4. Discussion et conclusion
4.3 Limites et perspectives
Nosso trabalho se refere às mulheres nascidas nas décadas de 30 e 40. São hoje idosas formadas segundo um modelo tradicional de gênero, as quais permaneceram na esfera do privado e os homens no mundo do trabalho.
A sociedade patriarcal na qual foram socializadas atribuía um papel passivo a elas. Permaneciam em casa, obedientes e servis. O padrão de seus sonhos e projetos de vida era ter um marido, uma casa e filhos para cuidar.
Das seis entrevistadas duas nunca trabalharam fora, três trabalharam quando solteiras e uma começou a trabalhar depois que os filhos cresceram, mas atualmente não trabalha fora.
LUGAR DE MULHER É EM CASA
“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas” Mulheres de Atenas (Chico Buarque e Augusto Boal)
O discurso das entrevistas foi marcado pela ambigüidade, contradição, amargura, desgosto, pelo conflito de valores e de papéis, por acusações, desejos reprimidos, rancores, mágoas, ressentimentos, decepções. Foi recorrente a imposição de valores por parte dos maridos. Embora três delas relatassem que o papel de dona-de-casa tenha sido uma opção individual, revelaram inúmeras vezes, em diferentes momentos de suas vidas, terem sentido vontade de trabalhar fora de casa.
Cabe, pois, refletir sobre este desejo tantas vezes reprimido. Uma vez que sentiram tal desejo, o que as conduziu a não trabalhar?
As falas das entrevistadas indicam que, para os maridos, oriundos de uma cultura patriarcal, prevaleceu a máxima “lugar de mulher honesta é em casa”, cuidando dos filhos e da casa. Segundo Muraro (1970; 83) “o homem tradicional é
irmãs e a esposa colocadas em uma redoma de santidade e do outro lado, as outras, as ‘decaídas’ ou mundanas num submundo”.
O sistema patriarcal privilegia a autoridade do homem sobre mulher e filhos, sobretudo no âmbito familiar. Para o exercício desta autoridade o patriarcalismo deve preponderar na organização da sociedade e da cultura. A família patriarcal tradicional expressa-se num movimento da consciência coletiva onde a imagem do pai torna-se preponderante, tendo como cerne a questão do poder – do dominador e do dominado.
As esposas criadas neste sistema aprenderam desde cedo a obedecer e a desempenhar o papel subalterno, revelando um consentimento servil a esta situação;
“Eu tive muita vontade de trabalhar, mas não teve jeito por causa das filhas e o marido não gostou da idéia. Ele era muito egoísta, achava que eu tinha que ficar em casa” (Tulipa).
Muitas vezes o discurso aponta para a frustração de toda uma vida subjugada ao modelo patriarcalista:
“Não trabalhei fora por imposição do meu marido. Lastimo não ter tido coragem de enfrentar ele, porque hoje eu não estaria assim não, porque eu descobri que tinha muita coisa que eu tinha coragem de fazer. Eu tinha potencial, mas naquele tempo a mulher tinha que ser submissa” (Magnólia). (Grifo nosso)4
“Eu não tinha vontade própria, era muito boba. Meu marido quando me conheceu se apaixonou por mim e acabou-se. Não deixou que eu continuasse os estudos porque era muito ciumento” (Hortência).
O medo do mundo fora de casa se sobrepunha ao desejo de enfrentá-lo, quer por se achar despreparada, quer por se sentir ameaçada. Os valores patriarcais mais uma vez imperavam:
4
“Eu morava no interior, casei cedo, então só restava ser dona-de-casa. Morria de vontade de trabalhar fora, eu achava o máximo, hoje em dia fico com dó das minhas filhas, do tanto que elas trabalham e agora acho como é bom ser dona-de-casa (risos). Penso assim hoje que tenho outra cabeça, mas antes era complicado”
(Artemísia).
“Foi por opção e necessidade porque não confiava em ninguém para cuidar das crianças. Ele também não deixaria porque ele é muito machão, mulher fica em casa”
(Violeta).
A imposição de valores patriarcais levava-as a tomar como pessoais atitudes com raízes claramente sociais:
“Foi por opção porque neste ponto meu marido nunca se intrometeu” (Petúnia).
Os maridos reproduzem um modelo internalizado de casamento, segundo um molde patriarcal, com papéis sociais bem definidos, onde o homem é o provedor – sai para ganhar o sustento e à mulher compete o serviço doméstico e os cuidados da alimentação e da educação dos filhos.
“Sempre fui muito mandada, sou a caçula de nove irmãos, e minha mãe sempre cuidou muito bem do meu pai, fazia questão que ele saísse arrumadinho, mas ela nunca freqüentou as festas que ele ia. Aprendi assim, o homem sempre bem cuidado para o mundo e a mulher sempre em casa” (Artemísia).
“Eu era muito presa, meu pai não me deixava nem dormir na casa da colega para estudar, sair para se divertir era uma dificuldade” (Hortência).
A pressão dos valores patriarcais levava muitas delas a acreditarem que sair do jugo do pai mediante um casamento significava libertar-se. No entanto, sabemos, cultura é um processo social, sai-se de uma arapuca e cai-se em outra:
A DEPENDÊNCIA FINANCEIRA
Para elas a dependência financeira era muito difícil e pesada. Dependiam da boa vontade dos maridos em lhes dar algum dinheiro, mesmo aquelas que recebiam mesada e administravam as finanças da casa. Detentores do poder financeiro, a palavra final sempre era deles – a elas cabia acatar seus planos e resoluções. Situação já conhecida por elas quando solteiras, onde viviam sob o jugo de seus pais, dependendo financeira e emocionalmente, devendo-lhes obediência.
Com o advento do casamento, a mulher, habitualmente, passava do poder do pai para o do marido, o que a levava a confundir direitos e deveres, acreditando dever ser, em primeiro lugar, uma boa mãe de família. Neste contexto, muitos homens consideram suas mulheres sua propriedade, sobre as quais detêm o poder de estabelecer as formas de ação, de comportamento e até de pensamento. Nesta relação de subordinação e dependência, os papéis dominados pelos homens concedem-lhes o poder tanto na esfera pública quanto na privada.
“A mulher, em se casando, recebe como feudo uma parcela do mundo; garantias legais protegem- na contra os caprichos do homem; mas ela torna-se vassala dele. Economicamente ele é o chefe da comunidade” (BEAUVOIR, 2002; 169).
Segundo Moreno qualquer papel é uma experiência interpessoal e por isso todo papel possui um contra-papel ou papel complementar. Um papel não existe sem a presença do outro. Assim, não há dominador sem o dominado. Quando a mulher assume o papel de dependente, subserviente, está complementando o papel de senhor e amo de seu marido. Não pode haver algoz sem que uma vítima se apresente.
“A dependência econômica é o pior de tudo. Eu não pedia muito, no princípio ele estipulou uma mesada, ele dizia que ficando em casa eu ganharia muito mais do que se fosse trabalhar, ele desvalorizava meu trabalho. Ele dizia que era o provedor e não gostava quando minhas irmãs mandavam dinheiro para mim. Algumas amigas falavam mal de mim, diziam que eu era muito dependente, que eu não dirigia, não
trabalhava. Era muito ruim porque eu só podia fazer as coisas se ele desse o dinheiro” (Tulipa).
“Era horrível porque tudo era dele, eu não via a cor do dinheiro. Ele só dava quando eu pedia para comprar alguma coisa, uma roupa, um sapato e assim mesmo ele ia comigo. Ele não queria que eu ficasse arrumada, tinha um ciúme doentio. Eu não podia abrir a boca para nada, ele decidia tudo” (Magnólia).
O sentimento de inferioridade destas mulheres, muitas vezes, levava-as a situações que as impelia a cometerem pequenos “delitos”.
“Ele nunca me deu mesada então eu roubava, tirava da carteira dele ou pedia quando precisava e ele nunca se importou. Comprei muita jóia sem ele se dar conta”
(Hortência).
A angústia da sujeição pode ser bem observada quando identificamos a imensa alegria da entrevistada ao se referir ao próprio dinheiro:
“Achei muito bom ter o meu dinheiro quando trabalhei fora” (Hortência).
A sujeição é tamanha que até para conseguir pequenas coisas a mulher se vê obrigada a usar de subterfúgios, artimanhas, o conhecido “jeitinho”: “Dissimular,
negacear, odiar e temer em silêncio, apostar na vaidade e nas fraquezas do homem, aprender a não cair nas tramas dele, a enganá-lo, a manobrá-lo, é uma triste ciência”
(BEAUVOIR, 2002; 229).
“Era muito complicado, às vezes queria comprar alguma coisa, tinha que arranjar um jeito para chegar nele para pedir, mas não era muito fácil. Eu dizia para ele que a casa ou algum móvel precisava reformar, ele dizia que não precisava, ele mandava em tudo, resolvia tudo” (Artemísia).
Há casos em que o casal possui conta corrente, embora exista um certo constrangimento em seu manuseio. Como se este dinheiro não pertencesse de fato a esta mulher. A resignação diante desta situação é clara:
“Ele nunca me deu mesada, mas nós temos conta conjunta e eu movimento a conta quando preciso. O inconveniente é que você se policia, não vai sair gastando por aí, mas ele não reclama e nem faz contas. Mas eu acho que se eu tivesse o meu próprio dinheiro seria melhor, mas o que está feito, está feito” (Petúnia).
A ROTINA DOMÉSTICA ANTES DA APOSENTADORIA
“Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode as seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã”. Cotidiano (Chico Buarque de Holanda)
Em relação à rotina doméstica existente antes da aposentadoria de seus maridos, as respondentes relatam que eles trabalhavam o dia inteiro só retornando para o almoço e ao final do dia. Elas cuidavam da casa, da decoração; algumas, mesmo tendo empregada, preparavam o almoço, cuidavam dos filhos, faziam acompanhamento escolar, levavam-nos à escola e a outros cursos.
“Eu fazia de tudo, até pintar as paredes do apartamento. A hora que ele chegava já estava tudo arrumadinho. Eu cozinhava porque ele era muito exigente” (Artemísia).
“Cuidava das filhas e da casa. Eu não trabalhava fora, mas também não ficava o dia todo dentro de casa mudando móvel de lugar. Nunca gostei de serviço de casa, sempre tive empregada, até hoje eu sou assim” (Tulipa).
Na seguinte fala podemos observar a dupla jornada de trabalho, sem remuneração, configurando uma exploração – a “mulher serva”:
“O trabalho era muito duro, eu trabalhava na lanchonete dele e em casa porque ele não pagava uma empregada. Minha vida era só trabalhar, não saía para lugar nenhum” (Magnólia).
Quando a mulher vive apenas para o outro corre o risco de se despersonalizar, de passar por uma crise existencial.
“Era uma vida abestalhada daquela mulher antiga: cozinhar, lavar, passar, eu não existia, eu só existia para uma coisa, fazia minhas necessidades biológicas e correr para dar mamadeira e fazer as coisas” (Hortência).
Finalmente a lamentação amargurada e a dor se revelam:
“Eu era sempre a última. A gente se anula, tudo é em prol dos filhos, da casa”
(Hortência).
O papel, tantas vezes repetido e já recalcado, levava a uma adaptação resignada:
“Servia o café da manhã, saía para caminhar na quadra e voltava para tomar banho e fazer o almoço. Às seis horas da tarde parava tudo e ia buscar o marido no serviço, porque só tínhamos um carro que ficava comigo, eu dava uma de motorista, levava os filhos, ele e depois buscava” (Violeta).
“Eu levava os filhos à escola, não cozinhava, era a empregada, mas eu administrava a casa, verificava se estava tudo direito. Fazia acompanhamento escolar com os meninos” (Petúnia).
A categoria “dona-de-casa” refere-se a uma questão moral de dependência e de subalternidade. Tinham atividades corriqueiras fora de casa, faziam cursos, passeavam, iam ao cinema, a palestras, faziam compras com as amigas. Este “ir e vir” terminava com o fim do expediente de seus maridos; elas precisavam retornar ao lar antes deles chegarem. Tal estado de coisa era assimilado e aceito por elas próprias, com resignação:
“Eu saía muito, fazia compras olhava as vitrines, às vezes fazia algum curso. Quando chegava a hora dele chegar eu voltava para casa para ele chegar e me encontrar, também não custa nada, né” (Petúnia).
“... mas respeito as noites, quando ele chega do trabalho eu quero estar em casa”.
(Artemísia).
“A noite tinha que estar em casa sem falta e chegar em casa antes dele” (Tulipa)
Os comportamentos tradicionais se repetiam indefinidamente:
“Ele era ditador como o pai dele era” (Tulipa).
Os comportamentos e ações destas mulheres eram orientados pelo hábito, e pela repetição inconsciente, pela noção de “sempre ter sido assim” ou que “as pessoas sempre pensaram deste modo”.
Em relação às obrigações do homem e da mulher, o espaço doméstico no universo das relações tradicionais, é onde ela exerce algum poder, sendo o espaço público reservado ao homem. O trabalho doméstico foi sempre considerado uma responsabilidade feminina.
Nas atribuições do papel de “dona-de-casa” o comportamento exigido seria a administração da casa, o cuidado e a educação dos filhos, a obediência ao marido. O comportamento permitido seria a saída à tarde com as amigas ou a ida às compras; o comportamento proibido seria a permanência na rua após as dezoito horas – todas deveriam estar em casa antes dos maridos chegarem! Eis a evidência de uma relação vertical, hierarquizada.
“O que torna ingrata a sorte da mulher-serva é a divisão do trabalho que a destina totalmente ao geral e ao inessencial; o habitat, o alimento são úteis à vida mas não lhe dão um sentido: as metas imediatas da dona de casa não passam de meios, não são fins verdadeiros”. (BEAUVOIR, 2002; 206).
Ela cuida de tudo e de todos, dando ao marido tranqüilidade no mundo do trabalho. Desta forma, o homem pode produzir, crescer e brilhar! Os serviços destas mulheres são
desprovidos de reconhecimento social e econômico, não lhes conferindo status nem remuneração. Vivem para a casa, para os filhos, para o marido, para os netos. Desfrutam de uma liberdade vigiada. Seus desejos, seus projetos, muitas vezes são frustrados por seu marido – o chefe da família. Permanecem sempre as filhas de alguém, as esposas de alguém, só se livrando desta tutela com a viuvez.
A falta de autonomia parece ser um requisito para o desempenho deste papel:
“Quando terminei o curso da Aliança Francesa ele não me deixou ir para a França com os colegas de curso, quase morri de desgosto” (Tulipa).
Acresce-se à submissão o estigma do imigrante:
“Uma vez uma amiga veio me visitar e ele a expulsou de casa, não deixava nem eu ver a minha irmã. Ele falava que eu era gringa e gringo a gente tinha que tomar cuidado porque não prestava” (Magnólia).
Na visão moreniana, desde o início todo indivíduo traz consigo fatores favoráveis a seu desenvolvimento, como a espontaneidade, a criatividade e a sensibilidade. Entretanto estes podem ser perturbados por ambientes ou sistemas sociais constrangedores. Quando a mulher é cerceada em sua espontaneidade e criatividade por fatores sociais e culturais, os quais a encerram no mundo privado, ela perde a oportunidade de experimentar e desenvolver outros papéis os quais poderiam trazer benefícios em seu processo de individuação.
QUANDO O MARIDO SE APOSENTA OU A VOLTA AO CASTELO
A aposentadoria significa uma importante mudança na vida dos sujeitos. Rompe um padrão de vida que durou quarenta anos ou mais. Altera o comportamento por existir uma forte relação entre o comportamento, em seus aspectos psicológicos e a estrutura social que condiciona os papéis profissionais. Constitui um marco de mudança agravada pela idéia da velhice e da morte. O sujeito viverá esta perda do papel profissional como um momento de luto, onde se valerá de
mecanismos adaptativos para enfrentar as transformações que também são produzidas em outros domínios da vida.
O sujeito aposentado perde parte de seu poder social. Em relação à família, provavelmente seus filhos já cresceram e constituíram suas próprias famílias.
“Certos sujeitos poderão sentir-se impotentes, inúteis, sem objetivos de vida. Outros serão capazes de integrar suas perdas e adaptar-se às situações de mudanças e a aposentadoria será vivida como a passagem do trabalho ao não trabalho, sem maiores transformações em suas identidades” (SANTOS, 1990:13).
Fica patente nas entrevistas não ter havido nenhuma preparação ou planos feitos pelos casais para este evento tão marcante. O marido, a menos que arranje outro emprego, não mais participará do mundo do trabalho. A esposa o terá em casa todo o tempo. Apenas dois maridos das entrevistadas fizeram seus próprios planos, os quais, no melhor sentido patriarcal, não consultaram as esposas:
“Ele fazia planos para ele, queria exercer a profissão de advogado e até comprou uma sala no Setor Comercial Sul. Queria morar numa casa no Lago Sul para se isolar mais. Estes eram os planos dele, agora os meus, não entravam” (Tulipa).
“Ele era o dono da vida, ele sabia tudo, ele controlava tudo, naquele tempo a gente tinha que aceitar. Ele saía para pescar e eu ficava em casa sozinha” (Magnólia).
“Na época eu falava para minhas filhas que não estava preparada para a aposentadoria dele (risos). Não fizemos nenhum plano porque ele não gosta de sair de casa” (Artemísia).
MUDANÇA NA ROTINA DOMÉSTICA APÓS A APOSENTADORIA
A aposentadoria traz mudanças significativas em relação ao mundo do trabalho. Muitos aposentados retornam – possivelmente a maior parte até mesmo em tempo integral ao universo doméstico, o que provoca profundas alterações no ritmo da rotina privada estabelecendo rearranjos e reacomodações nas atividades das donas-de-casa. Interessou-nos saber o que mudou na vida destas mulheres quando do retorno de seus maridos: o que pensam, o que sentem, o que as incomodam, o que as perturbam, o que as aborrecem.
Muitas vezes, a sensação de inutilidade e de vazio destes homens é grande, principalmente para aqueles cujo papel profissional era hiper desenvolvido 5 e que pouca atuação tiveram no cotidiano familiar. Geralmente, sua participação estava relacionada ao papel de marido provedor, marcada por ausências e impaciências.
“Para aquele que confundiu sua identidade pessoal com seu papel sócio-profissional, a aposentadoria significará a ausência de sentido fora do trabalho. Ele não terá mais uma identidade reconhecida socialmente, perderá o sentido de sua vida e terá dificuldade em saber por quê e por quem vive. Será a constatação do fim, uma morte social” (SANTOS, 1990; 12).
“Ele trabalhava muito, era muito nervoso, não tinha paciência” (Tulipa).
“Hoje os filhos telefonam e ele atende, aí eles dizem que querem falar com a mamãe e não falam com ele, então ele pergunta o que é e eles insistem que é só comigo. Às vezes é coisa que poderiam falar com ele. Mas isto é por causa do tempo que ele trabalhava, ah não pode incomodar, não pode isso, não pode aquilo, eles aprenderam né” (Petúnia).
5
“Regra geral, um papel pode estar: 1) rudimentarmente desenvolvido, normalmente desenvolvido ou hiper desenvolvido; 2) quase ou totalmente ausente numa pessoa (indiferença); 3) pervertido numa função hostil” (MORENO, 1978: 29).
Qual é o lugar do aposentado quando não mais participa do sistema de produção social. Como ocupará este novo espaço – a casa?
Para as entrevistadas, os maridos ocupam muito espaço no âmbito familiar, desarrumam tudo. O trabalho doméstico aumenta, atrapalham a rotina doméstica e o serviço das empregadas. Eles procuram controlar tudo o que se passa na casa, controlam as esposas perguntando sempre aonde vão, o que estão fazendo. Não gostam de sair de casa e não gostam de ficar sozinhos – reclamam quando as esposas saem.
“Ele estar em casa me incomodou muito, porque se ele gostasse de passear, sair, viajar, seria bom” (Artemísia).
“O que mudou na rotina doméstica foi a bagunça; ele espalha as coisas pela casa, na mesa de jantar e atrapalha na hora de pôr a mesa. Os sofás da sala estão acinzentados de tanto ele colocar os jornais. Aumentou o serviço doméstico porque ele em casa sempre quer comer alguma coisa e ele gosta de ser servido” (Violeta).
“A rotina doméstica muda muito, porque você estando em casa sem o marido e os filhos na escola, tudo fica arrumadinho, agora com ele em casa não, ele revira a casa toda, tem que botar a mesa de almoço, do lanche da tarde, a mesa do jantar. Se ele está no quarto, você já não vai arrumar naquele horário, vai arrumar só na hora que ele quer, atrapalha os horários da empregada. Suja tudo, a sala não pára arrumada”
(Petúnia).
“Ele fica em casa o tempo todo e come e bebe o dia inteiro, pinga e suja o chão que ele não limpa. Ele só lava a louça, joga o lixo fora e é uma espécie de vigia da casa porque fica rondando o tempo todo. Ele gosta de não fazer nada” (Hortência).
A inatividade e a falta de perspectivas podem levar a um sentimento de depressão. Para muitos, o alcoolismo acresce nesta fase.
“Ele sempre foi um pouco deprimido e piorou com a aposentadoria. Começou a beber
todos os dias. Logo em seguida ele teve um enfarte, agora está tudo bem, mas