PARTIE I : ALGORITHMIQUE
PARTIE 2 : HTML ET FEUILLES DE STYLE (CSS)
II) Concepts et éléments de base du langage HTML
7) Les listes
Walan estava finalizando o segundo semestre de engenharia civil na UFC quando participou da pesquisa. As duas sessões de entrevista aconteceram no momento em que ele passava por dificuldades para conseguir um local para morar em Crateús. Estava esperando ansiosamente pelo resultado do PBIA.
Antes de ingressar na UFC, morava com a mãe, duas irmãs e uma sobrinha na zona rural do município de Ararendá. A mãe é agricultora e as duas irmãs trabalham numa escola como auxiliares de serviços gerais, e à noite fazem o curso de EJA no mesmo local. Em virtude dos gastos com passagem para Ararendá, cerca de trinta e cinco reais, Walan costumava ir apenas uma vez ao mês. Quando estava na casa da família, fazia provisão de alimentos, a fim de que, ao retornar à cidade de Crateús, tivesse alimentação durante todo o mês, evitando, dessa forma, que gastasse comprando comida.
Com um visual diferente do encontrado na maioria dos jovens matriculado nas duas IES pesquisadas, cabelo vermelho cortado, deixando um topete cair pela testa, brincos nas duas orelhas e um piercing bem discreto no nariz, quase imperceptível, ele inicia a narrativa ressaltando em tom de brincadeira: “porque você sabe que sou gay assumido, saí do armário quando fiz dezoito anos”.
4.5.1 Práticas socializadoras familiares e o ingresso no ensino superior
Walan morou até os oito anos em Brasília, na comunidade hoje conhecida como Sol Nascente153. A mãe saiu de Ararendá para trabalhar como empregada doméstica em Brasília, onde casou e teve dois filhos: Walan e Jandira. Em 1995, sua genitora retornou para o Ceará com os dois filhos a fim de cuidar da mãe que estava com câncer e nunca mais voltou para Brasília. Depois casou novamente e, dessa segunda união, teve uma filha. Na época da pesquisa, no entanto, a mãe de Walan não convivia mais com o segundo companheiro. A avó de Walan havia falecido, e a família passou a morar nas terras que pertenciam à idosa.
Não é muita coisa [a terra onde moram], mas a mãe consegue plantar, tem horta, e também a gente cria galinhas e alguns porcos. Ano passado, através de um programa do governo, acho que do estado, houve a distribuição de pintos como forma de as pessoas tornarem-se empreendedoras. Aí então a mãe começou essa cria de galinhas. Todas as vezes que vou trago uns ovos, com isso a gente vai passando. Tem a pensão do meu pai falecido que é meio salário, porque ele deixou também uma filha lá em Brasília. Fácil? Passar bem a gente não passa, mas conheço gente muito pior do que eu. Por isso não reclamo, não (informação verbal)154.
Quando morou em Brasília, Walan estudou em escola particular até a quarta série. Era muito querido pela dona da casa onde sua mãe trabalhava e ela, que também assumira o papel social de sua madrinha, pagou seus estudos iniciais. Ele relatou que sempre gostou de
153 Ele ainda mantém contato com os amigos que deixou na comunidade. 154 Entrevista realizada em dezembro de 2017.
estudar e aprendeu a ler precocemente aos 4 anos de idade, diferente de suas irmãs que ainda apresentam dificuldades em leitura e em se adaptar as exigências da escola. No ensino fundamental II e ensino médio, estudou numa escola estadual em Ararendá e pelas excelentes notas ganhou um notebook, quando ainda estava no segundo ano. Seu sonho era estudar numa escola profissionalizante e depois fazer um curso superior. Desde criança, sua madrinha dizia que ele precisava “ser alguém na vida”, estudar, entrar na universidade, se formar e arrumar um bom emprego para ajudar a sua mãe. “Estudar sempre foi minha vida, no meu colégio tinha uma biblioteca bem pequena, e eu sempre estava lá, mas nunca fui arrogante por isso, sempre procurei ajudar quem não sabia. Eu tinha muita facilidade com interpretação de texto e cálculo, coisa que poucos estudantes têm”.
Ao concluir o ensino médio fez o Enem, mas não sabia qual curso queria. Gostava de Direito e Engenharia e ficou esperando o resultado para saber em qual curso sua pontuação seria suficiente para ingressar. Para sua surpresa, sua pontuação tinha sido tão alta que daria para ingressar no curso de medicina, mas no Acre; então, nem cogitou tal possibilidade, e resolveu ir direto para os cursos ofertados em Crateús. Ele escolheu, então, Engenharia Civil.
A família ficou muito feliz com a aprovação, mas sua mãe não sabia como fazer para ele morar em Crateús, já que pela distância e valor do transporte era impossível ir e voltar todos os dias. Foi quando ela se lembrou de uma “comadre” que morava em Crateús e resolveu pedir para o filho morar na casa dela. Como a UFC tem restaurante universitário, Walan passaria o dia na universidade e só iria dormir na casa da comadre, em contrapartida a mãe também ofereceu uma ajuda para pagar as despesas da casa como energia, água e internet e de vez em quando também mandava uma feira de alimentos. A comadre de sua mãe tinha quatro filhos morando com ela, numa casa de três cômodos, e Walan foi acolhido na nova residência para dormir numa área que ficava ao lado da cozinha. Além dos quatro filhos, ainda tinham dois cachorros que disputavam o pequeno espaço do sofá da sala com um dos filhos na hora de dormir.
No primeiro semestre, apesar do pequeno espaço e das dificuldades financeiras que a família onde Walan morava passava, correu tudo bem. Depois, com a convivência, dois dos quatro filhos começaram a tratá-lo mal, após perceberem que ele é homossexual. “Eles diziam que a religião deles não permitia que eles morassem com um gay porque senão poderiam se contaminar. Teve um dia que eu dormi na Praça dos Pirulitos só para não ter que encontrar com eles. De manhã cedo, fui para UFC e lá tomei banho e merendei”.
Na UFC, Walan também relatou que passou por várias formas de preconceito, algumas veladas, outras explícitas, parecidas com aquelas que ele sofria na casa em que
residia em Crateús. Nesse sentido, um acontecimento marcante em seu percurso acadêmico ocorreu ainda no primeiro semestre, quando participou da primeira viagem de campo. Os alunos da disciplina de um determinado professor viajaram ao município de Quixadá e permaneceram ali por dois dias, no campus da UFC do local. Os banheiros da Instituição eram coletivos e, à noite, quando os alunos foram tomar banho, o professor disse em tom de brincadeira: “Vamos ver quem vai dividir o box com o Walan, aqui é que é a hora da verdade. Engenheiro Civil bicha só conheço um e vê se não me aparece mais”. Aquela “piada” o deixou muito chateado, porque vinha da pessoa que ele menos esperava, o professor. Alguém que, em sua concepção, deveria ser respeitoso e ético. “Acho que se fosse um colega dizendo isso eu teria levado tranquilamente, mas vindo do professor, pronto, se eu tinha conquistado algum respeito da turma, acho que perdi naquele instante” (informação verbal)155.
A entrada no ensino superior, para Walan, não foi uma surpresa nem um acontecimento inesperado; ele se esforçou durante todo o percurso escolar para atingir esse objetivo. O que podemos considerar como uma exceção dentre os estudos desenvolvidos sobre o ingresso de estudantes oriundos de camadas populares na universidade. Os estudos de Portes (1993, 2001), Viana (1998) e Souza (2009) apontam que as trajetórias desses estudantes até chegar ao ensino superior não é linear e esperada, ela se constrói marcada por interrupções nos estudos, paradas e retomadas de acordo com as condições vivenciadas.
4.5.2 Estratégias de permanência e êxito no ensino superior: integração e afiliação à vida acadêmica
Embora estivesse ainda concluindo o segundo semestre, Walan falava com bastante desenvoltura e já com um grande conhecimento sobre o curso de Engenharia Civil. Queria desenvolver um projeto de extensão sobre a reutilização de espaços públicos e tecia grandes críticas à mobilidade e acessibilidade urbana da cidade de Crateús. Tinha interesse em trabalhar com acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida através de projetos arquitetônicos. Tirava notas excelentes e com frequência era chamado para facilitar grupos de estudos, principalmente àqueles ligados a cálculo. Contou com orgulho que tinha sido chamado para receber os novos estudantes de engenharia, naquele episódio, ele falou aos estudantes neófitos a respeito do curso e da universidade.
Apesar daquele episódio de preconceito protagonizado pelo professor, Walan relatou que tem muitos bons professores, que são dedicados e competentes e que gostam do que fazem e são inspiração para os alunos. Os elogios à Instituição também são frequentes. “A UFC tem uma estrutura ótima, vários programas de incentivo acadêmico, eu estou no lugar que eu queria estar [...]”.
Quando a gente tem um sonho, nada deve desanimar. O preconceito que passo de vez em quando, as dificuldades financeiras são coisas pequenas diante da possibilidade que tenho de ser um Engenheiro Civil. Pretendo logo que concluir, estudar para um bom concurso ou então seguir a carreira acadêmica. Acho que trabalhar em obras não é muito bom. Prefiro a atividade na academia (informação verbal)156.
Em relação aos estudos, Walan se considera muito disciplinado. Diz que acredita ter adquirido o que ele chama de “hábito de estudar”, porque não consegue passar um dia sem pegar nos livros. “Eu sou obstinado pelo que desejo, desde criança que decidi que minha vida seria estudar. Acho que só assim a gente pode conseguir o que quiser” (informação verbal)157.
Mesmo sendo ainda recente seu ingresso no ensino superior, podemos considerar que ele parece ter atingido a “integração acadêmica”, que conforme Tinto (1975 apud Massi, 2013) significa ter uma boa performance acadêmica, caracterizada por boas notas e pela ausência de reprovação. Não foi possível perceber se ele também estava integrado socialmente, tendo em vista o pouco tempo de curso. Vale ressaltar que essa integração foi possível a partir de algumas disposições incorporadas ao longo da vida escolar. A disposição para crer na importância dos estudos inculcada quando ainda era criança pela madrinha pode ter sido a geradora das demais disposições como a persistência e a disciplina.
Assim, embora ainda no primeiro ano de graduação, percebemos sinais de uma passagem da “fase de aprendizagem” para a de “afiliação”. Mesmo que os tempos entre essas fases sejam variáveis, consideramos dois semestres ainda muito pouco para acreditar que um estudante apreendeu o “oficio de estudante”. Para Coulon (2008), isso consiste em aprender os inúmeros códigos que balizam a vida intelectual e proceder de maneira que os professores também reconheçam. De certa forma, ao ser convidado para receber os colegas novatos e apresentar a vida universitária, podemos deduzir que isso se traduz no reconhecimento dessas competências pelos professores.
156 Entrevista realizada em dezembro de 2017. 157 Entrevista realizada em dezembro de 2017.
Além de atender às exigências do ofício de estudante universitário, Walan apresenta, com confiança, críticas para a melhoria do curso. Acha que no currículo falta um maior diálogo com as especificidades da região, como a escassez de água. “Só temos uma disciplina de recursos hídricos, o que é inaceitável quando olhamos para nossa região e para a contribuição que a universidade pode e deve dar”. Em relação às atividades complementares, acredita que deve ser incentivada a participação dos estudantes em projetos sociais.
Assim, podemos perceber que Walan é bastante seguro de sua trajetória, tem clareza das áreas de atuação e perspectivas para quando for egresso do curso de Engenharia Civil. Entretanto, não nos parece que essa segurança e disposição para perseguir uma ascensão social através dos estudos tenham alicerce na família nuclear. Se por um lado ele fala com bastante desenvoltura sobre o curso e a vida universitária, por outro lado não observamos essa mesma desenvoltura ao falar da mãe e das irmãs. A madrinha, que não vê desde quando morou em Brasília, embora ainda mantenha contato, apesar de ser uma figura externa ao núcleo familiar, é bastante citada por ele como alguém responsável pela formação de um percurso escolar marcado pelo gosto de estudar.
4.6 Ana: “A minha história não é uma história bonita de se contar, mas eu tenho muito