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Dani

O legado de Dani foi tradicional, com o estabelecimento da heteronormatividade como padrão absoluto e sem possibilidade de abertura para alguma mudança. Lembrou que sempre soube que existia um primo homossexual na família de sua mãe, mas ninguém falava a esse respeito, nem bem, nem mal.

Dani reconheceu que tanto do lado da mãe quanto do pai, em sua família eram as mulheres que mandavam - italianas fortes, grandes, de peitos fartos, como ela mesma descreveu. Quando Nancy a recordou que ela, Dani, havia sido assim, tanto que fez redução de mama, Dani não percebeu a similitude, dizendo ter estatura baixa, ao contrário de suas antecessoras, altas e com mais peso.

Dani relatou que seu avô materno foi um grande contador de histórias, pois gostava muito de ler jornais e de participar às pessoas seu conhecimento, daí ser considerado o mais culto da família. Dono de pequena livraria, ficava na conversa com os clientes, enquanto sua avó era quem trabalhava de fato – e ainda era ela quem levava cafezinho na cama todas as manhãs para o marido, apaixonada por ele.

Ela não se recordou do avô paterno, mas da avó, sim, mandona e grande influência na vida de seu pai. Mãe de sete filhos, todos sob sua asa.

Dani veio de uma família com pai e mãe que foram apaixonados, tendo um irmão quatro anos mais velho. Seu pai era bastante ambicioso, mas calmo, e sua mãe, assertiva e seca, sem expressão afetiva, algo que veio a mudar um pouco no final da vida, ficou mais dócil e afável. Por meio de muito trabalho no comércio, sempre contando com a ajuda da esposa, seu pai conseguiu chegar a uma posição de conforto financeiro, propiciando um bom padrão para a família.

Ela revelou que no início de vida, ele era muito machista, não aceitando nenhum tipo de ajuda de sua mãe, algo que ela havia lhe proposto, pois era muito jeitosa na culinária e até tinha clientes, querendo colaborar financeiramente com a família. Ele recusou solenemente, dizendo não querer se ver submetido a essa situação. Ele também era extremamente ciumento, hostilizava até mesmo figuras midiáticas, como, na época, o famoso cantor-galã Frank Sinatra, que a esposa admirava.

Dani tinha muita afinidade com seu pai - diz que era a sua sombrinha. Quando pequena, ele a levava para visitar a loja nas manhãs de sábado e domingo, e por lá ela ficava brincando. Apontou que seu pai tinha predileção por ela, enquanto sua mãe nutria o mesmo pelo irmão.

Segundo a afirmação de Alberto Eiguer (1983) de que a conjugalidade vem a reatualizar o percurso edípico dos parceiros, podemos considerar que Dani estabeleceu sua identificação com seu pai, remetendo seu desejo a sua mãe, uma das possibilidades que o complexo permite, sem qualificações normativas ou morais adjacentes. Como esclareceu Paulo Roberto Ceccarelli (2008, p.75), “A conclusão que podemos extrair é que tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade são destinos pulsionais ligados a resoluções edipianas”. Na verdade, concordamos com Eiguer quando ele disse que “Reconsiderar o complexo de Édipo fica, ainda, uma tarefa a ser realizada (2007, p. 17)”.

Dessa mãe, ela recebeu um legado singular, extremamente restritivo e opressor: o de continuar a alternar dois nomes próprios na cadeia geracional feminina - um dia, uma Theresa concebeu uma criança em quem colocou o nome de Daniela; esta, ao se tornar mãe de uma menina, deu-lhe o nome de Theresa, e assim por diante. Agora, Dani, representante da quinta geração, havia rompido essa corrente: era homossexual, não tinha filhos - e nunca os desejara.

Seus pais tiveram vidas longas, cumprindo o papel do casamento romântico até o final: três meses depois da morte da esposa, ele faleceu. Ela estava com 83 anos, ele, com 80. Dani reconheceu claramente este legado: “Na minha família a maior parte eram todos apaixonados”.

Pode-se pensar que, diante de uma herança tão formal quanto a de Dani, a solução mais fácil talvez fosse o recalque de sua sexualidade e, em consequência, um casamento heterossexual com a continuação da linhagem. Ou o rompimento com o núcleo familiar, oportunidade que ela mesma teve quando viajou para o exterior, provavelmente o caminho adotado por muitos. Dani, contudo, permaneceu, pessoal e profissionalmente, herdando a empresa do pai, fazendo-a crescer, e comprometendo-se em um casamento longo e apaixonado como os pais tiveram, sendo ela mesma ciumenta como relatou o pai ter sido, extremamente apaixonado pela mulher, como ela por Nancy.

Observamos, também, que, embora Dani se reconhecesse a herdeira que ocupou o lugar paterno, sob o ponto de vista da herança materna, ela também

recebeu a força das mulheres que a antecederam, mas, aparentemente, não percebeu essa influência sobre si, preferindo remeter-se ao pai.

Pesquisadora: “E o que você acha que trouxe, Dani, para o casamento de vocês?”

Dani: “O que eu trouxe? Hum... A vida que eu tive, que eu fui educada, só que nos mesmos moldes do meu pai e da minha mãe, só que com outra mulher.”

Interessante foi notar que na única vez em que Dani proferiu duas palavras de baixo calão e associadas ao universo masculino (aliás, como quase todos os ditos nomes feios), foi quando se referiu ao padrão de ter que gerar uma criança para dar-lhe o nome de Theresa, manifestação de impaciência ante tal jugo.

Entretanto, ao manter e conservar o espaço que foi de seus pais, ao reproduzir um casamento pautado pelos valores por eles transmitidos, Dani não deixou de se inscrever na cadeia do grupo familiar; porém, realmente fundando a sua própria subjetividade, fazendo a sua história e assumindo a sua herança – “A transmissão psíquica intergeracional é um trabalho de ligações e de transformações (GRANJON, 2000, p. 24).” Se o seu casamento não foi oficialmente reconhecido pelos pais, a presença de Nancy, no entanto, foi aceita como a da companheira constante, em todas as cerimônias familiares, como casamentos, batizados, enterros, participando da vida de todos. Estamos tratando da ordem do não- nomeado, embora exista o reconhecimento tácito, ou seja, é algo visto e é sabido com o que se relaciona, mas não merece um lugar definido na linguagem falada, o que vem a requerer outro tipo de dispositivo para ser analisado.

Com relação ao legado, não podemos precisar em qual herança a homossexualidade de Dani e de Nancy poderá se converter em relação aos seus sobrinhos. Se permanecer no não-nomeado, pode vir a se constituir em um legado transgeracional; pode ser que os vínculos estabelecidos entre as duas gerações venham a permitir a fala do que só foi assumido pela visão, transformando-se em herança intergeracional, aquilo que foi elaborado.

Puget (2000) nos trouxe reflexões sobre eventos traumáticos que ocorriam em uma família e acabavam por provocar alterações no conjunto, gerando mudanças nos tipos de vínculos existentes.

Criam-se novos conjuntos baseados na memória e esquecimento do evento que exigem novas práticas e se impõe um fazer em função de algo que tem a ver com o imprevisto ou incapaz de gerar formas vinculadas adequadas a certos momentos vitais. O conjunto ou o grupo familiar subitamente se congela em torno de tal evento ou sofre uma desorganização. O evento se inscreve como memória traumática com tendência a se fixar (p. 76).

Acreditamos que, por vezes, como no caso da mãe de Dani, o reconhecimento da homossexualidade da filha tenha lhe sido quase insuportável. No entanto, a partir da entrada de Nancy no núcleo familiar, foi sendo possível que ela elaborasse seus sentimentos hostis à escolha da filha e, com o passar dos anos, fosse capaz de com ela constituir um vínculo de apreço e respeito. Não podemos dizer que houve integralmente um trabalho elaborativo que desse espaço à construção da simbolização necessária para que existisse uma produção de realização; mas algum movimento houve dessa mãe para conviver com o casal. Embora não confirmado, já que está na ordem do não-nomeado, o evento traumático, neste caso, também gerou mudanças, muitas delas criativas, como o apoio mãe-Nancy quando de algum pedido a Dani.

Nancy

O legado de Nancy, se não impingiu a ela restrições quanto ao exercício da homossexualidade, como com Dani, trouxe-lhe, porém, a necessidade de elaborações emocionais com relação a sua herança.

A sua avó materna era considerada alcóolica, qualificada por Nancy como

porreta!, que veio a se casar com um homem doce e manso, ambos nascidos no

Sul. Eles tiveram seis filhos, três homens e três mulheres, tendo um dos homens optado pelo sacerdócio. Este tio de Nancy, padre, chegou a benzer os dois apartamentos em que elas moraram.

Os avós paternos morreram antes de ela nascer. Eram italianos, somente o pai nasceu aqui - o caçula de sete filhos. Chegou ao conhecimento dela que o avô era um homem rigoroso e bravo.

Nancy contou que sua mãe era muito bonita e vaidosa, casando-se aos dezenove anos de idade e, a partir daí, somente se dedicando ao lar e à família. Antes disso, dava aulas e, por isso, Nancy parece que tem uma imagem dela como

tendo tido algum tipo de vida diferente da que levou após o casamento, dado que neste último fez o papel de esposa ciumenta do marido mulherengo.

Seu pai, por sua vez, que trabalhava em outra cidade, depois que a esposa ficou doente, passou a visitar a família mensalmente – Nancy disse que os médicos de sua mãe recomendaram que o marido se afastasse por algum tempo, visto que sua presença acabava por lhe desencadear mais crises. Sua descrição da profissão e do trabalho do pai não foi muito clara, ele teria sido uma pessoa de confiança e atuava em um negócio familiar, no qual chegou a ter posto de direção. Depois, informou que o pai tinha tido formação operária também, algo comum na época.

Os pais de Nancy tiveram sete filhos, quatro mulheres e três homens, e, para todos, o pai escolheu nomes de pessoas de prestígio; os três primeiros com as mesmas iniciais, bem como os três últimos. Somente Nancy foi letra diferente, batizada com o nome de uma artista famosa da época. Foi a única que nasceu em um hospital; os demais foram partos caseiros, auxiliados por uma parteira e pelo próprio pai.

Nancy, contudo, bem como o irmão que a antecedeu, não conheceram essa mãe funcional e, assim, as conversas sobre ela sempre foram feitas sob forma velada. Como a que um dia a sua irmã lhe contou: a mãe tinha feito um aborto, mas isso não era assunto para ser comentado.

De igual modo, outra faceta materna, dessa vez em relação ao marido, apareceu quando, em dado momento, a pesquisadora se referiu ao fato de a mãe ter tido tantos filhos, engravidando mesmo após ter-se iniciado seu período de adoecimento, isto é, após o penúltimo parto, com comportamento ausente e depressivo. Nancy se alterou visivelmente ante a pergunta, dizendo que já havia pensado nisso, e que achava um absurdo. Dani, então, em um aparte, comentou que a mãe de Nancy era muito bonita, daí, possivelmente, o interesse do marido.

Nancy: “Mas com toda aquela doença, com todas aquelas coisas, a gente também, nunca foi uma coisa boa pra gente engolir essa, entendeu? A verdade é uma coisa assim que também ninguém vê com bons olhos, né? No fim, a gente acaba julgando.”

Esclareceu que chegou a perguntar ao pai o porquê de terem tido tantos filhos, mas ele ficou muito bravo e não respondeu. Neste momento, elas fizeram uma digressão, e lembraram a fala de um cunhado de Nancy, já bastante idoso e

com a esposa adoentada, dizendo como lhe era difícil ficar sem sexo, mesmo naquela idade. Reconheceram-se espantadas com esse posicionamento masculino.

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