[…] posso dizer que a minha poesia de juventude era fascinada por
determinados sortilégios que depois deixaram de me interessar. Se fosse pintor, diria que passei a trabalhar com menos cores, e as poucas com que
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trabalho são cada vez mais surdas. Mas isso é natural, chama-se maturidade. (RP: 341)
Lugares do Lume, de Eugénio de Andrade, pertence à fase mais
recente da sua escrita literária, à qual o poeta atribui algum ensurdecimento da linguagem. E cremos que, neste livro, a linguagem não se revela mais sombria que em livros anteriores. Do nosso ponto de vista, é evidente, neste conjunto de poemas, a tentativa do sujeito poético para encontrar um equilíbrio entre luz e sombra, presença e ausência, presente e passado.
Ora, contrariando a afirmação acima transcrita, o título do livro,
Lugares do Lume, é indiciador de que o escurecimento, se aconteceu, se
dá a um nível mais profundo, porque, em superfície, os lugares que se privilegiam são maioritariamente os do dia, da luz, do sol e do fogo. O que pretendemos dizer é que, na nossa opinião, o escurecimento está na profundidade do trabalho poético que envolve a incessante busca da palavra exacta para transmitir algo que o próprio poeta pressente transcendê-lo. Importa, assim, desde já reconhecer, como o faz Adorno, ainda que num outro contexto, que o sujeito poético «deve a sua existência a um privilégio: só a um escasso número de seres humanos, vergados sob o peso da necessidade, foi dado apreender o universal descendo ao fundo de si mesmo; e desenvolver-se enquanto sujeitos plenamente autónomos, senhores da sua própria expressão» (ADORNO, T. W., 2003: 16). É desta linguagem de expressão profunda que Eugénio de Andrade nos fala, quando refere o desespero vital e emocional em que se traduz o acto de criação do poema, no qual «é impossível destrinçar o que é de razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra» (RP: 276-277).
Quer isto dizer, por outras palavras, que o sujeito poético não só se limita a tentar exprimir a totalidade, mas também procura a forma mais adequada de o fazer, já que nos seus «versos [se] aspira […] [ à
51 superação das antinomias» (id.: 340), ou «[quer] que um verso [seu] contenha a luz do mundo» (id.: 395).
De facto, esta vontade de «iluminar a escrita», que se subentende estar obscurecida, bem como o aspirar «à superação das antinomias», é, no seu essencial, a procura de conciliação de opostos, que é a matéria de que se compõe, em última instância, a unidade. Por isso concordamos com as palavras do poeta, quando admite que, no que diz respeito à sua poesia, não se pode «falar de um mundo orgânico e estilístico encerrado nos limites de uma arquitectura que teve em conta as relações do todo com as partes entre si […]» (RP: 286-287). A partir destes pressupostos, compreende-se, portanto, que a superação de antinomias se produza no equilibro instável da multiplicidade que faz percorrer os poemas, numa tensão traduzível pela procura de um espaço de plenitude onde se possa exprimir a liberdade, uma liberdade que se quer, no fundo, partilhar. Como consequência desta vontade de exprimir a unidade do homem, vemos, assim, emergir, nos poemas, um sujeito dividido entre luz e sombra, entre frio e calor, entre juventude e velhice; isto é: vemos assomar um sujeito fragmentado.
Acontece, porém, que, face à perspectiva de existência de um sujeito dividido, tentando perspectivar a união de opostos, observamos, em Lugares do Lume, como tentativa de superação do fraccionamento, a repetida referência ao nascimento da palavra poética, assim como a recuperação de lembranças do passado. De facto, neste livro, deparamo- nos com uma efectiva «imersão no tempo», uma manifestação da «insatisfação por um presente de solidão [e] a tentação de se refugiar na memória [sem, no entanto,] cair no sentimentalismo e no confessionalismo […]» (CATTANEO, C. V., 1996: 38). A partir daqui, parece-nos possível consolidar as noções segundo as quais a imersão no tempo e o recorrente relembrar do passado não são mais que a tentativa do poeta criar e partilhar um sentimento de plenitude — tentativa que efectua quer através de uma «inversão da visão pessoal de existir», quer
52 também através de «uma pesquisa formal […] com o claro fim de encontrar um novo equilíbrio entre emoção e escrita» (id.: 36-36).
Torna-se, por isso, evidente que, face à alteração de perspectiva da existência pessoal e da dos outros, o poeta, pelo uso da palavra, procure refazer a «antiga aliança entre os homens e as coisas» (LOURENÇO, E., 1974: 141), e, no poema, espere que a plenitude aconteça, pois sabe que ela está ausente da realidade que a nega. Quer isto dizer, portanto, que a plenitude pode ser alcançada, contestando tudo o que a inibe e cerceia — unidade a que se chegará pelo sonho ou pelo corpo veículo de conhecimento (NEVES, N. T., 1971: 404-405).
Confirma-se, assim, a pertinência e o alcance dominante da reacção do sujeito contra o institucionalizado, numa tentativa de dar a «outros seres [o] direito a buscar tentativamente as sonoridades onde se enlaçam a dor e o sonho», fruto da ligação do sujeito individual a «uma corrente subterrânea colectiva» que se «refere, de facto à totalidade» (ADORNO, T. W., 2003: 16), e que, pela linguagem poética, bem visível no poema «É Assim, a Música» (LL: 27), se materializa, ensaiada sob a forma de interrogação31:
A música é assim: pergunta, insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida? (ibid.).
Tendo em conta estas noções, importará notar que se colocam questões, neste poema, que se assemelham àquela desenvolvida por Eduardo Lourenço quando fala da poesia de Eugénio de Andrade: «O que diz a palavra poética?»; ele próprio responde: «O que não pode ser dito senão por essa palavra» (LOURENÇO, E., 1974: 137). Assim, o poema diz-nos que
Não sabemos, e nunca
31 São claras as afirmações do poeta, relativamente ao não pactuar com o instituído e o
convencional, socorrendo-se, para isso, da palavra poética: «Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?» (RP: 345).
53 nunca o saberemos
Como se nada dissesse vai afinal dizendo tudo (LL: 27); Eduardo Lourenço acrescenta:
O que ela é só existe na vida nela inclusa (LOURENÇO, E., 1974: 137). Deste modo, ao colocar-se no lugar de quem, com outros, observa as interrogações que a poesia (ou a música) coloca ao real, numa tentativa de apreender «a verdade», o sujeito pretende que no poema se construam «liberdades concretas», nas quais o homem se realize em toda a sua potencialidade (RP: 337). Visto, assim, sob esta perspectiva o poema pode dar (e dá, segundo o sujeito poético) as respostas que se procuram, recorrendo a uma linguagem particular, que tanto se cala, como rompe o silêncio (que, ao mesmo tempo, esconde e revela, que se articula, ao mesmo tempo, na luz e na sombra — aspectos duais da linguagem que o poeta diz querer reunir numa só música e assim construir «o testemunho de fidelidade do homem ao homem» [RP: 284, 294]).
Para que o princípio da unidade se realize inteiramente no texto poético, o sujeito recorre àquilo que Maria Lígia Aiello chama de «palavra plena» que «cria um novo real, espelho e transparência, onde o homem se reflecte e vê-se no paraíso reencontrado, onde coexistem o sonho, a lucidez e a vida» (AIELLO, M. L. M., 1979: 66).
Ora, essa «palavra plena» surge-nos no poema com a necessidade de “arder”, de ser consumida na sua intensidade — não, é claro, no sentido da sua extinção, mas, sim, da sua transformação, tanto pela forma como é pronunciada e elevada, como pela forma como é transformada em silêncio ou reflexão.
Neste contexto, traduzindo de maneira significativa o que entende ser a plenitude da palavra poética, afirma Eduardo Lourenço:
O verdadeiro poema é uma fulgurante agonia ou um êxtase precário, conciliação impensável e todavia existente da nossa realidade e do nosso sonho (LOURENÇO, E., 1974: 137).
54 É, portanto, a elevação da palavra poética que pressupõe a sua plenitude e abertura a um mundo possível que modifique o real. E, a este propósito, repare-se como a demanda da plenitude nos leva a considerar o «homem pleno» presente na essência desta poesia — uma poesia que «desarma» um sujeito que, pelo uso da palavra, refaz «a posse mágica do Mundo e [a] libertação», deixando-se «conduzir pelo ardor» do fazer poético (LOURENÇO, E., 1974: 134-145).