Questionnement à partir de la zone d’étude
2.1 Localisation du Sahel
O ideal normativo de conhecimento para toda reflexão crítica consiste em podermos fazer todos os juízos positivos e negativos cabíveis, de transpor o universo inteiro para o conjunto total das proposições racionais. Ao conteúdo proveniente da inteleção, quando devidamente formalizado, mas ainda não justificado ou provado, Bernard Lonergan nomeia, provavelmente sob a inspiração do pensamento kantiano, de condicionado. Muito naturalmente, a reflexão crítica busca (1) apreender as condições de verdade do condicionado, (2) verificar se tais condições foram cumpridas e por fim (3) chegar a um juízo afirmativo ou negativo. Um condicionado cujas condições foram satisfeitas torna-se um juízo virtualmente incondicionado294.
Chegamos agora num dos temas mais centrais desta dissertação, pois poderemos estudar como as filosofias de Immanuel Kant e de Bernard Lonergan, tão próximas sob tantos aspectos, já que ambas partem de análises transcendentais, por fim chegaram a conclusões diametralmente contrárias. Para Kant, o incondicionado não é nem poderia ser uma característica do juízo racional, mas apenas uma regra transcendental para a construção de cadeias de justificação de extensão potencialmente ilimitada. A tentativa de chegar a juízos incondicionados, como já vimos no capítulo anterior295, nos leva a formular séries ascendentes de silogismos
sem fim, com cada juízo necessitando de justificação por juízos anteriores e nunca podendo justificar a si próprio. Como Lonergan, que afirma a possibilidade de juízos virtualmente incondicionados, ainda que conhecendo a filosofia kantiana, se justifica quanto a essa matéria?
294 Há também os juízos formalmente incondicionados, que não requerem a satisfação de condições, como é o
caso de a = a.
Antes de procurar responder a tal questão, continuemos nos aprofundando na versão de Lonerganiana do processo cognitivo. Todas as análises que se empreendem em Insight sobre o pensamento científico visam por fim reunir dados para o estudo do processo cognitivo humano em si mesmo e em toda a sua generalidade, ocorrendo apenas que a ciência é o empreendimento cognitivo mais complexo da contemporaneidade e capaz portanto de fornecer matéria demasiado preciosa para ser preterida. Sabemos agora que as diversas variedades de intelecções tem propriedades em comum, visto que são motivadas por dados que nos estimulam a fazer perguntas para nosso entendimento.
As várias modalidades de resposta dependem evidentemente da enorme variedade de questões inteligentes possíveis. Podemos dizer que o tipo mais emblemático, porque mais universal e metafísico, de questão para o entendimento ainda se mostra a tradicional “qual a essência ou natureza disto?”. Nos vários ramos particulares do saber, contudo, trata-se de determinar aquilo que poderia preencher uma determinada marca heurística específica neles definidos, seja o valor de uma incógnita, uma função matemática, probabilidades, operadores, etc.
Quando ocorre o insight, buscamos formular a solução alcançada, a qual por sua vez nos leva às questões para a reflexão crítica, do tipo “isso de fato é verdadeiro ou falso?”. Conhecidas e satisfeitas as condições do condicionado proveniente da intelecção, formula-se o juízo virtualmente incondicionado. As diversas variedades de juízo dependem por sua vez da imensa variedade dos conteúdos inteligidos nos vários contextos. Há, pois, vários tipos de juízo viertualmente incondicionado.
Exemplifiquemos. No senso comum têm-se os juízos concretos de fatos, do tipo “algo ocorreu” ou “algo não ocorreu”; nele se busca validar não explicações de fenômenos, mas sim suas descrições ou aplicações, como por exemplo “é certo que o Sol se ergue toda manhã” ou “o martelo serve para bater”. Aqui, a intelecção tem função principalmente pragmática. Mas na ciência e na filosofia, e portanto no contexto mais geral do padrão intelectual de consciência, o juízo busca afirmar ou negar hipóteses explicativas, como “a Terra se move em trajetória elíptica ao redor do Sol por força gravitacional”. Proposições analíticas, por sua vez, são ajuizadas pelo nexo entre as regras semânticas e sintáticas das proposições e os significados dos termos envolvidos.
Mas como afirmamos o virtualmente incondicionado sem recair numa sequência infinita de questionamentos adicionais? Que o afirmamos aparenta estar implícito no fato de defendermos algumas formulações científicas, como as equações de Maxwell, e negarmos outras, como a do flogisto e a da terra estacionária. Segundo Lonergan, haveria uma intelecção específica no nível da própria reflexão crítica responsável por apreender que, num dado contexto específico, todas as questões relevantes foram satisfatoriamente respondidas e que, no momento, inexistem problemas adicionais relevantes. O reconhecimento de tal inexistência deve levar ao assentimento do juízo racional.
Isso não significa que novas questões não possam eventualmente surgir, como de fato sempre surgem, mas que tal somente ocorre em virtude do próprio processo cognitivo, que, baseado no conhecimento conquistado, alcança novos dados até então inéditos, se permite novas questões para a inteligência e não recua diante da necessidade de renovada reflexão crítica. Incongruência entre as previsões da explicação e os novos dados auferidos pode levar, e eventualmente leva, a períodos de reavaliação rigorosa quando novas intelecções se fazem necessárias.
O processo cognitivo, além de expansivo, é autocorretivo. Isso significa que não há de fato necessária arbitrariedade no abandono de uma tese explicativa para outra tese, visto que essa passagem se deve, quando respeitadas fielmente as exigências do padrão intelectual de consciência, logo do puro desejo de conhecer, à normatividade do próprio processo cognitivo subjacente a ambas.
Se, porém, a ciência empírica é meramente provável, é todavia verdadeiramente provável. Se não obtém a verdade definitiva, converge, contudo, para a verdade. Essa convergência, essa aproximação crescente é o que se pretende com a locução familiar “o avanço da ciência”. Questões suscitam intelecções que se expressam em hipóteses; a testagem das hipóteses origina novas questões que engendram intelecções complementares e hipóteses mais satisfatórias. Durante algum tempo, o processo avança em círculos cada vez mais amplos; depois, a coerência do sistema começa a fechar-se; a investigação, a partir de novos riscos em campos inéditos, vira-se para o trabalho de consolidação, de elaboração plena das implicações, de resolução de problemas que deixam a visão geral inalterada. O processo autocorretivo de aprendizagem aproxima-se visivelmente de um limite.
(...)
As teorias podem rever-se se houver um revisor. Mas falar de revisão dos revisores é entrar num campo de especulação vazia, em que a palavra “revisão” perde seu sentido determinado. Além disso, os teóricos tiram proveito desse fato. Assim, os fundamentos da lógica colocam-se na
inevitabilidade dos nossos processos de pensamento296. E a lógica não é
um exemplo único. Como já indicamos, a teoria da relatividade, em seu postulado básico, assenta numa característica estrutural do processo cognitivo297. Ora, se as invariantes que governam nosso processo mental
implicam invariantes nas nossas construções teóricas, seguir-se-á, então, um limite superior à variação de construções teóricas e uma possibilidade de traçar com antecedência as alternativas, entre as quais o esforço teorético tem de escolher.298
Uma coisa são as etapas do processo cognitivo, outra são os vários conteúdos proposicionais, conceituais ou até categoriais do nosso pensamento. Esses, como a história bem o mostra, são variáveis e contextuais, dependendo de época para época, lugar para lugar ou até de filósofo para filósofo. Kant, como estudamos299, fez de tudo
para determinar o que seriam os conteúdos categoriais e os princípios do entendimento a priori, mas não nos parece nada claro que tenha sido bem sucedido. Acrescente-se que, no que tange à faculdade da razão, segundo a CRP, se devemos distinguir, como ela advoga, entre o a priori constitutivo da intuição e do entendimento e o a priori puramente regulativo da razão, tal distinção ainda nos parece antes acidental do que essencial.
Expliquemo-nos: os três objetos transcendentais da razão segundo a CRP, o cosmo, a alma e Deus, derivados unicamente das regras de construção dos raciocínios nas três ciências metafísicas da cosmologia, da psicologia racional e da teologia, são noções regulativas porque, enquanto incondicionados, não poderiam ser alcançados num ilusório término desses mesmos raciocínios, que procedem ad
infinitum. Todavia, suponhamos que tivéssemos uma mente de capacidade infinita,
capaz de captar não sequencialmente, mas imediatamente, as séries de condicionados em toda a sua ausência de limites quantitativos. Nesse caso, as noções regulativas tornar-se-iam constitutivas. Mostram-se, por conseguinte, noções potencialmente constitutivas e acidental ou circunstancialmente regulativas apenas quando pensadas por seres finitos.
296 Toda hipótese, para ser julgada e avaliada, deve antes receber a devida formulação lógica e conceitual.
Ademais, a lógica bivalente, apesar de não ser a única, possui uma semelhança estrutural com a meta da reflexão crítica, que é afirmar ou negar um condicionado, o que explica em parte seu nascimento prévio a todas as demais.
297 A teoria da relatividade implica uma teoria da medição física segundo marcos de referência relativos e a
medição é a principal técnica para passarmos do nível descritivo para o explicativo. Ademais, não se preocupa em determinar espaços ou tempos singulares e contextuais, mas a própria geometria espaciotemporal. Ver Insight, cap. 5, para melhor esclarecimento.
298 Cap. 10, p. 301 e p. 302. 299 P. 87.