Para Livingstone (2005), as Ciências Sociais são uma boa “casa” para albergar as investigações sobre os novos media, ao permitirem a sua deslocação de “simples afirmações de determinismo tecnológico em favor do determinismo social ou do determinismo tecnológico ‘soft’” (25):
79 “A alegação de que todos os aspectos da sociedade – do
trabalho à vida familiar, da política ao entretenimento, da religião à sexualidade – são afectados pelas inovações nas tecnologias da informação e comunicação facilmente cai no tipo de determinismo tecnológico que as ciências sociais actualmente largamente criticam.
(…) Em vez de considerar a inovação tecnológica como a causa e sociedade como o efeito, as ciências sociais, pelo contrário, procuram compreender como o tecnológico em vez de ser uma esfera separada da vida social é parte do que faz a sociedade possível” (22).
Livingstone vai ainda mais longe, ao situar-se também ao nível das Ciências Sociais, quando recusa a dicotomia pessimistas/optimis- tas, “típica” desta área do conhecimento, e colocando o foco da análise no conceito de mudança social e nos valores40, aspectos que nos são
muito caros neste trabalho (e ficaram bem patentes no ponto anterior):
”(…) o papel pivotal da mudança social ao fornecer o enquadramento para a relação tecnologia-sociedade é uma via responsável, deixando o campo muito orientado para o futuro e direccionado para políticas (policy-directed), apesar da preferência dos cientistas sociais pela análise do passado e do presente. Com esta orientação para o futuro vem um enfoque, implícito ou explícito, nos valores, ou mesmo em ideologias políticas” (23).
Winston (2004) adopta uma perspectiva ainda mais radical contra o determinismo tecnológico e considera o conceito de revolução da informação (information revolution) como uma “hipérbole”: “ (…) a tempestade do progresso sopra tão forte que obscurece a nossa visão daquilo que está a acontecer na realidade. Aquilo que é hiperbolizado como uma cadeia revolucionária de eventos pode ser visto como um processo muito mais evolucionário que transformador” (Winston, 2004: 1).
Para Winston, tem havido uma “continuidade fundamental” na forma como as civilizações ocidentais têm evoluído ao longo dos três últimos séculos, uma característica que se mantém. Sustenta que “o conceito de ‘information revolution’ é implicitamente histórico, pois como podemos nós saber que uma situação mudou – deu uma volta – sem conhecer o seu estado ou posição anterior?” (82). Nesta linha de raciocínio, também a noção de “uma ‘Era Digital’ (considerada outro slogan hiperbólico) coloca implicitamente a existência de outras eras anteriores ‘não-digitais’” (82): daí o propósito do autor de examinar a
40. A orientação de Livingstone para os valores resulta, como explica a autora, de uma orientação para o futuro. Na mesma linha de raciocínio trabalha Helena Sousa (Sousa, 2006), a propósito da relação entre as tecno- logias da informação e comunicação e a mudança social, em particular para o caso português: “O presente pode ser o lugar da acção colectiva e individual, mas as visões do futuro, ideais e utopias guiam as nossas acções. As imagens do futuro são realidade no sentido de que orientam a acção humana e produzem efeitos sociais. Os imaginários individual e colectivo e as expectativas são reais (apesar da sua ‘imaterialidade’) na medida em que produzem conse- quências sociais” (381). E conclui para o caso português: “ (…) a expansão do acesso à informação e a escalada do (altamente fragmentado) debate em fóruns da internet paracem uma base insuficiente para uma mudança paradigmática” (385).
evolução da tecnologia associada aos media, ao longo da história, atra- vés da aplicação de um modelo explicativo do processo de mudança:
“Não há nada na história dos sistemas de comunicação eléctrica e electrónica que indique que grandes mudanças significativas não tenham sido acomodadas por forma- ções sociais pré-existentes. O termo ’revolução’ é, por isso, a palavra errada a aplicar à situação corrente. De facto, é possível ver no registo histórico não só um ritmo mais lento de mudança do que aquele que é habitualmente sugerido, mas também tais regularidades no padrão de inovação e difusão sugerem a possibilidade de um modelo para todas essas mudanças” (2).
E converge com Livingstone (2005) ao invocar um enquadra- mento social para a compreensão das mudanças em causa:
“Um modelo que reflicta esses padrões sugere implicita- mente o primado da esfera social como o lugar dessas actividades, condicionando e determinando os desenvol- vimentos tecnológicos. Permite-nos ir para lá de um relato simples da história da tecnologia, para colocar questões mais gerais sobre como o padrão de inovação e difusão das comunicações eléctricas e electrónicas ilumina o papel mais vasto desempenhado por essas tecnologias na nossa civilização” (2).
Este modelo pressupõe uma interpretação da história das tecno- logias de comunicação e um exame da posição actual que ocupam na nossa cultura, o que implica levar em conta “ (…) os aceleradores e travões, as necessidades sociais e constrangimentos, em vez de um exame do desempenho da tecnologia ‘no vácuo’” (Winston, 2004: 15). Apenas um aparte para registar que a importância ou valorização desta dimensão histórica pode ler-se também na produção científica que começa a surgir sobre temas mais específicos como é o caso da história (recente) do jornalismo digital, que representa uma necessidade que já é sentida pelos investigadores da área (Scott, 2005).
E Winston resume a sua argumentação àquilo que denomina uma “lei da supressão do potencial radical”:
”Usei este relato para construir um argumento contra o determinismo tecnológico, defendendo, em alternativa, que os factores sociais, culturais, políticos e económicos são determinantes primordiais da mudança tecnoló- gica. De passagem, contestei o conceito de Information Revolution, dando especial atenção à hipérbole retórica
81 que engendrou. Em vez disso, sugeri que a mudança é
atingida lentamente. Fundamentei a minha argumentação no padrão dos desenvolvimentos efectivos que levaram à criação e difusão das várias tecnologias de comunica- ção na maior parte dos últimos dois séculos. Apesar de uma retórica que sugere veemente o contrário, o padrão persiste. Usei o modelo para indicar a primazia da esfera social, ao condicionar a forma como os tecnólogos trabalham. Procurei demonstrar como as forças sociais empurram e dificultam esses desenvolvimentos forçando, nesse processo, um ajuste social sobre eles. Esse ajuste social é conseguido essencialmente suprimindo o poder disruptivo da tecnologia para ter um impacto radical em formações sociais pré-existentes. Formulo isto como uma ‘lei’ da supressão do potencial radical” (2004: 342).
Já Chester (2007) tem uma posição diferente da de Winston (2004), ao atribuir muito mais poder transformador às mudanças indu- zidas pela tecnologia e pelos novos media, mas fá-lo denunciando o papel dos media, quando dominados pelo mercado e pela procura do lucro. Destaca os efeitos dessa condição para democracia, numa situa- ção de controlo pelos media, potenciado pela tecnologia, e evidencia uma quase impotência do público/cidadãos para compreenderem as mudanças que se estão a operar:
“Estamos na véspera da emergência do sistema de comu- nicações e de media mais poderoso que alguma vez exis- tiu (…). Estas tecnologias vão rodear-nos, submergir-nos e estarão sempre ligadas onde quer que estejamos – em casa, no trabalho ou em lazer. Teremos acesso, se tiver- mos dinheiro para isso, a um conjunto cada vez maior de notícias, entretenimento e comunicações de todo o mundo (…). As mudanças que estamos a testemunhar no nosso sistema mediático estão a ocorrer a um ritmo estonteante. Cada dia, parece haver mais uma inovação tecnológica ou o anúncio de mais uma fusão na indústria ainda maior. É difícil para qualquer pessoa acompanhar estes desenvolvimentos, quanto mais ter um entendi- mento claro daquilo que em última análise significam para a sociedade” (Chester, 2007: xv).
A visão de um público inevitavelmente conduzido e afastado enquanto instância de decisão, defraudado pelas promessas dos “espe- cialistas e apoiantes da indústria” de que a noção tecnologia de comu- nicação “iria tornar o nosso sistema fundamentalmente mais democrá- tico” (xvii) é marcada em Chester. Não descuramos ou ignoramos as
dificuldades crescentes que se sentem quando se tenta acompanhar a actualidade, mas acreditamos que a variável “cidadãos” poderá ser mais activa do que Chester preconiza, sem cair numa lógica excessivamente “optimista”:
“Os media empresariais sabem para onde nos querem levar. Se eles forem bem-sucedidos, há a probabilidade de que venhamos a viver num sistema de comunicações que nos oferece entretenimento deslumbrante e que procura cumprir todos os nossos desejos de consumidor. Contudo, não vai contribuir significativamente para melhorar as nossas vidas e a nossa democracia. Corremos o risco de servir apenas como observadores (…) (xvi).
Comparando a posição de Chester com os autores anteriormente citados, e com o que se segue, penso que podemos dizer que ela está muito mais do lado de uma lógica determinística, mas numa vertente pessimista, no sentido em que a sua argumentação incide essencial- mente nas falácias do potencial das novas tecnologias e na dimensão de controlo que têm subjacente:
“Hoje, muitos acreditam que o nosso sistema mediático electrónico está entrar numa era dourada permanente, onde uma série infindável de websites, bloggers e strea- ming de vídeos, com uma variedade espantosa de vozes, desafiam os gigantes mainstream dos media. Essas vozes independentes e perspectivas irão continuar indubitavel- mente a fazer parte das nossas vidas digitais. Mas não há qualquer garantia de que tal diversidade não será electro- nicamente marginalizada pelos planos da actual indústria de media e publicidade, para assegurar que ela se mantém na primeira linha da nossa atenção” (xx).
Briggs & Burke (2006) também rejeitam as simplificações do determinismo tecnológico, mas centram-se especificamente na dimen- são da mudança, relembrando, contudo, que “os estudantes de comu- nicação deveriam perceber que alguns fenómenos nos media são mais antigos do que é geralmente reconhecido” (3).
Para estes autores, apesar das continuidades, há mudanças nos media que devem ser compreendidas e estudadas, mas procurando evitar dois perigos: “assumir que tudo piorou ou assumir que tem havido uma melhoria contínua” (4). E também precisam de ser discutidas “(…) as afirmações acerca da internet e do seu potencial como agente de ‘democratização’”, já que, para Briggs & Burke, “não é possível, a esta
83 altura da sua história, concluir que, através do alargamento do acesso e
da sua transformação ‘a partir de baixo’, venha, a longo prazo, a cumprir esse papel. Há já críticos que temem que mine todas as formas de ‘auto- ridade’, afecte negativamente o comportamento e prejudique a segu- rança individual e colectiva (4). Ou seja, é importante concentrarmo-nos nos processos de mudança, embora seja relevante não perder de vista que “à medida que os novos media foram sendo introduzidos os mais velhos não foram abandonados, mas souberam coexistir e interagir com os recém-chegados” (Briggs & Burke, 2006: 4).
Sobre a divisão nas ciências sociais entre os que enfatizam a “estrutura” e a “acção” (agency), ou entre os pessimistas e os optimis- tas, já referida por Livingstone (2005), observam:
“Por um lado, há os que defendem que não há consequên- cias dos computadores enquanto tal (…) Só há consequên- cias para os indivíduos que usam essas ferramentas. Por outro lado, há os que sugerem que a utilização de um novo meio de comunicação muda inevitavelmente os pontos de vista das pessoas sobre o mundo, a longo prazo se não antes. Um lado acusa o outro de tratar as pessoas comuns como passivas, como objectos submetidos ao impacto da literacia ou da computorização. A acusação inversa é de tratar os media, incluindo a imprensa, como passivos, como espelhos da cultura e sociedade, em vez de serem agentes que transformam a cultura e a sociedade” (12).
Quanto a esta dicotomia, Briggs & Burke defendem uma lógica, claramente sustentada na evolução histórica dos media e do Jornalismo, de convivência entre os diferentes media e da avaliação das transfor- mações que ocorrem no campo dos media à luz do que acontece nos outros campos da sociedade:
“(…) velhos e novos media podem coexistir, e efectiva- mente coexistem, e diferentes media podem competir entre ou si repercutir-se uns nos outros, mas também podem complementar-se. As mudanças no sistema dos media também têm de ser relacionadas com mudanças nos sistemas de transportes, na movimentação de bens e pessoas no espaço (…) A comunicação de mensagens é uma parte do sistema de comunicação física” (19). “É um tema recorrente na história da cultura que quando um novo género ou meio aparece, os géneros ou meios anteriores não desaparecem completamente. O velho e o novo (…) coexistem e competem até que eventualmente
“Que as mudanças nos media têm tido importantes conse- quências sociais e culturais é genericamnete ceite. A natureza e alcance dessas dessas conse- quências é que são assuntos mais controversos” (Briggs & Burke, 2006: 9).
seja estabelecida uma determinada divisão do trabalho ou de funções (37).
Até este momento, procurámos situar-nos na relação sociedade- -tecnologia, no sentido de adoptar um caminho diferente daquele do determinismo tecnológico, alicerçado numa lógica que não descura o papel da técnica na sociedade, mas avalia esse papel a partir do conceito de mudança, sendo esta entendida a partir de uma dimensão histórica e evolutiva, em que a tecnologia é compreendida e avaliada no contexto das outras forças/agentes que actuam na sociedade. Feito este ponto de situação, vamos agora afunilar o nosso raciocínio para os campos que nos interessam em particular: o dos media e do Jornalismo.