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Bachelard inicialmente constata, em O materialismo racional (1953), que “a ciência não tem a filosofia que merece” (Bachelard, 1990, p. 30). A filosofia está sempre atrasada em relação às mudanças do saber científico, o que leva o autor a opor à filosofia dos filósofos um modo de filosofar produzido pela ciência. O que costuma

caracterizar a filosofia dos filósofos, segundo ele, são atributos como a unidade e a imutabilidade, ao passo que, no filosofar inspirado pela ciência, o que se preza é exatamente a falta de unidade, de certeza absoluta, assim como o devir. Bachelard explica que o filosofar segundo a ciência é, então, aberto, dispersivo, distribuído, ou, como ele próprio diz, diferencial: “esse tipo de filosofia diferencial é a única filosofia aberta. Toda outra filosofia estabelece os seus princípios como intangíveis, as suas verdades primeiras como totais e adquiridas. Toda outra filosofia se orgulha de seu fechamento” (Bachelard, 1974, p. 163).

Em O racionalismo aplicado (1948), Bachelard afirma que a filosofia (a epistemologia, em especial) “deve ser tão móvel quanto a ciência” (Bachelard, 1977, p. 17), devendo o filósofo penetrar nas práticas científicas em vez de simplesmente julgá- las do exterior. A filosofia em geral não costuma ser mais variada que o pensamento científico, e, sendo assim, “o papel da filosofia da ciência é o de recensear essa variedade e mostrar como os filósofos aprenderiam se quisessem meditar sobre o pensamento científico contemporâneo” (Bachelard, 1977, p. 158).

Na visão de Bachelard, dentre os obstáculos que seu novo espírito científico deve superar, o mais relevante talvez seja o da experiência primeira, ou seja, a experiência que pretende se situar além da crítica, e que consiste, por exemplo, na sedução da ideia de substância. A filosofia correspondente a esta nova postura crítica deve, assim, se configurar como filosofia do não, firme na rejeição das pretensões dos velhos sistemas filosóficos que apresentam concepções totalizantes da realidade e que impõem à ciência princípios intangíveis. O espírito promovido por Bachelard deve ser capaz de “constituir em si mesmo novas espécies de evidência e enriquecer o seu próprio corpo de explicações sem conceder nenhum privilégio ao que podemos considerar um corpo de explicações naturais que serve para esclarecer tudo” (Bachelard,

1974, p. 165); a implicação disso, portanto, é que “a doutrina tradicional de uma razão absoluta e imutável nada mais é que uma filosofia que já teve a sua época” (Bachelard, 1973, p.119).

No que diz respeito a Simondon, não é difícil identificarmos, em sua obra, procedimentos teóricos que nos permitem aproximá-lo deste novo espírito científico. O mais importante deles é certamente o abandono do conceito tradicional de indivíduo, marcado por noções oriundas das operações de uma razão absoluta e totalizante. O que notamos é que, assim como Bachelard, Simondon quer evitar “os princípios intangíveis” ou as “verdades primeiras e totais” presentes em sistemas filosóficos tais como o hilemorfismo, que concebe, por exemplo, a forma precisamente como um princípio intangível, absoluto, puramente racional e indispensável para que se possa compreender a natureza ou essência de todo indivíduo. Vale, entretanto, destacar que Simondon não quer simplesmente descartar a noção de forma, mas sim rever o modo como o esquema hilemórfico define tal noção: ele quer, pois, evitar, antes de tudo,que se tome a forma

como princípio. Mais exatamente, o ponto de partida da teoria da individuação de

Simondon é afastar, segundo ele mesmo, “a existência de um termo primeiro, ou princípio, que traz em si aquilo que explica porque o indivíduo é indivíduo, e que dá conta de sua hecceidade” (Simondon, 2009, p.24)19

.

Destaquemos que o espírito científico defendido por Bachelard tem, segundo ele, “estrutura variável, posto que o conhecimento tem história” (Bachelard, 1974, p. 334). Na visão de Bachelard,

o espírito científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento dos quadros do conhecimento; julga seu passado condenando-o; sua estrutura é a

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O papel que desempenha a noção de forma na teoria da individuação de nosso autor será explorado cuidadosamente por nós já a partir do capítulo seguinte, no qual discutimos a crítica de Simondon ao modo como o hilemorfismo apresenta a individuação técnica como paradigma.

consciência de seus erros históricos. Cientificamente, pensa-se o verdadeiro como retificação histórica de um longo erro (Bachelard, 1996a, p. 120).

Assim, se o conhecimento tem história, então o principal instrumento para as investigações em filosofia da ciência não é a lógica, e sim a história da ciência, reconstruída por meio da identificação das fases atravessadas pelo saber científico. Ora, quanto a este ponto, basta recordarmos que Simondon, em vez de conceber o indivíduo como uma entidade completa, esgotando em si o sentido do ser, concebe-o como possuidor de uma natureza relacional, e que isso se deve, entre outros fatores, à influência das descobertas feitas no campo da física das partículas. Para Simondon, as noções da lógica não servem para tratar desta segunda concepção do indivíduo, já que a individuação é essencialmente processo de ontogênese entendido como devir do ser, em que o ser individual passa por fases sucessivas, individuando-se (desfasando-se) permanentemente, condição esta que impede que lhe sejam aplicados os princípios lógicos de identidade e de terceiro excluído. Tanto Bachelard quanto Simondon estão, portanto, atentos para o fato de que o caminho percorrido pela ciência não corrobora a hipótese de que existem partículas indivisíveis, tais como o átomo preconizado desde a antiguidade pelos atomistas. Com efeito, Bachelard salienta que, de acordo com a física, “o corpúsculo não poderia ter uma permanência absoluta, não pode ter todos os seus atributos como a substância dos filósofos sustentava todas as suas qualidades”, devendo ser visto “como um elemento complexo, como um elemento construído pela síntese e não mais isolado pela análise” (Bachelard, 1974, p. 291). Com isso, o que se sabe é que “da crítica ondulatória decorre que o corpúsculo não tem mais realidade que a composição que o faz aparecer” (Bachelard, 1974, p. 291). Bachelard destaca ainda a afirmação de Luís de Broglie segundo a qual, na mecânica ondulatória, “não se concebe mais o ponto material como uma entidade estática ocupando uma região ínfima do

espaço, mas como o centro dum fenômeno inteiramente espalhado à sua volta” (L. de Broglie apud Bachelard, 1974, p. 291). Prossegue Bachelard explicando que

todas as imagens da mecânica do ponto se turvam umas após as outras: já que não se pode mais reconhecer o corpúsculo, não se pode mais encontrá-lo, não se pode mais segui-lo pelo rastro. Seu movimento não se traduz propriamente falando sobre uma trajetória. Sua matéria escapa totalmente ao princípio de identidade, ao princípio de conservação mais fundamental. Tomado como soma dos fenômenos vibratórios, ele é antes reconstruído que conservado (Bachelard, 1974, p. 291).

O que se verifica na física, portanto, é uma nova concepção do corpúsculo: de uma representação corpuscular passa-se para uma noção ondulatória. Por consequência, o novo espírito científico de que fala Bachelard está sempre pronto a admitir que as hipóteses científicas podem sofrer revisões; já o espírito não-científico, baseando-se sempre em uma qualidade ou traço substancial, torna-se, ao contrário, “impermeável aos desmentidos da experiência” (Bachelard, 1996, p. 128). E diríamos ser este mesmo espírito não-científico que Simondon quer evitar, ao levar em consideração as descobertas da biologia, da física, das ciências em geral, nas discussões que realiza sobre a natureza da partícula, sobre a individualidade do cristal e a do ser vivo20.

Devemos, no entanto, salientar que este novo espírito não aceita que simplesmente se descarte a metafísica: “o espírito pode mudar a metafísica, mas não pode prescindir da metafísica” (Bachelard, 1974, p. 166). Ora, mesmo os cientistas têm, segundo Bachelard, “ideias fixas”, certas “intuições inconfessadas” que são autênticas “convicções não confirmadas” (Bachelard, 1974, p. 166). Simondon, por sua vez, de nenhum modo despreza a metafísica: o que é o pré-individual senão uma concepção

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Nossa abordagem das ideias defendidas por Simondon com respeito a estes temas se dará nos capítulos seguintes desta tese.

metafísica (ainda que inspirada nos estados metaestáveis da termodinâmica), uma intuição (confessada, no caso), uma ideia fixa mantida por nosso filósofo ao longo de toda a exposição que faz de sua teoria da individuação? Este, aliás, é o momento de esclarecermos um ponto importante de nossa interpretação da teoria de Simondon: como se vê, não estamos entendendo que, na visão de Simondon, a filosofia deve ter seus métodos e problemas determinados pela atividade científica. Antes, pensamos que nosso autor, em vez de simplesmente submeter o pensamento filosófico à ciência, busca, ao menos em sua teoria da individuação, fazer com que o primeiro se conduza

com a ajuda da segunda. Em outras palavras, trata-se aqui, como afirma Beistegui

(2012), da questão de se “permitir que o pensamento avance em, e através de, um genuíno diálogo com a ciência” (Beistegui, 2012, p. 154); pensamos ser este um esforço constante que Simondon realiza em sua teoria da individuação.

Acrescentemos, enfim, que Simondon, segundo nos informa Domingues (2015), mostra surpreendentemente conhecer pouco o pensamento de Bachelard: em uma entrevista concedida a Jean Le Moyne, para a realização de um documentário canadense, “Simondon mostra ter pouca afinidade com a obra de Bachelard, a quem se refere como „poeta‟” (Domingues, 2015, p. 284)21

. De fato, percebemos que nosso filósofo quase não faz referência a Bachelard em seus textos (não há sequer uma única citação de qualquer obra deste autor). Ainda assim, podemos argumentar que, provavelmente não o conteúdo da obra epistemológica de Bachelard, mas certamente o

novo espírito científico promovido por ele é a forte influência no pensamento de

Simondon22.

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Jean Le Moyne (1913-1996) foi um conhecido escritor, jornalista e político canadense da região de Québec. A informação nos é dada por Domingues (2013), outra vez na entrevista referida em nota da pág. 35 desta tese.

22

E dizemos isso porque este espírito influenciou Canguilhem, eminente representante da escola epistemológica francesa e orientador de Simondon na velha Sorbonne; ora, uma vez que Canguilhem foi aluno de Bachelard, parece-nos fácil concluir que parte importante das influências que incidem sobre a

Prosseguiremos, em nossa pesquisa, apreendendo um pouco mais do contexto filosófico no qual se insere o pensamento de Simondon, observando agora algo das relações estabelecidas por Merleau-Ponty (que também foi professor de Simondon) entre ontologia e ciência, e verificando de que modo estas relações também influenciarama teoria da individuação de Simondon.

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