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Nessa primeira estada no local da pesquisa, começou-se a anotar os hábitos de vida da família que proporcionou a hospedagem, a exemplo dos horários de dormir, de acordar, de fazer as refeições, de trabalhar, bem como o tipo de alimentação e os afazeres de cada um, enfim, viveu-se o cotidiano da família. Pressupunha-se que esses dados seriam de grande valia no comparativo geral com os mesmos dados que fazem parte do formulário a que outras pessoas responderam. Continuou-se a fazer esse trabalho na segunda parte da pesquisa, nos dias 1, 2 e 3 de setembro, quando se voltou ao assentamento para concluir o levantamento dos dados da pesquisa.

Considerou-se importante fazer anotações para depois relatar horários das atividades dos membros da família e das refeições, além dos tipos de alimentos consumidos, como o fez Candido (1998, p. 131-138):

Pela manhã, toma café simples. A expressão é não raro eufêmica, pois grande número de parceiros bebe, sob esta designação, um pouco de pó fervido na garapa, que faz assim as vezes de água e açúcar. A quantidade de pó varia conforme as posses de cada um, costumando-se, mesmo, beber garapa fervida sem ele. O café propriamente dito é, em muitas casas, reservado para visitas e

ocasiões especiais. Nas festas é de rigor, e o homem da cidade nem sempre compreende como a sua ocorrência nelas pode, por si só, constituir atrativo.

Eis o relatório dos dias vividos no sítio:

Em geral o casal se levanta bem cedo, por volta das 6 horas. A filha mais velha, de 24 anos, e o filho, de 16, levantam-se cerca de uma hora depois. A caçula, que tem 8 anos, permanece dormindo até mais tarde. Após o café da manhã, o chefe da família se dirige a Massaranduba, transportando passageiros em sua caminhonete. O garoto vai também, pois estuda na cidade. A moça cuida primeiro dos animais de pequeno porte (bodes, cabras, galinhas, perus e galos), e depois da limpeza da casa. A mãe se encarrega da cozinha e do atendimento na bodega.O almoço só é servido depois que o dono da casa retorna, por volta das 13h30min. O resto da tarde é dedicado pelas mulheres aos afazeres domésticos,enquanto os homens se encarregam da bodega e de outras atividades. No final do dia é hora de recolher os animais (bodes, cabras e cabritos), o que compete às filhas, já que esses animais são delas, que os vendem quando precisam comprar roupas e calçados ou outros objetos de uso próprio.

O jantar é servido entre 19 horas e 19h30min, em frente ao aparelho de televisão que fica na sala de jantar. As novelas são, de longe, o programa preferido da família, mas os noticiários também são vistos. Percebe-se aqui a forte influência desse meio de comunicação de massa sobre aquele grupo, especialmente nos jovens, que não desgrudam o olho da telinha quando estão no ar as tramas novelescas. Há como que uma intimidade entre espectadores e personagens, pois aqueles se referem a estes como se fossem pessoas do seu convívio. Assim pensa Marcondes Filho (1990, p. 9) a esse respeito:

De fato, diferente do contato com vizinhos, parentes ou amigos, a relação das pessoas com a TV é mais fácil. Elas não precisam responder (basta ouvir o que a TV fala), e têm o controle total da ação (podem decidir se querem ou não o contato). Porém, ao mesmo tempo, a televisão isola completamente as pessoas, sem que elas percebam. Vendo apresentadores, cenas, entrevistas, elas têm a ilusão de participarem do ambiente. Essa presença, contudo, é apenas imaginária, só existe na cabeça do telespectador. Na realidade, ele está muito só, embora sua solidão seja bastante diferente da solidão propriamente dita – a solidão existencial [grifo do autor].

Com efeito, naquela família havia um quê de solidão entre seus membros, cada um voltado para o que passava na TV, e com isso não conversavam, não trocavam idéias. Ou seja, o veículo de comunicação interferia na comunicação entre as pessoas, isolando-as, e elas nem se davam conta disso. A dona da casa, vez por outra, tentava entabular uma conversação, mas era interrompida pelos filhos, que davam a entender não quererem ser interrompidos, pois estavam mais interessados em assistir a programação televisiva. O horário de dormir, habitualmente, é entre 22h30min e 23 horas.

Chamou a atenção o fato de o consumo de frutas ser mínimo, nessa família, como de resto nas demais com quem se conversou. Os sitiantes alegam que não há, hoje, praticamente fruteiras no assentamento, por conta da seca prolongada que durou cinco anos e exterminou as árvores frutíferas, na sua maioria.

Na casa em questão, pôde-se observar que os membros da família comeram laranja cravo, banana pacovan e maçã compradas na feira. Tudo de forma um tanto desordenada, ou seja, no intervalo entre as refeições, como para aliviar a fome até chegar a hora de almoçar ou jantar, não exatamente como um lanche, com hora marcada, mas como uma forma de satisfazer um desejo.

Vale salientar que o ovo frito incluído no cardápio visava a agradar a pesquisadora, que não come carne vermelha, o mesmo podendo-se dizer do peixe, visto que a preferência da família era pela carne de boi, em geral frita no óleo. Era visível a vontade de agradar em todos os membros da família, procurando deixar a estada da visita o mais agradável possível, o que parece ser uma das características do morador da zona rural. A vontade de agradar chegou ao ponto de colocar a pesquisadora para dormir na mesma cama de casal em que dormem as duas filhas, o que obrigou a mais nova a ter que dormir num outro local.