A escola onde centrámos o nosso estudo, pode considerar-se como uma organização privilegiada, podendo-se até admitir, considerá-la como escola de eleição. Para além do manifesto contentamento e contexto favorável, observável ao longo da nossa intervenção no contexto escolar, a escola transpareceu-se como uma organização onde é notória a estabilidade nas relações afectivas entre os principais actores, admitindo-se, no entanto, que pairam no ar, alguns constrangimentos e conflitos, que nos conduziram a considerá-la como arena política, no contexto da temática organizacional.
Para além de outras opiniões generalizadas, considerou-se relevante para fundamentar o gosto manifestado pelos inquiridos face à escola a análise de dois indicadores de interacção: um, relativo aos professores – o gosto pela escola – verificável através do facto da grande maioria, 93,8%, (anexo 6 – Quadro 7), gostarem desta; o outro, relativo aos alunos – opção por esta escola – que aponta para o facto de 85,9% (anexo 6 –
Quadro 8), escolher, por vontade própria, a frequência nesta escola. Pese embora, sendo a
única escola secundária na vila, verifica-se que, a frequentam alunos das vilas próximas e a possibilidade de opção pelas escolas da cidade, que já referimos – Coimbra – é suficientemente acessível à comunidade pela facilidade de transportes públicos, nomeadamente por comboio.
Os professores justificam o seu gosto pela escola através, essencialmente, de dois indicadores: a curta distância entre a sua residência e a escola (B) e o facto do contexto geral da escola ser agradável (C). Assim, no que se refere à distância, 55,3% dos inquiridos manifesta (como 1ª ou 2ª opção), a importância deste indicador no seu gosto pela escola; no que respeita à agradabilidade da escola, 69,2% dos professores referem (como 1ª ou 2ª opção) este factor como o mais relevante. Estes dados podem ser confirmados através da análise do gráfico 10.
Gráfico 10: Motivos do gosto pela escola por parte dos professores 0 10 20 30 40 50 60 A B C D E F Indicadores % 1ª opção 2ª opção Legenda / Indicadores: A. Por implicação do Sistema
B. Porque se situa perto da minha residência C. Porque o contexto geral da escola é agradável
D. Porque o meu grupo disciplinar tem um bom relacionamento
E. Porque os alunos são na generalidade bem comportados não causando problemas de relacionamento F. Outra: qual?
Com a intenção de reforçar, de tornar claras e justificar as afirmações referidas, torna-se pertinente caracterizar a escola através das opiniões manifestadas pelos actores, quer ao nível do contexto geral, quer ao nível mais especifico, através da manifestação das opiniões do contexto escolar na intervenção/cooperação na reforma.
Passando-se à análise do funcionamento da escola, verifica-se que nela se cultivam interrelações que, de acordo com a Presidente do Conselho Executivo, “são facilitadoras na gestão organizacional criando um ambiente favorável, que qualifica e contribui para a melhoria das interacções no contexto educacional”.
O Presidente da Associação de Pais manifesta o seu posicionamento quanto às relações existentes na comunidade educativa, realçando o “carácter de cordialidade entre o Conselho Executivo, normalmente por nossa iniciativa, mantendo uma relação de relativa proximidade, ou seja, somos bem recebidos, somos ouvidos e esclarecidos quando trazemos alguma questão. No entanto, sentimos que ainda há espaço para melhorar esta relação, até sermos considerados completamente parceiros. Os Encarregados de Educação recorrem só em caso de necessidade; os alunos, raramente, só quando necessitam de apoio; predomina uma boa relação, recepção e aceitação por parte do Conselho Pedagógico e também uma boa colaboração com o poder local”. Ao nível do relacionamento, os professores são unânimes, conforme se mostra no gráfico 11, quando concordam que existe um bom relacionamento do Conselho Executivo com os professores e com os alunos (A e
se, ainda, a boa relação professores/alunos e a ajuda que os professores disponibilizam na resolução dos seus problemas (D e E), como também, a ênfase no relacionamento dos directores de turma com os alunos (G). Consideram os professores, que ao nível do relacionamento com os serviços administrativos (I), com o pessoal auxiliar (J) e com os encarregados de educação (M), as relações são também muito positivas. Apenas se verifica uma razoável cooperação dos professores nas dinâmicas estabelecidas através das actividades extracurriculares (F). Parece-nos pertinente esclarecer, que sendo uma escola secundária, as questões que se prendem com o rigor pedagógico, (a todos os níveis), mas, com enfoque para o cumprimento dos objectivos programáticos, possa ser, o factor indutor para que as actividades referidas não sejam tão reforçadas.
±Std. Dev. ±Std. Err. Mean Gráfico 11: Opinião dos Professores sobre o relacionamento na escola
1 2 3
A B C D E F G H I J L M
Legenda / Indicadores:
A. Relacionamento do Conselho Executivo com os professores G. Relacionamento dos directores de turma com os alunos B. Ajuda do Conselho Executivo na resolução dos problemas
dos professores
H. Ajuda do director de turma na resolução dos problemas dos alunos
C. Relação do Conselho Executivo com os alunos I. Receptividade por parte dos serviços administrativos na resolução dos problemas dos alunos D. Relação professores/alunos J. Relacionamento do pessoal auxiliar com os professores E. Ajuda dos professores na resolução dos problemas dos alunos L. Relacionamento do pessoal auxiliar com os alunos F. Dinâmica professores/alunos em actividades extracurriculares M. Receptividade da escola com os encarregados de educação
Nota: A escala de valores considerada foi: 1. Bom; 2. Razoável e 3. Insatisfatório
Ao nível das interrelações existentes na escola, foi utilizada para os alunos a mesma escala de valores e os mesmos indicadores, embora adaptados, que se utilizaram para os professores, tendo os alunos manifestado, de uma forma global uma apreciação mais
o esforço destes nas tentativas de resolução dos seus problemas (G e H). Manifestam ter um bom relacionamento com os professores, acentuando o papel da ajuda destes na resolução dos seus problemas e no esclarecimento de dúvidas (C e D). Consideram razoável a relação com o Conselho Executivo e com o pessoal auxiliar (A e J). A insatisfação dos alunos ao nível do relacionamento, é também apontada, nas dinâmicas das actividades extracurriculares (F) (como já o tinham manifestado os professores), mas também, ao nível dos serviços administrativos (I) e com a Associação de Estudantes (L). Saliente-se que, estas opiniões sofrem na sua generalidade, uma grande dispersão, notando- se um posicionamento, por parte dos alunos, menos favorável em relação ao relacionamento estabelecido na escola, conforme valores assinalados no gráfico 12.
±Std. Dev. ±Std. Err. Mean Gráfico 12: Opinião dos alunos sobre o relacionamento na escola
1 2 3
A B C D E F G H I J L M
Legenda / Indicadores:
A. Relacionamento do Conselho Executivo com os alunos
B. Ajuda do Conselho Executivo na resolução dos problemas dos alunos H. Ajuda do director de turma na resolução dos problemas dos alunos C. Relação professores/aluno I. Receptividade dos serviços administrativos na resolução dos problemas
dos alunos
D. Ajuda dos professores na resolução dos problemas dos alunos J. Relacionamento do pessoal auxiliar com os alunos E. Ajuda dos professores no esclarecimento de dúvidas L. Relacionamento dos alunos com a associação de estudantes G. Relacionamento dos directores de turma com os alunos M. Receptividade da escola com os encarregados de educação
Relativamente ao funcionamento da escola, podemos verificar, a partir da análise do gráfico 13, numa forma comparativa, as questões relacionadas com a opinião dos professores e dos alunos.
Gráfico 13: Opinião dos professores e dos alunos sobre o funcionamento da escola(Média)
1 2 3 A B C D E F G H I J L M Indicadores E s c a l a Prof essores Alunos Legenda / Indicadores: A. Instalações da escola B. Equipamento da escola C. Funcionamento do bar D. Funcionamento da cantina E. Funcionamento da biblioteca F. Funcionamento da sala de estudo G. Funcionamento da reprografia H. Funcionamento da secretaria
I. Funcionamento do polivalente dos alunos J. Funcionamento da sala de directores de turma L. Funcionamento da Associação de Estudantes M. Funcionamento da Associação de Pais.
Nota: A escala de valores utilizada foi 1 – 2 – 3, que correspondem respectivamente a Bom – Razoável – Insatisfatório
Assim, numa apreciação-síntese verifica-se que os alunos assumem uma posição mais crítica do que os professores face ao funcionamento da escola. Constata-se que tanto os professores como os alunos, salientam o razoável funcionamento da biblioteca (E), da reprografia (G), da secretaria (H) e da sala de estudo (F), considerando estes os aspectos que melhor funcionam na escola. Ainda relativamente às instalações (A), ao equipamento (B) e ao bar (C) os professores e os alunos situam a sua opinião sobre o seu funcionamento considerando-o razoável. No que respeita ao funcionamento do polivalente (I), da associação de estudantes (L), e do funcionamento da associação de pais (M), quer os professores, quer os alunos, têm uma perspectiva menos positiva destes aspectos. No que concerne ao funcionamento da cantina (D) os alunos situam-se numa posição mais crítica
directores de turma (J), em que os professores têm uma perspectiva mais crítica do que os alunos.
A este respeito do funcionamento da escola, o Presidente da Associação de Pais afirma que “a escola está a necessitar de uma profunda revolução. O espaço é escasso e sem capacidade de crescimento, os edifícios revelam o peso dos anos e os equipamentos só com muita dificuldade acompanham a evolução. O número de alunos é superior à sua capacidade real, facilmente conduzindo à sobrelotação, que já existe”.
Face às opiniões manifestadas relativamente ao funcionamento da escola, poderemos referenciar o posicionamento profissional e as expectativas dos professores, através da interacção das diferentes opiniões sobre a análise do seu perfil docente, partindo dos seus valores e gostos pela profissão e tendo como pano de fundo, o enquadramento específico desta escola.
±Std. Dev. ±Std. Err. Mean Gráfico 14: Posicionamento profissional dos Professores
1 2 3 4 A B C D E F G H I J L M N O P Legenda / Indicadores: A. Sinto-me feliz por ser professor B. O ensino realiza-me profissionalmente C. Penso ser um bom professor D. O trabalho escolar aborrece-me E. O trabalho escolar é interessante
F. Mantenho boas relações com os meus alunos G. Dialogo com os meus alunos sobre outros assuntos da escola
H. Ajudo os meus alunos na resolução de problemas quando solicitada (o)
I. Na escola limito-me a ensinar os conteúdos disciplinares J. Na escola coopero nas actividades extracurriculares
L. Na escola mantenho uma boa relação com o Conselho Executivo
M. Na escola mantenho uma boa relação com os colegas de grupo/departamento
N. Gosto de desempenhar o cargo de Director (a) de Turma
O. Como Director (a) de Turma sinto-me mais próxima dos meus alunos
P. Gosto de desempenhar o cargo de Director(a) de Turma pela interacção que se estabelece com os Encarregados de Educação
Nota: As opiniões dos inquiridos foram manifestadas através da seguinte escala de valores: 1 – Acordo total, 2 – Acordo, 3 – Desacordo e 4 – Desacordo total
Constata-se que na generalidade os professores gostam da sua profissão (A), considerando-a como um trabalho interessante (E) que os realiza pessoalmente (B), proporcionando-lhes prazer (por oposição ao “trabalho escolar aborrece-me”). Mantêm uma boa relação com os alunos (F), cooperando, na medida do possível, nas ajudas solicitadas para além do ensino dos conteúdos (H, I).
Apesar do gosto pela profissão e pela escola, a intenção de mudança manifestada face ao actual sistema de ensino (cf. gráfico 15), leva-nos a deduzir que o eventual mal-estar docente poderá advir das instabilidades subjacentes ao sistema educativo. Neste contexto, as bases da mudança são generalizadas, e, segundo o Presidente da Assembleia de Escola, “é urgente que se repense os fundamentos da legislação que, em 1976, criou os órgãos escolares e lhes conferiu competências”.
O Presidente da Associação de Pais a este propósito, refere que “os professores necessitam de estabilidade e motivação para o desempenho das suas funções, que se agravam pelos sinais que parecem existir, de menor motivação por parte dos alunos, perante a escola”.
Perante o posicionamento dos professores e dos alunos subjacente às opiniões do actual Sistema de Ensino, poderemos constatar através do gráfico 15, as expectativas que apontam para a vontade de mudança ao nível do Ensino Secundário, a partir dos seus posicionamentos críticos perante o ensino actual.
Os professores e os alunos manifestam a sua concordância relativamente à necessidade de reforma nos currículos do Ensino Secundário afirmando a importância da existência de outras opções ao nível dos cursos tecnológicos (B e D), discordando que estes estejam desadequados à formação dos alunos para a vida activa (C). Esta posição de professores e alunos é reforçada quando discordam da afirmação “os currículos do ensino Secundário são satisfatórios”.
Gráfico 15: Posicionamento dos professores e dos alunos quanto ao actual Sistema do Ensino Secundário 1 2 3 4 A B C D Indicadores Escal a Professores Alunos Legenda / Indicadores:
A. Os currículos do Ensino Secundário são satisfatórios B. Os currículos do Ensino Secundário necessitam de reforma
C. Os currículos do Ensino Secundário Tecnológico estão desadequados na formação dos alunos para a vida activa D. Devia haver outras opções de cursos tecnológicos
Nota: Foi utilizada a seguinte escala de valores: 1 – Acordo total, 2 – Acordo, 3 – Desacordo e 4 – Desacordo total.
Perante os dados recolhidos sobre o funcionamento da escola, poderemos afirmar que, professores e alunos se manifestam, globalmente, satisfeitos face a esta escola em particular, apontando, contudo, alguns aspectos que, nas suas opiniões, poderiam ser melhorados, nomeadamente em relação ao funcionamento de um ou outro sector mais específico. Já no que respeita aos currículos do Ensino Secundário, as opiniões convergem no sentido de manifestarem a necessidade de uma reforma (não forçosamente esta reforma proposta), que aposte numa maior ligação à vida activa, através da implementação de novos cursos Tecnológicos, sendo, contudo, interessante verificar que, nos cursos Tecnológicos já existentes, o número de alunos que os frequentam é muito reduzido. No entanto, parece consensual, na opinião dos professores, alunos e pais (na voz do Presidente da Associação de Pais) a vantagem que haveria em criar outras alternativas ao nível destes cursos.