Os eventos aqui narrados ocorreram no segundo semestre do ano de 2004. Ao final do ano letivo de 2004, procurei a direção da escola, quando foi apresentada a importância desta pesquisa e a necessidade de estabelecer parcerias, e também foi dito que estaríamos recebendo o apoio e orientação da professora Laís Mourão.
A direção esclareceu que a escola estava participando de atividades referentes ao curso de Reeditor Ambiental, realizado na Estação Ecológica de Águas Emendadas. Desta forma, decidiu-se que o projeto de pesquisa poderia contribuir para somar esforços na dificuldade que a escola estava tendo, em organizar seu trabalho pedagógico referente às questões ambientais locais. Temática que sempre vinha à tona em debates cotidianos escolares. Nesse sentido, foi feita a indagação: até que ponto a escola conhece os reais problemas da comunidade local?
Para responder esta questão avaliou-se que seria importante sistematizar todos os estudos realizados nesta escola, objetivando a construção de conhecimentos a partir da realidade dos alunos, em articulação com as atividades já desencadeadas, como os debates
suscitados pelo resultado da 1ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente - com o tema “Vamos cuidar do Brasil”, o curso que a direção estava fazendo com a equipe da Estação Ecológica de Águas Emendadas e as atividades da pesquisa do Mestrado.
Para a organização destas ações, no dia 13 de dezembro de 2004, a Direção definiu uma reunião pedagógica com toda a equipe da escola e o Conselho Escolar. Esta reunião teve como principal objetivo a discussão do trabalho pedagógico para o ano de 2005. Um dos principais itens da agenda foi que as pessoas envolvidas com algum curso ou atividade, ligada à questão ambiental, fizessem uma síntese do trabalho para o grupo. Na medida em que me solicitaram , prestei esclarecimentos ao grupo ali presente (servidores, professores, membros da direção, alguns pais e alunos representantes do Conselho Escolar) sobre o caráter desta pesquisa.
Este pedido partiu da direção, que reforçou a importância de se unir esforços, que possam gerar processos de qualidade no trabalho pedagógico ali desenvolvido, e que o trabalho de pesquisa poderia trazer contribuições às problemáticas vividas pelo grupo.
Esta acolhida e aceitação pela maior parte ali presente, da minha presença enquanto pesquisadora/cooperadora, no espaço do grupo, se constituiu em uma grande vitória, no sentido de que barreiras estavam sendo quebradas. “O primeiro ponto consiste em poder ser aceito pelo grupo ou pela comunidade a examinar. [...]. A negociação é, portanto, necessária desde o início. Trata-se de ganhar a confiança das pessoas, e é preciso tempo para isso”. ( BARBIER, 2002:127).
Foi assim que a direção fez uma síntese de todas as atividades, quando se levantou no grupo, a discussão do Projeto Político-Pedagógico da escola ser construído a partir de uma busca mais orientada ao conhecimento da comunidade local. (Anexo A. Roteiro da agenda da reunião.).
Nesse contexto de discussões sobre o Projeto Político-Pedagógico da Escola de 2005, duas questões foram suscitadas e colocadas em votação: realizar projetos de produção de textos ou meio ambiente. Professores de Português apresentaram o desejo de trabalhar com um projeto voltado para literatura e produção de textos, argumentando que os alunos estavam com muita dificuldade nesta parte, pois o nível de leitura e compreensão estava baixíssimo. Um deles argumentou:
Penso que não devemos colocar meio ambiente como eixo central. Mas sim colocar literatura, como foco central! Por exemplo, lá fora quando nossos
alunos chegam com suas dificuldades de leitura e escrita, as pessoas vão logo falando: só pode ser de escola de zona rural! (Os professores reforçam o preconceito e a vergonha da diferença da escola rural).
Esta é uma visão muito complexa. Não é fácil sair de uma concepção de pensar o mundo, sob uma tradição disciplinar, para um olhar interdisciplinar. Diante da importância do que ora se discute, dois professores comentaram: “pra mim tanto faz”, mas a maior parte demonstrou sentir e encontrar dificuldades, ao tentar construir conhecimentos pertinentes à realidade da comunidade local em que trabalha.
A outra proposta foi meio ambiente que foi eleita. Foi esclarecido que o meio ambiente era tema transversal dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e que era possível pensar em algo mais próximo da realidade vivenciada pela comunidade. Citou-se o exemplo das atividades coordenadas na escola, durante a realização da mini-conferência local, onde o tema mais votado pela comunidade e eleito como questão prioritária e urgente foi a problemática da água, que a comunidade no vive momento, mas que é uma questão ainda confusa para muitos.
No prosseguimento das atividades da reunião foi realizada uma síntese dos projetos e dos trabalhos existentes na escola, sob o enfoque da “temática ambiental”. A direção abordou: Até agora falamos da “Questão Ambiental”. Mas o que a escola tem realmente a fazer? Temos que pensar em uma proposta centralizadora![...] Bom, se temos como eixo temático, a questão ambiental, então cada professor vai tentar levar este enfoque para sua área.[...].
Durante a discussão no grupo, houve um momento de conflitos e idéias paralelas em torno de:
Como vamos trabalhar isto? Vamos dividir em subtemas? Como vamos direcionar estas atividades? Como é que vou trazer isto para o meu conteúdo de Matemática?
Refletindo sobre estas questões, construí a hipótese de que estas dificuldades podiam ser referentes a um desconhecimento da real problemática da comunidade local. Os conhecimentos eram superficiais e se davam dentro das questões globais: a água e a questão do desmatamento eram vistas como problemas globais. Entretanto, não havia um conhecimento sistematizado a nível local e a dificuldade em lidar com estas questões, ficou bastante evidenciada durante o processo destas discussões.
Finalmente, as equipes organizaram os temas e as propostas de atividades que seriam desenvolvidas no decorrer do ano. Estas ações da escola foram publicadas em um almanaque de atividades de educação ambiental da equipe da Estação Ecológica de Águas Emendadas, denominado de Estudo Socioambiental do Pipiripau II, conforme cópia do documento no Anexo B.
No sentido geral desta reunião, descortinou-se a questão da complexidade ao se lidar com a tão alardeada Educação Ambiental. Evidenciou-se nesse contexto, a existência de uma boa percepção das problemáticas ambientais em nível macro, entretanto ficou evidente a dificuldade de lidar com as questões em nível micro e de compreender o global a partir do local.