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MODA I KNJIŽEVNOST

8. DIFFÉRENCES ENTRE LE FRANÇAIS ET LE CROATE

8.4. LOCUTIONS ET EXPRESSIONS

Apresentação

Como se viu nas páginas precedentes, não parece ser nada fácil desempenhar bem o papel do baiano autên- tico. Existem indicações precisas sobre quase tudo: como dançar, cantar, vestir-se, comer, orar, amar, sentir. Após observar a  descrição dos costumes e  as elaboradas justificativas históricas para que as coisas sejam do “modo que são”, serão analisados aqui dois outros aspectos do discurso da baianidade: os valores, as ideias que sustentam esse discurso e  as técnicas argumentativas acionadas para torná-lo persuasivo. O objetivo agora é tentar identificar interseções entre os dois períodos abordados, através das ideias e proce- dimentos enunciativos que se mantiveram mais pre- sentes ao longo de todo esse tempo. Ou seja, se antes a atenção estava dirigida aos temas abordados, agora o foco estará sobre “aquilo que se diz sobre esses temas” e “como se diz”. A pergunta que se tenta responder é: como se justifica, nesse discurso, porque vale a pena ser baiano?

Provavelmente, a eficácia e longevidade desse discurso provêm não só da sua riqueza descritiva, mas também do seu caráter prescritivo: convoca-se a adoção das atitudes descritas, seduz-se o  interlocutor pelo humor e intimidade, enumeram-se as vantagens para quem partilha dessa “verdade”. As descrições e comen- tários sobre os ritos e costumes “tipicamente baianos” estão repletos de opiniões, adjetivações, incorporando

conceitos de várias fontes, que permitem identificar alguns dos valores que sustentam esse discurso. Ao modo de Weber (1967), que trafega pela economia capitalista divisando elementos da ética protestante, serão buscados nos comentários e opiniões sobre os costumes baianos, valores e princípios caros à baianidade e que sustentam, guiam essas opiniões e comentários. Assim, ao mesmo tempo em que são mapeados os motivos apresentados para justificar a manutenção dessa tradição – como uma boa opção de vida ou como forma de se obter auxílio no trato dos pro- blemas mundanos –, há uma aproximação também de valores da baia- nidade. O pressuposto aqui é o de que, se uma quantidade expressiva de enunciados de uma formação discursiva enfatizam, por exemplo, que um certo costume torna as pessoas alegres, é possível inferir, pela recorrência do tema, que a alegria funciona como uma justificativa para esse costume e que o sentimento de felicidade relacionado a esse estado de espírito é um valor nessa cultura, já que é usado frequentemente como argumento.

Os conceitos acionados na argumentação dos compositores foram divididos em dois blocos. O primeiro, reunindo um conjunto de ideias que remetem à  conservação e  respeito ao passado: hereditariedade, origem, pioneirismo, saudosismo, retorno, sabedoria, segurança. O valor identificado como amalgamador de todas essas noções foi a ideia de tra- dição. No segundo bloco, estão noções como despojamento, comunhão, otimismo, desrepressão, sensualidade, permissividade, celebração. Embasando o  recurso a  esses argumentos, aparece a  defesa do prazer como um valor importante no discurso da baianidade. Percebe-se, então, ao mesmo tempo, a evocação da norma, da regra, do controle, da restrição, da repetição, que a tradição evoca e o “sair de si”, a ludicidade, a emoção, o descontrole, o espaço para o imprevisto que a ênfase no prazer, nos sen- tidos, traz à tona. Convive-se então, num mesmo discurso e às vezes até num mesmo enunciado, com argumentos que convocam à obediência e à transgressão, configurando um quadro que pode ser encarado como de contradição ou, talvez, de saudável tensão.

Entre os recursos argumentativos em termos mais formais, refe- rentes ao próprio uso da língua, destaca-se a busca de cooptar o interlo- cutor, através do uso da forma imperativa, da segunda pessoa do plural

e de formas de descrição e narração que evocam a oralidade e a circuns- tância da enunciação: formas de saudação e invocação que solicitam res- posta dos interlocutores, o uso abundante de vocativos, entre outros. São exemplos de procedimentos enunciativos muito explorados também o recurso à forma proverbial, que confere legitimidade ao que está sendo dito e  formas diferenciadas de usar certas palavras, pronomes de tra- tamento e verbos. Verificam-se, ainda, certos usos “típicos” da língua, confirmando a tese de alguns autores de que o ato de trazer à tona uma informação nova sempre exige a retomada de informações e repertórios já dados, incorporados pelos interlocutores: um requisito para a inteligi- bilidade do que é dito.1 Perceber e explicitar estes elos (conceituais e for-

mais) entre as canções é fundamental para a compreensão delas como elementos de um mesmo discurso, o da baianidade.

Tradição

Caracterizar certas práticas ou modos de perceber o mundo como tradi- cionais equivale a defender a sua manutenção, pois a ideia de tradição é inseparável da de transmissão: o conceito dicionarizado é o de conheci- mentos, práticas e valores transmitidos de geração em geração, oralmente ou pelo hábito. Dentre as várias formas de se convocar a manutenção dessas práticas tradicionais, uma das mais importantes é a simples refe- rência a elas, o que por si só já representa uma forma de mantê-las vivas, mesmo que apenas na memória, pois merecer ser tematizada já é um atestado claro de importância. Como foi mostrado nas páginas anteriores, essa opção sempre foi bastante explorada pelo discurso da baianidade: descrever práticas culturais e um modo de sentir e pensar tradicionais. Dissertar sobre essas práticas implica também numa forma mais com- plexa de caracterizá-las, em que os juízos de valor despontam com nitidez.

Está se nomeando aqui como “tradição” tudo o que remete à continui- dade, manutenção, sobrevivência, seja quando a tradição é citada como um motivo para se optar pelo modo baiano de viver, pelas vantagens que traria (proteção e primazia), seja quando ela aparece como um resultado da repetição de antigos costumes. Uma tensão presente nessas ideias associadas a uma “habilidade baiana de perpetuar” é que elas remetem ora a  uma capacidade de adaptação – convívio/coexistência, mistura/ fusão –, ora a  uma dimensão conservadora – hereditariedade, pionei- rismo, obrigatoriedade.

Na sua argumentação, os compositores transitam por ideias que vão desde o plano do imutável e sentimento de obrigatoriedade, até uma disposição natural para “fazer o que deve ser feito”, uma forma de res- peito às regras da tradição. São noções como pioneirismo, hereditarie- dade, proveniência e também justificativas como o valor da antiguidade ou a proteção e sabedoria que esta antiguidade conferiria. Portanto, jus- tificativas que transitam por terrenos variados. A evocação da heredita- riedade e proveniência, por exemplo, caminha numa direção perigosa, pelo determinismo envolvido neste tipo de perspectiva, trabalhando com dados imutáveis, que escapariam ao controle das pessoas, que são a filiação e local de origem. A tese defendida aí poderia ser resumida assim: “Quem quer se fazer não pode / Quem é bom já nasce feito”. (SINHÔ, 1919) Sem meias palavras, trata-se do mesmo tipo de argumentação das teorias racistas e  de muitas ideias que sustentam os conflitos étnicos e inúmeras formas de discriminação, nos quais apela-se para a genética, a hereditariedade e os laços culturais como fatores significativos para se entender as diferenças, e  também para justificar as desigualdades e a exploração.2 Quando a tradição é defendida de uma forma menos vee-

mente, como uma recomendação ou disposição para repetir costumes, o tom já é ligeiramente diferente. Como disse Neguinho do Samba, nos

2 Sodré (1988, p. 34) afirma que o racismo doutrinário, uma criação do século XIX, sus- tenta-se “numa universalização do conceito de homem: universalizar significa reduzir as diferenças a um equivalente geral, um mesmo valor”, no qual o europeu aparece como um “centro equivalente geral”.

anos 1990, explicando a necessidade de atender com rapidez a um cha- mado de Dona Canô:3 “Antiguidade é posto / Temos que respeitar”.

Pioneirismo

Bahia: lugar onde as coisas aconteceram e acontecem primeiro, começam, nascem, surgem. Evidentemente, esse recurso argumentativo tenta retomar a história do Brasil: a Bahia como local onde os descobridores/ invasores portugueses aportaram pela primeira vez,4 e Salvador como

primeira capital do país: “Mamãezinha que morreu / Muita vez me ensinou / Que na Bahia / De iaiá / E ioiô / Foi que o Brasil nasceu”. (BARROSO, 1931) Gordurinha abordou o tema em duas canções, como uma verda- deira bandeira: “O Brasil foi descoberto na Bahia e  o resto é  interior”. (GORDURINHA; DINIZ, 1959) A evocação do pioneirismo e, é claro, de um tempo em que os precursores desempenhavam um papel mais impor- tante no cenário nacional não é uma ideia baiana. Autores que estudaram, por exemplo, o discurso regionalista nordestino indicam o quanto o tema é recorrente, sugerindo que se trata de recurso comum no discurso das elites decadentes, que buscam assim construir uma cumplicidade com as classes exploradas.5

Desse começo do Brasil, os compositores passam a várias deriva- ções: local onde se aprende a fazer certas coisas, onde certos sentimentos e hábitos nascem. A relação entre pioneirismo e perenidade se estabelece, muitas vezes, por simples justaposição: num local precursor, as tradições “naturalmente” devem sobreviver – “Terra tradicional / Salve São Salvador /

3 Dona Canô é a forma como é conhecida a mãe do compositor Caetano Veloso e da cantora Maria Bethânia, tida como uma figura quase folclórica: idosa, gentil, simples e sábia. Essa canção, gravada em 1996 por Daniela Mercury, se chama Dona Canô. 4 Alguns autores, como Darcy Ribeiro, chamam a  atenção para o  equívoco em se

nomear descobridores aqueles que chegaram a  uma terra habitada e  dizimaram a população local. Ver: RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

5 Para autores como Rosa Silveira, o saudosista discurso regionalista seria, antes de tudo, uma expressão da crise. A esse respeito, ver: Silveira (1984).

O poeta Castro Alves / Pai da gente de cor / Bahia que nasceu / Cresceu forte e varonil / Terra que foi o berço do Brasil”. (BARROSO, 1946) O mesmo tema também está presente no discurso regionalista, em que se busca definir a região Nordeste como guardiã ou expressão da verdadeira iden- tidade nacional. Diz Amado (1981, p. 21): “Cultura baiana que influencia toda a cultura brasileira, da qual é célula máter”. A referência à ideia do Nordeste, onde se iniciou a colonização, como mantenedor e precursor da “verdadeira” identidade brasileira, segundo Silveira (1984, p. 24), está presente em vários discursos, por exemplo, em Gilberto Freyre:

Exprimia também uma consciência da diferença entre os espaços do Nordeste e  do Rio-São Paulo, aquele eivado de valores tornados nacionais ‘menos pela superioridade que o  açúcar deu ao Nordeste durante mais de um século do que pela sedução moral e pela fasci- nação estética dos mesmos valores’; o  último, eivado de ‘estrangei- rices’ e ‘modernidades’.

Uma ideia que aparece aqui e ali nas letras, mesmo que em tom mais suave – “Eu fico contente da vida em saber / Que a Bahia é Brasil”. (BREAN, 1947) Por isso,“Quem quiser conhecer / O Brasil brasileiro, meu bem / Tem que uma vez ir à Bahia”. (BARROSO, 1931) Gordurinha também fala sobre o tema, construindo uma argumentação meio esdrúxula – ver íntegra da letra no anexo a – para afirmar que “Tudo é baiano meu filho / Tudo é baiano”. (GORDURINHA, 1962)

Com o passar do tempo, o tema não perde a sua força, muito pelo contrário. Em pleno final do século XX, com as comemorações dos 500 anos do Brasil, o governo da Bahia relembra através de um slogan publi- citário de circulação nacional: Bahia. O Brasil nasceu aqui. Gilberto Gil citou algumas vezes o tema, como nestes dois exemplos. O primeiro, usando um curioso jogo de palavras para referir-se ao Plano Inclinado Gonçalves, que está situado realmente no trecho onde a cidade começou a ser edifi- cada, na área ao redor da Praça da Sé.

O que veio a ser você Nasceu aqui Neste lugar do plano

A um movimento regular De descida e subida Dos homens da cidade

Adormecida Do Salvador (GIL, 1977)

Em outra canção, Gil enumera os vários pioneirismos baianos, para o bem e para o mal, como ele mesmo diz: pioneira na colonização, no desbravamento e também na crueldade, pois toda a formação da nossa sociedade se deu através do trabalho forçado. Uma ideia que já aparece aqui e  que será tratada adiante é  a  de primazia, que significa ocupar o primeiro lugar, ter prioridade, superioridade, deferência, o que pode ser entendido como uma consequência, um resultado advindo do pionei- rismo ou do simples fato de ser melhor. No discurso da baianidade, então, o pioneirismo não é reivindicado aleatoriamente, porque ele frequente- mente serve como um dos importantes argumentos para justificar uma primazia ou superioridade baiana:

Que Deus entendeu de dar a primazia Pro bem, pro mal, primeira mão na Bahia

Primeira missa, primeiro índio abatido também

Que Deus deu

Que Deus entendeu de dar toda magia

Pro bem, pro mal, primeiro chão na Bahia Primeiro carnaval, primeiro pelourinho também

Que Deus deu (GIL, 1979)

Outro pioneirismo baiano muito lembrado diz respeito ao local onde surgiu o samba. Para alguns, teria sido na Bahia, enquanto outros juram que foi no Rio de Janeiro. Com muita elegância, Caetano Veloso brinca com essa velha disputa, creditando o papel de pioneira à Bahia, sem deixar de render homenagens ao Rio, como continuador da tradição. Se a escola de samba Mangueira é conhecida como Estação Primeira da Mangueira, a Bahia, defende Caetano, seria a “Estação Primeira do Brasil”. Bahia e Rio aparecem como semelhantes – no samba, na arte –, inclusive

porque eram baianas as primeiras mulheres que, no Rio, promoveram em suas casas batuques de onde teria se propagado o samba:

A Bahia, Estação primeira do Brasil Ao ver a Mangueira nela inteira se viu,

Exibiu-se sua face verdadeira. Que alegria

Não ter sido em vão que ela expediu

As Ciatas pra trazerem o samba pra o Rio

(Pois o mito surgiu dessa maneira) (VELOSO, 1997)

A mesma história ou “mito” também foi contada por Sodré (1979, p. 19-21):

Era natural, portanto, que as pessoas de cor no Rio de Janeiro refor- çassem as suas formas de sociabilidade e os padrões culturais trans- mitidos principalmente pelas instituições religiosas negras, que atra- vessaram incólumes séculos de escravatura. As festas ou reuniões familiares, onde se entrecruzavam bailes e  temas religiosos, insti- tucionalizavam formas novas de sociabilidade no interior do grupo (diversões, namoros, casamentos) e  ritos de contato interétnico, já que também brancos eram admitidos às casas. Estas pertenciam majoritariamente a  famílias baianas que, desde as últimas décadas do século XIX, habitavam o  bairro da Saúde, espalhando-se mais tarde pela zona chamada Cidade Nova, com ramificações no Mata- Cavalos (Riachuelo) e Lapa. [...]

Um destes era a  residência na Praça Onze da mulata Hilária Batista de Almeida – a  Tia Ciata (ou Aceata) – casada com o  médico negro João Batista da Silva, que se tornaria chefe de gabinete de polícia no governo Wenceslau Brás. [...]

Na casa da Tia Aceata, surgiu Pelo Telefone, o  samba que lançaria no mercado fonográfico um novo gênero musical. E os músicos do pri- meiro samba gravado foram recrutados entre os seus frequentadores: Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha, Heitor dos Prazeres e outros.

Evocando uma história mais recente, mas também recuperando o pioneirismo baiano, alguns compositores lembram da criação do trio

elétrico – “Há vinte e cinco anos, em Salvador surgiu / O frevo numa fobica e o famoso trio” (MACEDO; DODÔ, 1975) – e da guitarra baiana, ainda como “pau elétrico”, um instrumento eletrificado criado pela dupla Dodô e Osmar: “Dodô, Dodô / Antes do gringo / A guitarra ele inventou / [...] / Nasceu um dia a guitarra / Na Bahia, Bahia, Bahia”. (MOREIRA; AMÉRICO, 1980) Um detalhe que não passa despercebido aos compositores, como argumento que ressalta a importância de mais este pioneirismo baiano, é a precedência aos “gringos” nesta invenção.6 Na verdade, o pioneirismo

científico e tecnológico baiano, quando acontece, é até pouco lembrado e  explorado, como por exemplo a  importância da indústria têxtil no Estado – que chegou a ser a mais desenvolvida do país – ou a descoberta e prospecção do petróleo em terras baianas. Uma canção curiosa e que fez muito sucesso na sua época é este samba-enredo de uma escola de samba chamado Bahia de Todos os Deuses. Aqui, além da velha ideia do pio- neirismo baiano, fala-se em petróleo, riquezas minerais e outras riquezas locais que raramente são citadas nas canções da baianidade:

Bahia, os meus olhos estão brilhando Meu coração palpitando, de tanta felicidade És a rainha da beleza universal, minha querida Bahia

Muito antes do império, foi a primeira capital, Bahia, Bahia

Preto velho Benedito já dizia, felicidade também mora na Bahia

Sua história, sua glória, seu nome é tradição

Bahia do velho mercado, subida da Conceição És tão rica em minerais

Tem cacau, tem carnaúba, famoso jacarandá

Terra abençoada pelos deuses e o petróleo a jorrar Nega baiana, tabuleiro de quindim Todo dia ela está, na igreja do Bonfim, ôi

Na ladeira tem, tem capoeira Zum, zum, zum, zum, zum, zum

Capoeira mata um (BALA; ROSA, 1969)

6 Adolfo Antônio Nascimento (Dodô) e Osmar Álvares Macedo eram, respectivamente, técnico em eletrônica e técnico em engenharia. Além de criarem o instrumento cha- mado “pau elétrico”, um precursor da guitarra, depois transformado na guitarra baiana, durante anos eles foram fazendo adaptações no trio elétrico, que tornaram o veículo apto a ser um potente gerador de luz e som.

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