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Annexe 5.7.3 : Références pertinentes

6.8 Limites du projet

As redes encontram-se hoje tão atreladas às idéias de objetos, como malhas ou telas, como de virtualidade. Por isso, situo historicamente as primeiras pesquisas e aproximações no campo da informática em que passaram especialmente a ser nomeadas.

No ano de 1934, o matemático Alan Turing provou que, se fosse corretamente programado, o computador faria tudo aquilo que o ser humano desejasse. Segundo Freitas (2005), os estudos de Turing surgiram de demandas da Segunda Guerra Mundial, tendo participado da construção do primeiro computador e mostrado os benefícios que este pode trazer ao ser humano.

O teste que leva seu sobrenome é considerado o marco da Inteligência Artificial e consiste em uma competição de quem cria o computador mais inteligente, em que pessoas conversam com um computador até não distinguirem mais se falam com pessoas, ou com a máquina.

A palavra inteligência atribuída a máquinas vem sendo hoje bastante banalizada, a ponto de chamar de inteligentes as mais variadas máquinas que realizam determinadas tarefas para as quais já estão programadas.

A Inteligência Artificial nasce da confluência da Computação e das Ciências Cognitivas. Participam também dos estudos a Filosofia, a Lingüística e a Neurologia. Para esta autora, é preciso diferenciar o autômato e o ator não-humano: Os autômatos podem realizar tarefas como fazem os serem humanos, participam de interações sociais na medida em que promovem ou facilitam as trocas de informações e são considerados por alguns autores como net citizens, ou cidadãos da rede, no espaço virtual.

O sistema nervoso, no entanto, conta com sensibilidade para efetuar escolhas e cria formas complexas em seu processo de cognição, incluindo a corporalidade, as emoções, a memória, ou seja, é uma permanente rede em atividade pronta para a resolução de problemas inéditos que lhe são apresentados a cada momento no cotidiano. Já o ator não-humano participa involuntariamente de experimentos, dependendo de condições ambientais e outros fatores que o fazem reagir.

A autora discute a comparação de autômatos com um ser social, pois “uma ação, quando social, baseia-se em ações referenciadas em expectativas relacionadas ao outro com quem o indivíduo interage. No caso do autômato, suas ações são o resultado de variações e combinações binárias possíveis” (Freitas, 2005, p. 47).

Cabe lembrar que autômatos não se emocionam, a não ser que estejam programados para reagir como se fossem emotivos; não se cansam ou se lastimam igualmente se não estiverem preparados por um ser humano, com o qual guardam total dependência, mesmo aqueles que se desenvolvem à medida que acumulam experiência. A trajetória futura deste artefato tecnológico ainda é incerta em nossas vidas. No entanto,

já convive em nossa sociedade, quando, na web, toma decisões, envia e recebe mensagens respondendo-as sem que um humano o tenha intermediado, como no caso dos congressos científicos, do Home Banking, e em tantos outros contatos virtuais, em que recebemos respostas automáticas para inscrições, reservas e pagamentos.

Constituem-se, todavia, o que autores como Latour (1994) e Serres (1996) designam como híbridos – fenômenos que são humanos, como o aquecimento global, por contarem com a interferência histórica do humano; e são naturais por não serem obra nossa.

Este conceito se origina do latim ibrida, hibrida ou hybrida, que significa filho de pais, países ou condições diferentes; tem ainda seu significado relacionado com o grego

hýbris, que é igual a destempero e excesso. Enfatizo este conceito que carrega consigo

diversas conotações, dentre elas, a mistura, o novo, mas também possível desqualificação devido ao seu caráter não puro. As redes vistas como híbridos evocam, assim, também sentidos contraditórios, como redes de proteção e redes de controle de pessoas.

As redes ampliaram-se através da utilização dos meios não-humanos, o que, para Latour (1994), se reforça na Modernidade. Ele denomina estes meios como máquinas e fatos que alteraram a topografia dos coletivos, especialmente no dimensionamento das relações entre o local e o global, ocorrendo uma tendência a transformar as redes ampliadas dos ocidentais em totalidades globais.

Quando ele se refere aos ocidentais, explicita que “se os ocidentais tivessem apenas feito comércio ou conquistado, pilhado e escravizado, não seriam muito diferentes dos outros comerciantes e conquistadores. Mas não, inventaram a ciência, esta atividade em tudo distinta da conquista e do comércio, da política e da moral” (Latour, 1994, p. 97). Descobriram os determinismos físicos como se isto fosse o grande divisor

de águas que coloca os outros que consideram a natureza, e os ocidentais que visam ao conhecimento científico.

Ao questionar sobre a suposta universalização das redes na Modernidade, o autor refere que “exageraram na universalização de suas ciências – ao arrancar a fina rede de práticas, instrumentos e instituições que cobria o caminho que levava das contingências às necessidades”, retirando-lhes as particularidades locais, e “acreditaram que havia contextos e outras situações que gozavam da misteriosa propriedade de serem ‘descontextualizados’ ou deslocalizados” (Latour, 1994, p. 118).

Latour (1994) explica que foram criadas quatro regiões em que o “natural e o social não são compostos dos mesmos ingredientes; o global e o local são intrinsecamente distintos” (p. 120). Estas duplas – social e natural, local e global – não se encontram, e ele define este desencontro como a tragédia do homem moderno, que as cindiu. A saída seria contornar tais divisões e tomá-las concomitantemente, isto é, não se apegar à separação radical do humano e do não-humano; questionar a pretensa superioridade do saber sobre o empírico e o emocionar, bem como de algumas sociedades, sobre as demais.

Quanto à ponderação sobre a constante separação entre o micro – igual às relações interpessoais – e o macro – igual às racionalidades sem contexto e sem personalidade –, divide-se também o plano local, por um lado, com seu emaranhado de relações entre algumas pessoas em território bem delimitado e, por outro, o mercado e a ciência, segundo Latour (2000). Tal processo ocorre como algo impessoal, neutro e perfeito inspirado nas leis científicas universais, amplo e sem território definido, o que vem sendo chamado de mundialização e globalização.

Os exemplos anteriormente mencionados fazem lembrar que células-tronco, transgênicos e Reforma Psiquiátrica, oriundos e propostos em rede, pertencem a uma esfera macro, de algum modo asséptica. Já o que ocorre nas pequenas redes – nas relações entre profissionais, pacientes, usuários, pesquisadores – diz respeito ao micro, e o exame deste cotidiano com suas reais contribuições e resistências em geral, está delegado para um segundo plano. Estar ausente ou não ter acesso a determinadas redes torna-se critério para classificar formas de exclusão, como na informática cuja exclusão gera o que hoje se define como analfabetos digitais.

Quanto ao macro e ao micro, no Institucionalismo, o macro ou molar está vinculado às forças hegemônicas, que exercem controle para a manutenção do que está instituído, e o micro ou molecular alude às forças instituintes dos pequenos movimentos, nas pequenas esferas de convivência.

A propaganda de que tudo funciona, ou deve funcionar em rede, de forma alguma assegura a sua efetividade. Estamos diante da persistente divulgação da rede. Entretanto, as linhas de forças e redes de poder atuam de maneira global, como na economia, na geo- política e nas convenções internacionais. Sim, em relação à rede, estamos diante de uma contradição ou mesmo de uma assimetria, pouco explorada nos diferentes domínios de conhecimento.