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A língua, em toda sua riqueza e complexidade, é a herança que os sujeitos herdam como bem precioso que os representa, ultrapassando limites e barreiras, principalmente no cenário atual da globalização tecnológica e científica. O inglês, na contemporaneidade, é a “língua dos dominantes” (RAJAGOPALAN, 2003), quer no campo político-econômico, quer no campo sociolinguístico. Muitos daqueles que não a dominam já sentem a necessidade de apropriar-se dela para não se sentirem excluídos frente à globalização que exige, de certa forma, o conhecimento dela, principalmente em função das influências desse processo na internacionalização da ciência, sobre a qual trataremos adiante. Por outro lado, “se ocorre uma consequência previsível no fato de uma língua se tornar global é a questão de que ninguém a possui mais18” (CRYSTAL, 2003, p. 2). É uma língua sem dono, uma língua de todos que dela se apropriam como veículo de comunicação.

O status de língua universal deve-se, basicamente, ao uso do inglês em contextos não nativos (KACHRU, 1990). Para cada falante nativo de inglês, já existiam três falantes não- nativos (SIQUEIRA, 2008), embora esse quantitativo seja relativo já que a definição de falante fluente é aberta a diferentes interpretações (MCKAY, 2002). Phillipson (2008) também faz a projeção de que um terço da humanidade já teria algum grau de competência em inglês. Se nesta estimativa forem incluídos falantes com níveis de menor percepção e fluência, Crystal (2000) sugere a existência atualmente de 1,5 bilhão de falantes de inglês como primeira ou segunda língua ou, ainda, como língua estrangeira. Conforme Anjos (2019, p. 102), o número de falantes hoje tem expressiva ascensão, pois “já é possível afirmar que para cada falante nativo do inglês, há 5 novos falantes nascidos em países que não têm o inglês como língua oficial. Com a globalização, o acesso ao idioma tem fortalecido um crescente aumento do intercâmbio entre as nações, nos negócios, no turismo, no uso da tecnologia, na educação e, fundamentalmente, no estudo das ciências, o que tem instigado o crescimento avassalador de falantes não nativos que usam o inglês para comunicação internacional.

18 No original: If there is one predictable consequence of a language becoming a global language, it is that nobody owns it any more.

De acordo com Rajagopalan (2005, p. 149), o inglês é a “língua da globalização”, pois estima-se que “um quarto da população mundial já possui algum conhecimento de língua inglesa”. O inglês é a língua global de maior número de trocas científicas. É a língua que, no contexto da globalização, “deixa de ser estrangeira, algo que se impõe de fora, para constituir- se num idioma interno, autóctone à condição de modernidade-mundo” (ORTIZ, 2004, p. 10).

No contexto de falantes nativos, o mandarim é a língua mais falada do mundo, visto que o seu número ultrapassa 870 milhões de pessoas, e por mais 180 milhões como segundo idioma, ultrapassando 1,3 bilhão de usuários. Assim, ele ganha em concentração, principalmente por ser falado na maior parte do Norte e do Sudoeste da China, alcançando um grande contingente populacional. Além da China, a língua é praticada em mais 32 países, a maioria na Ásia. Porém, a língua inglesa disputa com o mandarim no número de falantes por sua expansão e abrangência em muitos países ao redor do mundo. Em se tratando de posição de falantes nativos, em primeiro lugar encontra-se o mandarim, correspondendo a 14,1%19 do total de falantes, e a

língua inglesa está no 3º lugar, depois do espanhol, correspondendo a 5,52% do total de falantes nativos. Esse número avoluma-se quando se refere à quantidade de falantes nativos somada à de não nativos, se constituindo a língua mais falada do mundo, como se constata no infográfico abaixo.

8 Dados disponíveis em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_l%C3%ADnguas_por_total_de_falantes>. Acesso em: 2 nov. 2018.

Figura 1. Infográfico das principais línguas faladas no mundo e da quantidade de falantes por idioma20.

O espanhol e o francês também são línguas fortes no cenário mundial. Porém, embora o francês seja ainda a língua concorrente do inglês nas instituições mundiais, após a Segunda Guerra Mundial, vem decaindo, principalmente em fóruns internacionais, embora os franceses resistam veementemente à hegemonia da língua inglesa (GRADDOL, 2000, p. 8).

Atualmente o inglês alcançou o nível de língua internacional, mas no contexto acadêmico, em 1900, o domínio científico da língua era do alemão (GORDIN, 2015). Nesse período,

20 Disponível em: https://inglesnarede.com.br/dicas-aos-estudantes-de-ingles/ingles-idioma-mais-falado-no- mundo-infografico/. Acesso em: 3 out. 2018.

segundo o autor, se fizessem um levantamento para saber qual seria a língua da ciência no ano de 2000, eles certamente responderiam que não haveria predominância de uma língua, mas que as pessoas poderiam optar por três línguas emergentes na época, a saber, francês, alemão ou inglês. Apenas no século XX o inglês se tornou progressivamente a língua da comunicação científica, substituindo o alemão como a língua internacional da ciência. Para os cientistas hoje, a proficiência em inglês é um requisito importante, visto que os novos termos da ciência são geralmente escritos em inglês, bem como as publicações científicas de maior impacto na literatura universalmente.

O crescimento global do inglês tem a sua motivação na evolução cultural do Ocidente (CRYSTAL, 2003; FORATTINI, 1997). Forattini afirma que, há cerca de trezentos anos, o latim ocupava a melhor posição. Mas a história continua:

Ao longo dos oitocentos anos, talvez pela influência do iluminismo setecentista, o francês e o alemão disputavam essa preferência. E isso até a primeira metade do presente século. Melhor dizendo, até a época da primeira guerra mundial (1914-1918) quando, progressivamente foram sendo substituídas pelo inglês, o qual, a partir da segunda guerra (1939-1945), assumiu a hegemonia linguística que ostenta até os dias atuais. Assim é que, de minoritário no século dezessete, passou hoje a ser o idioma internacional por excelência. A bem da verdade, deve-se convir que isso, ao menos em boa parte, se deveu ao sucesso das sociedades anglófonas na disputa pelas riquezas do mundo. Com efeito, o sucesso idiomático pode ser encarado como resultante das conquistas, colonizações e imposições comerciais do Império Britânico, ao longo dos dois séculos. Como fator de aceleração desse processo emergiu a liderança mundial representada pelo poder militar e tecnológico dos Estados Unidos da América do Norte (EUA), culminando nesta segunda metade do século vinte. (FORATTINI, 1997, p. 4).

Dessa maneira, o domínio do inglês na ciência e na tecnologia na atualidade deve-se, historicamente, mais a razões de evolução econômica do que, propriamente, cultural da humanidade (FORATTINI, 1997, p. 4), embora elas não estejam dissociadas. Assim como a tecnologia tem se expandido mundo afora, essa língua tem alcançado horizontes nunca antes vistos, injetando, nos outros idiomas, palavras e neologismos que são incorporados por estes. No Brasil, por exemplo, “clicar”, “plugar”, “deletar”, “lincar”, são exemplos, dentre inúmeros outros, de anglicismos utilizados pelos brasileiros, cujos dicionários atualizados já os consideram palavras “nossas”. À medida que se pretendeu globalizar a comunicação, a linguagem vem sendo modificada.

É neste e por este novo cenário mundial que as línguas sofrem influências mútuas de forma ímpar, revelando, por vezes tantas, um cidadão multilíngue em uma conotação nova, que reconhece a ação do intercâmbio social, cultural e econômico na língua de um dado povo, como acontece em países da África e em comunidades da União Europeia (SILVA REIS, 2006, p. 1920).

Rajagopalan (2003b) também reconhece esse cidadão universal emergente como multilíngue, capaz de interligar-se a outros povos através do viés linguístico, dando origem ao fenômeno chamado de “transnacionalização” da vida cultural e econômica dos envolvidos, direta ou indiretamente.

A língua se torna, portanto, desterritorializada, sem dono, sem pátria, sem a visão fechada e fixa de nação (SIQUEIRA, 2011; KRAUSE; RENCWICK apud RAJAGOPALAN, 2003b), pois revela-se língua do mundo, “ditada por uma necessidade sócio-econômico-cultural globalizada. O ser caracteriza-se, nessa relação, como um ser multilíngue mas, ao mesmo tempo, arriscado a não ter língua alguma, uma vez que esse cidadão do mundo não pertenceria mais a pátria alguma em específico” (SILVA REIS, 2006, p. 1920). O multilinguismo se apresenta como uma ferramenta importante na relação de indivíduos provenientes de diferentes culturas e também para a compreensão da extensa diversidade cultural presente no mundo.

Para Graddol (2006, p. 60), a história de expansão do inglês está convencionalmente dividida em três momentos: Inglês antigo, Inglês médio e Inglês moderno. Esta estrutura tripartida chama a atenção para eventos específicos da história britânica, especialmente a invasão normanda, que anunciou a rápida “normandização” da língua inglesa e, em seguida, a expansão do desenvolvimento político, religioso e econômico que favoreceu o surgimento da Grã-Bretanha como um moderno estado-nação. Atualmente, segundo Graddol (2006), estamos vivendo o quarto período da história do inglês. É o período do inglês global, no qual a língua inglesa ocupa o lugar de língua franca e ocorre um novo cenário cultural, linguístico, político e econômico no inglês do mundo pós-moderno.

São muitas as razões que contribuíram para a expansão do inglês no mundo. Crystal (2003) apresenta um estudo sistemático sobre algumas dessas razões. O autor destaca duas principais causas: (I) histórico-geográfica e (II) sociocultural. A primeira causa trata da expansão do idioma pelo mundo quando, entre os séculos XVII e XIX, migrantes levaram a língua inglesa para a América, Índia, Austrália e Nova Zelândia e parte da África. O ápice dessa expansão se deu no final do século XIX quando o poder colonial britânico ampliou os seus domínios com o desenvolvimento de colônias na África e no Pacífico Sul, tendo como consequência a expansão do uso da língua, a adoção do inglês como língua oficial ou cooficial, quando muitas dessas ex-colônias se tornaram países independentes (MAXWELL, 2005), alavancados pela chamada Revolução Industrial. Na primeira metade do século 20, esse império de influência política e econômica atingiu seu ápice com uma expansão territorial que alcançava 20% das terras do planeta. “O império britânico chegou a ficar conhecido como the empire

igualmente vasta disseminação da língua inglesa”21. A partir da Segunda Guerra Mundial, o poderio político-militar do EUA e a marcante influência econômica e cultural resultante acabaram por solidificar o inglês na posição de padrão das comunicações internacionais. O rápido desenvolvimento do transporte aéreo e das tecnologias de telecomunicação nessa época favoreceram a expansão da língua.

No Brasil, o inglês passou a ganhar peso com a mudança do eixo Brasil-Europa, para Brasil-Estados Unidos, a partir da crise do café de 1921 (PINTO, 1986). A língua estrangeira mais prestigiada na época era o francês. As línguas modernas ainda não eram contempladas nos estudos oferecidos pelos jesuítas ou até mesmo após a reforma Pombalina de 1759. Apenas a partir de 1809, D. João VI assina um decreto criando uma cadeira de língua francesa e outra de língua inglesa para os estudos primários e secundários, porém, na prática, embora ambas devessem ser ensinadas nas escolas, o conhecimento da língua inglesa não era exigido para ingressar nas academias, servindo apenas a seus propósitos práticos, para atender o comércio estrangeiro, principalmente após a abertura dos portos. Já a língua francesa, grande veiculadora das ideologias enciclopedistas e muito mais difundida à época, chegando a ser considerada uma língua “universal”, era ensinada com intenções culturais e literárias e seu conhecimento era obrigatório para ingresso nos cursos superiores (OLIVEIRA, 1999, p. 21).

Foi a partir de 1920, quando os Estados Unidos desenvolveram uma ofensiva cultural mundial, com um período de grande expansão dos negócios privados, produtos industrializados e da comercialização de bens simbólicos, como o rádio e o cinema, que o inglês começou a ter mais importância no Brasil. A Fundação Rockfeller, por exemplo, interferiu diretamente na implantação do modelo acadêmico norte-americano da USP, financiando pesquisas, distribuindo bolsas de estudo e influenciando intelectuais paulistas de peso (RIGHI, 2011, p. 21). Assim, a língua inglesa começou a ter maior importância no Brasil. Em 1937, ela evidenciou maior valor com a fundação do Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU) no Distrito Federal, que atuou ativamente em programas de intercâmbio de estudantes e, em 1940, foi criado o Office for Coordination of Commercial and Cultural Relations Between the American

Republics, ambos com vistas “a americanizar o país por vias pacíficas” (TOTA, 2000 apud

SANTOS, 2007, p. 58).

Como se vê, era o francês a principal língua da comunicação científica, mas fatores históricos e sociais fizeram com que a língua inglesa ocupasse a posição de língua com maior número de falantes na contemporaneidade, devido, principalmente, à clara predominância

21 Informação disponível em: <http://hoje.unisul.br/o-impacto-da-internacionalizacao-das-pesquisas>. Acesso em: 11 nov. 2018.

socioeconômica de países como a Inglaterra (principalmente nos séculos precedentes, como potência colonizadora) e os Estados Unidos sobre as demais nações do globo, constatando-se “no século XX, a presença das corporações multinacionais, as transformações tecnológicas (invenção do computador e de uma linguagem informatizada), o peso de uma indústria cultural marcada por sua origem norte-americana”(ORTIZ, 2003, p. 28). É por isso que podemos usar as palavras de Ortiz (2004, p. 13) quando ele afirma que nenhuma língua “é” franca, mas desempenha, em determinados domínios, a “função de ser” franca. A esse respeito, Siqueira (2018, p. 96) argumenta que “o avanço do inglês pelo mundo é um fenômeno sui generis, de caráter transcultural e que, por conta disso, transcende a concepção tradicional de língua franca, flagrantemente anacrônica para um mundo que se enxerga cada vez mais multilíngue”.

O legado do imperialismo britânico ou americano também se deu em função de as maiores instituições utilizarem o inglês para alcançar um maior número de pessoas. Isto inclui o parlamento, as agências do governo, as agências civis, leis, grupos religiosos, escolas, instituições de ensino superior e o maior número de publicações internacionais.

A causa sociocultural refere-se à maneira como as pessoas do mundo inteiro usam o inglês para interagir social e economicamente, já que este idioma, hoje visto por vários estudiosos como desnacionalizado e desterritorializado (RAJAGOPALAN, 2012b; SIQUEIRA, 2011, 2018, entre outros) tem alcançado os domínios internacionais da vida política, do mundo dos negócios, da comunicação, da educação, da indústria do entretenimento, do turismo e, principalmente, da informática (CRYSTAL, 2003; MAXWELL, 2005; ORTIZ, 2004). Como bem enfatiza Crystal (2003, p. 30), “o futuro de uma língua parece ser garantido quando muitas organizações se interessam por ela”.

Os fatores políticos internos também são razões para a aceitação de uma língua global, como é o exemplo da Índia, onde diferentes grupos étnicos estabelecem diferentes idiomas, tornando-se necessária a adoção de uma língua para a comunicação dos diferentes grupos. Certamente essa língua sofrerá variações facilmente perceptíveis nos meios de comunicação em massa, como rádio, TV e jornais, porém o objetivo primordial é cumprir o seu papel de favorecer a comunicação.

Além dos fatores políticos, Crystal (2003) cita algumas razões econômicas, entre elas, a posição política dominante dos EUA, que age como um magnetismo para os negócios no comércio internacional, uma vez que as organizações que desejam alcançar o mercado, precisam, sob pressão, usar o inglês nas suas negociações. Outro setor forte é a indústria do turismo e da propaganda, que praticamente exigem o domínio de inglês, principalmente no caso

das empresas multinacionais que desejam estabelecer seus negócios nos países de primeiro mundo, falantes de língua inglesa.

Alguns motivos práticos são ainda pontuados por Crystal (2003), entre eles o uso do inglês no controle do tráfego aéreo, bem como na marinha internacional, na política e em serviços. Além das razões citadas, a indústria do entretenimento é outro ramo que tem utilizado o inglês como língua principal, destacando-se a sua abrangência na música popular (principalmente o hip hop), bem como na cultura popular e na propaganda a ela associada. É também a língua franca das artes. Jenkins (2014) acrescenta o fato de ser a principal língua da transmissão via satélite, dos computadores e vídeo games. Por outro lado, é também a língua mais utilizada nas atividades ilegais de alcance internacional, como no tráfico de drogas, na pornografia e na guerra.

Existem ainda as razões intelectuais. A maioria da informação científica, tecnológica e acadêmica do mundo está registrada em inglês e “algo em torno de 80 a 90% da divulgação do conhecimento científico ocorre em inglês” (RAJAGOPALAN, 2005, p. 149). Desde 1960, vem crescendo o uso de inglês como meio de instrução no ensino superior em muitos países, principalmente em países onde a língua não é oficial, como meio de atrair estudantes estrangeiros e como língua franca escolhida para palestras de ambientes multilíngues (CRYSTAL, 2003, p.112). O autor ainda afirma que a busca por informações da história ocidental, filosofia, cultura, religião e literatura do Ocidente se dá majoritariamente em inglês ou foi traduzida para o inglês. No entanto, há um movimento significativo que vai na contramão dessa centralização da ciência em inglês, favorecendo o lugar das línguas não hegemônicas, do multilinguismo que rejeita um suposto “dono” na relação entre língua e ciência.

No contexto de expansão emergente da língua inglesa, não podemos negar a necessidade de aprendê-la, mas não devemos concordar com as crenças de superioridade linguística, já que não há língua superior a outra, até mesmo porque toda língua representa os sujeitos que dela se apropriam na comunicação. As línguas são diferentes e têm peculiaridades inerentes a cada uma delas.

Certamente, a língua inglesa é uma língua que o cenário atual pede para ser incluída ao conhecimento do ser humano, contudo, conhecer qualquer outra língua diferente da sua deveria fazer parte dos objetivos de todo indivíduo. O predomínio monopolista, seja do inglês, seja de qualquer outra língua, implica perda e empobrecimento de possibilidades de expressão, de produção criativa, de conhecimentos interculturais, de ciência compartilhada, de oportunidades de partilha de experiências ou, até mesmo, de melhor destaque na estrutura social.

A língua não pode ser entendida apenas como objeto de intelecção, mas também como instrumento de ação, de poder (BOURDIEU, 2003). Havendo uma língua privilegiada para esta circulação, esta impõe a sua força política (RIGHI, 2011, p. 26), porém, não há como defender um padrão linguístico já que a língua se insere no repertório de usuários dos mais variados

backgrounds culturais (SIQUEIRA, 2018).

Pennycook (2017), no prefácio do livro The cultural politics of English as an

international language, defende o conhecimento da língua inglesa como uma prática local, não

como algo estabelecido. Ele questiona as situações onde se adotam práticas radicais para que a língua seja aprendida nos padrões do falante nativo, como acontece na Coreia do Sul, onde a exigência para se aprender inglês se tornou tão abusiva que ocorre, em alguns casos, até cirurgia na língua para melhorar a dicção e se promove o ensino de inglês desde o nascimento da criança ou a retirada dela, na fase escolar, para os países onde o inglês é língua nativa. Na verdade, o inglês se naturalizou nesse país como a “língua de competitividade global”, fator que exige, da parte deles, excelência nos testes de proficiência do idioma.

Filipinas e Paquistão são também citados por Pennycook (2017) e Forattini (1997), por serem países de acesso à língua inglesa relativamente forte, principalmente em função do aumento das oportunidades comerciais nos grandes centros para quem tem o conhecimento da língua. A estratégia utilizada pelo governo das Filipinas, na Ásia, foi a de estabelecer no seu sistema educacional a distinção entre o que se designa como “disciplinas não étnicas”, como a matemática, e as “étnicas”, como as das ciências humanas, no intuito de manter o uso de duas línguas oficiais. As primeiras poderiam ser ensinadas em inglês, enquanto as últimas devem ser ministradas obrigatoriamente na língua nacional, conhecida como Filipino ou Tagalog. Por outro lado, esse movimento modifica a economia local e o sistema educacional, perpetuando formas de desigualdade global.

Kumaravadivelu (2016, p. 68), no artigo The decolonial option of English descreve, através de suas próprias experiências como indiano e como professor universitário de indianos, as diferenças de tratamento entre falantes nativos e não nativos, no qual valoriza-se menos o falante não nativo, principalmente em eventos cujos palestrantes são majoritariamente estadunidenses ou britânicos. Nesses espaços, o reconhecimento de sua importância como pesquisador surpreende, pelo fato de ele ser indiano. Para o autor, a experiência com os seus estudantes evidencia que, até para os que fazem qualificação no exterior, é difícil competirem com expatriados dos Estados Unidos e do Reino Unido para conseguirem trabalhar em instituições de seu interesse e, quando conseguem emprego, geralmente as condições salariais

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