3.3.1 – Desenho de estudo
Foi realizado estudo transversal nas duas comunidades da Nigéria. Em ocasião de visita domiciliar, os membros das comunidades foram inspecionados para a presença de lesões pela T. penetrans. Todas as lesões encontradas foram contadas e estagiadas. A presença de patologias agudas e crônicas associadas às lesões por tungíase também foi registrada utilizando ficha padrão pré-testada (Apêndice 1)
Tanto em Yovoyan como em Okunilage, a coleta de dados foi realizada pela própria doutoranda para eliminar viés inter-observador. Como nas comunidades havia indivíduos que não falavam a língua oficial do país (Inglês), mas apenas suas línguas nativas (Yoruba, Egu e outras) ou dialetos específicos, os dados foram coletados com suporte de uma assistente de campo local para as devidas traduções. Para evitar efeito de mudança de incidência durante o estudo, em cada comunidade, a coleta de dados não se estendeu mais do que um mês.
3.3.2 – Procedimentos
Prévio à coleta de dados, os lideres locais das comunidades foram visitados, e os objetivos do estudo explicados.
Os seguintes procedimentos foram realizados durante a visita domiciliar: o Leitura do TCLE e obtenção de assinatura do indivíduo ou seu
representante legal ;
o Exame clínico: exame detalhado das lesões por tungíase (Apêndice 1); o Questionário: coleta de dados sócio-econômicos, comportamentais e
ambientais familiares e individuais (Apêndice 2).
3.3.3 – Análise dos dados:
Os dados foram inseridos em bancos de dados no programa Epi Info (versão 6.04d, Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos) e também foram verificados os erros de digitação neste programa. A seguir os dados foram exportados para o programa STATA versão 9 (Stata Corporation, College Station, Estados Unidos) para realização das análises estatísticas.
Razões de prevalência e intervalos de confiança de 95% foram calculados. Medianas e intervalos interquartis foram apresentados para indicar a dispersão do número de lesões por indivíduo, uma vez que este dado não apresentou distribuição normal. O teste exato de Fisher foi utilizado para comparar freqüências relativas. As medidas quantitativas foram comparadas pelo teste Mann-Whitney (medianas) e teste t (médias).
3.4 – ELABORAÇÃO E AVALIAÇÃO DO MÉTODO EPIDEMIOLÓGICO RÁPIDO DA TUNGÍASE
Os dez estudos transversais, embora realizados em comunidades e períodos distintos, tiveram desenho de estudo, exame clínico e critérios de inclusão da população de estudo semelhantes (vide descrição do exame clinico padrão – item 3.2). Essas condições permitiram a agregação de todos os dados coletados em um único banco de dados.
Dentre todas as localizações nos pés registradas no banco de dados, seis foram selecionadas e avaliadas como possível base de um método rápido epidemiológico. As localizações foram avaliadas considerando a presença ou ausência de lesões nas seguintes localizações:
o Pé direito (incluindo área periungueal dos dedos, planta do pé, calcanhar e porção lateral)
o Área periungueal do pé direito
o Área periungueal de qualquer um dos pés o Hálux do pé direito
o Área periungueal do hálux do pé direito
o Área periungueal do hálux de qualquer um dos pés
A escolha da localização mais adequada para estimar de forma rápida a prevalência geral e gravidade em uma comunidade endêmica foi feita com base no coeficiente de determinação (R2) e no valor p obtido por correlação. Além disso, foram considerados aspectos operacionais, como o tempo de exame em indivíduos não-infestados, a praticidade de exame, o incômodo ao indivíduo e a possibilidade de sua realização do método por um membro da comunidade.
3.4.1 – Análise dos dados
Definições:
o Prevalência geral verdadeira = [número de indivíduos com presença de tungíase em qualquer localização nos pés ÷ numero total de indivíduos examinados] x 100
o Prevalência grave verdadeira = [número de indivíduos com mais de 20 lesões tungíase em qualquer localização nos pés ÷ numero total de indivíduos examinados] x 100
o Prevalência em uma localização especifica no pé = [número de indivíduos com presença de tungíase na específica área topográfica do pé ÷ numero total de indivíduos examinados] x 100.
o Prevalência geral estimada: prevalência calculada a partir da regressão linear.
o Prevalência grave estimada: prevalência de indivíduos com mais de 20 lesões, calculada a partir da regressão linear.
Correlação e regressão linear:
As unidades de observação utilizadas nas regressões e correlações foram os dez estudos transversais. As correlações lineares foram realizadas para avaliar a associação entre prevalência geral verdadeira e as prevalências de cada uma das seis localizações selecionadas. Foram assim calculados a significância da correlação (valores p) e os coeficientes de determinação (R2).
O coeficiente de determinação indica a fração da variável dependente (prevalência geral verdadeira) que é explicada pela variável independente (prevalência na localização específica) (CALLEGARI-JACQUES, 2004). Assim, um coeficiente de determinação de 1 significaria que a prevalência geral poderia ser prevista completamente pela prevalência na localização especifica.
Em seguida, para cada um dos estudos transversais, a prevalência geral foi estimada à base da equação da reta oriunda de regressão linear. Os erros absolutos (prevalência estimada – prevalência verdadeira) foram também calculados.
Para a localização escolhida como possível método epidemiológico rápido foi feita correlação e regressão linear com as prevalências graves. Da mesma forma, foram obtidos os valores de R2 e valor de p, assim como estimadas prevalências graves e calculados os erros absolutos.
3.4.2 – Avaliação do Método Rápido nas Comunidades Nigerianas
O método rápido da tungíase elaborado foi aplicado nas comunidades nigerianas para avaliação de sua aplicabilidade em contexto distinto ao do Brasil.
Os indivíduos da comunidade de Yovoyan e Okunilage antes de serem examinados pelo exame clínico padrão foram inspecionados para identificação de lesões apenas na área periungueal de qualquer um dos pés (Apêndice 3). Foram, além disto, verificados o tempo de execução pelos dois métodos, o rápido e o tradicional. Para o cálculo do tempo por família pelo método tradicional, considerou-se: [número médio de indivíduos infestadas por família x tempo médio do exame] + [numero médio de indivíduos não infestados por família x tempo para avaliação].
Os dados coletados por este método foram comparados com os do exame clínico, e a estimativa da prevalência geral foi calculada com base na equação de reta obtida com os 10 levantamentos epidemiológicos.