A convicção de que a geração mais jovem é mais tecnologicamente competente do que as gerações anteriores se reflete em expressões como nativos digitais, sugerida por Marc Prensky (2001) e geração internet, promovida por Don Tapscott (2010). Já White (2008) discorda dos termos nativos e imigrantes digitais e aponta, como mais adequada, a terminologia residentes digitais e de visitantes digitais. Para o autor, os residentes digitais possuem uma presença online que desenvolvem constantemente, enquanto os visitantes se logam, realizam uma tarefa determinada e depois se desconectam.
Nessa pesquisa, é adotada a expressão nativos digitais (Prensky, 2001) para designar os sujeitos que desde muito cedo começaram a lidar com a tecnologia e seus dispositivos tecnológicos, e apresentam familiaridade com o universo digital:
Os alunos de hoje – do maternal à faculdade – representam as primeiras gerações que cresceram com esta nova tecnologia. Eles passaram a vida inteira cercados e usando computadores, vídeo- games, tocadores de música digitais, câmeras de vídeo, telefones celulares, e todos os outros brinquedos e ferramentas da era digital. […] Os jogos de computadores, e-mail, a Internet, os telefones celulares e as mensagens instantâneas são partes integrais de suas vidas. […] Como deveríamos chamar estes ‘novos’ alunos de hoje? Alguns se referem a eles como N-gen [Net] ou D-gen [Digital]. Porém a denominação mais utilizada que eu encontrei para eles é Nativos Digitais. Nossos estudantes de hoje são todos ‘falantes nativos’ da linguagem digital dos computadores, vídeo-games e internet. (PRENSKY, 2001, p. 1).
Nesse perfil, enquadram-se a maior parte dos alunos das séries a que são destinados os livros didáticos de Português analisados nessa pesquisa. E, como já foi mencionado nesse trabalho, os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, tendem a ser, no ensino regular, nativos digitais. Contudo, a oferta cada vez mais qualificada de tecnologias e de objetos multimodais e o acesso, desde muito cedo a eles, não implica em uma apropriação direta e competente da leitura desse material por parte do leitor nativo digital; são necessários letramentos, desde o letramento
impresso ao letramento digital. “Embora as mídias e seus processos de edição tenham impacto sobre a oferta de eventos de letramento dos cidadãos, a escola continua sendo uma das mais fortes agências de letramento” (RIBEIRO, 2016, p. 47).
Portanto, cabe aos educadores e pesquisadores atentarem para o potencial dos nativos digitais, reconhecendo que, embora eles, em sua maioria, sintam-se confortáveis e destemidos diante da tecnologia, sendo capazes de realizar múltiplas tarefas, ainda há muito para ser trabalhado pela escola:
O universo das redes é um espaço em constante mutação, dispersivo e assistemático. O que ele tem de positivo, a oferta desmedida de informação que pode fortalecer a aprendizagem é contrabalançado, no outro extremo, pela ausência de orientação cujos efeitos negativos atingem particularmente aprendizes ainda imaturos. (SANTAELLA, 2013, p. 305).
Além de tudo, como apontam Dudeney, Hockly e Pegrum (2016), o fascínio característico da Geração Y pela descoberta e experimentação deve ser explorado pela escola, de forma a direcioná-la para um ensino e uma aprendizagem que dialoguem e interajam com os novos meios tecnológicos, já que muitos deles são imunes a uma mentalidade pré-digital e muito receptivos aos usos criativos da tecnologia. É o que também aponta Prensky (2001, p.2):
Os Nativos Digitais estão acostumados a receber informações muito rapidamente. Eles gostam de processar mais de uma coisa por vez e realizar múltiplas tarefas. Eles preferem os seus gráficos antes do texto ao invés do oposto. Eles preferem acesso aleatório (como hipertexto). Eles trabalham melhor quando ligados a uma rede de contatos. Eles têm sucesso com gratificações instantâneas e recompensas freqüentes. Eles preferem jogos a trabalhar ‘sério’.
Dudeney, Hockly e Pegrum (2016), assim como Prensky (2001), reconhecem que boa parte dos nativos digitais estão dispostos e aptos a gastar bastante tempo experimentando tecnologias digitais a ponto de desenvolverem considerável habilidade, da qual os professores podem se valer. No entanto, os autores declaram que estudos empíricos demonstram que a noção de uma geração digitalmente competente é mito, e justificam sua assertiva:
Primeiro, fatores óbvios como a posição socioeconômica, nível de educação e localização geográfica, assim como os fatores menos
óbvios, como gênero, raça e língua, têm grande impacto, tanto no acesso quanto nas habilidades digitais, criando uma crescente muralha digital. […] Segundo, mesmo que muitos deles sejam experientes no uso da tecnologia para entretenimento e propósitos sociais, frequentemente precisam de orientação para usá-la no caso de objetivos profissionais ou educacionais e para desenvolver uma compreensão crítica das potencialidades e armadilhas tecnológicas. (DUDENEY; HOCKLY; PEGRUM, 2016, p. 25-26).
De fato, pensar na posição socieconômica de alunos de escolas públicas do Brasil suscita a ponderação dos autores. Além disso, muitas dessas escolas não possuem o aparato tecnológico nem uma conexão com a internet adequada para possibilitar aos docentes algumas práticas de letramento digital. Soma-se a isso a efetiva formação continuada de professores, que nem sempre ocorre no que tange ao universo de educação e novas tecnologias.
Portanto, é importante desconstruir a ideia de que todos os nascidos em tempos de internet são nativos digitais e que já sabem tudo. Para Coscarelli e Kersch (2016, p. 13), eles “[...] dominam, sim, algumas ferramentas e alguns comandos (em especial os relacionados às redes sociais), mas há muito a ser ensinado quando pensamos no uso das tecnologias para a produção de conhecimento”. Essa geração não tem a tecnologia como novidade, mas sim como parte integrante de seu mundo; de certo, é o caso da maior parte dessa geração de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental:
Nesse contexto, é impossível que a escola, instituição responsável pela formação desses indivíduos, trate o uso das TICs como uma inovação, quando seu acesso e uso são comuns entre os novos cidadãos. Dessa forma, agregar o letramento digital ao currículo e promover atividades em que o uso das ferramentas disponíveis no mundo virtual colabore com a construção do conhecimento é crucial para o processo de ensino-aprendizagem. (MATIAS, 2016, p.167). Conceber o discente, em sala de aula, como o nativo digital que provavelmente é, e aproveitar o seu potencial para desenvolver atividades com propriedade em um mundo cada vez mais tecnológico, é trabalhar para desenvolver o letramento digital. Trabalhar os gêneros discursivos digitais, sugeridos ou não no livro didático, em sala de aula, oportuniza esse tipo de letramento, uma vez que são necessárias novas ferramentas de áudio, vídeo, tratamento de imagem, edição, diagramação, dentre outras práticas. Quando a escola enfoca o letramento digital, ela considera a necessidade de os estudantes dominarem um conjunto de informações e habilidades
mentais que devem ser trabalhadas com urgência, a fim de capacitar o mais rápido possível os indivíduos a viverem como verdadeiros cidadãos neste novo milênio cada vez mais cercado por máquinas eletrônicas digitais.
4.3 LIVROS DIDÁTICOS DE PORTUGUÊS NO ENSINO BRASILEIRO: FONTE DE