68 “Philia é o amor de uma maneira em geral; o verbo é philein, o adjetivo philos significa “caro (a…)”, com nuanças de “possuir”, “próximo (a…)” e quando philos é usado como substantivo, seu significado é “amigo”
(qualquer coisa numa escala que vai desde um conhecido casual, porém agradável, até uma intimidade de longa
data), ou “parente”, um dos “amados” ou “mais próximos e mais queridos” com os quais se tem uma relação de obrigações e exigências especiais[έέέ]” KέJ,Doverέ A homossexualidade na Grécia antiga. Pág.76
De volta ao texto, diante do apontamento da insuficiência da retórica tal como é utilizada pelo logógrafo e uma vez demonstrada a insistente repetição de ideias da peça, Sócrates supõe que possivelmente isso se devesse à falta de recursos suficientes ou ao desinteresse do autor do discurso pelo assunto sobre o qual versava:
O quê?! Então devemos, eu e tu, louvar o discurso também pelo facto de o seu autor dizer aquilo de que tinha obrigação? [...] Ora, se temos essa obrigação, em atenção a ti devemos conceder, porque a mim pelo menos, talvez devido à minha nulidade, permanece oculto o seu mérito nesse campo. Apenas me atraiu a atenção pela sua retórica e, em meu entender, nem o próprio Lísias consideraria isso suficiente. Em conclusão, Fedro, pareceu-me, se nada tens a dizer em contrário, que ele repetiu as mesmas coisas duas ou três vezes, como se não tivesse recursos suficientes para desenvolver o mesmo assunto, ou talvez porque não tinha interesse algum em semelhante matéria. 69
O destaque dado por Sócrates para a aparente falta de argumentos ou desinteresse de Lísias em relação ao tema que abordara parece-nos relevante e digno de atenção por julgarmos que essa indicação conota o desconhecimento de Lísias.
A partir das observações de Sócrates é possível constatar que o que Lísias faz é repetir e não aprofundar a questão; aparentemente Lísias não tem muito o que dizer sobre o amor, por isso repete argumentos desordenadamente, erra em forma e conteúdo, comprometendo a qualidade do discurso. Um condutor que considera irrelevante para onde levará a alma que conduz não nos parece um bom condutor.
Mesmo diante da inaptidão em relação ao tema, o logógrafo insiste em discursar amontoando frases superficiais. A hipótese de que essa insistência na tentativa de persuadir o jovem se dá por interesse próprio, subentendida em 237b e não visando a boa condução da alma de Fedro, parece-nos plausível.
Como poderia Lísias discursar sobre um tema que não lhe interessava ou sobre o qual não tinha recursos suficientes por desconhecê-lo, acreditando ser capaz de julgá-lo? Como poderia Lísias discursar sobre o amor? Sabemos que alguns sofistas não acreditavam na possibilidade de conhecimento e que, portanto, não haveria empecilho algum em argumentar contra ou a favor de qualquer ideia, mas sabemos também que a conexão entre filosofia e o exame atento das questões acompanha Sócrates.70
69 PLATÃO, Fedro, 235a.
70
Sobre esse tema consultar: MCCOY. A competição entre filosofia e retórica no Górgias. In:______. Platão e a retórica de filósofos e sofistas. 2010.
A opinião do Ateniense sobre a peça não foi suficiente para persuadir o jovem da sua falta de qualidade. Fedro acredita que todos os pontos no discurso foram abordados e discutidos satisfatoriamente e além de atestar a qualidade da peça retórica do logógrafo duvida que alguém possa empreender discurso melhor.
[...] Na verdade, das ideias inerentes ao assunto, que mereciam ser tratadas, nenhuma esqueceu. Por isso, em confronto com os argumentos apresentados nesse discurso, ninguém seria capaz de proferir outros mais abundantes e dignos de maior apreço.71
Diante da discordância de Sócrates e da afirmação da lembrança de melhores discursos advindos de homens e mulheres dos quais não se lembra, Fedro o desafia a construir um melhor discurso.
Em resposta, o Ateniense realça a obviedade de, ao se dizer que é melhor agradar o que não ama, utilizar-se como recurso o elogio da razoabilidade deste e a imprudência do amante. A ideia da ordenação como falha possível de correção poderia ser remediada em um novo discurso que utilizasse os mesmos argumentos - considerados por Sócrates como essenciais, mas havia argumentos que dependiam da engenhosidade de que, segundo Sócrates, não dispunha Lísias (236a).
A proposta de Fedro é a de que o Ateniense poderá partir do mesmo ponto que o logógrafo. O discurso deverá construir-se sobre a ideia de que o amante é mais doente do que o não apaixonado. A doença a que se refere Fedro é a manía a que se ateve Lísias em seu discurso, apesar de não a detalhar. Fedro acrescenta a sua proposta o desafio de dizer algo melhor, provocando Sócrates a usar mais variados argumentos. Sócrates resiste à instigação do jovem.
A imagem apresentada por Platão após a recusa de Sócrates é a de Fedro que, diante da demonstração de desinteresse do Ateniense em relação ao discursar, resolve ameaçá-lo por meio da força: “[...] Estamos ambos sós num lugar isolado, e eu sou mais forte e mais novo; e por todas essas razões, “para bom entendedorέέέ” Não queiras de modo nenhum ter de falar à força, em vez de o fazer de boa vontade”.72
71
PLATÃO, Fedro, 235b.
72
Essa imagem pode ser relacionada ao início do Górgias. Como bem observa Lopes (2011) em sua tradução do diálogo, as duas palavras que marcam a abertura do diálogo polemou (guerra) e maches (batalha)73 exprimem a natureza agonística da retórica. Nas exibições retóricas os oradores combatiam tendo como objetivo a superação do outro através da refutação, visando à vitória.
A ameaça de Fedro pode ser interpretada como uma metáfora que alude a característica combativa comum aos retóricos. Essa característica pode ser usada em analogia à própria retórica. Associamos assim o uso da força prometida pelo jovem Fedro ao mesmo tipo de força à que faz alusão Cálicles quando se refere à “guerra” no começo do Górgiasέ
É provavelmente o desejo da vitória (a conquista de Fedro) que movimenta o “combate” de Lísias. Lancemos mão à contribuição de McCoy sobre o tema da competição entre retórica e filosofia. A pesquisadora faz um breve comentário sobre o comportamento de Sócrates no Górgias:
[...] Aqui, encontramos um Sócrates mais agressivo, crítico e enfurecido com aqueles que ele questiona. Sócrates perturba seus opositores e até compara Cálicles com um kinaidos (homossexual passivo), uma imagem que mesmo o destemido Cálicles considera fora dos limites.74
O comportamento de Sócrates em Fedro é bem diferente. Ele está diante de um amigo, por diversas vezes veremos Sócrates exaltar a amizade que nutre pelo jovem. O que destacamos na passagem que se estende até 236e é o fato de que Sócrates, mesmo diante da primeira ameaça de Fedro, recusa-se a “combater”έ Acreditamos que essa negativa possa ser interpretada como um ponto que diferencia Sócrates de Lísias e Fedro, analogamente diferenciando, mais uma vez, filosofia e retórica sofística.
É eros que movimenta a sofística, assim como a filosofia é movimentada por eros, mas são eros diferentes que agem sobre cada uma delas. A sofística parece ser movimentada pelo agón eros –guerra – e não é a “guerra” que parece movimentar a filosofiaέ
Veremos que, após a tentativa de convencer Sócrates por meio da força fracassar, Fedro recorrerá a uma arma mais poderosa: o discurso. O jovem promete nunca mais compartilhar com Sócrates nenhum discurso, e é essa nova ameaça que o convence a falar. Mesmo preferindo
73
PLATÂO, Górgias, 247a.
74
perguntas e respostas como testemunham a maior parte dos diálogos platônicos, a personagem Sócrates parece ver na negação dos discursos prometida por Fedro a impossibilidade de exortar o jovem à filosofia.
Ameaçado, Sócrates aceita o desafio, mas antes anuncia como irá procederμ “Falarei velado, para chegar ao fim do discurso o mais depressa possível e para que, ao olhar para ti, não fique embaraçado pela vergonha” (237a).