disciplina interna e os próprios sentenciados, os atores dos processos educacionais no interior dessas instituições. No percurso da pesquisa de campo, uma orientadora pedagógica que iniciava suas atividades nessa função na penitenciária 1,e que soube de nossas intenções, ofereceu-se espontaneamente para a entrevista, o que nos foi de imensa surpresa. Sua entrevista revelou-nos fatos bastante esclarecedores.

Foram entrevistados 23 sujeitos, sendo 11 na Penitenciária 1 e 12 na Penitenciária 2, sendo dois alunos, dois Agentes de Segurança Penitenciária, quatro diretores, dois monitores presos e uma coordenadora pedagógica na penitenciária 1 e, três alunos, três Agentes de Segurança Penitenciária, quatro diretores e dois monitores – um deles preso, na penitenciária 2. Todos eles foram entrevistados uma única vez. Não escolhemos os entrevistados. Simplesmente, transmitíamos aos sujeitos com que íamos mantendo contato nas instituições prisionais, a pretensão de realizar algumas entrevistas com um grupo pequeno de atores envolvidos com a escola na prisão, com exceção do grupo dirigente, esse sim, elencado previamente. Os sujeitos foram surgindo, na condição de voluntários para a coleta de dados.

Em ambas as instituições fizemos uso também de máquina fotográfica a fim de melhor ilustrar os lugares por onde passamos e por onde circulam uma grande quantidade de prisioneiros e outras pessoas da vida livre todos os dias.

As impressões, obtidas através das observações sistemáticas dos dados de realidade do espaço escolar, além dos dados obtidos em entrevistas com os sujeitos, serão analisadas pormenorizadamente no próximo capítulo. As fotografias dos espaços de prática escolar e mesmo, de circulação dos prisioneiros, serão mostradas quando oportuno.

CAPÍTULO II

AS REGULARIDADES E AS SINGULARIDADES DOS PROCESSOS