Le système d’écoute
3.1.1. Localisation par méthode de triangulation
2.2.1 O que é a autonomia?
A autonomia, definida pelo Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa (2015, p. 485) como “capacidade de se autogovernar”, é um conceito que adquire diferentes significados quando aplicado a diferentes áreas do saber. Para definir este conceito no ensino de línguas, destaco os contributos de Holec (1979) e Little (1991).
Holec (1979, p. 3) instaura três princípios essenciais: i) define a autonomia como “la
9 Disponível em: https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/11_
alemao_f_esp_inici.pdf
10 Disponível em: https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade
capacité de prendre en charge la responsabilité de ses propres affaires”11; ii) afirma que a
autonomia “n’est pas innée, elle doit s’acquérir, soit de manière “naturelle”, soit (et c’est la plus fréquent) par un apprentissage formel, c’est-à-dire systématique et réfléchi.”12 (idem, ibidem); e que iii) é “une compétence potentielle de comportement dans une situation donnée, celle de l’apprentissage, en l’occurrence, et non le ou les comportement(s) effectif(s) d’un individu dans cette situation”13 (idem, ibidem). A partir destas premissas é possível
associar a autonomia à escola, já que esta instituição prima pela sua “prática sistemática e reflexiva” com o objetivo de conduzir os alunos à autonomia na aprendizagem, definida por Holec como “la capacité de prendre en charge son propre apprentissage”14 (idem, p. 4). A
aprendizagem autónoma, que o autor apelida de “apprentissage autodirigé”, implica tomar todas as decisões relativas à aprendizagem, isto é: determinar objetivos; definir conteúdos; selecionar métodos e técnicas de aprendizagem; controlar o progresso da aprendizagem e avaliar a aprendizagem (idem, ibidem), pelo que, para tomar estas decisões será necessário tê-las praticado reflexivamente ao longo do percurso de aprendizagem.
Little (1991) retoma os princípios de Holec e expande-os, afirmando que
Essentially, autonomy is a capacity - for detachment, critical reflection, decision-making, and independent action. It presupposes, but also entails, that the learner will develop a particular kind of psychological relation to the process and content of his learning. The capacity for autonomy will be displayed both in the way the learner learns and in the way he or she transfers what has been learned to wider contexts (p. 4).
Nesta definição fica explícita a potencialidade da autoapredizagem (Holec), pela transferência para contextos mais amplos. A mesma ideia surge na didática das línguas, quando se define a autonomia como „übergeordnetes, langfristiges Entwicklungsziel, das sich nicht auf das Lernen vor Sprachen beschränkt, sondern die Entwicklung verschiedenster schulischer und persönlicher Kompetenzen mit einschlieβt und über den Rahmen der obligatorischen Schulzeit hinausweist.“15 (Nodari & Steinmann, 2010, p. 1157). Estas definições de autonomia culminam no conceito de aprendizagem ao longo da vida, cuja
11 “a capacidade de assumir a responsabilidade pelos seus próprios assuntos” (tradução minha)
12 não é inata e deve ser adquirida ora de uma forma natural, ora (e é o mais frequente) por uma aprendizagem sistemática e reflexiva” (tradução minha)
13 “competência potencial de comportamento numa determinada situação e não o real comportamento nessa situação” (tradução minha)
14 “a capacidade de assumir a responsabilidade pela sua aprendizagem” (tradução minha).
15 “meta geral de desenvolvimento a longo prazo que não se restringe à aprendizagem de línguas, pelo contrário inclui o desenvolvimento de diversas competências escolares e pessoais que ultrapassam o âmbito da escolaridade obrigatória” (tradução minha)
importância no contexto europeu está patente no documento das Competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida (Comissão Europeia, 2007). Nesta publicação, “aprender a aprender” é uma das oito competências essenciais, definida da seguinte forma: [a]prender a aprender é a capacidade de iniciar e prosseguir uma aprendizagem, de organizar a sua própria aprendizagem, inclusive através de uma gestão eficaz do tempo e da informação, tanto individualmente como em grupo. Esta competência implica também que o indivíduo tenha consciência do seu próprio método de aprendizagem e das suas próprias necessidades, identificando as oportunidades disponíveis, e que tenha a capacidade de ultrapassar os obstáculos para uma aprendizagem bem-sucedida. Esta competência significa adquirir, processar e assimilar novos conhecimentos e aptidões e saber procurar e fazer uso de aconselhamento (op. Cit., p. 8).
Em Portugal, a autonomia sempre foi um objetivo explícito do ensino: na Lei de bases do sistema educativo afirma-se que “o sistema educativo responde às necessidades resultantes da realidade social, […] incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários e valorizando a dimensão humana do trabalho.”(Lei n.º 49/2005, de 30 de agosto); os programas preconizam a implementação de “metodologias activas e estratégias que contemplem processos e produtos, enfatizem o valor da avaliação formativa e incentivem os alunos a participarem activamente na construção do seu próprio saber e a encontrarem os seus próprios estilos de aprendizagem” (Lapa et al., 2001, p. 3). Ainda assim, com a homologação do novo Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (2017, p. 6), o objetivo de “formar pessoas autónomas e responsáveis e cidadãos ativos” através de uma “cultura de autonomia e responsabilidade” (idem, ibidem) é reforçado. Este objetivo materializa-se nas diretrizes do ensino para a autonomia, presentes nas Aprendizagens Essenciais de Português e de Alemão, que corroboram a teoria de Nodari (1996, p. 4), ao defenderem que a autonomia deve ser “vivenciada como forma de aula”.
À luz da teoria de Flower e Hayes (1981, p. 365), depreende-se que, sendo o processo de escrita um “processo de tomada de decisões”, a autonomia na escrita se expressa na capacidade de tomar decisões de forma autónoma ao longo deste processo (Holec, 1979). Segundo os autores, o bom escritor é aquele que durante a escrita é capaz de estabelecer e gerir os seus objetivos, de modo a manter a continuidade do processo de escrita (idem, ibidem, p. 379). Ora, esta gestão de objetivos pressupõe a autonomia do escritor, pelo que o ensino dos processos de escrita será um ensino para a autonomia.