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Manuel João da Silveira Sousa Melo foi professor do ensino básico, tendo leccionado durante alguns anos na Escola Primária de Capelas. Paralelamente, o seu gosto pelo artesanato levou-o a coordenar um grupo de artesãos, a quem encomendava vários artigos e aos quais dava o seu toque final, antes de os colocar no mercado, em Ponta Delgada.

Quando se reformou, pensou em construir uma oficina de artesanato para o fabrico de flores artificiais em escama de peixe, casca de cebola, alho e miolo de figueira, o que veio a concretizar, em 1996, no anexo da sua propriedade de Verão, situada também na freguesia das Capelas.

Porém, esse professor reformado, muito interessado na preservação da memória histórica do seu meio, considerava que não tinha contribuído o suficiente para a comunidade de Capelas, aquando a sua passagem pela Escola de Ensino Básico local, pelo que, em 1998, transformou a oficina de artesanato em Oficina Museu. Com esse projecto pretendia preservar e expor outras artes e ofícios “que se vão perdendo e que ainda nos dão um sabor muito próprio. Reviver o

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passado é uma forma de se enriquecer e de perspectivar o futuro. Podem, assim hoje, estes ofícios serem-nos úteis e os seus trabalhos apreciados”447.

Assim nascia um museu de profissões448, onde para além da recriação de artes e ofícios tradicionais e da salvaguarda do património da ilha, também se pretendia que todas as oficinas estivessem a funcionar com artesãos, para dar mais vida ao museu449, contribuindo também para

a dinamização e economia locais. Essa sua intenção foi perdendo força, uma vez que não tem meios de suportar os ordenados dos artistas.

Com a criação da Oficina Museu, surgiu a necessidade de definir objectivos para aquele espaço museológico, tendo sido apontados os seguintes: Dotar a freguesia de Capelas de um

museu que proporcione algum dinamismo e contribua para a sua valorização; Recolher peças em risco de desaparecer e apresentá-las com sentido pedagógico; Recrear artes e ofícios, que sofreram grandes mutações; Proporcionar aos visitantes um local agradável, repousante e útil, no aspecto informativo e de produção; Descobrir novos valores; Dar a conhecer aos vindouros como foi o passado.450

Alguns anos mais tarde, Manuel Melo referia que visitar a Oficina Museu é, para muitos, o

reviver da sua mocidade ou de tempos que já lá vão; para a juventude é um ponto de referência entre o passado e o presente.451

Ao longo do tempo, Manuel João, sempre apoiado pela esposa, Maria Emília, tem efectuado inúmeras recolhas por toda a ilha de S. Miguel, quer nos meios mais rurais, quer nas cidades e vilas. Uns objectos são integrados no seu espaço museológico por aquisição, outros por doação. Porém, com a preocupação de dar a conhecer ao pormenor antigas realidades, tem trazido para o

447 Melo, 2007: 3. 448 Melo, 2003: 1.

449 “Museu privado nas Capelas está à margem do turismo”. 2005, in Diário dos Açores. 2 de Setembro: 3. 450 Melo, 2003: 1.

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museu espaços completos, que foram substituídos por estruturas modernas, pelos seus proprietários.452

Aos poucos, Manuel João Melo recriou uma pequena cidade com oficinas, lojas, ruas, e até um quintal rural com animais domésticos. Através dessas reconstituições e reposições cénicas são revelados inúmeros aspectos das vivências micaelenses, de há 50 ou 100 anos. A exposição detalhada de espaços e ambientes, que ao longo de mais de uma década foram crescendo em número, contam actualmente com a reconstituição de inúmeros saberes, em 38 oficinas e lojas453. De salientar que, associado a cada espaço, é realizado um estudo para a respectiva reconstituição. Porém, segundo nos disse Manuel Melo454, a cada ofício corresponde um saber, e a recolha desse conhecimento, desse património imaterial, está ainda por fazer.

Os públicos que visitam a Oficina Museu são muito variados, embora as escolas marquem presença com alguma assiduidade. De salientar aqui que, em 2001 e 2002, a Oficina Museu assinou um protocolo com a Escola EB 2,3 de Capelas para dar formação, gratuitamente, nos trabalhos de tear, a duas alunas com dificuldades de aprendizagem, no âmbito do PROFIJ455.

Ao longo da sua história a instituição tem sofrido ampliações, nomeadamente em 2000 e 2002, sendo esta última, dedicada à área comercial.456

Para a construção do espaço, e para a edição de alguns materiais de divulgação, este projecto tem beneficiado do apoio de alguns programas comunitários, designadamente o LEADER II e mais recentemente de um apoio anual da Secretaria Regional da Economia. Porém, Manuel Melo já teve de decorrer à banca para suportar os custos daquele espaço museológico. De referir que, só

452 Foi por exemplo, o caso da antiga Farmácia Garcia, da Gráfica Açoreana, da antiga loja “Baterias Moreira”, ou da oficina do

relojoeiro Aires Garcia, todos provenientes de Ponta Delgada.

453 Anexo I: Lista de espaços da Oficina Museu em 2008.

454 Aquando da nossa última visita à Oficina Museu em Junho de 2009.

455 PROFIJ – Programa Formativo de Inserção de Jovens. Criado pela Resolução 216/97, de 13 de Novembro, é um programa

que visa a qualificação de jovens e a sua inserção no mundo do trabalho, através de uma estratégia pedagógica que aproxime o jovem, a escola e a empresa. Este programa é um dos pilares fundamentais do Plano Regional de Emprego do Governo Regional dos Açores e corresponde à sua medida operacional nº 1, conforme estabelecido pela Resolução nº 218/98, de 29 de Outubro.

456 Segundo depoimento de Manuel Melo, em Junho de 2009, o primeiro projecto de arquitectura foi da autoria do arquitecto

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a partir de 2004, começou a cobrar bilhete de entrada, como forma de obter uma fonte de rendimento que permitisse custear as despesas de manutenção do espaço.457

A ausência de apoios financeiros e de uma divulgação turística eficaz, bem como a falta de pessoal, condicionaram muitas vezes o desenvolvimento e as realizações da Oficina Museu.

Desde 1996, paralelamente ao espaço de exposição, funciona a oficina onde Manuel Melo e outros artesãos locais desenvolvem vários trabalhos de artesanato, parcialmente vendido na loja do Museu.458 Essa oficina tem o estatuto de Unidade Produtiva Reconhecida com Comercialização Directa, pela Secretaria Regional da Economia dos Açores.

Em 2008, consciente do valor da sua Oficina Museu e preocupado com o futuro, após ter decidido em família, propôs à Câmara Municipal de Ponta Delgada a doação do espaço e da totalidade do seu espólio, com a contrapartida daquela edilidade suportar a construção de mais vinte oficinas, para os quais já possui o respectivo espólio.

Actualmente, Manuel Melo está a realizar o inventário de todo o espólio, por solicitação da referida Câmara Municipal, de forma a poder ser efectuada a respectiva avaliação patrimonial.

A funcionar em pleno, o futuro próximo da Oficina Museu está contudo em aberto.

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