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2. M AITRISE PREVENTIVE DE LA CONTAMINATION : APPROCHE DES 5M

2.2. Le milieu

2.2.1. Les locaux

Uma das características peculiares das obras de Saramago é a presença de uma abertura, isto é, um “introito”, uma espécie de enquadramento, antes do começo propriamente dito da ação. A primeira frase do Ensaio sobre a Cegueira, embora elucidativa na sua objetividade, não dá toda a medida do que é o romance, mas já insinua um dos principais eixos

CAPÍTULO II – DA NARRATIVA LITERÁRIA À NARRATIVA FÍLMICA

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semânticos da obra. “O disco amarelo iluminou-se”, diz o texto à partida. O narrador menciona, então, uma cor e recorre a um verbo que tem luz como componente, sendo que cor e luz se relacionam com a visão. Insistindo nas coisas que se veem, cumprem-se os primeiros passos que, ao fim do segundo parágrafo, levarão à insólita revelação: “estou cego”. O acontecimento da primeira cegueira é descrito a partir do comportamento da primeira vítima, tal como pode ser observado pelas peões, condutores e transeuntes casualmente dispersos à sua volta, com a deliberada reiteração no texto do verbo “ver”.

Curiosamente, a narração da primeira cena do romance faz com que o leitor se sinta como se estivesse por detrás de uma câmara de filmar, como se essa fosse um olho omnisciente. Na verdade, a escrita de Saramago é com frequência “cinematográfica”: o autor descreve cada cena como se empunhasse uma câmara de filmar em movimento e o tom adotado é o de registo documental de factos objetivamente observáveis.

O filme inicia-se com a visualização em close-up, de forma nítida e alternada, das luzes vermelha e verde de um semáforo, juntamente com imagens desfocadas de carros passando velozmente. São claramente audíveis sons de buzinas e de travagem dos automóveis. Nesta primeira sequência, surge uma imagem em plongée (a partir de uma câmara alta) que mostra parcialmente a avenida de uma cidade. É então que ocorre o incidente da primeira cegueira: no meio do trânsito, um condutor, que aguarda, juntamente com os outros, a mudança de cor da luz do semáforo para avançar, não consegue mais conduzir o seu veículo, pois passa a “ver” tudo branco. Nesse primeiro momento, o narrador confunde-se com a própria câmara, que coloca o espectador frente à ação. A cegueira é sugerida e representada inicialmente através do ofuscamento do ambiente e pela incidência de uma forte luminosidade no ecrã. Paralelamente, na trilha sonora soa o toque suave de apenas uma nota musical, similar a um sino. A partir desse episódio inicial, o espetador será levado a acompanhar as consequências dessa estranha doença que contamina as pessoas que a ela são expostas. Tal como no romance, a trama desenvolve-se em crescendo, à semelhança do processo de propagação de uma epidemia, num ritmo de progressão geométrica.

Só quando está consumada a cegueira, é que o título do filme, em letras brancas, turvas, surge por fugazes instantes, desvanecendo-se rapidamente, dando o tom para os efeitos sensoriais que caracterizam a estilística visual do filme.

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Tal como sucede no romance, no diálogo entre o cego e o falso “bom samaritano” que se ofereceu para o levar a casa, são explicitados os sintomas da estranha cegueira, ficando de imediato estabelecido que não se trata de uma cegueira vulgar (o que virá a ser confirmado à medida que se adianta a história). De facto, a cegueira é normalmente negra, instala-se gradualmente e caracteriza-se pela ausência de luz. Esta cegueira, branca, que sobreveio repentinamente e sem qualquer causa aparente e anterior, não causando danos físicos aos olhos, é comparada a um mar de leite. Procurando tranquilizar o cego, o outro homem afiança erroneamente que devem ser apenas “nervos”. O tema da visão continua ulteriormente, aquando da chegada do primeiro cego ao prédio onde habita, a ser explorado em metáforas visuais: imagens subsequentes mostram reverberações, reflexos e brilhos sobre vidros, silhuetas duplicadas ou sobrepostas, em que a nitidez é perturbada, em perspetivas invulgares e distorcidas, onde o olhar do espetador se perde. De múltiplas e incisivas formas, o “mal branco”, repetidamente nomeado na obra literária, é recriado no ecrã. Em dados momentos, a névoa leitosa que ofusca o olhar é transportada para o espetador, através de uma luminosidade láctea projetada na película, que vai irrompendo até ao final do filme. Essa e outras estratégias, como planos deliberadamente mal enquadrados ou desfocados, o aumento dos contrastes entre os claros e os escuros, a impossibilidade já referida de discernir com clareza algumas imagens, concorrem para gerar no espetador uma sensação de desorientação próxima da vivida pelas personagens, desestabilizando a sua visão e sua perceção da realidade, sobretudo a partir do momento em que o espaço em que decorre a história é o do manicómio. O facto de não possuir uma visão privilegiada e cristalina dos acontecimentos, recebendo apenas as informações transmitidas aos internados e não conseguindo vislumbrar com clareza o que sucede no interior do manicómio, torna o espetador vítima das limitações criadas pela câmara de filmar do realizador. Este é brutalmente arrancado da sua zona de conforto e é diretamente envolvido e interpelado pelos sentimentos de angústia, desamparo e impotência que constituem a nova realidade carcerária dos que perderam a visão.

Visualmente, graças aos sentidos criados no filme a partir de recursos próprios da fotografia, o filme banha numa luz esbranquiçada e difusa que não é apenas uma evocação da cegueira branca que aflige a humanidade, pois reproduz também a atmosfera ordinária do nosso universo desbotado, descolorido pelo torpor de indiferença e o individualismo, em que a trivialidade da vida quotidiana esbate os contrastes.

CAPÍTULO II – DA NARRATIVA LITERÁRIA À NARRATIVA FÍLMICA

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