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O destino dos indivíduos socializados no seio da família é sair dela e levar uma vida independente, ingressando no terreno da sociedade burguesa. Neste nível os indivíduos se tornam realmente indivíduos independentes que tomam a si mesmos como fim de sua atividade. Enquanto membros da sociedade burguesa são pessoas privadas que têm por fim seu próprio interesse, o que é naturalmente uma meta egoísta. Este ser centrado em seu próprio interesse é o sujeito econômico tal e como foi pensado pelo liberalismo inglês. Os agentes econômicos entram em relações de trabalho e de troca configurando um sistema de necessidades que impõe tarefas diferentes aos agentes econômicos ( divisão do trabalho no sistema econômico ).

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Devemos esclarecer que a filosofia política de Hegel, como todo seu pensamento, encontra hoje muitas rejeições. Em razão de seu caráter teleológico e determinista, além de constituir um sistema fechado e hierarquicamente organizado. Por exemplo, é difícil aceitar que a monarquia prussiana, de confissão protestante, tenha sido o ponto culminante do amadurecimento do espírito universal. Como também é difícil de aceitar a proposta de Fukuyama, em seu chamado fim da história, de que a democracia liberal ocidental seja o substituto das velhas filosofias da história nascidas do idealismo alemão. Pois teríamos que acreditar que o sistema político norte-americano é o ponto máximo do amadurecimento do espírito humano.

Mas este sistema de egoísmo universalizado constitui, para Hegel, uma inversão que ameaça a integridade da mesma sociedade burguesa. Nessa ordem de pensamento, a idéia da coletividade, em seu conjunto, é um meio que está a serviço dos fins particulares dos indivíduos. Em certa forma Hegel se afasta da idéia liberal e utilitarista de que a procura de cada indivíduo por seu bem-estar levará ao bem-estar da vida coletiva. Pelo contrário, pensa que a consciência da sociedade burguesa é incompleta e alienada, sua universalidade é exterior a ela mesma. A organicidade do conjunto social se verá ameaçada pela acumulação da riqueza e a expansão da pobreza, isto sem que Hegel explicite os mecanismos da acumulação, o que somente será desenvolvido pela crítica de Marx ao capitalismo. A única saída que encontra a sociedade burguesa, pensa Hegel, é exportar suas contradições para compensar a miséria que ela mesma cria. Isto significa que é uma sociedade com vocação ultramarina e de conquista, posto que deverá oferecer a uma parcela de sua população a possibilidade de recomeçar em outro lugar a vida que em sua própria pátria lhes foi negada. Mas esta expansão imperialista é o que Hegel chama, em sua Lógica, uma “má infinidade”, cujo conteúdo puramente exterior é apenas negativo e fracassa em resolver positivamente a contradição da qual surgiu (LEFEBVRE e MACHEREY, 1999).

3.1.3.3 A corporação

Para garantir sua segurança e sua integridade, a sociedade burguesa deverá desenvolver uma mediação que lhe permita superar suas contradições ao mesmo tempo que abra a passagem para uma forma de organização social onde o interesse coletivo não seja um meio para a realização do interesse individual, isto é, o Estado.

Na corporação o indivíduo é mantido no lugar que lhe corresponde dentro do sistema global da sociedade burguesa, impedindo-o de se afastar dele para entrar na lógica infernal do lucro e da revolta. Para isto é instaurada uma forma de solidariedade associativa, baseada no seu trabalho e

na divisão geral na qual esse trabalho se inscreve. Não é uma solidariedade de fato, como na

corporação feudal, pelo contrário, é desejada e procurada para que sirva de intermediária entre a unidade imediata da família - Hegel fala da corporação como de uma segunda família- e a universalidade efetiva do Estado. A corporação representa o Estado no âmbito da sociedade

burguesa. Na corporação, ao mesmo tempo que se satisfaz a reivindicação individual pelo bem- estar, se transfigura o significado dessa reivindicação, conferindo-lhe um valor universal, isto é, fazendo dela um direito. Desta forma, fica amparada, ante a lei, a pluralidade dos ofícios que a divisão do trabalho institui.

Os cidadãos organizados em formas corporativas fazem a convergência de seu interesse individual e o interesse coletivo pelo caminho do socorro e da assistência mútua, isto é, da reciprocidade. Diz Hegel:

Na corporação, a assistência que cabe aos pobres perde ao mesmo tempo aquilo que tem de contingente e, muito erradamente, de humilhante, ao passo que a riqueza, nos deveres que a ela incumbem para com toda a comunidade cooperativa, perde aí ao mesmo tempo a arrogância e a inveja que pode suscitar, a arrogância nela mesma e a inveja nos outros: a retidão adquire aí seu verdadeiro reconhecimento e sua verdadeira honra (LEFEBVRE e MACHEREY, 1999, Parágrafo 253, p. 126).

A idéia que tem Hegel da corporação vai na contra-mão das atuações dos revolucionários franceses que legislaram contra as associações operárias. Desde a perspectiva hegeliana, agir assim é retornar a uma concepção abstrata e terrorista da ordem social. É acreditar que entre o universal –o Estado- e os particulares –os indivíduos- possa se estabelecer uma relação direta sem mediações. Hegel reconhece que nos estados modernos o cidadão só tem uma participação limitada nos negócios universais do Estado, por isso é necessário proporcionar ao homem uma atividade exterior aos seus próprios fins privativos. O universal que o Estado nem sempre lhe oferece, ele o encontra na corporação.

Onde a corporação deixa de cumprir seu papel, surge a revolta e o populacho, que não é nada diferente à corporação dos que não têm corporação, dos descontentes que não puderam aprender sua dignidade de ser social. A revolta surge quando a corporação deixa de cumprir seu papel. Em resumo: o espírito corporativo define-se porque encarna o universal –isto é, o sentido comunitário que afasta o indivíduo das metas egoístas- tomando como ponto de partida o privilégio legalmente reconhecido a uma determinada atividade, no âmbito da divisão do trabalho própria da sociedade burguesa.

A idéia de que a corporação moderna é a forma de organização social que melhor equilibra a satisfação do próprio interesse (egoísmo) e a defesa do interesse coletivo (direito) e o auto- governo (liberdade política), é um denominador comum que encontramos em Tocqueville e Hegel. De forma análoga, será assunto central na teoria da integração social de Durkheim, porém o esforço do grande sociólogo francês é decifrar como podem manter-se coesas as sociedades modernas se nelas impera o individualismo moral.

Gráfico No17 Elementos constitutivos da corporação moderna

Fonte:elaboração própria

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