A história das tentativas de inserção do protestantismo na América Latina e, particularmente, no Brasil, data desde a segunda metade do século XVI, com a chegada da expedição de Nicolau Durand de Villegaignon. Buscando a fundação da França Antártica, bem como um refúgio para os huguenotes perseguidos no Velho Mundo, contando com o apoio do próprio Calvino e, sobretudo, do almirante Gaspard de Coligny, as expedições francesas chegaram a Baía de Guanabara em 11 de outubro de 155577. Acerca desta primeira tentativa de inserção do protestantismo, escreve precisamente Jean -Pierre Bastian:
La expedición obedeció a un doble propósito – político y religioso – pues se trataba de “extender al mismo tiempo el reino de Jesucristo, Rey de reyes y Señor de los señores, y el del príncipe y soberano [de Francia] en aquel lejano país”. Predominó el interés político. La expedición permitía a Enrique II y a Coligny encontrar una solución al problema religioso interno, asegurar la presencia francesa en el Nuevo Mundo y sostener, en esta forma, la oposición a la Bula de Alejandro VI que había dividido las nuevas tierras entre España y Portugal, sin tomar en cuenta a Francia78.
Após a inconstância político-religiosa de Villegaignon, intentando implantar práticas romano-católicas entre os colonos e, desta forma, causando profundos desentendimentos com os pastores reformados presentes na colônia, além das lutas contra os nativos e o inevitável confronto com os portugueses, esta breve tentativa findou-se em 11 de maio de 1560, quando os franceses foram expulsos pelo então governador Mem de Sá. Como descreve Antônio Gouvêa Mendonça, “resta, no entanto, àqueles fervorosos huguenotes, o prestígio de terem
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Jean-Pierre BASTIAN. Protestantismos y modernidad latinoamericana: historia de unas minorías religiosas activas en América Latina. México: Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 21-29; Antônio Gouvêa MENDONÇA. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1995, p. 23-26; José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 95-102; Adilson SCHULTZ. Deus está presente – o diabo está no meio: o protestantismo e as estruturas teológicas do imaginário religioso brasileiro, p. 110-111.
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Jean-Pierre BASTIAN. Protestantismos y modernidad latinoamericana: historia de unas minorías religiosas activas en América Latina, p. 22.
organizado, sob céus da América, a primeira igreja protestante segundo o modelo da Igreja Reformada de Genebra e aqui realizado o primeiro culto em 10 de março de 1557”79. Sabe-se que, além disto, esta primeira empreitada protestante produziu uma confissão de fé com dezessete artigos, que tem o mérito de ser a primeira confissão religiosa reformada redigida na América, datada de 1561, de autoria de Jean Crespin, conhecida como Confessio Fluminensis80.
Uma segunda tentativa de implantação do protestantismo no Brasil, esta, por seu turno, mais séria e duradoura, ocorreu no ano de 1630, desta vez sob o influxo de imigrantes reformados holandeses que ocuparam o nordeste do Brasil ou, mais precisamente, a capitania de Pernambuco, apontada como a principal dos centros de produção açucareira das Américas81. Novamente nas palavras de Jean-Pierre Bastian:
En 1630, sin dificultad, los holandeses se adueñaron del puerto de Recife, y después de la ciudad de Olinda, con lo cual aseguraron su hegemonía en Pernambuco durante 24 años. Su esfera de influencia llegó en 1634 hasta Paraiba y Goiana, por lo cual en 1641 controlaban siete de las 14 capitanías del Brasil portugués, aun cuando una buena parte de esa hegemonía fuese un tanto precaria y se hallase bajo el constante ataque de los portugueses82.
Consolidada com a chegada do calvinista João Maurício de Nassau-Siegen em 1637, a colônia holandesa adquiriu importância e abrangência notáveis no país desenvolvendo, desta forma, uma reconhecida missão entre os povos indígenas, escola dominical, impondo a observância do descanso dominical também aos escravos e indígenas. Chegaram a preparar um catecismo trilíngüe (tupi, holandês e português) para a evangelização das tribos. Segundo Jean-Pierre Bastian, a colônia teria, até o ano de 1640, 90 mil habitantes, entre os quais, uma terça parte de portugueses e outra de escravos negros, uma sexta parte de índios e a outra sexta parte de colonos holandeses e seus aliados europeus. A estrutura religiosa da colônia tinha por modelo a organização eclesiástica genebrina e, durante 24 anos de colonização holandesa, foram organizadas 22 congregações e igrejas reformadas, sendo as de Olinda e Recife as mais importantes. Formaram dois presbitérios, um no Recife e outro na Paraíba, constituindo, desta forma, o primeiro sínodo no Brasil. Conforme descreve Bastian:
79 Antônio Gouvêa MENDONÇA. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil, p. 24. Adilson Schultz ressalta que também foi celebrada a primeira Santa Ceia em 21 de março de 1557, bem como a morte de Jacques de La Balleur, enforcado por ordem de Mem de Sá, em 1567.
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José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 96; Domingos RIBEIRO. Origens do evangelismo brasileiro: escorço histórico. Rio de Janeiro: Apollo, 1937, p. 39-47. 81
José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 98. Bittencourt Filho aponta a chegada dos holandeses em Pernambuco no ano de 1628.
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Jean-Pierre BASTIAN. Protestantismos y modernidad latinoamericana: historia de unas minorías religiosas activas en América Latina, p. 27.
En la predicación se empleaba el holandés, pero también el inglés y el francés, sobre todo en Recife, en beneficio de la población anglicana e hugonota. Desde la primera ocupación de Bahía, en mayo de 1624, se celebraran algunos servicios religiosos de conformidad con la tradición reformada; pero sólo a partir de 1634 surgió una verdadera organización religiosa con unos 50 pastores que en diversas épocas trabajaron en la colonia. Se creó un consistorio, organismo de gestión y decisión eclesiástica, que se adaptó al modelo de la iglesia reformada holandesa. Según Schalkwijk de 1636 a 1648 se celebraron 14 sesiones de los presbiterios y cuatro sínodos en la ciudad de Recife, centro político de la colonia83.
Obviamente, torna-se correta a assertiva de que a presença dos holandeses não se deu, basicamente, por motivos estritamente religiosos, ainda que estes fossem de grande importância, como as realizações ocorridas num breve período de tempo parecem demonstrar. Entretanto, cabe dizer, o mais simples “é ver no grande empreendimento holandês na época do Brasil filípico a expansão colonialista e capitalista da Companhia das Índias, visando o comércio do açúcar”84.
Também é interessante ressaltar que, apesar do caráter predominantemente puritano e da rigorosa disciplina religiosa, havia uma relativa política de tolerância religiosa que se praticava na colônia holandesa. Para Bastian, por exemplo, a colonização holandesa em Pernambuco é um caso em que se torna evidente a abissal diferença entre a evangelização protestante e a evangelização católica. Ao passo que na evangelização dos reformados havia lugar para alguma tolerância religiosa, com liberdade de culto e de consciência, na teocracia romano-católica tal liberdade não era possível85. Com a derrota e expulsão dos holandeses pelas forças militares portuguesas em 1654, teve fim a segunda tentativa de implantação do protestantismo no Brasil. De acordo com uma interpretação tardia dada pelos pastores
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Jean-Pierre BASTIAN. Protestantismos y modernidad latinoamericana: historia de unas minorías religiosas activas en América Latina, p. 28.
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Antônio Gouvêa MENDONÇA. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil, p. 24. 85
Há que se reconhecer, entretanto, que apesar do regime do padroado com sua aliança trono-altar ter sido favorável ao monopólio institucional da igreja romano-católica, o catolicismo sempre foi, como bem demonstra a clássica sociogênese elaborada por Pierre Sanchis, uma “estrutura virtualmente sincrética”. É sempre problemático confundir religião com instituição. Nas palavras do autor: “Uma pluralidade sistemática marca essa sociogênese do Brasil, logo traduzida em porosidade e contaminação mútuas. Só para lembrete: as ‘santidades’ indígenas (Vainfas, 1995), as tradições africanas já profundamente sincretizadas antes de chegar, foram introduzidas aqui no caldeirão de uma matriz viva, historicamente ativa e processadora das diferenças: o catolicismo. Nem África pura, nem catolicismo europeu. Do ponto de vista religioso e do pondo de vista cultural” (Pierre SANCHIS. A religião dos brasileiros. Horizonte, Belo Horizonte, v. 1, n. 2, 1997, p. 38). De semelhante modo vai a tese de Bittencourt Filho da existência de um substrato religioso cultural denominado matriz religiosa brasileira, “que provê um acervo de valores religiosos e simbólicos característicos, assim como propicia uma religiosidade ampla e difusa entre os brasileiros” (José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 17). Esta matriz seria formada pelo catolicismo medieval ibérico, essencialmente de cunho sincrético e mágico, as religiões indígenas e as religiões africanas, sendo acrescida, a partir do século XIX, pelo espiritismo europeu e alguns poucos fragmentos do catolicismo romanizado. Para maiores considerações desta proposta, cf.: José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 15-81.
reformados ao insucesso da missão holandesa e à conseqüente expulsão por parte dos portugueses, a missão teria fracassado devido à manifestação da cólera divina frente às práticas escravistas exercidas pelos holandeses na colônia86.
Ainda uma terceira tentativa de implantação do protestantismo no Brasil se deu na primeira década do século XVII, quando a expedição dos franceses Rasilly e La Ravardière intentou fundar a França Equinocial no Maranhão. Mesmo sendo Rasilly um católico militante e de estar na companhia de numerosos frades capuchinhos, havia um número significativo de huguenotes na expedição. Havia no Maranhão certo clima de tolerância religiosa, sob a inspiração do Edito de Nantes. É bem possível admitir que tais huguenotes tivessem chegado a celebrar cultos no Brasil, embora Antônio Gouvêa Mendonça restrinja estes às práticas particulares domésticas. Malograda a expedição francesa, o protestantismo permaneceu por mais de um século sem a consolidação de sua presença no Brasil, com exceção de “esporádicos negociantes e aventureiros”87. Nas precisas palavras de Bittencourt Filho:
Por tudo isso se pode depreender, entre outros fatores, que essas primeiras experiências do Protestantismo europeu em terras brasileiras não alcançaram êxito, em virtude do fato de que os impérios ibéricos não iriam admitir, naquelas circunstâncias, qualquer modalidade alternativa de Cristianismo na colônia. Isso poderia simplesmente solapar os alicerces simbólicos do poder das metrópoles, identificados com o Catolicismo romano. A rigor, esse quadro só iria sofrer uma alteração significativa no século XIX88.
A presença protestante somente alcança lugar no cenário religioso brasileiro após o advento da família Real ao Brasil e a subseqüente abertura dos portos “às nações amigas” que rompeu com a exclusividade comercial brasileira, em 1808, na esteira da dependência portuguesa em relação à Inglaterra, concedendo liberdade religiosa aos protestantes britânicos residentes no Brasil. O Tratado de Comércio e Navegação (1810) com a Inglaterra autorizou a celebração de cultos protestantes no país, ainda que com muitas e sérias restrições. Desta forma, a presença de protestantes britânicos e mesmo anglo-saxões começa a se fazer sentir no país, desfrutando de uma relativa liberdade religiosa e “aproveitando as oportunidades que o clima de tolerância oferecia”89. Isso implicava uma progressiva redução da hegemonia romano-católica no país, tendo em vista que a intolerância religiosa significava um forte
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Jean-Pierre BASTIAN. Protestantismos y modernidad latinoamericana: historia de unas minorías religiosas activas en América Latina, p. 29.
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Adilson SCHULTZ. Deus está presente – o diabo está no meio: o protestantismo e as estruturas teológicas do imaginário religioso brasileiro, p. 111.
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José BITTENCOURT FILHO. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 100-101. 89 Antônio Gouvêa MENDONÇA. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil, p. 27.
obstáculo à realização dos tratados e dificuldades políticas inúmeras à Coroa portuguesa em sua relação de dependência econômica com a Inglaterra.
Foi no ano de 1824 que os primeiros grupos protestantes de imigrantes, em sua grande parte alemães, encontraram lugar em terras brasileiras, marcando, desta forma , a entrada oficial, desde um ponto de vista institucional, do protestantismo no Brasil e rompendo com a exclusividade religiosa católica90. Fundaram colônias em Nova Friburgo (RJ) e São Leopoldo (RS) e foram se espalhando progressivamente em vários pontos do país. Nas palavras de Martin Dreher, “tais colônias seriam células para a penetração do protestantismo, mas também do catolicismo da renovação no Brasil”91, tendo em vista a concomitante entrada de imigrantes católicos. Tem sido enfatizado o forte contorno étnico deste tipo de protestantismo instalado no Brasil, já que demonstrava um desinteresse em práticas prosélitas e uma tentativa de preservação da identidade, muito embora tal tipologização deste protestantismo como “protestantismo étnico” seja passível de inúmeras críticas92. Como sugere corretamente Roger Bastide, os camponeses teuto-brasileiros estavam simultaneamente interessados em “conservar sua originalidade, as tradições de seus antepassados, sua posição de grupo marginal”, sem deixar de se considerar “bons brasileiros, desempenhando os deveres cívicos e eleitorais, recusando-se a se desligar da nova pátria”93. Além disso, não é possível caracterizar os imigrantes alemães como portadores de uma homogeneidade determinante. Como sugere Bastide, tais imigrantes são de proveniência muito diversa, “não falam o mesmo dialeto, não têm os mesmos costumes nem a mesma religião, e foi-lhes preciso primeiramente fundirem-se uns com os outros, procederem à interpenetração das diversas culturas regionais; ora, ao mesmo tempo sofriam a influência unificadora do novo meio geográfico”94. Torna-se
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Antônio Gouvêa MENDONÇA. Evolução histórica e configuração atual do protestantismo no Brasil, p. 27. Para um panorama histórico da imigração protestante luterana no Brasil, cf.: Hans-Jürgen PRIEN. Formação
da Igreja Evangélica no Brasil: das comunidades teuto-evangélicas de imigrantes até a Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2001, p. 23-97. 91
Martin N. DREHER. A igreja latino-americana no contexto mundial, p. 173. Sobre este ponto, cf.: Arthur Blásio RAMBO. A igreja dos imigrantes. In: Martin N. DREHER. (Org.). 500 anos de Brasil e igreja na
América Meridional. Porto Alegre: Edições EST, 2002, p. 57-73.
92
Conforme descreve Lauri Wirth: “A preservação da identidade étnica no protestantismo de imigração não se explica pela experiência religiosa nem pela vida cotidiana do imigrante. Tal explicação precisa ser buscada em ingerências exógenas, relacionadas a interesses políticos e econômicos, vinculados a disputas entre as potências expansionistas européias pela busca de novos espaços comerciais e territoriais, na segunda metade do século XIX até os anos 40 deste século (Segunda Guerra Mundial). Foi a partir desse pano de fundo histórico que o papel da religião na preservação da etnia ganhou relevância fundamental no caso do protestantismo de imigração. Mais que decorrente de fatores conjunturais locais, a preservação da etnia foi imposta como canal de influência cultural e política sobre os imigrantes e seus descendentes. Não está na raiz da experiência religiosa do imigrante” (Lauri Emilio WIRTH. Sobre a preservação da identidade étnica no protestantismo de imigração. In: Ronaldo SATHLER-ROSA. (Org.). Culturas e cristianismo. São Paulo: Loyola, 1999, p. 72-73).
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Roger BASTIDE. Brasil, terra de contrastes. 8. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: DIFEL, 1978, p. 195. 94 Roger BASTIDE. Brasil, terra de contrastes, p. 203.
necessário, desta forma, como indica corretamente Lauri Wirth, “relativizar a centralidade do fator étnico como decorrência natural da conjuntura dentro da qual o protestant ismo de imigração se desenvolveu”95.
Cabe dizer, entretanto, que os protestantes alemães não migraram por motivos religiosos, mas por motivos predominantemente sociais. Como descreve Wirth: “As causas da emigração são sociais e não religiosas. São os sobrantes da penetração de relações capitalistas no campo e os desempregados dos centros industrializados da Europa, que encontram na emigração uma possibilidade de reconquistar as condições de sobrevivência que haviam perdido em seus países de origem”96. Muito embora tenham sido os pioneiros entre os protestantes instalados no Brasil, será somente no período ulterior à Segunda Guerra Mundial que os protestantes oriundos da imigração assumirão o fato de viver no Brasil, avançando na direção da integração à sociedade e inserindo-se nas lutas sociais e políticas do país.